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quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Fronteiras: Ponte internacional do rio Sever (Beirã (c. de Marvão)/Valência de Alcântara)

Uma fronteira muito interessante pela paisagem envolvente é a ponte internacional do rio Sever, um afluente do Tejo. Aliás, tem a particularidade de ser uma fronteira de uma linha ferroviária correspondente ao chamado «ramal de Cáceres», hoje infelizmente encerrado. O nome do ramal é devido a que da Torre das Vargens contorna Castelo de Vide e Marvão e entra em Espanha dirigindo-se para Valência de Alcântara e Cáceres, a segunda maior cidade da Extremadura espanhola. Daí vai até Madrid.

Esta linha foi construída inicialmente para dar saída aos fosfatos extraídos de uma mina situada perto de Cáceres pelo porto de Lisboa porque o transporte de passageiros fazia-se pelo ramal do Leste, via Elvas e Badajoz e estava prevista a construção de uma ferrovia a partir da linha da Beira Baixa. Como esse projecto foi abandonado, finalmente o ramal, inaugurado finalmente em 1881, serviu também para esse propósito, apesar de não reunir as melhores condições para o tráfego. O seu encerramento foi equacionado o ano passado de 2011 na sequência dos cortes orçamentais que têm vindo afectar várias linhas ferroviárias consideradas deficitárias. É esta linha por onde discorria o famoso Expresso Lusitânia, um expresso nocturno que fazia a ligação Lisboa-Madrid saindo da Estação de Santa Apolónia até à Estação de Chamartín entre 1943 e 1995, que foi substituído pelo Lusitânia Comboio-Hotel. Nunca foi um comboio barato, nem ainda hoje pois só o bilhete em classe turista, isto é sem direito a cama custa 60,50 EUR no bilhete simples e 97,00 EUR no bilhete de ida e volta. Já o preço mais caro vai para os que pretenderem uma viagem de ida e volta em cama «Gran classe»: a «módica» importância de 325,40 EUR, que inclui ainda pequeno-almoço e jantar (com esse preço só faltava que não estivesse incluído!)

A ponte internacional é uma ponte de ferro, com dois pilares, sobre o rio Sever que nesta parte é já um rio fronteiriço até à sua foz ao desaguar no Tejo. Resulta interessante o facto de indicar o marco fronteiriço 673 no meio da ponte e ainda os materiais da ferrovia, alguns deles bastante antigos, como indica uma placa de 1908 escrita ainda antes do Acordo Ortográfico de 1910. A paisagem envolvente é de montado em ambos os lados da fronteira, com herdades isoladas no campo. A azinheira é a árvore rei, se bem encontramos ao longo do rio árvores de ribeira. A região é também rica em antas, mamoas o dólmenes, nomes utilizados para estas amostras de arquitectura megalítica das quais o Alentejo e a Extremadura espanhola apresentam a maior concentração da Europa.

De resto, o local é ideal para dar passeios, especialmente na Primavera, quando brotam as flores, e o tempo é aprazível.

Foto 1. Ramal de Cáceres visto da parte espanhola.
Foto 2. Ponte internacional visto da parte espanhola.
Foto 3. Ponte internacional e sua estrutura vistos da parte portuguesa.
Foto 4. Vista geral da ponte.
Foto 5. Arqueologia industrial: placa de 1908.
Foto 6. Marco fronteiriço no meio da ponte.
Foto 7. Pequena herdade vista da ferrovia do lado português.
Foto 8. Paisagem vista da ponte do lado português. A linha de árvores de ribeira indica a posição do rio Sever e a fronteira.
Foto 9. Rio Sever visto da margem norte da ponte.
Foto 10. Rio Sever visto da margem sul da ponte.
Foto 11. Paisagem de montado visto da ponte para a parte espanhola.
Foto 12. Herdade Tira-calças (Tiracalzas em espanhol) a 3 km. da ponte internacional.
Foto 13. Paisagem de montado vista da parte espanhola com a fronteira e o rio à direita.
Foto 14. Rio Sever visto da herdade Tira-calças. A parte portuguesa fica na margem esquerda.
Foto 15. Rio Sever com a parte portuguesa na outra margem.
Foto 16. Paisagem de montado na parte portuguesa com restos de uma anta vistos do lado espanhol do rio Sever.
 Foto 17. Rio Sever no seu lento percurso para o Tejo.
 Foto 18. Zona ribeirinha e paisagem de montado da parte espanhola (Herdade de Tira-calças).
Foto 18. No meio do rio Sever, com a margem portuguesa à direita.



Mapa 1.

Mapa 2. Mapa específico.

terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casas de la Duda, Pino (Valência de Alcântara)

Há curiosidades fronteiriças e curiosidades. Esta é possivelmente uma das mais raras e menos conhecidas da Raia. Mas para isso é preciso entrar em antecedentes. Em primeiro lugar, temos de dizer que a fronteira, tal como a conhecemos hoje advém do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 e que definiu a fronteira com uma série de trabalhos que consistiram em comparar os documentos existentes por parte das duas comissões, portuguesa e espanhola, e fixar uma série de marcos fronteiriços numerados. Esses trabalhos, como já disse nalgum momento, pararam na confluência do rio Caia com o Guadiana com o marco 807 a causa da questão de Olivença, que levou a um novo tratado, em 1927, que definiu os restantes entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Restam ainda por colocar 100 marcos entre o Caia e a Ribeira de Cuncos a causa da questão citada.

Em segundo lugar, esta curiosidade prende-se pelo facto da própria geografia da região, em plena Serra de São Mamede. Esta serra é na realidade um conjunto de alinhamentos montanhosos, mais ou menos paralelos entre os quais se intercalam pequenos vales, várzeas e meias-encostas nas quais chegam a cultivar-se a oliveira e a videira em socalcos. A linha de fronteira costuma ir paralela ao cume das montanhas, a partir da Serra Fria, que atinge os 974 m., situada entre as localidades de Galegos e Porto da Espada, que pertencem ao concelho de Marvão, mas este não é o caso da Serra da Palha (ou Sierra de la Paja, em espanhol), já que a raia fronteiriça discorre a meia encosta do lado de nascente ou a jusante. 

Em terceiro lugar, um bocadinho de História. O século XVII significou um período de forte crise económica no seio da chamada Monarquia Hispânica (e não Espanha, porque a dinastia dos Habsburgo de Madrid reinavam sobre todos os seus territórios mas estes mantinham as suas leis e estatutos. Nunca houve, apesar dalguns intentos, uma uniformização administrativa). Para Portugal esta situação mais a Guerra da Restauração (1640-1668) significou uma época de verdadeiras penúrias económicas pelos custos de uma guerra prolongada e a posterior reconstrução. Em Espanha vai supor uma mudança de paradigma. Se até o fim do século XVI na pré-crise, o centro peninsular era o mais desenvolvido, designadamente Castela-Velha, Castela-Nova e o antigo reino de Leão (especialmente Salamanca), a crise europeia do século XVII vai fazer com que a periferia, que até então estava muito menos desenvolvida, com excepção da Baixa Andaluzia, comece a destacar-se do centro, enquanto este ficava exangue a causa das contínuas guerras em que a monarquia se viu envolvida a nível europeu e nas colónias americanas. O celeiro de homens para a guerra era Castela, que sofreu mais o decréscimo demográfico e as suas consequências económicas. Resultado: Enquanto Portugal experimentava um notável crescimento económico acrescentado com a vinda do ouro do Brasil no século XVIII, as regiões espanholas do centro peninsular foram as últimas em sair de uma crise que as tinha deixado sem fôlego. Isto traduziu-se num crescimento demográfico muito mais elevado em Portugal, incluindo a região do Alentejo, em claro contraste com as regiões raianas espanholas, verdadeiros desertos demográficos.

Importa salientar que este terceiro factor contribuiu para uma primeira vaga migratória portuguesa para os espaços raianos de algumas partes da Extremadura espanhola pela pressão demográfica existente no Alentejo frente ao vaziamento demográfico da primeira. Se já existia uma aldeia em que se falava português desde a Idade Média (é o caso de Ferreira (Herrera) de Alcântara, no Tejo Internacional), é no século XVIII que começa a colonização de vilas como Cedilho e um conjunto de aldeias que contornam a localidade de Valência de Alcântara como é o caso de Fontanheira (La Fontañera), S. Pedro, Casinhas (Las Casiñas), Hortas (Las Huertas), Pino o Jola, aldeias em que ainda se mantém viva a língua portuguesa, embora seja com alguma influência do castelhano. Nelas fala-se um dialecto de tipo alto-alentejano com traços beirões, pela relativa proximidade da Beira Baixa.

E é em Pino, ou Pino de Alcântara, que encontramos esta curiosidade. O acesso vindo de Portagem/Marvão é muito fácil porque basta seguir a estrada para a fronteira de Galegos/Puerto Roque e já em Espanha, seguir pela estrada N-521, deixar ao lado uma estação de serviço situada à esquerda e, a 2 km. da fronteira, continuar pelo desvio para Pino, que fica a 1 km. Dai temos de chegar até ao fundo da aldeia, lugar em que fica o café local e seguir por um caminho rural de terra batida. A pouco mais do que 1 km. encontramos Casas de la Duda. Trata-se de um conjunto de casas espalhadas a meia encosta da Serra da Palha que ficam à beira da Ribeira da Dúvida, riacho que nasce em território português a jusante da aldeia do Montinho e que atravessa a aldeia de Pino e com outros cursos de água acaba por desaguar no rio Sever, um afluente do Tejo que nasce na Serra de S. Mamede e que acaba por constituir o limite fronteiriço com a província de Cáceres entre os concelhos de Marvão e Nisa, desaguando no Tejo na barragem de Cedilho, ponto em que o Tejo começa a ser inteiramente português.

A particularidade deste lugar tem a ver com os limites fronteiriços, pouco claros e definidos. Foi precisamente essa indefinição o que fez que este conjunto de casas fossem conhecidas como Casas de la Duda (da Dúvida), pela impossibilidade de saber em que lado estavam situadas, se no lado de Espanha ou no lado de Portugal, ficando algumas mesmo «partidas» pela linha de fronteira. Infelizmente, a emigração fez que ficassem abandonadas, sendo algumas usadas para a prática da pecuária, designadamente rebanhos de ovelhas, que pastam pela serra. A fronteira está presente nos dois marcos fronteiriços situados a ambos os dois lados da Ribeira da Dúvida, sem qualquer outra indicação. É de salientar o facto de que algumas das casas apresentam a forma típica de casario alentejano, o que não deve espantar pelas razões históricas acima descritas.

De resto, a aldeia de Pino, e uma bela amostra da mistura entre elementos da casa típica alentejana e traços extremenhos. Frente a nomes de rua de personagens históricos espanhóis, existem outros de indelével marca portuguesa como a Casa do Cabeceirinho (Casa del Cabeceiriño) ou as calles (ruas) Parra e Montiño (Montinho).

Agora só resta ver e apreciar as fotografias ilustrativas!

Foto 1. Marcos fronteiriços na Ribeira da Dúvida.
Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal com a lua ao fundo.
Foto 5. Marco fronteiriço situado para Oeste da ribeira.
Foto 6. Uma das casas que ficariam no lado português.
Foto 7. Outra das casas do lado português com a Serra da Palha ao fundo.
Foto 8. Vista das casas duvidosas e as encostas.
Foto 9. Casas que ficariam no lado espanhol.
Foto 10. Vista geral do lugar de Casas de la Duda.

Foto 11. Vistas sobre a Ribeira da Dúvida, os marcos fronteiriços e a serra.
Foto 12. Casa com chaminé de tipo alentejano.
 Foto 13. Vista geral da aldeia de Pino.
Foto 14. Igreja matriz.
Foto 15. Ruas da aldeia com casas de traço alentejano.
Foto 16. Chaminé alentejana.
Foto 17. Praça da aldeia no início da calle Montiño.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.