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domingo, 28 de novembro de 2010

As fronteiras de Tourém (I): Tourém/Guntumil

Tourém é uma aldeia raiana do Barroso, incluída no Parque Natural da Peneda-Gerês, e apresenta uma particularidade que nenhuma outra localidade raiana tem: está rodeada em três das quatro partes do território por território galego, sendo que a ligação com o resto do país faz-se por uma estrada em subida contínua até ultrapassar uma área de transição entre a Serra do Larouco e a Serra do Gerês/Xurés. É, portanto, a única aldeia portuguesa do vale do rio Salas, afluente do Lima.

Isso quer dizer que muitas das relações dos seus habitantes são com os seus vizinhos galegos o que não resulta estranho se termos em conta que, para além da sua particular localização geográfica, ainda no início do século XIX fazia parte da diocese eclesiástica de Ourense e de lá partia a estrada neutral para o Couto Misto, uma anormalidade do ponto de vista jurídico da qual falaremos mais adiante noutro 'post' e que só se resolveu com o Tratado de Limites de Lisboa de 1864.

A aldeia tem actualmente três ligações transfronteiriças com as aldeias galegas vizinhas. Hoje apresentamos uma delas, sendo o nosso propósito iniciar uma série de mensagens acabando com uma breve descrição da aldeia na última. A estrada que liga Tourém com Guntumil é uma estradinha para trânsito local que atravessa uma zona onde se mistura a floresta, o mato e prados destinados à pecuária ou terras de cereais. Ao fundo, a barragem das Salas como marco incomparável que acrescenta frescura à paisagem e às nossas costas, as últimas encostas da Serra do Gerês/Xurés, montanhas altas e íngremes que contribuem para a dureza dos Invernos. Do ponto de vista económico, trata-se de duas aldeias dedicadas à agricultura e à pecuária, não muito evoluídas e perto do nível de subsistência, como antigamente. Daí a sobrevivência, até tempos não muito longínquos, de práticas comunitárias como o boi comunitário, as malhas ou os direitos de uso do forno do povo. O que justifica, neste mundo globalizado, que muitos tenham optado pela emigração à procura de melhores condições de vida como saída a uma dura vida no campo e nem sempre recompensadora.

Resulta uma visita imprescindível para quem queira ter uma visão global destas aldeias do sul da Galiza, do Couto Misto e do Barroso.


Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza.
Foto 2. Marco fronteiriço escondido entre fetos.
Foto 3. Limite com a Galiza visto do lado português.
Foto 4. Vista geral de Guntumil com a barragem das Salas ao fundo.
Foto 5. Aldeias galegas de Requiás e Guntumil vistas da barragem das Salas com a Serra do Gerês/Xurés ao fundo.
Foto 6. Ponte sobre a barragem das Salas e vista de Guntumil.
Foto 7. Vista de Guntumil (pormenor).
Foto 8. Vista geral de Tourém.


Ver Fronteira Tourém/Guntumil num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Aproveito a ocasião para dar as boas-vindas ao nosso novo amigo 'extremadura urbana'. Desejo que continue a ser leitor habitual deste blogue.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Fronteiras: Vilar de Perdizes/A Xironda

Na região do Alto Tâmega e na parte mais oriental do concelho de Montalegre estende-se uma das freguesias mais orientais do Barroso: Vilar de Perdizes. Trata-se de uma área de transição porque o território fica entre as últimas encostas da Serra do Larouco, reduzida cá a suaves lombas, e o vale do Tâmega na sua parte galega. A Leste ficam as aldeias de Soutelinho da Raia, um dos «povos promíscuos» de que já falamos, e as aldeia galega de Videferre; a Sul a aldeia de Meixide, a Norte, a aldeia da Gironda (ou A Xironda, em galego), já na Galiza e a Oeste a aldeia de Santo André, que também tem a sua ligação fronteiriça com a aldeia galega já mencionada.

Vilar de Perdizes fica em uma lomba que rompe a monotonia do planalto que se estende por esta região antes de cair sobre o vale do rio Assureira, afluente do Tâmega, em cujas ribeiras encontra-se uma área de lazer e de banho na estrada da Gironda. Para além do interesse etnográfico da aldeia, como todas as da região barrosã e do Alto Tâmega em geral, Vilar de Perdizes tem um certo renome pelos Congressos de Medicina Popular que têm lugar todos os Verões (Agosto-Setembro) onde se mistura o conhecimento dos chás, plantas medicinais e as suas propriedades curativas com questões de bruxaria, astrologia e medicina popular relacionada com estas terapias tradicionais onde o Além misturava-se (e ainda se mistura) com a medicina tradicional. Quem gostar destes temas tem mais um pretexto para visitar a região, com certeza. Casas em pedra e um linguarejar raiano absolutamente delicioso onde o sotaque tem a característica de ter toques galegos complementam a visão geral que tirámos da aldeia e da qual é possível saber mais em um blogue local que pode ser consultado aqui.

Relativamente à fronteira, apenas existe uma estrada local de ligação entre as duas aldeias, Vilar e Gironda onde a fronteira simplesmente não existe. De facto foi-me muito difícil intuir onde é que ficava mesmo a fronteira apesar de ter procurado algum marco fronteiriço, inclusive invadindo terrenos adjacentes. Só sei que fica algures entre um sinal de área de caça em português e um sinal em galego que distam não mais de vinte metros um do outro. A vegetação e densa, com tojos, giestas e outras plantas do mato que dificultam tal identificação. Senti-me em terra de ninguém: Estava em Portugal ou na Galiza? Na Galiza ou em Portugal? Julguem vocês!

Foto 1. Fronteira portuguesa vista da parte galega. As riscas indicam a possível linha de fronteira.
Foto 2. Fotografia da fronteira, já sem riscas, da parte galega.
Foto 3. Estamos em terra portuguesa. Possível linha da fronteira para além do sinal em português da esquerda.
Foto 4. Em terra portuguesa com a fronteira algures no caminho.
Foto 5. Vale do rio Assureira visto da fronteira e vistas do vale do Tâmega (parte galega) ao fundo.
Foto 6. Caminho de Vilar de Perdizes.
Foto 7. Vilar de Perdizes visto onde se rompe o planalto.
Foto 8. Vista geral de Vilar de Perdizes.



Ver Fronteira Vilar de Perdizes/Gironda num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.


Ver Fronteira da Gironda num mapa maior

Mapa 2. Zona da fronteira.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fronteiras: Sendim/Baltar

Uma das regiões onde mais postos fronteiriços existem é no Barroso. É tradicional a relação da aldeia de Tourém, da qual teremos ocasião de falar em outro momento, com as vizinhas aldeias galegas. No entanto, nos últimos anos abriram-se novos pontos de passagem que atravessam a Serra do Larouco, limite natural desta região barrosã com a Galiza, das quais a mais importante pela ligação com Montalegre é a fronteira de Sendim/Baltar.

A fronteira está situada perto da aldeia de Sendim numa pequena passagem situada entre as montanhas envolventes da Serra do Larouco. Estas terras, próximas ao Couto Misto, e tão ricas em estórias de contrabando, têm agora umas boas comunicações que permitem chegar rapidamente de Montalegre até Xinzo de Limia, na região ourensana da Limia, onde nasce o nosso rio Lima, e vice-versa.

Na fronteira actual existe hoje uma área de serviço moderna, com bomba, café e loja, situada do lado português, para além de centro de lavagem e outros serviços (parece que estou a fazer publicidade!), mas o interesse vai para as aldeias vizinhas, que tanto na Galiza como no Barroso caracterizam-se pela dualidade entre os usos tradicionais do campo, com casas em pedra, sobretudo de granito, e as novas tendências impulsionadas pelos emigrantes, que construíram casas que muitas vezes nada têm a ver com a casa tradicional. O contraste é, por vezes, espantoso, até ao ponto de que muitas vezes pode saber-se quem emigrou e quem não, sendo isto talvez mais marcante na Galiza, já que na região da Limia houve muitos que emigraram para a Suíça designadamente, enquanto no Barroso foi mais a tradicional emigração para a França. Mesmo assim, vale a pena visitar Montalegre e o seu castelo, dar um passeio pelas aldeias barrosãs e galegas vizinhas o pela barragem do Alto Regabão ou simplesmente descontrair numa casa de aldeia a tomar um pequeno almoço à luz do sol na esplanada da casa. Acreditem. Vale mesmo a pena!

Outro ponto de destaque é a gastronomia. Quem gostar do polvo, não pode deixar de ir na feira de Xinzo de Limia onde comerá um bom polvo à feira, feito ao estilo galego. Mas quem gostar da carne, nada melhor do que uma posta de vitela barrosã, arroz de chouriça ou, agora que estamos já perto da Páscoa, um bom folar de Páscoa. Isso sem falar dos enchidos, que são do bom e do melhor. É que eu, francamente, não concebo uma viagem onde não haja essa fusão entre os prazeres do espírito, como é uma bela paisagem, o cheiro de um lugar, o património, falar com os vizinhos de uma aldeia, a pele tersa saída após um refrescante banho de Verão num rio qualquer..., com os prazeres da carne, que obviamente inclui uma boa refeição acompanhada de um bom vinho, para além de outras coisas que nem sempre têm de ser comida, é claro!

Foto 1. Fronteira portuguesa de Sendim, tomada mesmo do limite fronteiriço.
Foto 2. Sinal a anunciar a fronteira da Galiza, se bem o limite fronteiriço situa-se mesmo na parte de trás da casa que há ao fundo.
Foto 3. Entrada na Galiza vista do limite fronteiriço.
Foto 4. Marco fronteiriço situado na parte de trás da última casa portuguesa.
Foto 5. Área de serviço da fronteira. Vista geral.
Foto 6. Serra do Larouco vista para os lados de Sendim (situada na parte baixa da serra).
Foto 7. Serra do Larouco (vista para Leste) enquanto limite fronteiriço.
Foto 8. Vista das terras galegas da Limia da fronteira.


Ver Fronteira Sendim/Baltar num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

«Povos promíscuos»: Soutelinho da Raia

Num extremo do concelho de Chaves, no meio de uma pequena planície, situa-se a freguesia e aldeia de Soutelinho da Raia. Nada teria de particular a não ser por dois motivos (embora se me ocorram mais alguns): 1-É uma aldeia raiana, e 2-Trata-se de um dos chamados «povos promíscuos».

Como foi referido no caso de Lamadarcos, Soutelinho da Raia faz parte junto com esta aldeia e mais a de Cambedo, do conjunto de aldeias chamadas de «povos promíscuos» pelo Tratado de Limites de Lisboa de 1864, tratado que veio a corrigir uma situação de indefinição de fronteiras nesta região do Alto Tâmega. Tratava-se de três aldeias onde a fronteira ia pelo meio delas, dando lugar a uma confusão administrativa que foi aproveitada pelos seus habitantes para fugir a certas obrigações (impostos, tropa,...). Com este tratado de limites, a totalidade das mesmas passou a formar parte de Portugal, pelo que a fronteira avançou nesse sentido de modo a ficarem abrangidas pelo território português.

No caso de Soutelinho da Raia, a fronteira ficou estabelecida praticamente à saída da aldeia, sendo, das três, a que tem a fronteira mais perto, como mostram as fotografias que seguem. Talvez por ficar longe do pólo económico do Alto Tâmega que é Chaves, Soutelinho da Raia soube manter melhor a sua herança, quer em património histórico, quer em património etnográfico, de forma que é uma aldeia que teve poucas alterações relativamente à vida moderna como outras aldeias da região onde há um contraste muito forte entre as casas dos emigrantes, nomeadamente na França, e as casas dos que ficaram, muitas vezes deturpadas por modernices que não condizem com o aspecto rústico da casa, enquanto outras casas foram deixadas, infelizmente, ao abandono e degradação. É por isso que visitar hoje Soutelinho é voltar às essências de antigamente, às essências de um mundo já esquecido que nunca voltará.

A aldeia fica estrategicamente situada a meio caminho entre Chaves e Montalegre, sendo que resulta uma alternativa à EN 103, que atravessa zonas mais montanhosas, no trânsito entre o planalto do Barroso e o vale do Tâmega. Existe ainda um acesso à aldeia galega de Videferre, no concelho de Oimbra, com ligações também para Verín, na província de Ourense, cabeceira do Alto Tâmega galego.

A força da tradição é bem patente na aldeia e uma amostra disso, para quem desejar ter mais informações, é o blogue de um natural de lá, que pode ser consultado aqui. Sem dúvida, uma região a descobrir, quer pelos seus encantos naturais, quer pela sua riqueza etnográfica.

Foto 1. Aldeia de Soutelinho da Raia vista da estrada entre Meixide e Vilar de Perdizes com as serras galegas vizinhas ao fundo.
Foto 2. Fronteira de Soutelinho da Raia. A mudança de piso indica o limite fronteiriço. À direita, o Posto Fiscal, quando ainda existiam as alfândegas.
Foto 3. Marco fronteiriço na estrada a Videferre, junto do Quartel da Guarda Fiscal. A lenha não se importa muito de que lado da fronteira se encontra...
Foto 4. Limite fronteiriço ao outro lado do Posto Fiscal.
Foto 5. Rua do Quartel vista da fronteira.
Foto 6. Fronteira galega vista do Posto Fiscal.
Foto 7. Marco fronteiriço visto da Rua da Fonte Fria. Divide um único campo de lavoura.
Foto 8. Rua Direita, rua principal da aldeia, com a clássica calçada portuguesa.
Foto 9. Largo do Cruzeiro.
Foto 10. Rua do Rego e vista da Igreja Matriz.
Foto 11. Igreja Matriz de Soutelinho da Raia.
Foto 12. Capela do Senhor dos Desamparados e casas de pedra de Soutelinho.
Foto 13. Vista geral do planalto e da Serra do Larouco, nos arredores de Soutelinho, já em terras galegas.
Foto 14. Caminho de Videferre, já na Galiza.


Ver Soutelinho da Raia num mapa maior
Mapa 1. Soutelinho da Raia com indicação do limite fronteiriço.