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domingo, 6 de maio de 2012

Fronteiras: Santo André (c. de Montalegre) / A Xironda

Depois de algum tempo afastado do blogue por motivos de saúde e, porquê não, pelo cansaço, vamos hoje retomar o nosso périplo pela Raia, desta vez, entre a aldeia de Santo André, no concelho de Montalegre, e A Xironda, no concelho galego de Cualedro. A fronteira está situada numa estrada local que liga as duas localidades, no fundo de um pequeno vale ao sopé da Serra do Larouco.

A região pertence a uma zona de transição entre o Barroso e a região do Alto Tâmega. Sendo o concelho de Montalegre muito extenso, Santo André faz parte junto com Vilar de Perdizes e outras poucas freguesias, daquela parte do município que pertence à bacia do Tâmega através dos seus afluentes. É por isso que estamos numa região de planalto que desce em suave declive para o vale do Tâmega. Se a aldeia de Santo André está situada entre os 820 e os 850 m. de altitude, já a aldeia da Xironda está situada entre os 750 e os 760 m. Entre ambas as duas, situa-se um pequeno relevo que ultrapassa os 790 m. do lado da Galiza para logo descer suavemente até ao limite fronteiriço, num pequeno vale situado entre os 730 e os 740 m. por onde discorre a Ribeira do Inferno, e onde encontramos extensos milheirais entre outras terras de lavoura e pequenas explorações avícolas e pecuárias. Após uma mudança de piso para uma estrada mais estreita já em terras portuguesas, uma pequena subida, mais íngreme do que a anterior, leva-nos ao planalto onde está situada a aldeia de Santo André, interessante do ponto de vista etnográfico.

No meio, um desvio por caminho de terra batida, indica a existência da vila romana de Grou. Infelizmente, não existe qualquer indicador da tal vila já após termos apanhado tal estradinha e ficamos, mesmo ao pé da Serra do Larouco, com a sensação de estarmos em terra de ninguém, porque sabemos que a fronteira está mesmo aí, desconhecendo se a ultrapassámos ou não. Mais um caso de sinalética que devia ser melhorada porque de nada vale por-nos o mel nos lábios de uma alegada vila romana e depois não encontrar outra coisa do que estradas esburacadas não asfaltadas pouco aptas para ligeiros e nada que indique a presença, mesmo que mínima, de restos arqueológicos da época romana.

De resto, a fronteira não oferece nada de interessante, a não ser o facto de estarmos perante uma bela paisagem e mais uma via de ligação entre Santo André e Vilar de Perdizes, esta vez, por terras galegas. Se pretendermos brincar com o jogo do gato e do rato com as fronteiras, este é o lugar ideal para ir mudando continuamente de país, pois teremos estradas locais daí até Vilarinho da Raia, já à beira do Tâmega.

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza. 
Foto 2. Limite com a Galiza visto do lado de Portugal.
Foto 3. Limite e marco fronteiriço.
Foto 4. Milheiral raiano, mesmo no limite fronteiriço visto para o lado de Portugal.
Foto 5. Vista da Serra do Larouco perto de Santo André.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Curiosidades fronteiriças: Estrada Moimenta da Raia-Mofreita (c. de Vinhais)

As mini-férias de Páscoa serviram, para além de descontrair, para visitar lugares espectaculares, alguns deles relacionados com a nossa Raia. É por isso que quero partilhar convosco algumas das minhas experiências, pelo que iremos dar um pulo do Alentejo à Terra Fria Transmontana, nos mais profundos lugares do Parque Natural de Montesinho.

Por ser muito desconhecido, muitas pessoas, até mesmo da região, não sabem da existência da estrada municipal entre Moimenta da Raia e Mofreita, ambas as duas freguesias e aldeias do concelho de Vinhais. Limitada pela Serra da Coroa e a vizinha Serra do Marabón que separa a Galiza da província leonesa de Zamora, Moimenta da Raia está situada num relativamente amplo planalto que cai em declive suave, ficando a aldeia no seu extremo Sueste a algo menos de 900 m. de altitude, erguendo-se sobranceira, sobre o vale do rio Tuela, que forma um desfiladeiro com encostas muito íngremes. É por isso que os primeiros quilómetros da estrada apresentam uma descida continuada até atingirmos a ponte sobre o rio (chamada Ponte do Couço), já a menos de 750 m. formando um talvegue, entre rochas graníticas e xistosas, onde discorre, encaixado, o rio.

A beleza da paisagem envolvente é, simplesmente, espectacular. Devido à sua relativamente elevada altitude, as árvores não tinham quaisquer indícios de as flores começarem a desabrochar mostrando que já estamos na Primavera. De facto, pelas frescas temperaturas, dir-se-ia que em vez do mês de Abril estivéssemos ainda no Outono. Isto porque muitas das espécies vegetais da região pertencem a uma área de transição entre a região euro-siberiana e a região mediterrânica. A presença de espécies remanescentes mostra isso: árvores de folha caduca que mantêm a folha na rama até os novos rebentos começarem a crescer como é o carvalho negral. Daí que a paisagem mostrasse esse ar característico outonal. Além disso, belas amostras de líquenes a dar verdura às árvores davam um ar aprazível à par que misterioso ao ambiente. Da ponte, a fronteira ficava a apenas 750 a Leste, ponto em que o Tuela entra em Portugal após ter nascido na Serra Segundeira, no Parque Natural do Lago de Sanábria, no concelho portelego ou porteixo de Lubián e ter percorrido um estreito vale que dá lugar a uma pequena planície ribeirinha na vizinhança da aldeia de Hermisende, que esteve na posse do nosso país durante séculos, deixando profundas marcas na fala local, uma mistura de português transmontano e galego oriental.

A estrada volta a subir em forte pendente até atingirmos os 950 m., numa espécie de pequeno planalto que não é mais do que uma lomba que desce de forma relativamente suave para os lados de Mofreita, enquanto caem a prumo do lado de Hermisende. Estamos perante a denominada Serra da Escusaña que atinge os 1 147 m. de altitude no monte Escagalhos. No entanto, a estrada discorre entre os 950 e os 1 050 m. no meio de pequenas lombas. Há que dizer que o asfalto é recente e a sensação de solidão e de ir caminho de nenhures é quase absoluta, o que é de facto reconfortante neste nosso atribulado dia-a-dia quotidiano. É a partir do Alto da Parada que a estrada segue a linha de fronteira, com belas vistas para toda a região envolvente apartando-se unicamente do limite fronteiriço no Alto de Castrapeiro, em que um pequeno pico, Redaria (1 037 m.) obriga a estrada a afastar-se dele, se bem existe um pequeno caminho de terra batida e cascalho que que permite contorná-lo a norte, entrando brevemente em Espanha. Logo após o alto, voltamos ao limite fronteiriço por algumas centenas de metros até começarmos a descer suavemente para a aldeia de Mofreita entre alguma floresta, alguns campos cultivados, já perto da aldeia, e matagais de urze, tojos e giestas. O único que ensombra esta idílica e pastoril paisagem é, infelizmente, a marca de incêndios recentes que tanto tem assolado o país, fruto de um abandono absoluto do campo e uma má política de conservação florestal derivada do primeiro problema. Certamente o desleixo para os nossos bosques como consequência do abandono da actividade agro-pecuária num interior do país cada vez mais abandonado, tem muito a culpa disso. Aí fica a denúncia...

Foto 1. Rio Tuela visto da Ponte do Couço na direcção da Moimenta.
Foto 2. Rio Tuela visto da Ponte do Couço vindo de Hermisende, com a fronteira a menos de 750 m.
Foto 3. Floresta de árvores com líquenes situada no vale do Tuela.
Foto 4. Paisagem «outonal» na Primavera, na Ponte do Couço.
Foto 5. Aldeia da Moimenta da Raia vista da subida da Ponte do Couço em direcção a Mofreita.
Foto 6. Primeiro marco fronteiriço visto da estrada após o Alto da Parada.
Foto 7. Segundo marco fronteiriço.
Foto 8. Mesmo marco fronteiriço com vista da estrada e ao fundo a Serra do Marabón, entre a Galiza e a província de Zamora.
Foto 9. Moimenta da Raia, o planalto e ao fundo a Serra da Esculqueira (Esculqueira (c. de A Mezquita-GZ/ Pinheiro Velho (c. de Vinhais-P)), vistos da estrada.
Foto 10. Serra da Coroa e aldeia de Montouto (c. de Vinhais) vistos da estrada. Reparem nos estragos dos incêndios.
Foto 11. Vista do vale do Tuela no concelho de Vinhais. Em primeiro plano, o Lombo do Seixo.
Foto 12. Terceiro marco fronteiriço.
Foto 13. Quarto marco fronteiriço.
Foto 14. Marco fronteiriço anterior com vistas para o vale do Tuela nos concelhos de Lubián e Hermisende com a Serra do Marabón à esquerda, a Serra Segundeira ao fundo e a Serra da Gamoeda à direita.
Foto 15. Pequena planície do rio Tuela entre S. Cibrão de Hermisende (à esquerda) e Hermisende (à direita).
Foto 16. Aldeia de Hermisende vista da linha de fronteira.
Foto 17. Quinto marco fronteiriço.
Foto 18. Sexto e último marco fronteiriço à beira da estrada.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Moimenta da Raia/S. Cibrão de Hermisende

Entrando de novo no terreno do esquecimento, lá vai uma fronteira muito pouco conhecida. Trata-se da fronteira existente entre Moimenta da Raia, freguesia e aldeia do concelho de Vinhais, e São Cibrão de Hermisende (San Ciprián, na toponímia oficial). É pouco conhecida porque de Moimenta sai apenas um caminho rural de terra batida, enquanto de S. Cibrão há um desvio pavimentado de apenas uns 200 m. até ao mesmo limite fronteiriço que parte da estrada ZA-L 2698, que liga Hermisende com Castromil, aldeia que está partida em duas partes porque uma pertence ainda à província de Zamora e a outra faz parte já da Galiza, mais exactamente da província de Ourense e do concelho de A Mezquita. 

Partindo de Hermisende, temos de atravessar a ponte da Veiga, ponte medieval situada sobre o rio Tuela, um dos dois rios, que junto com o Rabaçal formam o Tua pouco antes de chegar a Mirandela. Daí há uma subida íngreme na que S. Cibrão fica de lado, visto que temos de passar de pouco mais de 790 m. no fundo do vale até quase os 1 000 m. passando a meia encosta da Serra do Marabón, serra que separa a província de Zamora da Galiza. Daí chegamos a um planalto granítico que desce em suave declive entre os 1 100 e os 900 m., flanqueado pela Serra do Marabón e a Serra da Coroa, situando-se Moimenta da Raia a uma altitude algo inferior aos 900 m., na parte mais baixa do planalto pouco antes de chegarmos às íngremes encostas quase em arribas do vale do Tuela.

Esta situação entre a Galiza, Leão e Portugal deu lugar a pontos como o chamado Penedo dos Três Reinos, não muito longe deste ponto fronteiriço, se bem na realidade o reino da Galiza tinha o seu limite oriental na Portela do Padornelo e as províncias do Antigo Regime mantiveram esta situação até 1833, com a reforma provincial de Javier de Burgos, que deu o território entre esta portela e a Portela da Canda, à província de Zamora. Os penedos graníticos fazem, pois, parte da paisagem deste planalto porque a sua elevada altitude faz com que abundem afloramentos rochosos e uma paisagem quase desoladora de estevas, urzes, giestas ou tojos, ou seja, grandes extensões de mato açoitados por um vento geado no Inverno e pelo calor intenso no Verão.

Daí a importância do fumeiro na região, aquém e além fronteiras, que beneficia destas temperaturas baixas que resultam ideais para o fabrico de enchidos e, no concelho de Vinhais, da cria do porco bísaro, verdadeira iguaria e marca identificadora da região. Como muitas aldeias, esta região sofreu com intensidade a emigração, mas manteve certos usos comunitários hoje em declínio e que, infelizmente, decerto morrerão com a extinção das gerações mais velhas, dedicadas à agricultura e à pecuária, numa economia típica de subsistência.

Do ponto de vista cultural importa salientar o facto de as relações transfronteiriças terem sido muito intensas, o que se traduziu numa mistura de traços do ponto de vista etnográfico e linguístico. As fronteiras na região realmente não foram bem delimitadas até ao Tratado de Limites de 1864. Já as Inquirições de D. Afonso III de 1258 mostravam que Portugal estava na posse da aldeia de Manzalvos e metade da aldeia de Cádavos, actualmente do concelho de A Mezquita, na Galiza. Relativamente à S. Cibrão é comummente aceite que esta aldeia junto com Hermisende e Teixeira pertenceram à coroa portuguesa até 1640, se bem Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e grande estudioso do distrito de Bragança, mostra que a documentação histórica não nos permite afirmar tal hipótese, sendo que talvez tenham sido perdidas ao longo do século XVI.

Seja como for, a dominação portuguesa deixou a sua marca na língua falada na região. A mal chamada Alta Sanábria ou Sanábria galega é na realidade a região das Portelas e o galego é a língua principal de uso, para além do castelhano oficial. No entanto, nestas três aldeias de S. Cibrão, Hermisende e Teixeira há quem afirme que é falado um galego com traços portugueses ou um português em descomposição, com traços galegos. Do ponto de vista filológico, S. Cibrão pertencerá ao grupo do chamado «portelego central», tendo perdido o uso do esse sibilante sonoro, que ainda se mantém nas aldeias de Hermisende e Teixeira, do grupo do «portelego oriental». Os seus habitantes não se consideram sanabreses, mas antes porteixos.

Em resumo, uma região de confluência de culturas que vale a pena visitar quanto mais não seja que pelas suas paisagens, o contacto com a Natureza ou o património cultural e humano. Embora o Verão seja a melhor estação para visitar, quer pelas suas melhores condições meteorológicas, quer pelo facto de haver uma vida mais animada com os emigrantes que voltam de férias e as romarias, eu gosto particularmente no Inverno, quando esse vento frio acaricia o meu rosto e sinto algo de purificador nisso, no meio do cheiro do mato e o fumo da lenha das casas lentamente queimada na lareira para aquecê-la ou até mesmo cozinhar pratos fortes e consistentes. Vai um bom cozido ou umas fatiazinhas de salpicão de porco bísaro?


 Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal e vista do planalto.
 Foto 2. Caminho fronteiriço entre penedos.
 Foto 3. Caminho da Moimenta, com a Serra da Coroa ao fundo.
Foto 4. Vista do planalto, entre Portugal e a Galiza onde se assentam aldeias como Carvalhas, Casares ou Manzalvos.
 Foto 5. Marco fronteiriço com vistas para a Serra do Marabón.
 Foto 6. Mudança de piso que indica o limite fronteiriço visto da parte da província de Zamora.
Foto 7. Vista da estrada da parte de Zamora, o planalto e a Serra do Marabón ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Aldeias fronteiriças: Ribeiro de Baixo.

Em primeiro lugar e antes de começar com o meu 'post' quero, embora tardiamente, desejar a todos os meus leitores tudo de bom neste ano de 2012 e que as festas tenham decorrido de maravilha junto dos seus familiares ou lá onde tiverem estado. Por motivos pessoais não tive tempo nem vontade de actualizar o blogue, pelo que, sendo verdade que posso escrever quando me apetecer, peço desculpa àqueles leitores que me seguem fielmente e que esperam novidades cá no «Fronteiras».

Mas como tudo nem é mau, tenho de dizer que parte da época do Natal aproveitei-a para descobrir novos lugares fronteiriços, entre eles este do qual vou falar hoje, em exclusivo para os leitores do «Fronteiras». No Alto Minho, no concelho de Melgaço, na sua freguesia mais extensa, a de Castro Laboreiro, para além da Vila, da qual teremos ocasião de falar, existem várias aldeias que recebem o nome de «brandas» (lugares mais altos) ou «inverneiras» (os mais baixos). Uma dessas aldeias, das incluídas nas inverneiras, é Ribeiro de Baixo, que obviamente é muito desconhecida pela grande maioria dos portugueses. A maior parte das pessoas relacionam Melgaço com o rio Minho, mas isso é verdade só em parte. Na realidade, a maior parte desta freguesia que faz parte, aliás, do Parque Nacional da Peneda-Gerês, está inserida do ponto de vista hidrográfico, na bacia do Lima, tendo como rio principal o Laboreiro, que desagua na barragem do Alto Lindoso (e portanto no Lima) e que se converte em rio fronteiriço após passar as aldeias da Ameijoeira e Mareco.

A freguesia está cheia de estradas rurais, uma das quais parte da própria Vila e que conduz até a inverneira de Ribeiro de Baixo, a última aldeia e a mais isolada de todos, além de ser a que está situada a uma altitude mais baixa (540 m. a beira-rio) em contraste com a elevada altitude das brandas ou aldeias de planalto que ultrapassam os 1 000 m. A estrada é na realidade um beco sem saída porque constitui o único elo de ligação com o resto do território e do mundo, por assim dizer. A aldeia fica encaixada no fundo do vale, existindo dois «bairros», um que fica na parte alta da mesma, entre os 600 e os 700 m. de altitude e outro que fica perto do rio, a uns 550 m. Daí que parte da produção agrária deva fazer-se em terrenos muito elevados em encostas íngremes, pelo que o cultivo da videira, por exemplo, que se dá nestas terras mais ensolaradas e menos expostas aos nevões do planalto, seja feito em socalcos.

A aldeia propriamente dita não oferece elementos distintivos do que qualquer outra aldeia minhota. Há influências serranas nas casas tradicionais pelo uso da pedra de granito, existem alguns espigueiros e há uma grande importância da pecuária, designadamente de vacas e cabras. Para além de algumas casas típicas de emigrantes, a aldeia quase não apresenta grandes mudanças no casario tradicional a não ser o facto de estar pavimentada e as comodidades modernas como a luz, a água, etc.

A fronteira não se distingue porque não existe na prática. Não há comunicações com o lado galego da fronteira porque do outro lado do rio Laboreiro, para além de uma pequena e reduzida mas fértil veiga, a Serra do Quinxo, situada integramente no concelho galego de Entrimo, constitui uma verdadeira muralha, um entrave às comunicações, já que chega a ultrapassar os 1 150 m. de altitude. Dai que o rio Laboreiro apresente águas bravas neste ponto, com cascatas espectaculares e águas cristalinas. O destaque vai certamente para a paisagem envolvente porque podemos ver nestas agrestes montanhas quase no meio de nenhures, alguns sinais de vida, lameiros verdejantes e videiras, com um sol convidativo ao «dolce far niente». 

No rio Laboreiro existe uma ponte que comunica os dois lados, o português e o galego, mas nada indicaria isto se não fosse por um marco fronteiriço degradado e marcado numa pedra próxima e um cartaz em galego que nos indica que estamos na Baixa Limia.

Enfim, mais uma vez, um recanto esquecido e perdido na nossa Raia que vale a pena conhecer.

 Foto 1. Cultivo da videira em socalcos, na parte alta da aldeia.
 Foto 2. Parte baixa da aldeia vista da parte alta, com a Serra do Quinxo ao fundo.
 Foto 3. Vista geral da parte baixa, do rio Laboreiro e dos lameiros situados na parte galega.
 Foto 4. Rio Laboreiro entre Portugal e a Galiza antes de entrar no Ribeiro de Baixo.
 Foto 5. Lameiros da parte galega vistas do lado de Portugal.
 Foto 6. Capela da aldeia, situada na parte alta.
 Foto 7. Rio Laboreiro visto do lado de Portugal.
 Foto 8. Parte baixa da aldeia e veiga do rio Laboreiro.
 Foto 9. Marco fronteiriço na parte galega.
 Foto 10. Numeração do marco numa pedra próxima.
 Foto 11. Cartaz galego indicando o Parque Natural da Baixa Limia-Serra do Xurés.
 Foto 12. Rio Laboreiro e ponte fronteiriça.
 Foto 13. Rio Laboreiro visto da ponte fronteiriça em direcção Sul.
 Foto 14. Rio Laboreiro visto da ponte fronteiriça (e a minha sombra!) em direcção Norte.
 Foto 15. Na beira do rio Laboreiro na parte portuguesa com vista para o monte do Quinxo na serra do mesmo nome.
 Foto 16. Ponte fronteiriça vista do lado português.


Mapa 1. Mapa de situação.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fronteiras: Pinheiro Velho/Esculqueira

Hoje vou falar da mais recente descoberta que fiz. Trata-se de uma fronteira muito pouco conhecida mas que fica, no entanto, do lado da Galiza, perto da auto-estrada A-52, resultando, portanto, um bom ponto de passagem para visitar o Parque Natural de Montesinho e a região da Lomba, no concelho de Vinhais, em plena Terra Fria transmontana. É a fronteira que liga a aldeia do Pinheiro Velho, pertencente à freguesia de Pinheiro Novo com à galega de Esculqueira, pertencente ao concelho de A Mezquita (ou Mesquita).

A fronteira decorre num planalto situado ao sopé da Serra da Esculqueira que atinge os 1 148 m. de altitude máxima no pico do Serro quase mesmo no limite fronteiriço com Portugal. Esse planalto não é mais do que uma continuação do planalto que se estende pelo concelho galego da Mesquita e que se estreita neste ponto entre esta serra e outra de similar altitude mas menos definida pela qual decorre o limite fronteiriço com uma altitude de 1 146 m. no pico da Igrejinha.

A aldeia da Esculqueira fica situada no planalto do qual já falamos a uma altitude de quase 1 000 m. Após apanhar a estrada da fronteira, com um indicador indicando Portugal digamos, rústico, a estrada eleva-se suavemente até os 1 020 m. para descer de novo também suavemente até ao limite fronteiriço situado a uma altitude um bocado superior aos 1 000 m. seguindo-se em declive suave até começar uma descida em forte pendente que nos leva até a aldeia de Pinheiro Velho, situada a uns 840 m. de altitude, encerrada num pequeno vale com inúmeros regatos que desaguam no rio Assureira, afluente do rio Rabaçal, ou directamente neste.

Essas elevadas altitudes fazem que os lameiros sejam dominantes na região, ao lado de algumas árvores de folha caduca e matagais de urze, esteva, giesta, tojo, etc. Infelizmente nem sempre a natureza é respeitada e sempre há que noticiar algum incêndio como se pode ver nas fotografias que seguem a este 'post'. A água é abundante e os Invernos podem ser frios e rigorosos. Mas isso também é uma mais-valia na produção do fumeiro, que no concelho de Vinhais atinge a sua máxima expressão com os enchidos de porco bísaro. Obviamente, os preços também estão em consonância com a alta qualidade do produto. O salpicão é do melhor e ainda as chouriças, o chouriço e a morcela. 

Relativamente à caracterização das aldeias, importa dizer que a aldeia da Esculqueira está situada num lugar aprazível, de planalto, com belas paisagens que chegam, não só até à serra do mesmo nome, mas também à portuguesa Serra da Coroa e a região das Portelas, designadamente a Portela da Canda, que constitui hoje o limite da Galiza com a vizinha província de Zamora. No entanto, infelizmente, a aldeia aparece hoje muito descaracterizada, com casas tradicionais em ruínas e casas da década de cinquenta e sessenta não muito bem conservadas e que nada têm a ver com o casario tradicional, para além de algumas casas mais modernas características de emigrantes. A sensação, entretanto, foi a de uma aldeia pouco consistente, sem serviços, em que não apetece nada ficar, o que foi pena, pois existem aldeias galegas fronteiriças bem conservadas.

Pinheiro Velho foi outra coisa. Uma aldeia que mantém a tradição, com menos excessos «urbanísticos» que descaracterizaram muitas aldeias de um e do outro lado da fronteira a causa da «modernidade», na qual, para além de algumas casas de emigrantes mais modernas à entrada, as casas mais modernas não destoam do casario tradicional. O granito é predominante numa região de transição para o domínio do xisto que cobre inúmeros telhados das aldeias galegas vizinhas. De certa forma, visitar esta aldeia significa reviver experiências que considerávamos esquecidas como se retrocedêssemos quarenta anos, mas sabendo que as condições de vida, são, no entanto, muito melhores. Sente-se o cheiro da humidade, sente-se o cheiro do gado, da bosta deitada no chão, o cheiro da lenha arrumada na parte de baixo da casa, em garagens ou em cantinhos que servem para o efeito, o cheiro da comida e é claro, o cheiro do fumo que sai das chaminés, impregnando o ambiente.

A escassa população e uma paisagem inóspita que contrasta com a fértil veiga que banha a aldeia e onde estão situadas hortas que dão batata, couve e outros legumes e hortaliças, acentuam essa sensação de solidão rota apenas pela simpatia dos habitantes que ainda resistem o embate da modernidade e preferem continuar na sua aldeia natal sabendo não deixam de ser uma raridade nestes tempos, estampa que, infelizmente, parece devotada à sua desaparição. Mas ao lado da solidão, o homem também pode sentir essa comunhão com a natureza, longe da artificialidade das cidades, longe, em definitiva, de tudo...

Aproveitem enquanto há tempo. Vale a pena deixar-se perder por estes cantinhos da Raia, especialmente no Outono ou no Inverno, estações que eu pessoalmente prefiro para visitar estes lugares, quando eu os acho mais autênticos, sem desmerecer outras. Fica aqui dito.

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza.
 Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado da Galiza.
 Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
 Foto 4. Limite fronteiriço com a Galiza visto do lado de Portugal.
 Foto 5. Serra da Esculqueira vista do limite fronteiriço.
 Foto 6. Entrada ao Parque Natural de Montesinho.
 Foto 7. Vista geral da Esculqueira.
 Foto 8. Paisagem outonal na Esculqueira.
 Foto 9. Mais «outonalidades».
Foto 10. Casa tradicional da Esculqueira, em ruínas.
 Foto 11. Vista geral do planalto, com a Portela da Canda ao fundo.
 Foto 12. Vista geral do Pinheiro Velho, com o rescaldo de incêndios recentes.

 Foto 13. Entrada à aldeia e um bom exemplo de harmonização do moderno e do tradicional.
 Foto 14. Casas em granito no centro da aldeia.
 Foto 15. Mais casas tradicionais.
 Foto 16. Entre o antigo e o moderno...
 Foto 17. Outras ruas da aldeia.
 Foto 18. Mais ruas e canelhas, com o granito omnipresente.
 Foto 19. Largo da igreja.
 Foto 21. Igrejinha da aldeia.
 Foto 21. Regatos e hortas.
 Foto 22. Vista da fértil veiga do Pinheiro Velho com as serras fronteiriças ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Damos ainda as boas-vindas como amigos do blogue a Lamartine Dias e a Carmen. Esperamos não defraudar as suas expectativas.