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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casas de la Duda, Pino (Valência de Alcântara)

Há curiosidades fronteiriças e curiosidades. Esta é possivelmente uma das mais raras e menos conhecidas da Raia. Mas para isso é preciso entrar em antecedentes. Em primeiro lugar, temos de dizer que a fronteira, tal como a conhecemos hoje advém do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 e que definiu a fronteira com uma série de trabalhos que consistiram em comparar os documentos existentes por parte das duas comissões, portuguesa e espanhola, e fixar uma série de marcos fronteiriços numerados. Esses trabalhos, como já disse nalgum momento, pararam na confluência do rio Caia com o Guadiana com o marco 807 a causa da questão de Olivença, que levou a um novo tratado, em 1927, que definiu os restantes entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Restam ainda por colocar 100 marcos entre o Caia e a Ribeira de Cuncos a causa da questão citada.

Em segundo lugar, esta curiosidade prende-se pelo facto da própria geografia da região, em plena Serra de São Mamede. Esta serra é na realidade um conjunto de alinhamentos montanhosos, mais ou menos paralelos entre os quais se intercalam pequenos vales, várzeas e meias-encostas nas quais chegam a cultivar-se a oliveira e a videira em socalcos. A linha de fronteira costuma ir paralela ao cume das montanhas, a partir da Serra Fria, que atinge os 974 m., situada entre as localidades de Galegos e Porto da Espada, que pertencem ao concelho de Marvão, mas este não é o caso da Serra da Palha (ou Sierra de la Paja, em espanhol), já que a raia fronteiriça discorre a meia encosta do lado de nascente ou a jusante. 

Em terceiro lugar, um bocadinho de História. O século XVII significou um período de forte crise económica no seio da chamada Monarquia Hispânica (e não Espanha, porque a dinastia dos Habsburgo de Madrid reinavam sobre todos os seus territórios mas estes mantinham as suas leis e estatutos. Nunca houve, apesar dalguns intentos, uma uniformização administrativa). Para Portugal esta situação mais a Guerra da Restauração (1640-1668) significou uma época de verdadeiras penúrias económicas pelos custos de uma guerra prolongada e a posterior reconstrução. Em Espanha vai supor uma mudança de paradigma. Se até o fim do século XVI na pré-crise, o centro peninsular era o mais desenvolvido, designadamente Castela-Velha, Castela-Nova e o antigo reino de Leão (especialmente Salamanca), a crise europeia do século XVII vai fazer com que a periferia, que até então estava muito menos desenvolvida, com excepção da Baixa Andaluzia, comece a destacar-se do centro, enquanto este ficava exangue a causa das contínuas guerras em que a monarquia se viu envolvida a nível europeu e nas colónias americanas. O celeiro de homens para a guerra era Castela, que sofreu mais o decréscimo demográfico e as suas consequências económicas. Resultado: Enquanto Portugal experimentava um notável crescimento económico acrescentado com a vinda do ouro do Brasil no século XVIII, as regiões espanholas do centro peninsular foram as últimas em sair de uma crise que as tinha deixado sem fôlego. Isto traduziu-se num crescimento demográfico muito mais elevado em Portugal, incluindo a região do Alentejo, em claro contraste com as regiões raianas espanholas, verdadeiros desertos demográficos.

Importa salientar que este terceiro factor contribuiu para uma primeira vaga migratória portuguesa para os espaços raianos de algumas partes da Extremadura espanhola pela pressão demográfica existente no Alentejo frente ao vaziamento demográfico da primeira. Se já existia uma aldeia em que se falava português desde a Idade Média (é o caso de Ferreira (Herrera) de Alcântara, no Tejo Internacional), é no século XVIII que começa a colonização de vilas como Cedilho e um conjunto de aldeias que contornam a localidade de Valência de Alcântara como é o caso de Fontanheira (La Fontañera), S. Pedro, Casinhas (Las Casiñas), Hortas (Las Huertas), Pino o Jola, aldeias em que ainda se mantém viva a língua portuguesa, embora seja com alguma influência do castelhano. Nelas fala-se um dialecto de tipo alto-alentejano com traços beirões, pela relativa proximidade da Beira Baixa.

E é em Pino, ou Pino de Alcântara, que encontramos esta curiosidade. O acesso vindo de Portagem/Marvão é muito fácil porque basta seguir a estrada para a fronteira de Galegos/Puerto Roque e já em Espanha, seguir pela estrada N-521, deixar ao lado uma estação de serviço situada à esquerda e, a 2 km. da fronteira, continuar pelo desvio para Pino, que fica a 1 km. Dai temos de chegar até ao fundo da aldeia, lugar em que fica o café local e seguir por um caminho rural de terra batida. A pouco mais do que 1 km. encontramos Casas de la Duda. Trata-se de um conjunto de casas espalhadas a meia encosta da Serra da Palha que ficam à beira da Ribeira da Dúvida, riacho que nasce em território português a jusante da aldeia do Montinho e que atravessa a aldeia de Pino e com outros cursos de água acaba por desaguar no rio Sever, um afluente do Tejo que nasce na Serra de S. Mamede e que acaba por constituir o limite fronteiriço com a província de Cáceres entre os concelhos de Marvão e Nisa, desaguando no Tejo na barragem de Cedilho, ponto em que o Tejo começa a ser inteiramente português.

A particularidade deste lugar tem a ver com os limites fronteiriços, pouco claros e definidos. Foi precisamente essa indefinição o que fez que este conjunto de casas fossem conhecidas como Casas de la Duda (da Dúvida), pela impossibilidade de saber em que lado estavam situadas, se no lado de Espanha ou no lado de Portugal, ficando algumas mesmo «partidas» pela linha de fronteira. Infelizmente, a emigração fez que ficassem abandonadas, sendo algumas usadas para a prática da pecuária, designadamente rebanhos de ovelhas, que pastam pela serra. A fronteira está presente nos dois marcos fronteiriços situados a ambos os dois lados da Ribeira da Dúvida, sem qualquer outra indicação. É de salientar o facto de que algumas das casas apresentam a forma típica de casario alentejano, o que não deve espantar pelas razões históricas acima descritas.

De resto, a aldeia de Pino, e uma bela amostra da mistura entre elementos da casa típica alentejana e traços extremenhos. Frente a nomes de rua de personagens históricos espanhóis, existem outros de indelével marca portuguesa como a Casa do Cabeceirinho (Casa del Cabeceiriño) ou as calles (ruas) Parra e Montiño (Montinho).

Agora só resta ver e apreciar as fotografias ilustrativas!

Foto 1. Marcos fronteiriços na Ribeira da Dúvida.
Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal com a lua ao fundo.
Foto 5. Marco fronteiriço situado para Oeste da ribeira.
Foto 6. Uma das casas que ficariam no lado português.
Foto 7. Outra das casas do lado português com a Serra da Palha ao fundo.
Foto 8. Vista das casas duvidosas e as encostas.
Foto 9. Casas que ficariam no lado espanhol.
Foto 10. Vista geral do lugar de Casas de la Duda.

Foto 11. Vistas sobre a Ribeira da Dúvida, os marcos fronteiriços e a serra.
Foto 12. Casa com chaminé de tipo alentejano.
 Foto 13. Vista geral da aldeia de Pino.
Foto 14. Igreja matriz.
Foto 15. Ruas da aldeia com casas de traço alentejano.
Foto 16. Chaminé alentejana.
Foto 17. Praça da aldeia no início da calle Montiño.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Ouguela (c. Campo Maior) /Alburquerque

Uma fronteira pouco conhecida mas que vale a pena visitar pelas belas paisagens em que discorre é a existente entre a aldeia de Ouguela, no concelho de Campo Maior, no Alto Alentejo, e a vila de Alburquerque, na Extremadura espanhola. Não vamos falar hoje do belo castelo de Ouguela, a sua história e o seu património, visto ter sido alvo de um 'post' publicado há tempos referido em exclusivo para esta questão e que pode ser (re-)lido aqui, mas sim da fronteira existente neste ponto de ligação da citada aldeia e a vila de Campo Maior com a vila de Alburquerque e La Codosera.

Para quem vem de Campo Maior, antes de chegar à povoação de Ouguela, deve apanhar o desvio para a capela de Nossa Senhora da Enxara, uma capelinha que fica a 1 km. da localidade, à beira do rio Xévora, um afluente do rio Guadiana que nasce na Serra de São Mamede, no concelho de Portalegre e depois entra em Espanha pela aldeia de Rabaça/La Rabaza e continua pela vila de La Codosera, voltando a entrar de novo em Portugal muito perto do ponto fronteiriço do qual estamos a falar, passa ao lado da citada capela e volta a entrar definitivamente em Espanha águas abaixo até desaguar no Guadiana entre a localidade de Gévora (nome espanhol do rio) e a cidade de Badajoz. Esta capela, da qual falaremos noutro 'post', é famosa pela romaria que tem lugar na Páscoa, quando a população de Campo Maior costuma deslocar-se na Sexta-Feira Santa, ficando lá dois ou três dias até à Segunda-Feira acampados no arraial em pleno campo. Lá têm lugar uma missa, uma procissão campal, touradas e há diversos divertimentos como carrosséis, baile e as clássicas barracas para os comes e bebes. 

Passados alguns metros, segue-se por essa estradinha, ficando a capela num desvio à direita, enquanto se contorna o outeiro em que está assentada a aldeia de Ouguela. Depois de passar a ponte sobre a Ribeira de Abrilongo perto da sua confluência com o rio Xévora, continuamos viagem por uma via serpenteante mas muito agradável que dá para apreciar a paisagem de montado alentejano no meio de uma paz bucólica e quase lendária por parecer uma espécie de Arcádia feliz (desculpem, mas por vezes gosto de fantasiar) que nos meses frios, mas especialmente no Inverno e no início da Primavera resulta muito aprazível pela paisagem verdejante, enquanto no final da Primavera, no Verão e início do Outono podemos desfrutar do contraste entre o verde dos sobreiros e azinheiras e o amarelo intenso pela seara fora ou dos montados já secos pelo célebre calor intenso e abrasador do Alentejo. Daí, um desvio com um sinal indicador para Alburquerque, leva-nos ate à fronteira, caso não queiramos seguir caminho por estas paisagens isoladas até a aldeia de Degolados, a outra freguesia do concelho de Campo Maior.

O limite fronteiriço situa-se numa zona de lombas após passar alguma herdade, lembrando a proximidade da Serra de São Mamede, já que na realidade essas lombas fazem parte do extremo desse alinhamento montanhoso antes de sumir numa planície extensa, já no vale do Guadiana. Já na Extremadura espanhola, as lombas aumentam a sua altitude obrigando a contínuas subidas e descidas numa paisagem que em nada mudou a não ser na forma das herdades, próprias desta região, até chegarmos até ao entroncamento em que devemos decidir se queremos chegar até Alburquerque ou La Codosera e de novo a Portugal pela fronteira do Marco. Antes deste ponto, a estrada brinda-nos uma bela vista de montado (chamado dehesa na Extremadura espanhola) e do castelo de Alburquerque, situado em alto.

A História da região foi conturbada, como é óbvio. Em 1218 a vila e castelo de Alburquerque foi reconquistada pelo reino de Leão aos almóadas, após a batalha decisiva das Navas de Tolosa, em 1212, que significará a quebra do poder deste império que ainda ocupava a metade Sul da Península Ibérica. Mas será na década de 1220 quando virá o impulso maior. Do lado de Portugal, o rei D. Sancho II ocupa Elvas em 1226, dando-lhe foral em 1229. Do lado do reino de Leão, após a batalha de Alange em 1230, são ocupadas as cidades de Mérida e Badajoz e ainda Campo Maior e Ouguela. Após a estabilização do conflito com os muçulmanos, começam os conflitos entre a coroa castelhana e Portugal pela definição da fronteira, que foram muito duros na região de Arronches e Alegrete, antiga sede de concelho e hoje uma das freguesias de mais população (excluída a cidade) do concelho de Portalegre. Alegrete passará a formar parte da coroa portuguesa formalmente após o Tratado de Badajoz de 1267, mas Campo Maior e Ouguela deverão esperar até ao Tratado de Alcanices de 1297 quando o rei D. Dinis, que na realidade almejava a posse da cidade de Badajoz, consegue para Portugal as duas localidades mais o território de Olivença, de modo a cercar a citada cidade. No entanto, estas localidades continuarão a depender no eclesiástico da diocese de Badajoz até a reforma diocesana de inícios do século XV. As guerras com Castela serão contínuas, daí a importância da fortaleza e castelo de Ouguela num território de fácil acessibilidade de forma a proteger a vila de Campo Maior, que também possuía o seu castelo e as suas muralhas.

A visita deste ponto avançado do nosso país resulta especialmente indicada para um lindo passeio à tarde se estivermos à procura de sossego e paz no meio do campo. Se acompanharmos isto com uma bifana quentinha no pão (alentejano, obviamente!) e uma bejeca..., é já o summum do prazer!

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
 Foto 2. Caminho rural e marco fronteiriço situado para Leste da linha de fronteira.
 Foto 3. Marco fronteiriço e vista da paisagem de montado.
 Foto 4. Vista do mesmo marco fronteiriço com orientação para Portugal.
 Foto 5. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 6. Estrada de Alburquerque, já na Extremadura espanhola.
Foto 7. Vista da planície no extremo do Alentejo. Ao fundo à direita ficaria situada a cidade de Badajoz (fora do alcance da vista).
Foto 8. Planície alentejana e castelo e aldeia de Ouguela vistos do limite fronteiriço.

Foto 9. Vista da dehesa extremenha com o castelo de Alburquerque ao fundo (a 7 km. do limite fronteiriço.
Foto 10. Vista geral do castelo de Alburquerque, na Extremadura espanhola.


Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Fico contente por ver que a pouco e pouco vai aumentando o número de leitores, bem como o número de amigos no perfil de «Fronteiras» no Facebook. Já no Twitter o sucesso é limitado, mas é compreensível porque talvez seja uma rede social mais especializada e nem todos vejam a utilidade de manter um perfil lá. De qualquer forma, gosto que as pessoas, de livre e espontânea vontade, decidam nos seus perfis a quem adicionar ou seguir ou mesmo até não fazê-lo porque não achem necessidade. No Google Rede Social tenho o prazer de ver que os seguidores aumentam de forma lenta mas contínua contando hoje com 44 seguidores, o que para um blogue claramente minoritário é muito bom. Como costumo fazer, dou as boas-vindas ao nosso último seguidor, Danny Antunes. Espero que continue a apreciar o blogue e os motivos que o levaram a segui-lo se mantenham por muito tempo!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Fronteiras: Confluência do Caia com o Guadiana

 Um dos pontos fronteiriços menos conhecidos é a confluência do rio Caia com o Guadiana. Isto prende-se com o facto de apesar de ser relativamente acessível do lado de Badajoz, não ser muito frequentado para além dos proprietários das pequenas quintas existentes no chamado «Rincón de Caya». Do lado português, as terras de lavoura em regadio, que pertencem à freguesia de Ajuda, S. Salvador e Sto. Ildefonso do concelho de Elvas, fazem com que o acesso seja difícil visto tratarem-se de propriedades privadas. No entanto, um entardecer de outono deu-nos umas vistas maravilhosas deste recanto desconhecido e que tínhamos de partilhar com os leitores deste blogue.

O rio Guadiana apresenta uma grande extensão na cidade de Badajoz, facto que contrasta com o fraco caudal observado na ponte da Ajuda, cauda do Grande Lago de Alqueva. Isto deve-se ao facto de existir, águas abaixo de Badajoz, um grande açude que nestes dias apareceu totalmente ao descoberto pela simples razão de que se abriram as comportas e deixaram ver o que a seca está a causar este ano a causa da falta de chuvas e este Verão prolongado. A partir do açude de La Granadilla, nome que recebe o bairro de Badajoz onde está situado, o rio Guadiana desce num suave remanso cujas águas tranquilas banham a planície, entre árvores e sapais. 

E é pouco depois quando se produz a confluência do rio Caia com o Guadiana, descarregando as suas águas que irão além-fronteiras para o Atlântico. Na foz está situado o marco fronteiriço 802-R que tem grande significado. Isto porque foi aqui que acabaram em 1868 os trabalhos de delimitação da fronteira derivados do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 pelo não reconhecimento de Portugal da soberania espanhola sobre Olivença e as suas aldeias. Em 1927 um novo tratado viria à luz estabelecendo os últimos marcos fronteiriços entre a ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Mas ainda faltam cem marcos fronteiriços por colocar entre a foz do Caia e esta ribeira dita de Cuncos. Um novo tratado internacional, este de 1968, relativo às águas entre Portugal e Espanha, que regula o regime de exploração dos grandes rios peninsulares (nem sempre respeitado, como acontece com o rio Tejo e a política de trasfega para as regiões mediterrânicas que deixam o rio quase exangue), reconhece a soberania portuguesa de todas as águas do Guadiana entre a foz do Caia e a ribeira de Cuncos, no que foi, obviamente, um plano que visava evitar confrontos territoriais entre duas ditaduras amigas, a do Estado Novo de Salazar que não renunciava à reclamação de Olivença, e a de Franco, que podia presumir de não ter cedido às pretensões portuguesas.

Seja como for, a questão é que é a partir da foz do Caia que começa o Guadiana Internacional e a sua entrada em Portugal. Deleitemo-nos, então, nas belas paisagens que prazerosamente nos deixou uma quente e serôdia tarde dos últimos estertores do Verão.

 Foto 1. Confluência do Caia com o Guadiana.
 Foto 2. Confluência do Caia com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.

 Foto 3. Foz do rio Caia.
 Foto 4. Foz do rio Caia com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 5. Marco fronteiriço do lado de Espanha.
 Foto 6. Rio Guadiana águas abaixo de Badajoz, antes da foz do Caia.
 Foto 7. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana.
 Foto 8. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 9. Foz do Caia (outra vista).
 Foto 10. Foz do Caia (outra vista) com indicação do limite fronteiriço.



Ver Caia/Guadiana num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. A proposta de um leitor nosso (Exmº Senhor José Costa), todos os marcos fronteiriços podem ser vistos no seguinte site: //igeoe-wservices.igeoe.pt/Fronteira/.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Festas do Povo: Campo Maior (2011)

Reconheço que tinha um bocadinho abandonado o blogue. Diferentes projectos profissionais, entre os quais o meu Doutoramento em História, viagens que tive de fazer, férias, etc., para além da vontade do dolce far niente, tem feito que não tinha postado nada estes meses. Mas isso não quer dizer que tenha estado parado. De facto aproveitei o tempo para visitar diferentes lugares, entre eles alguns da Raia, para poder apresentar aos meus leitores mais fotografias ilustrativas dos locais que valem a pena mesmo visitar e que se inserem na temática tratada neste blogue.

E para entrar em grande, nada melhor do que falar das Festas do Povo de Campo Maior, que tiveram lugar a semana passada e que foram alvo de programas televisivos, nomeadamente a RTP, a transmitir de lá parte dos eventos que tiveram lugar nesta vila raiana. Praticamente estiveram lá visitantes de todo o país, dos emigrantes que voltavam para a terra e da vizinha Extremadura espanhola. Não devemos esquecer que a fronteira do Retiro fica mesmo a 13 km. e logo em seguida está a cidade de Badajoz.

Para quem não conheça estas festas, consistem na decoração das ruas com flores de papel feitas de forma completamente artesanal pelas próprias gentes do lugar. É por isso que bem se pode dizer que são as festas do povo, porque é o povo desta querida vila alentejana quem participa na confecção das flores e de dar voltas à imaginação com o intuito de conseguir ser a rua mais bonita. Uma explicação mais alargada encontra-se no próprio site da organização, que pode ser consultado aqui.

A última vez que estas festas tiveram lugar foi no ano de 2004, sendo que depois de tanto tempo, os alentejanos, os portugueses e gentes de outras terras tivemos o privilégio de presenciar esta maravilha. Se bem que houve dias de fortes chuvas que estragaram um bocadinho a festa, o espírito dos campomaiorenses não descaiu e a festa continuou como prevista, inclusive com a visita do Presidente da República e do Primeiro-Ministro. Mas os protagonistas não são as personalidades, mas sim quem trabalhou por conseguir que a festa fosse todo um sucesso: o próprio povo de Campo Maior.

Na festa não podiam faltar alguns divertimentos, stands de produtos variados (produtos em pele, produtos alimentares como a ginjinha d'Óbidos, serviços de todo tipo, etc.), bem como as clássicas lanchonetes de festa onde não faltaram churros, farturas, pipocas, bifanas, hamburguers, cachorros quentes, espetadas, carnes grelhadas, etc. Eu, valorizando os produtos cá da terra, deliciei-me com um picadinho de carne alentejana de vitela de denominação de origem protegida com batata, e, é claro, o omnipresente café Delta, o maior produtor de café da Península Ibérica e que tem a sua fábrica aqui em Campo Maior.

Não faltaram espectáculos musicais e de dança e, obviamente, os cantos típicos de Campo Maior, com as mulheres com os pandeiros a tocar e a cantar canções tradicionais. Quer fossem ranchos folclóricos, quer grupos de amigos, aqui e acolá improvisavam-se espaços de canto num convívio que, longe de ser caótico, resultava de todo harmónico. Estes cantos típicos, onde as mulheres tocam pandeiros enfeitados com fitas a cores, e acompanhados pelo tambor e, às vezes pelo acordeão, e onde as mulheres assumem o papel principal no canto, apresentam semelhanças com outros cantos tradicionais do Noroeste. Não devemos esquecer que Campo Maior foi uma vila de reconquista leonesa e não portuguesa. Quando o rei D. Sancho II conquistava Elvas em 1226, o rei leonês Afonso IX, fazia o próprio ao reconquistar Mérida, Badajoz, Campo Maior e Ouguela aos muçulmanos em 1230. Em mãos leonesas esteve até o Tratado de Alcanices de 1297, quando o rei D. Dinis, astuciosamente, soube aproveitar o vazio de poder em Castela e ampliar as fronteiras do seu reino acrescentando Campo Maior, Ouguela e Olivença. Sendo uma tradição única n0 Alentejo, e não sendo eu um erudito em questões musicais, não deixo de observar, no entanto, semelhanças com cantos tradicionais que já tenho ouvido nas Astúrias e Leão, designadamente nas tradições dos chamados «vaqueiros de alzada», ou na Galiza. Reminiscências de tradições asturo-leonesas? O certo é que um elemento comum a todas estas tradições há: o grupo de mulheres que cantam com pandeiro com ritmos bastante semelhantes. Talvez algum historiador da música ou etnógrafo possa algum dia tirar-nos a dúvida...

E como nada melhor do que uma imagem, lá vai uma selecção de imagens, todas elas nocturnas, das ruas floridas de Campo Maior. Espero que gostem. Ah! E fiquem atentos ao blogue. Não vão ficar desiludidos!