segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Fronteiras: A fronteira no Guadiana (Monsaraz/Ribeira de Cuncos)

Um dos lugares mais aprazíveis para passar o final da tarde nos arredores da vila de Monsaraz e poder contemplar as terras raianas é o ancoradouro ou embarcadouro de Monsaraz. Isto porque permite observar, mesmo que seja de modo panorâmico, espaços que de outra forma seriam impossíveis de serem apreciados pela sua dificuldade no acesso. O embarcadouro é acessível a partir da estrada N514 vindo, quer da aldeia do Telheiro, quer de Monsaraz. Na pequena aldeia do Ferragudo há uma indicação para o Convento da Orada numa rotunda. É essa a direcção que deve tomar-se para chegar até este ponto. Após passar algumas herdades, a beleza indescritível do Guadiana e do Grande Lago de Alqueva é uma realidade ao chegarmos a uma pequena área de lazer onde não falta o típico café, um parque infantil e o embarcadouro com as docas flutuantes para a chegada e amarre dos barcos que passeiam pelo rio.

O espaço fica exactamente no ponto de confluência da Ribeira de Azevel, na margem direita do Guadiana, e da Ribeira de Cuncos, na margem esquerda. A Ribeira de Cuncos, apesar de não passar de um riacho, tem especial relevância na delimitação da fronteira. O próprio rio serve de fronteira nos últimos quilómetros entre Portugal e Espanha antes de desaguar no Guadiana pela margem esquerda. A partir do ponto em que o riacho é totalmente espanhol, uma linha de fronteira quase recta parte a planície que separa o Alentejo da Extremadura espanhola até à fronteira de São Leonardo, que comunica a vila de Mourão com a vizinha extremenha de Villanueva del Fresno pela N256-1. 

Mas não só. A Ribeira de Cuncos foi designada como limite a partir do qual continuariam os trabalhos de delimitação da fronteira com o Tratado de Limites de 1927. Lembre-se o facto de que o Tratado de Limites de Lisboa de 1864 tinha dado lugar a uma série de trabalhos de delimitação da fronteira que ficaram interrompidos na foz do Caia, na confluência deste rio com o Guadiana a causa da disputa pelo território de Olivença. O não reconhecimento da soberania espanhola sobre este território fez com que do Caia até à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António não houvesse nenhuma delimitação aceite pelos dois estados. Para ultrapassar isto, ficou decidido que a Ribeira de Cuncos seria o ponto em que os trabalhos recomeçariam, facto que permitiu finalizar a delimitação da fronteira Sul. Restam ainda cem marcos fronteiriços correspondentes ao espaço entre a foz do Caia e este ponto, mas não é de esperar que essa situação se resolva em breve. Para complicar mais a situação, o acordo internacional referido às águas dos principais rios ibéricos, segundo foi assinado no Tratado de Águas de 1967, dá a Portugal a posse das águas de ambas as margens do Guadiana entre o Caia e a Ribeira de Cuncos, em vez de estar delimitado pelo ponto médio existente em cada rio como aconteceu com os outros rios como o Minho, o Douro ou o Tejo na sua parte internacional. Esta solução permitiu a Espanha chegar a um acordo sem reconhecer a reclamação portuguesa de Olivença e Portugal mostrou assim que também não renunciava a este território, o que não deixou, no entanto, de ocasionar alguns atritos, designadamente na Ponte da Ajuda ou os relacionados com a navegabilidade do Guadiana que serão oportunamente tratados em 'posts' posteriores.

De qualquer forma, fora de disputas políticas, o passeio vale mesmo a pena, pela paisagem envolvente e pela beleza intrínseca do lugar. Para além de Monsaraz, visita óbvia, vale a pena ver o Convento da Orada, um convento do século XVIII construído no lugar em que D. Nuno Álvares Pereira terá rezado antes de várias batalhas contra Castela, ou o Cromeleque de Xarez, único monumento transferido para outro local aquando da construção da barragem de Alqueva.  E para quem quiser, é possível dar passeios pelo Grande Lago em barco, quer em roteiros estabelecidos por empresas do lugar com duração de 1 ou 2 horas com possibilidade de almoço incluído, quer por intermédio do aluguer de embarcações para as quais não é preciso experiência nenhuma com uma duração de até 7 dias, no «resort» da Amieira Marina. Pena é, neste Inverno de 2012, a situação de seca extrema que temos vindo a padecer pela falta de chuvas nestes últimos dois meses e que está a afectar já à agricultura da região.


Foto 1. Foz da Ribeira de Cuncos vista do embarcadouro de Monsaraz. As linhas vermelhas indicam a fronteira delimitada.
Foto 2. Mesma foto que a foto 1, mas sem marcas.
Foto 3. Monte de Domingo Lopes (c. de Mourão), mesmo no limite fronteiriço.
Foto 4. Vista da planície e do Grande Lago de Alqueva entre os concelhos de Reguengos e Mourão. Advirtam-se os efeitos da seca.
 Foto 5. Vista do embarcadouro de Monsaraz ao pôr-do-sol.
Foto 6. Viaduto do Guadiana (N256) e Grande Lago vistos do embarcadouro de Monsaraz.
Foto 7. Área de lazer do embarcadouro.
Foto 8. Convento da Orada (vista da fachada).
Foto 9. Convento da Orada visto do cromeleque de Xarez.
Foto 10. Cromeleque de Xarez (vista geral). Mais informações aqui.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casa de Bastos (Alto dos Três Termos)

A Raia tem essas coisas que não por serem realmente curiosas, deixam menos de surpreender. É o caso de uma herdade situada na mesma linha de fronteira, perto do Alto dos Três Termos. Este alto é realmente uma pequena lomba não muito elevada (521 m.) em que confluem os termos dos concelhos de Arronches e Portalegre e o município da Extremadura espanhola de La Codosera. 

A herdade, conhecida como Casa de Bastos, está situada a pouco mais de 480 m. de altitude e a uns 2 km. da aldeia da Tojeira, que pertence ao município de La Codosera e da qual já falamos neste blogue, e a uns 3 km. da aldeia de Besteiros, situada na freguesia de Alegrete, no concelho de Portalegre, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede. Lá perto fica ainda o Monte de Parra, na freguesia de Mosteiros, no concelho de Arronches e que está unida à Tojeira por uma estrada local que atravessa a Ribeira de Abrilongo.

A fronteira está delimitada por uma série de caminhos rurais de terra batida e a herdade fica no meio do pequeno vale situado entre o Alto dos Três Termos e a Serra de Bastos, alinhamento montanhoso que segue a linha de fronteira e que atinge os 600 m. de altitude. O acesso pode fazer-se a partir da estrada que liga a Tojeira com a aldeia vizinha de Bacoco ou pelo caminho de terra batida que de Besteiros liga ao limite fronteiriço. A região é na realidade uma bela floresta na que domina o sobro e o azinho e na que são patentes umas características climatéricas próprias de uma maior humidade no território, talvez pela proximidade da Serra de S. Mamede, que daria lugar a uma maior abundância de precipitações. 

A herdade é, na realidade, um monte alentejano típico, apesar de situado já em Espanha. Isso não deve surpreender-nos porque não será senão um resultado da segunda vaga migratória de população portuguesa para os territórios fronteiriços vizinhos. Se já houve uma primeira vaga no século XVIII na região circundante de Valência de Alcântara, esta segunda vaga teve lugar no último quartel do século XIX. Nisso teve muito que ver o Tratado de Limites de 1864 que definiu os limites fronteiriços nos trabalhos que decorreram até 1868. Até esse momento eram muito frequentes as chamadas «contendas», territórios pouco definidos, em terra de ninguém, que costumavam ser aproveitados como espaços para a exploração pecuária pelos camponeses dos municípios de um e do outro lado da fronteira como foi o caso da Contenda de Arronches. Obviamente, essas terras, pela sua indefinição jurídica, costumavam ficar desertas, isto é, não existia um povoamento estável de relevância. A delimitação da fronteira clarificou muito a situação do ponto de vista jurídico, o que permitiu o aparecimento de pequenas aldeias que foram povoadas por portugueses dos concelhos vizinhos no que hoje é o município de La Codosera. Daí que os nomes sejam claramente portugueses: Marco, Tojeira, Bacoco ou Rabaça são bons exemplos disso. A língua portuguesa é presentemente um facto, até porque a maior parte dos seus habitantes não romperam o cordão umbilical com a pátria e há até quem conserve a nacionalidade portuguesa ou mesmo só tenha esta.

Daí que, mesmo já em terras espanholas, não nos seja estranho o território, inclusive quando o casario apresente, por via de mimetização, alguns elementos de mistura próprios da tradição da Extremadura espanhola como podem ser os gradeamentos nas janelas. Não podemos esquecer que a Raia do Alentejo com a Extremadura espanhola é das que menos diferenças apresenta do ponto de vista da paisagem porque ambas as duas regiões caracterizam-se por uma estrutura da propriedade em que domina a grande propriedade latifundiária e a paisagem de montado e de searas como formas tradicionais de exploração agrária e pecuária.

Fica, pois, mais uma amostra das curiosidades que podemos encontrar na Raia num simples passeio de tarde por estes recantos tão pouco conhecidos.

Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
 Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
 Foto 3. Caminho fronteiriço em que a fronteira discorre pela vedação de arame farpado.
 Foto 4. Herdade de Casa de Bastos e linha de fronteira (os cães não ligam nenhuma a isso!!!)
 Foto 5. Caminho fronteiro na direcção do Alto dos Três Termos.
Foto 6. Floresta de azinho e sobro do lado português, no termo de Besteiros, freguesia de Alegrete.



Mapa 1. Mapa de situação.


Mapa 2. Mapa específico.

sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Fortalezas da Raia: Castelo de Terena (Alandroal)

O Alentejo é uma região com um património incrível. Acho que isso fica fora de toda dúvida e é consensual. Praticamente qualquer localidade que teve alguma importância histórica apresenta um património arquitectónico singular. Por isso o Alentejo é uma das regiões nas que o viajante pode perder-se numa jornada prazerosa na que é possível conjugar uma boa gastronomia, belas paisagens e aldeias limpas e caiadas e um património digno de se ver.

No Alentejo Central é o caso do concelho do Alandroal. Talvez por ter ficado no meio entre Reguengos de Monsaraz e Vila Viçosa/Borba, soube manter melhor a tradição alentejana e as suas aldeias não foram tão afectadas pela modernização que descaracterizou grande parte do nosso país. Este concelho é rico em património: é o concelho dos três castelos, dos quais já falamos do castelo de Juromenha, à beira do Guadiana. Mas não só. Para além dos castelos do Alandroal e da Terena, do qual vamos falar, existem numerosas antas, cruzeiros e azenhas, algumas das quais, infelizmente, já submersas no Grande Lago após o encerramento das comportas da barragem de Alqueva.

O Castelo da Terena é singular pelo facto de não estar muito modificado em relação à sua factura original, que aproveitou um pequeno outeiro, do qual é possível contemplar uma ampla paisagem, dando lugar a um castelo de tipo pentagonal que data do último terço do século XIII. A localidade terá recebido foral em 1262 quando o cavaleiro-régio Gil Martins e sua esposa Maria João lho outorgaram. Ficou ainda famosa pela sua romaria na capela de Nossa Senhora da Boa Nova, celebrada no Domingo de Ressurreição e na Segunda de Pascoela, já nesse século porque é mencionada pelo rei sábio, Afonso X de Castela, nas Cantigas de Santa Maria. O Castelo formava parte da linha defensiva do Guadiana à qual pertenciam ainda os castelos de Elvas, Juromenha e Alandroal. De facto, já contamos com notícias, relativamente ao mesmo, da existência do castelo e da barbacã em 1380. Com a crise de 1383-1385, o rei D. João I doa o território à Ordem de Avis, o que deu lugar a uma ampla obra de construção. Já no século XV e XVI beneficiou de obras de ampliação, incluindo a Torre de Menagem, com o alcaide-mor Nuno Martins da Silveira, a partir de 1482, na qual terão participado os arquitectos Diogo e Francisco de Arruda, famosos, entre outras obras, pelo Aqueduto da Amoreira de Elvas. Contamos ainda com os desenhos feitos por Duarte d'Armas em 1509 no seu Livro das Fortalezas.

No entanto, o castelo perdeu importância a partir da Guerra da Restauração, facto que talvez explique a breve ocupação castelhana em 1652, já que não contamos com as clássicas fortificações abaluartadas que definem sobretudo a cidade de Elvas e os fortes da Graça e de Santa Luzia e ainda a fortaleza de Juromenha e de Olivença. Terá sido objecto de algumas obras de restauro, designadamente a chamada Porta das Sortidas, chamando a atenção o facto de estar de costas viradas para Espanha, o potencial inimigo. O terramoto de 1755 veio a fazer estragos no castelo não se tendo conhecimento de novas obras. A localidade, que era sede de concelho, abrangendo, para além da freguesia de São Pedro de Terena, as vizinhas de Capelins e Santiago Maior, perdeu o seu estatuto de capital de município quando este foi integrado no concelho do Alandroal em 1836, juntamente com o concelho extinto de Juromenha. Isso fez com que o castelo estivesse devotado à degradação até a quarta década do século XX em que começaram algumas obras de restauro que tiveram continuidade na década de oitenta.

A visita do castelo e da vila resulta altamente indicada para um passeio de domingo de Primavera, quando os campos ainda estão verdejantes e é possível ter uma vista da planície e outras amostras de património arquitectónico como os Antigos Paços do Concelho, o Pelourinho, a Torre do Relógio, o Santuário de Endovélico, a Igreja matriz de S. Pedro ou a Capela de Nossa Senhora da Boa Nova. Conta ainda com uma ponte e barragem no rio Lucefecit, de clara ressonância latina.


 Foto 1. Vista exterior da Porta das Sortidas.
Foto 2. Torre de Menagem vista do interior do castelo.
Foto 3. Torre de Menagem (vista exterior).
Foto 4. Porta das Sortidas com vistas para a planície.
Foto 5. Interior do castelo com vistas para a barragem de Lucefecit e a Serra d'Ossa (c. do Redondo) ao fundo.
 Foto 6. Vista do castelo (perspectiva).

 Foto 7. Interior do castelo e vista da barragem de Lucefecit.
 Foto 8. Torre de Menagem (ameias).
 Foto 9. Torre de Menagem vista para o exterior.
 Foto 10. Terena vista do castelo.
 Foto 11. Vista da planície para Leste, com a Serra da Lor (Olivença) ao fundo.
 Foto 12. Vista da planície para Sul.
Foto 13. Rua Direita vista ao sopé do castelo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Fronteiras: A «não-fronteira» de São Marcos/Paymogo

As fronteiras de Portugal com a região espanhola da Andaluzia têm sido, de sempre, as mais impermeáveis. Nisto concorrem vários factores como uma densidade de população mais baixa, designadamente na parte do Alentejo (concelhos de Serpa e Mértola) e a parte Noroeste da província de Huelva, a única fronteiriça das províncias andaluzas, com as entidades de maior população, que podiam fazer de dinamizadoras, relativamente longe da fronteira, mas também o facto de esta parte da Raia ser uma raia «húmida» na que os rios tendem a separar e não unir. Se a isso acrescentamos o facto das dificuldades de comunicação a causa do relevo mais montanhoso (ainda estamos longe da clássica planície do Alentejo ou da Baixa Andaluzia), compreende-se por que esta região apresenta ainda notáveis défices no relativo a relações transfronteiriças que existem, mas sem serem tão intensas como noutros lugares da Raia.

A situação descrita era certamente gritante e ainda podemos dizer que é em parte assim. Obviamente não é possível nem necessário construir estradas de ligação transfronteiriça em cada aldeia, mas a realidade é que até 1992 a única fronteira terrestre entre Portugal e a Andaluzia era a fronteira de Ficalho/Rosal de la Frontera, sendo que as comunicações entre o Algarve e esta região eram feitas em ferry-boat de Vila Real de Santo António a Ayamonte. Uma pessoa que quisesse deslocar-se de carro para a região vizinha tinha de fazer 140 km. no primeiro caso e 120 no segundo para cruzar a fronteira. A construção da já não tão nova ponte internacional sobre o Guadiana entre Monte Francisco e Ayamonte permitiu solucionar este problema, se bem na actualidade algumas decisões parecem empenhadas em estabelecer barreiras à comunicação com a introdução de portagens na Via do Infante. 

Com o propósito de melhorar a situação estabeleceram-se acordos de tipo transfronteiriço que previam a construção de três novas pontes: S. Marcos (Serpa) - Paymogo, Pomarão - El Granado e Alcoutim - Sanlúcar de Guadiana. Dessas três, oficialmente apenas uma está na actualidade em serviço: Pomarão - El Granado, da qual deu conta este blogue num post escrito ao efeito. Da ponte de Alcoutim - Sanlúcar, apesar de reclamada há décadas pelas populações, nem se fala, e ainda menos com a crise actual. Terão de continuar com o velho ferry que cruza o Guadiana. Mas o caso mais gritante é o da ponte S. Marcos - Paymogo.

A empreitada desta ponte foi adjudicada em 2006 e no mês de Junho iniciaram-se as obras. Da parte portuguesa, o município de Serpa tinha já uma estradinha municipal que foi alvo de importantes obras de beneficiação. Da parte espanhola não havia nenhuma ligação próxima, pelo que uma nova estrada teve de ser projectada e construída. Quem isto escreve tentou, perante a vista de mapas que falavam numa ligação já em serviço, deslocar-se até à fronteira para depois poder fazer o relatório correspondente, isso a partir de 2008 em três ocasiões diferentes, aproveitando viagens que fazia para o Algarve tendo-se encontrado com que não era possível chegar até lá. Até a ponte sobre a Ribeira de S. Marcos desabou parcialmente na sequência de umas cheias no Inverno de 2010. Recentemente tentou um enfoque diferente: Por que não fazê-lo partindo da aldeia de Paymogo? Tendo em conta que os mapas indicavam a existência de uma estrada entre a aldeia e freguesia de Mértola Corte do Pinto e um lugar próximo à ponte, a ideia era seguir por essa estrada e evitar a ponte que tinha desabado.

Uma vez chegado a Rosal de la Frontera, após circular por umas estradas bastante boas, é possível chegar até Paymogo. A surpresa vem quando já na saída da localidade há um sinal indicador que indica estrada cortada. A nossa ideia, porém, era chegar pelo menos à ponte, se tal fosse possível. A estrada, nova, metia dó pela falta de trânsito, mas o mais importante foi o objectivo conseguido de ter chegado até à ponte. A surpresa foi maiúscula: a estrada estava cortada por blocos de plástico e cimento excepto um, convenientemente retirado, e a ponte estava perfeitamente construída mas faltava o pavimento. Não sem alguma relutância, cruzamos a ponte sobre o rio Chança, afluente do Guadiana que desagua no Pomarão. Dai, entrando já em Portugal, após passar uma pequena zona não alcatroada da estrada, seguimos caminho procurando encontrar a tal estrada até Corte do Pinto, que também não existia. Não tivemos mais remédio do que seguir até ver qual era a situação da ponte sobre a Ribeira de S. Marcos. Felizmente, a ponte tinha sido reforçada e pavimentada e pudemos continuar caminho.

Tendo em conta esta vergonhosa situação, tenho de chamar a isto a «não-fronteira» de S. Marcos - Paymogo. Resta às autoridades tomar cartas no assunto e pavimentar de vez a ponte para justificar o dinheiro gasto dos contribuintes. Não é admissível que uma obra iniciada em 2006 e não sendo uma obra de especial dificuldade, em 2012 esteja ainda de pantanas. A escassa população da região não justifica um desleixo absoluto e uma falta de respeito pelos seus habitantes que também pagam os seus impostos e ainda para os turistas que pretendem conhecer esta bela região.

Porque a região vale a pena ser conhecida. Do lado de Espanha, a localidade de Paymogo é uma pequena vila andaluza pachorrenta e pacata que tem, no entanto, um património arquitectónico que não por pequeno deixa de ser menos interessante como a igreja matriz e a fortaleza abaluartada, actualmente em restauração. Além do mais, é um interessante contraste com o Alentejo, pelas suas casas em diversas cores e uma tipologia construtiva diferente. A pena é que daqui é difícil encontrar lugares dignos de interesse porque a região é um verdadeiro deserto demográfico e as localidades mais próximas com algum interesse situam-se bastante longe. 

Do lado português, apesar da escassa população, o viajante não tem a sensação de estar completamente perdido. Talvez seja porque as herdades ou montes existentes encontram-se espalhados pelo campo, sendo relativamente abundantes as queijarias que elaboram queijos de alta qualidade, artesanais, como o célebre «Queijo de Serpa», que vale a pena provar. Na vizinha aldeia de Vale do Poço, dividida pelos limites municipais de Serpa e Mértola, tem lugar no segundo fim-de-semana de Setembro a Feira Agropecuária Transfronteiriça. Muito interessante do ponto de vista histórico e da arqueologia industrial é a localidade mineira de Minas de S. Domingos, na que é possível visitar a Casa do Mineiro, os restos das antigas minas de cobre, as albufeiras artificiais resultantes desta actividade e ainda passear pelas ruas desta aldeia hoje em declínio após o encerramento das minas em 1965, mas de clara tipologia industrial no relativo às casas construídas. E se quiser descansar, tem ao seu dispor um óptimo empreendimento hoteleiro, o Hotel São Domingos, lugar em que se encontrava o «Palácio», antiga sede administrativa das minas. E para os dias quentes do Verão, nada melhor do que um banho na espectacular praia fluvial da Tapada Grande. Para os amantes da Natureza, nada melhor do que visitar o Pulo do Lobo, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana. É acessível por uma estrada pavimentada que parte de Vale do Poço até algumas pequenas aldeias e herdades isoladas, embora tenhamos de continuar nos últimos quilómetros por essa mesma estrada mas em piso de terra batida e apanhar um desvio que não está em muito bom estado, também de terra batida. Mas vale a pena porque o Pulo do Lobo é na realidade uma cascata que forma o rio Guadiana que cai em ravina. Parece inacreditável depois de ver o Grande Lago de Alqueva ou um Guadiana navegável até Mértola, mas sim, o rio discorre por um barranco muito estreito, tanto que se dizia que, no ponto em que se forma esta cascata na que a água tem uma queda de 20 m., um lobo podia dar um pequeno pulo ou salto e atravessar o rio sem se molhar. Além da cascata resulta espectacular ver o contraste entre a paisagem de montado alentejano e o antigo curso do rio, rochoso, sem vegetação.

É o que dá andar por estas «não-fronteiras»: sempre se descobrem lugares interessantes. Além do mais penso ter percorrido todas as ligações fronteiriças terrestres pavimentadas da nossa Raia com esta última «não-fronteira». Mas isso não significa que o blogue deixe de fazer sentido. Ainda tenho muitas fotografias de fronteiras guardadas nos meus ficheiros e quase não falei de história e património. Por isso..., ainda vou dar que falar!

 Foto 1. Ponte sobre o rio Chança visto da parte espanhola.
 Foto 2. Início da estrada de ligação a Paymogo.
 Foto 3. Rio Chança visto da ponte, na parte espanhola, para Norte.
 Foto 4. Rio Chança visto da ponte, na parte espanhola, para Sul.
Foto 5. A ponte vista da parte portuguesa.
Foto 6. Estrada portuguesa com as terras andaluzas ao fundo (S. Marcos, Serpa).
Foto 7. Rio Chança visto da parte portuguesa, para Sul.
Foto 8. Rio Chança visto da parte portuguesa, para Norte.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

P.S. Continua a aumentar o número de seguidores na Rede Social Google. Nesta ocasião dasmos as boas-vindas ao nosso leitor Nuno Lobo. Esperamos que continue a gostar do blogue!

domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Castelos da Raia: Castelo de Miraflores (Alconchel)

Um dos castelos da Raia mais desconhecidos é o Castelo de Miraflores, na localidade de Alconchel, na Extremadura espanhola. Até porque poucos o reconhecem como castelo raiano. Mas, para além da sua beleza intrínseca, vale a pena visitá-lo e situá-lo no seu contexto histórico.

Para quem vem de Portugal, tem dois acessos ao seu dispor: um por Olivença, depois de passar a ponte da Ajuda, e outro pela fronteira de São Leonardo (Mourão) e Villanueva del Fresno. Para quem vem de Badajoz, é muito fácil: segue pela estrada de Olivença e depois continua pela estrada de Olivença até Villanueva del Fresno. Alconchel fica a uns 20 km. a Sul da vila oliventina. O acesso faz-se por uma estrada local que fica mesmo antes da chegada à localidade, vindo de Olivença. Rapidamente encontramos o castelo e as magníficas vistas que explicam a sua importância estratégica.

Agora um pouco de História. Parece que o morro ou outeiro em que fica o castelo já foi povoado em tempos pré-romanos, na época romana e na época visigoda. Mas será com a queda do Califado de Córdoba e a formação do reino aftasi de Badajoz que este lugar começou a adquirir mais importância do ponto de vista estratégico. Já o emir 'Abd-al-Rahman (Abderramão) II (822-852) tinha construído uma fortaleza para defender o território das razias dos exércitos do reino das Astúrias, depois reino de Leão. Os reinos de taifas que surgiram após a desaparição do Califado estavam muitas vezes em guerra entre eles pelo controlo do território e é nesse sentido que devemos ver a reparação e ampliação da fortaleza de Alconchel. 

No século XII, após a conquista de Évora para Portugal em 1165, Geraldo Sempavor ocupa a fortaleza o ano seguinte junto de outras como as de Mourão, Serpa e Juromenha na tentativa de ocupar Badajoz que acaba com o famoso «desastre de Badajoz» em 1170 quando o rei D. Afonso Henriques, a ponto de ocupar a alcáçova, é ferido a causa da aliança do seu genro Fernando II de Leão com os almóadas. O castelo esteve na posse dos leoneses até 1174, em que os almóadas o recuperaram e iniciaram trabalhos de ampliação. Não seria até à década 1230 com a tomada de Badajoz pelo rei Afonso IX de Leão que o castelo e a localidade entrem a formar parte do reino de Leão e com o rei Fernando III, rei de Castela e Leão, faça doação do castelo à Ordem do Templo, que gerirá esta propriedade doada como «juro de herdade e para sempre» até à sua dissolução em 1311.

Entretanto, o Tratado de Alcanices de 1297 fez com que os territórios de Olivença e Táliga passassem para a dominação portuguesa, facto que converterá este castelo em fortaleza fronteiriça. Não devemos esquecer o facto de a fronteira ter-se situado 5 km. a Norte da localidade e 4 a Leste, na direcção de Táliga. Isso fará com que a relevância do castelo aumente de forma considerável. Tomado pelo rei D. Dinis em 1311, a partir de 1313 vai passar a mãos de diferentes casas da nobreza castelhana. As guerras de Portugal com Castela terão grande importância, designadamente nos séculos XVII, XVIII e XIX. O castelo e a vila de Alconchel serão alvo de duas ocupações portuguesas no contexto da Restauração em 1642 e 1643. Será ainda ocupada pelo exército francês aquando da Guerra Peninsular até 1812. Acabada a contenda, a fortaleza perde a sua importância pela anexação de Olivença a Espanha pelo Tratado de Badajoz de 1801 e pelo facto de a vida municipal focalizar-se na Câmara (Ayuntamiento) situada na vila, ao sopé do castelo.

De factura essencialmente gótica, o castelo consta da torre de menagem muralhas e ameias e segue uma tipologia construtiva que podemos observar no castelo de Juromenha ou o castelo de Alburquerque. Consta ainda de algibe ou cisterna de tipo mudéjar para assegurar o subministro de água em épocas de seca ou em cercos ao castelo. Foi alvo de restaurações recentes por parte do Governo da Junta da Extremadura.
A visita do castelo vale a pena pelo não só pela sua beleza, mas também pelas vistas que se apreciam para a vila de Alconchel, a planície que se estende até Olivença e a planície que de Alconchel chega até perto de Táliga e outras aldeias vizinhas. É possível ainda apreciar pequenas serras como a Serra de Montelongo e da Faragosa a Leste, a Serra de Santo Amaro, perto de S. Bento da Contenda (oficial San Benito de la Contienda), e o vizinho Cerro de la Esperanza.

 Foto 1. Vista geral do castelo de Miraflores.
 Foto 2. Vista da muralha e as ameias do lateral Oeste.
 Foto 3. Porta de entrada ao castelo.
 Foto 4. Torre de Menagem.
Foto 5. Vista parcial do castelo (parte Norte).
Foto 6. Vista da planície até Olivença com a Serra de Santo Amaro ao fundo e a Serra de Montelongo à direita.
Foto 7. Pôr-do-sol e Cerro de la Esperanza vistos do castelo.
Foto 8. Muralhas do castelo com vistas para a planície de Alconchel.
Foto 9. Vila de Alconchel vista do castelo de Miraflores.
Foto 10. A planície (Sul) vista do castelo em direcção às aldeias de Táliga e Higuera de Vargas.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Fronteiras: Moimenta da Raia/S. Cibrão de Hermisende

Entrando de novo no terreno do esquecimento, lá vai uma fronteira muito pouco conhecida. Trata-se da fronteira existente entre Moimenta da Raia, freguesia e aldeia do concelho de Vinhais, e São Cibrão de Hermisende (San Ciprián, na toponímia oficial). É pouco conhecida porque de Moimenta sai apenas um caminho rural de terra batida, enquanto de S. Cibrão há um desvio pavimentado de apenas uns 200 m. até ao mesmo limite fronteiriço que parte da estrada ZA-L 2698, que liga Hermisende com Castromil, aldeia que está partida em duas partes porque uma pertence ainda à província de Zamora e a outra faz parte já da Galiza, mais exactamente da província de Ourense e do concelho de A Mezquita. 

Partindo de Hermisende, temos de atravessar a ponte da Veiga, ponte medieval situada sobre o rio Tuela, um dos dois rios, que junto com o Rabaçal formam o Tua pouco antes de chegar a Mirandela. Daí há uma subida íngreme na que S. Cibrão fica de lado, visto que temos de passar de pouco mais de 790 m. no fundo do vale até quase os 1 000 m. passando a meia encosta da Serra do Marabón, serra que separa a província de Zamora da Galiza. Daí chegamos a um planalto granítico que desce em suave declive entre os 1 100 e os 900 m., flanqueado pela Serra do Marabón e a Serra da Coroa, situando-se Moimenta da Raia a uma altitude algo inferior aos 900 m., na parte mais baixa do planalto pouco antes de chegarmos às íngremes encostas quase em arribas do vale do Tuela.

Esta situação entre a Galiza, Leão e Portugal deu lugar a pontos como o chamado Penedo dos Três Reinos, não muito longe deste ponto fronteiriço, se bem na realidade o reino da Galiza tinha o seu limite oriental na Portela do Padornelo e as províncias do Antigo Regime mantiveram esta situação até 1833, com a reforma provincial de Javier de Burgos, que deu o território entre esta portela e a Portela da Canda, à província de Zamora. Os penedos graníticos fazem, pois, parte da paisagem deste planalto porque a sua elevada altitude faz com que abundem afloramentos rochosos e uma paisagem quase desoladora de estevas, urzes, giestas ou tojos, ou seja, grandes extensões de mato açoitados por um vento geado no Inverno e pelo calor intenso no Verão.

Daí a importância do fumeiro na região, aquém e além fronteiras, que beneficia destas temperaturas baixas que resultam ideais para o fabrico de enchidos e, no concelho de Vinhais, da cria do porco bísaro, verdadeira iguaria e marca identificadora da região. Como muitas aldeias, esta região sofreu com intensidade a emigração, mas manteve certos usos comunitários hoje em declínio e que, infelizmente, decerto morrerão com a extinção das gerações mais velhas, dedicadas à agricultura e à pecuária, numa economia típica de subsistência.

Do ponto de vista cultural importa salientar o facto de as relações transfronteiriças terem sido muito intensas, o que se traduziu numa mistura de traços do ponto de vista etnográfico e linguístico. As fronteiras na região realmente não foram bem delimitadas até ao Tratado de Limites de 1864. Já as Inquirições de D. Afonso III de 1258 mostravam que Portugal estava na posse da aldeia de Manzalvos e metade da aldeia de Cádavos, actualmente do concelho de A Mezquita, na Galiza. Relativamente à S. Cibrão é comummente aceite que esta aldeia junto com Hermisende e Teixeira pertenceram à coroa portuguesa até 1640, se bem Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e grande estudioso do distrito de Bragança, mostra que a documentação histórica não nos permite afirmar tal hipótese, sendo que talvez tenham sido perdidas ao longo do século XVI.

Seja como for, a dominação portuguesa deixou a sua marca na língua falada na região. A mal chamada Alta Sanábria ou Sanábria galega é na realidade a região das Portelas e o galego é a língua principal de uso, para além do castelhano oficial. No entanto, nestas três aldeias de S. Cibrão, Hermisende e Teixeira há quem afirme que é falado um galego com traços portugueses ou um português em descomposição, com traços galegos. Do ponto de vista filológico, S. Cibrão pertencerá ao grupo do chamado «portelego central», tendo perdido o uso do esse sibilante sonoro, que ainda se mantém nas aldeias de Hermisende e Teixeira, do grupo do «portelego oriental». Os seus habitantes não se consideram sanabreses, mas antes porteixos.

Em resumo, uma região de confluência de culturas que vale a pena visitar quanto mais não seja que pelas suas paisagens, o contacto com a Natureza ou o património cultural e humano. Embora o Verão seja a melhor estação para visitar, quer pelas suas melhores condições meteorológicas, quer pelo facto de haver uma vida mais animada com os emigrantes que voltam de férias e as romarias, eu gosto particularmente no Inverno, quando esse vento frio acaricia o meu rosto e sinto algo de purificador nisso, no meio do cheiro do mato e o fumo da lenha das casas lentamente queimada na lareira para aquecê-la ou até mesmo cozinhar pratos fortes e consistentes. Vai um bom cozido ou umas fatiazinhas de salpicão de porco bísaro?


 Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal e vista do planalto.
 Foto 2. Caminho fronteiriço entre penedos.
 Foto 3. Caminho da Moimenta, com a Serra da Coroa ao fundo.
Foto 4. Vista do planalto, entre Portugal e a Galiza onde se assentam aldeias como Carvalhas, Casares ou Manzalvos.
 Foto 5. Marco fronteiriço com vistas para a Serra do Marabón.
 Foto 6. Mudança de piso que indica o limite fronteiriço visto da parte da província de Zamora.
Foto 7. Vista da estrada da parte de Zamora, o planalto e a Serra do Marabón ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.