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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rio de Onor: A mítica aldeia raiana

Chegou o tempo de falar de Rio de Onor, a mítica aldeia raiana. Mítica porque foi alvo de vários estudos etnográficos como o famoso estudo de Jorge Dias (Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril) e linguísticos. As práticas comunitárias em Rio de Onor têm sido objecto de inúmeras reportagens em televisão e a sua particularidade de se tratar de uma aldeia transfronteiriça ou se quiser, duas aldeias gémeas: a portuguesa de Rio de Onor e a espanhola de Rihonor. 

Hoje vamos falar apenas em fronteiras porque falar em Rio de Onor vai muito mais além do que um simples 'post' no blogue. De facto existem tantos tópicos que podem ser tratados (ponto de vista histórico, etnografia, história recente, linguística, tradições, etc.) que quase poderíamos escrever um blogue em exclusivo sobre a(s) aldeia(s).

Rio de Onor está situada no limite fronteiriço que separa a região da Sanábria, na província de Zamora, e o Nordeste Transmontano, dentro do Parque Natural de Montesinho, sendo que a aldeia portuguesa está considerada como uma «aldeia preservada». O nome da aldeia serve também para dar nome ao rio que a atravessa, se bem que o rio também é conhecido como rio Contensa. Este rio abeira-se às casas que fazem parte de Rio de Onor de Cima, as mais tradicionais, erguendo-se sobranceira, a igreja matriz. Do outro lado apenas há umas poucas casas modernas no caminho à fronteira. Já em Rio de Onor de Baixo, passado o açude existente e o moinho, hoje em desuso, há uma ponte que parece de factura medieval que separa os dois bairros da aldeia portuguesa.

A fronteira está delimitada pelos marcos fronteiriços, o próprio rio e a ribeira de Regassores, que já aparece nas Inquirições de 1258, mandadas pelo rei D. Afonso III, designado como riuulum de Açores. Mas na realidade nunca houve fronteira aqui. Até ao dia de hoje as relações entre os vizinhos de ambos os lados da fronteira são relações de família. Os casamentos mistos são frequentes como frequentes são as deslocações de um e do outro lado da fronteira para trabalhar nos campos de lavoura. 

 O livre trânsito foi a realidade quotidiana de sempre e hoje ninguém daria pela diferença entre um e o outro lado da fronteira a não ser por alguns pormenores como a calçada portuguesa em Rio de Onor de Baixo frente ao pavimento de betão de Rio de Onor de Cima. As casas tradicionais respondem a um mesmo padrão: casas de xisto com telhado também de xisto, com andar térreo que normalmente serve de curral e um primeiro piso que serve de habitação com escadaria e varanda em madeira.

Mas a fronteira não se vê por lado nenhum. Resulta anedótico o facto de ter existido uma corrente que dividia ambas as aldeias de 1975 a 1990. Pelos vistos, depois do 25 de Abril de 1974 existiu o temor de que as tropas de Franco entrassem em Portugal por este ponto fronteiriço. Diz-se ainda que foi para controlar o contrabando e evitar uma emigração maciça nos tempos do PREC (como se não houvesse já tantos emigrantes portugueses que fugiram da guerra colonial e da pobreza...). De qualquer forma parece que um tenente chamado Pinheiro coloca na fronteira uma corrente para impedir a passagem de viaturas motorizadas, o que vai causar inúmeros incómodos a população local, acostumada como estava à passagem com carros de bois, vacas, ovelhas ou tractores. Não foi até o 24 de Agosto de 1990 que puderam passar normalmente carros e tractores como numa estrada qualquer.

Disso hoje não resta nada em Ruidenore, nome que recebe a aldeia no dialecto rionorês, um dialecto de base asturo-leonesa que apresenta alguns traços do português transmontano e que foi definido por Maria José de Moura Santos no seu clássico estudo sobre os falares fronteiriços de Trás-os-Montes publicado em 1966 como um dos falares raianos melhor caracterizados, enquanto recentemente o filólogo espanhol Xavier Frías Conde que o situa dentro do dialecto sanabrés do Sul, dentro do sub-sistema de dialectos da língua asturo-leonesa.

Quem visitar hoje Rio de Onor desfrutará de belas paisagens, apreciará uma tradição etnográfica ímpar, mas sobretudo, travará boas e animadas conversas com os naturais do lugar. Não verá fronteira nenhuma. Pena que alguém, em 2008 tenha destacado na parte espanhola o sinal de estado que não existe do lado português e que é o único pormenor que afeia o lugar. Não faz sentido numa aldeia sem fronteiras muito antes da tão badalada Europa sem fronteiras. Mágoa!

 Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado português.
 Foto 2. Simulação da corrente que existiu entre 1975 e 1990.
 Foto 3. Delimitação da fronteira vista de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 4. Vista da fronteira e da ribeira de Regassores.
 Foto 5. Fronteira portuguesa vista do lado espanhol.
 Foto 6. Rio de Onor de Baixo visto do limite fronteiriço.
 Foto 7. Moinho e açude com indicação da fronteira visto de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 8. Marco fronteiriço situado na ribeira de Regassores e ponte que liga ambos os lados da fronteira.
 Foto 9. Marco fronteiriço e foz da ribeira de Regassores vistos da ponte fronteiriça.
 Foto 10. Limites fronteiriços visto da foz do Regassores.
 Foto 11. Ribeira de Regassores com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 12. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores.
Foto 13. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores com vista para a igreja matriz de Rio de Onor de Cima.



Ver Rio de Onor / Ruidenore num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

sábado, 6 de novembro de 2010

Fronteiras: Portelo/Calabor

Duas fronteiras ligam a linda região da Sanábria (Seabra) com o Nordeste Transmontano: a fronteira de Rio de Onor, a mítica aldeia raiana, e a fronteira de Portelo/Calabor. A falta de uma boa ligação entre Puebla de Sanábria e Bragança (tem-se falado na construção de uma auto-estrada), estas são as duas únicas opções existentes. Um aspecto importante é a melhora da estrada espanhola entre Puebla de Sanábria e a fronteira, se bem que não evita as múltiplas curvas lá existentes. O alcatroado é muito recente e finalmente podemos ter uma ligação numas condições aceitáveis.

A estrada atravessa zonas despovoadas onde não se vê vivalma, sobre tudo depois de ter passado a localidade de Pedralba de la Pradería, última aldeia antes de chegar a Calabor. A fronteira decorre uns quilómetros depois de termos passado esta povoação e logo a seguir chegamos a Portelo, já na Terra Fria Transmontana. Do lado português as aldeias sucedem-se: Portelo, França, Rabal e, finalmente, chegamos a Bragança, não sem antes entrar brevemente na freguesia de Meixedo. São aldeias que pertencem ao Parque Natural de Montesinho, mas que, no entanto, segundo o meu ponto de vista, trata-se de aldeias mais bem descaracterizadas, se bem que não isentas de certa beleza natural. De facto encontramos parques de merendas e zonas de banho e até mesmo moinhos ao lado do rio Sabor, mas não têm nada a ver com a «aldeia preservada» de Montesinho a 1 km. do Portelo, à que se acede por uma estrada que fica a Sul desta última.

Do lado espanhol, resulta interessante o facto de Calabor ser, segundo estudos filológicos, uma aldeia onde ainda se fala um dialecto de origem galaico-portuguesa onde os portuguesismos são frequentes, o que não admira, visto o facto de a aldeia mais próxima ser à do Portelo e de ficar mais perto de Bragança do que de Puebla de Sanábria. Embora a tipologia do casario seja parecida, cá destacam os telhados de xisto, que no Portelo só encontrámos nas casas mais velhas, sendo substituídos por telhas de barro cozido vermelho.

A Natureza, como não pode ser de outra forma, é o activo mais importante da região. Sanábria bem merece uma visita em qualquer estação do ano. No Inverno poderemos ver os cumes das montanhas nevados e desfrutar de um bom cozido feito com o feijão típico da região conhecido como habones. De salientar ainda a truta do lago de Sanábria e o polvo, feito de forma semelhante à maneira galega e as carnes de vitela. Na Primavera é o despertar e veremos a região verdejante e, sobre tudo, sem muitos turistas. No Verão, embora os turistas às vezes cheguem a ser excessivos, bem vale a pena tomar banho no lago de Sanábria, sobre tudo num dia quente. Finalmente, no Outono, vale a pena ver a região e contemplar os tons dourados das árvores, principalmente castanheiros. Para quem não é do Nordeste Transmontano, é uma região muito desconhecida para o turista português, mas tem uma riquíssima etnografia popular e muitas ligações de proximidade. Atrevo-me a afirmar que seja talvez a mais «portuguesa» das regiões da província de Zamora. É claro que é apenas minha opinião, mas acho que tem algum fundamento. Puebla de Sanábria e o seu castelo e igreja, o mosteiro de S. Martinho da Castanheira, o lago de Sanábria e, em geral, qualquer aldeia, é óptima para um passeio ou para iniciar percursos pela Natureza onde descobriremos vales glaciários, cascatas, florestas, etc.

De qualquer forma, continuo a preferir a ligação entre Bragança e Puebla de Sanábria por Rio de Onor, se bem que não é apta para autocarros nem viaturas de grandes dimensões, já que as ruas desta aldeia são um bocadinho estreitas, mas é óptima para ligeiros. Apesar de a estrada de ligação entre Rio de Onor e Puebla de Sanábria ser bem mais estreitinha, não há tantas curvas e o percurso é menos demorado. De qualquer forma, há duas opções à escolha!


Foto 1. Antiga alfândega espanhola.
Foto 2. Zona da alfândega espanhola.
Foto 3. Fronteira espanhola vista do limite fronteiriço.
Foto 4. Limite fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 5. Marco fronteiriço (lado de nascente).
Foto 6. Terras raianas.
Foto 7. Marco fronteiriço (lado de poente).
Foto 8. Fronteira portuguesa.
Foto 9. Cores do Outono junto do limite fronteiriço de poente.
Foto 10. Estrada portuguesa N103-5 com vistas para a Serra de Montesinho e as vizinhas serras espanholas.
Foto 11. Antiga alfândega portuguesa. Aquando dos controlos fronteiriços existia uma coberta como as existentes nas bombas de carburante onde ficava a GNR a fazer tais controlos.
Foto 12. Fronteira espanhola vista da fronteira portuguesa.



Ver Fronteiras: Portelo/Calabor num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Fronteiras: Cisterna/Barxa

Uma das fronteiras menos conhecidas seja talvez a que liga a aldeia de Cisterna, no extremo Norte do concelho de Vinhais, na Terra Fria Transmontana com a aldeia galega de Barxa. Isto apesar da proximidade de ambas as aldeias com o importante eixo de comunicação que é a chamada auto-estrada das Rias Baixas ou A-52 no troço que liga A Gudiña com Verín.

Mas não devemos esquecer que estamos perante uma das terras mais afastadas da civilização, mas com umas belas e espectaculares paisagens onde os rios se estendem quer em férteis veigas onde é possível um modesto desenvolvimento da agricultura, quer em vales encaixados com encostas íngremes que semelham a arribas nas que a floresta é dominante. Não é por acaso que estamos no limite mais ocidental do Parque Natural de Montesinho, cujo nome evoca outras terras próximas na realidade mas longínquas do ponto de vista das comunicações terrestres. E, no meio de tantas montanhas, existem pequenos planaltos onde se localizam pequenas aldeias como Cisterna onde o centeio é o cultivo dominante.

Nesta terra nunca os rios Mente e Rabaçal ficaram tão próximos o um do outro, sendo que depois divergem e serpenteiam até o primeiro desaguar no segundo pouco antes de chegar a Rebordelo, a ultima localidade do concelho de Vinhais antes de entrar no distrito de Vila Real. E é o rio Mente que faz fronteira numa parte do seu percurso, encaixado num vale profundo contrastando com os planaltos onde ficam aldeias como a da Cisterna.

Como sempre nestas terras fronteiriças, as oportunidades de usufruir da calmaria da Natureza e do contacto com gentes simples das aldeias, de passeios pela montanha ou da sua gastronomia, onde os enchidos são os reis. Não devemos esquecer as excelências do porco bísaro de Vinhais: um bom salpicão vale sempre a pena. Mas não fica para trás o presunto galego, muito parecido com o nosso presunto de Chaves. E é que o rigor do tempo invernal justificam este consumo de gorduras. Estamos perdoados, pois...

De resto, não existem muitas diferenças entre o lado português e o lado galego. O casario é muito semelhante a não ser a predominância, nestas terras, do telhado de xisto na Galiza, que no concelho de Vinhais encontra-se em franco declínio. Afinal de contas, estas aldeias partilham uma economia agro-pastoril de subsistência ou o que resta dela, resistindo-se a morrer nestes tempos tecnológicos. Definitivamente, mais uma visita que vale a pena!




Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza.
Foto 2. Marco fronteiriço situado à direita da estrada.
Foto 3. Marco fronteiriço à esquerda da estrada e velha construção em ruínas.
Foto 4. Fronteira vista para os lados da Galiza.
Foto 5. Estrada de ligação à Barxas.
Foto 6. Vista geral de Cisterna.
Foto 7. Vista de Cisterna (pormenor).
Foto 8. Vista de Cisterna com Castrelo de Cima (Galiza) ao fundo.
Foto 9. Vale do rio Pentes (Rabaçal em Portugal) perto do limite fronteiriço.

Foto 10. Vista geral de Barxa.
Foto 11. Vista de Barxa (pormenor).

Foto 12. Cisterna vista da Veiga do Seixo (Galiza). O regato faz de limite fronteiriço (afluente do rio Mente).



Ver Fronteira Cisterna/Barxa num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação (Há um erro no mapa. Quirás fica mais a Sul. São Google nem sempre é perfeito!)

sábado, 27 de junho de 2009

Aldeias raianas: Montesinho

Na serra do mesmo nome, rodeada de montanhas, situa-se a aldeia de Montesinho, em pleno Parque Natural de Montesinho, que abrange as serras fronteiriças dos concelhos de Bragança e Vinhais, na Terra Fria transmontana.

O acesso à aldeia faz-se por uma estradinha alcatroada que se inicia na N103-1 à saída da também raiana aldeia do Portelo, na fronteira Portelo/Calabor, que liga Bragança com Puebla (Póvoa) de Sanábria (Seabra). A estrada sobe entre curvas no meio de uma floresta de coníferas, muito típica da região, onde não pode faltar uma fonte à esquerda onde podemos tomar água fresca serrana. Chegados ao alto, podemos contemplar uma visão geral da aldeia, no cruzamento entre a estrada que vai para a aldeia e a estrada (que se converte logo numa estrada de terra batida) que vai para a barragem de Lama Grande.

Montesinho é, como outras aldeias do Parque, uma «aldeia preservada», pelo que conserva bastante intacto o casario tradicional desta parte do Nordeste Transmontano. Ao contrário que as aldeias vizinhas, em Montesinho ainda se conservam os telhados de xisto, que entraram em declínio na região com a progressiva "modernização", ficando o xisto reduzido a aldeias como o próprio Montesinho, Rio de Onor ou Guadramil ou com misturas entre telha e xisto, como acontece na aldeia de Varge.

A maior parte das casas está construída em pedra de granito, com cobertura de xisto. Isto porque a região pertence a uma zona onde há um predomínio do granito. De facto, o acesso à barragem de Lama Grande não é lá muito complicado. A barragem, longe do que poderia parecer, fica num pequeno planalto com uma elevação superior aos 1 200 m. caracterizado pela existência de penedos rochosos arredondados pela erosão e calhaus de tamanho diverso, todos em granito.

A aldeia conta com um pequeno museu onde podem ver-se coisas relacionadas com a sua História, a sua caracterização geológica e os modos de vida tradicionais. Conta com estabelecimentos de turismo rural e alguns serviços, entre os quais não podem faltar os cafés. Como fica no alto, resulta ideal para dar um passeio no verão, já que não nos vamos sentir , em geral, incomodados pelo calor, longe da quentura que às vezes assola a cidade de Bragança. Trata-se de uma aldeia aprazível, onde os seus moradores continuam os seus modos de vida tradicionais sem renunciar a terem boas infra-estruturas como fica de manifesto nas suas ruas bem cuidadas e arranjadas.

Para quem desejar tomar um banho, a barragem de Lama Grande oferece boas oportunidades, para além das vistas para uma paisagem desolada na que o cume das montanhas que ficam para Leste fazem de limite fronteiriço e onde está situado, imediatamente, um parque eólico, já em terras de Calabor, aldeia sanabresa onde é falada uma forma de galego meridional influída pela nossa língua portuguesa o qual resulta óbvio ao ser a aldeia do Portelo a localidade mais próxima.

Montesinho é ainda a cabeceira do Alto Sabor, rio afluente do Douro, que nasce na vizinha Sanábria (Seabra) a menos de dois km. da fronteira e que passa a montante de Bragança. Sem dúvida, mais uma razão para visitar os recantos desta bela terra transmontana que é a Terra Fria onde o tempo parece que não passa e onde ainda é possível ver traços da vida de antigamente e uma natureza ainda viva.




Foto 1. Vista geral da aldeia de Montesinho.
Foto 2. Casario tradicional de granito em Montesinho.
Foto 3. Cobertura de xisto típica da aldeia.
Foto 4. Casas tradicionais transmontanas em Montesinho.
Foto5. Casa de pedra com motivos geométricos.
Foto 6. Barragem de Lama Grande.



Ver Montesinho-Mapa de localização num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.