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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Moimenta da Raia/S. Cibrão de Hermisende

Entrando de novo no terreno do esquecimento, lá vai uma fronteira muito pouco conhecida. Trata-se da fronteira existente entre Moimenta da Raia, freguesia e aldeia do concelho de Vinhais, e São Cibrão de Hermisende (San Ciprián, na toponímia oficial). É pouco conhecida porque de Moimenta sai apenas um caminho rural de terra batida, enquanto de S. Cibrão há um desvio pavimentado de apenas uns 200 m. até ao mesmo limite fronteiriço que parte da estrada ZA-L 2698, que liga Hermisende com Castromil, aldeia que está partida em duas partes porque uma pertence ainda à província de Zamora e a outra faz parte já da Galiza, mais exactamente da província de Ourense e do concelho de A Mezquita. 

Partindo de Hermisende, temos de atravessar a ponte da Veiga, ponte medieval situada sobre o rio Tuela, um dos dois rios, que junto com o Rabaçal formam o Tua pouco antes de chegar a Mirandela. Daí há uma subida íngreme na que S. Cibrão fica de lado, visto que temos de passar de pouco mais de 790 m. no fundo do vale até quase os 1 000 m. passando a meia encosta da Serra do Marabón, serra que separa a província de Zamora da Galiza. Daí chegamos a um planalto granítico que desce em suave declive entre os 1 100 e os 900 m., flanqueado pela Serra do Marabón e a Serra da Coroa, situando-se Moimenta da Raia a uma altitude algo inferior aos 900 m., na parte mais baixa do planalto pouco antes de chegarmos às íngremes encostas quase em arribas do vale do Tuela.

Esta situação entre a Galiza, Leão e Portugal deu lugar a pontos como o chamado Penedo dos Três Reinos, não muito longe deste ponto fronteiriço, se bem na realidade o reino da Galiza tinha o seu limite oriental na Portela do Padornelo e as províncias do Antigo Regime mantiveram esta situação até 1833, com a reforma provincial de Javier de Burgos, que deu o território entre esta portela e a Portela da Canda, à província de Zamora. Os penedos graníticos fazem, pois, parte da paisagem deste planalto porque a sua elevada altitude faz com que abundem afloramentos rochosos e uma paisagem quase desoladora de estevas, urzes, giestas ou tojos, ou seja, grandes extensões de mato açoitados por um vento geado no Inverno e pelo calor intenso no Verão.

Daí a importância do fumeiro na região, aquém e além fronteiras, que beneficia destas temperaturas baixas que resultam ideais para o fabrico de enchidos e, no concelho de Vinhais, da cria do porco bísaro, verdadeira iguaria e marca identificadora da região. Como muitas aldeias, esta região sofreu com intensidade a emigração, mas manteve certos usos comunitários hoje em declínio e que, infelizmente, decerto morrerão com a extinção das gerações mais velhas, dedicadas à agricultura e à pecuária, numa economia típica de subsistência.

Do ponto de vista cultural importa salientar o facto de as relações transfronteiriças terem sido muito intensas, o que se traduziu numa mistura de traços do ponto de vista etnográfico e linguístico. As fronteiras na região realmente não foram bem delimitadas até ao Tratado de Limites de 1864. Já as Inquirições de D. Afonso III de 1258 mostravam que Portugal estava na posse da aldeia de Manzalvos e metade da aldeia de Cádavos, actualmente do concelho de A Mezquita, na Galiza. Relativamente à S. Cibrão é comummente aceite que esta aldeia junto com Hermisende e Teixeira pertenceram à coroa portuguesa até 1640, se bem Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e grande estudioso do distrito de Bragança, mostra que a documentação histórica não nos permite afirmar tal hipótese, sendo que talvez tenham sido perdidas ao longo do século XVI.

Seja como for, a dominação portuguesa deixou a sua marca na língua falada na região. A mal chamada Alta Sanábria ou Sanábria galega é na realidade a região das Portelas e o galego é a língua principal de uso, para além do castelhano oficial. No entanto, nestas três aldeias de S. Cibrão, Hermisende e Teixeira há quem afirme que é falado um galego com traços portugueses ou um português em descomposição, com traços galegos. Do ponto de vista filológico, S. Cibrão pertencerá ao grupo do chamado «portelego central», tendo perdido o uso do esse sibilante sonoro, que ainda se mantém nas aldeias de Hermisende e Teixeira, do grupo do «portelego oriental». Os seus habitantes não se consideram sanabreses, mas antes porteixos.

Em resumo, uma região de confluência de culturas que vale a pena visitar quanto mais não seja que pelas suas paisagens, o contacto com a Natureza ou o património cultural e humano. Embora o Verão seja a melhor estação para visitar, quer pelas suas melhores condições meteorológicas, quer pelo facto de haver uma vida mais animada com os emigrantes que voltam de férias e as romarias, eu gosto particularmente no Inverno, quando esse vento frio acaricia o meu rosto e sinto algo de purificador nisso, no meio do cheiro do mato e o fumo da lenha das casas lentamente queimada na lareira para aquecê-la ou até mesmo cozinhar pratos fortes e consistentes. Vai um bom cozido ou umas fatiazinhas de salpicão de porco bísaro?


 Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal e vista do planalto.
 Foto 2. Caminho fronteiriço entre penedos.
 Foto 3. Caminho da Moimenta, com a Serra da Coroa ao fundo.
Foto 4. Vista do planalto, entre Portugal e a Galiza onde se assentam aldeias como Carvalhas, Casares ou Manzalvos.
 Foto 5. Marco fronteiriço com vistas para a Serra do Marabón.
 Foto 6. Mudança de piso que indica o limite fronteiriço visto da parte da província de Zamora.
Foto 7. Vista da estrada da parte de Zamora, o planalto e a Serra do Marabón ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fronteiras: Pinheiro Velho/Esculqueira

Hoje vou falar da mais recente descoberta que fiz. Trata-se de uma fronteira muito pouco conhecida mas que fica, no entanto, do lado da Galiza, perto da auto-estrada A-52, resultando, portanto, um bom ponto de passagem para visitar o Parque Natural de Montesinho e a região da Lomba, no concelho de Vinhais, em plena Terra Fria transmontana. É a fronteira que liga a aldeia do Pinheiro Velho, pertencente à freguesia de Pinheiro Novo com à galega de Esculqueira, pertencente ao concelho de A Mezquita (ou Mesquita).

A fronteira decorre num planalto situado ao sopé da Serra da Esculqueira que atinge os 1 148 m. de altitude máxima no pico do Serro quase mesmo no limite fronteiriço com Portugal. Esse planalto não é mais do que uma continuação do planalto que se estende pelo concelho galego da Mesquita e que se estreita neste ponto entre esta serra e outra de similar altitude mas menos definida pela qual decorre o limite fronteiriço com uma altitude de 1 146 m. no pico da Igrejinha.

A aldeia da Esculqueira fica situada no planalto do qual já falamos a uma altitude de quase 1 000 m. Após apanhar a estrada da fronteira, com um indicador indicando Portugal digamos, rústico, a estrada eleva-se suavemente até os 1 020 m. para descer de novo também suavemente até ao limite fronteiriço situado a uma altitude um bocado superior aos 1 000 m. seguindo-se em declive suave até começar uma descida em forte pendente que nos leva até a aldeia de Pinheiro Velho, situada a uns 840 m. de altitude, encerrada num pequeno vale com inúmeros regatos que desaguam no rio Assureira, afluente do rio Rabaçal, ou directamente neste.

Essas elevadas altitudes fazem que os lameiros sejam dominantes na região, ao lado de algumas árvores de folha caduca e matagais de urze, esteva, giesta, tojo, etc. Infelizmente nem sempre a natureza é respeitada e sempre há que noticiar algum incêndio como se pode ver nas fotografias que seguem a este 'post'. A água é abundante e os Invernos podem ser frios e rigorosos. Mas isso também é uma mais-valia na produção do fumeiro, que no concelho de Vinhais atinge a sua máxima expressão com os enchidos de porco bísaro. Obviamente, os preços também estão em consonância com a alta qualidade do produto. O salpicão é do melhor e ainda as chouriças, o chouriço e a morcela. 

Relativamente à caracterização das aldeias, importa dizer que a aldeia da Esculqueira está situada num lugar aprazível, de planalto, com belas paisagens que chegam, não só até à serra do mesmo nome, mas também à portuguesa Serra da Coroa e a região das Portelas, designadamente a Portela da Canda, que constitui hoje o limite da Galiza com a vizinha província de Zamora. No entanto, infelizmente, a aldeia aparece hoje muito descaracterizada, com casas tradicionais em ruínas e casas da década de cinquenta e sessenta não muito bem conservadas e que nada têm a ver com o casario tradicional, para além de algumas casas mais modernas características de emigrantes. A sensação, entretanto, foi a de uma aldeia pouco consistente, sem serviços, em que não apetece nada ficar, o que foi pena, pois existem aldeias galegas fronteiriças bem conservadas.

Pinheiro Velho foi outra coisa. Uma aldeia que mantém a tradição, com menos excessos «urbanísticos» que descaracterizaram muitas aldeias de um e do outro lado da fronteira a causa da «modernidade», na qual, para além de algumas casas de emigrantes mais modernas à entrada, as casas mais modernas não destoam do casario tradicional. O granito é predominante numa região de transição para o domínio do xisto que cobre inúmeros telhados das aldeias galegas vizinhas. De certa forma, visitar esta aldeia significa reviver experiências que considerávamos esquecidas como se retrocedêssemos quarenta anos, mas sabendo que as condições de vida, são, no entanto, muito melhores. Sente-se o cheiro da humidade, sente-se o cheiro do gado, da bosta deitada no chão, o cheiro da lenha arrumada na parte de baixo da casa, em garagens ou em cantinhos que servem para o efeito, o cheiro da comida e é claro, o cheiro do fumo que sai das chaminés, impregnando o ambiente.

A escassa população e uma paisagem inóspita que contrasta com a fértil veiga que banha a aldeia e onde estão situadas hortas que dão batata, couve e outros legumes e hortaliças, acentuam essa sensação de solidão rota apenas pela simpatia dos habitantes que ainda resistem o embate da modernidade e preferem continuar na sua aldeia natal sabendo não deixam de ser uma raridade nestes tempos, estampa que, infelizmente, parece devotada à sua desaparição. Mas ao lado da solidão, o homem também pode sentir essa comunhão com a natureza, longe da artificialidade das cidades, longe, em definitiva, de tudo...

Aproveitem enquanto há tempo. Vale a pena deixar-se perder por estes cantinhos da Raia, especialmente no Outono ou no Inverno, estações que eu pessoalmente prefiro para visitar estes lugares, quando eu os acho mais autênticos, sem desmerecer outras. Fica aqui dito.

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza.
 Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado da Galiza.
 Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
 Foto 4. Limite fronteiriço com a Galiza visto do lado de Portugal.
 Foto 5. Serra da Esculqueira vista do limite fronteiriço.
 Foto 6. Entrada ao Parque Natural de Montesinho.
 Foto 7. Vista geral da Esculqueira.
 Foto 8. Paisagem outonal na Esculqueira.
 Foto 9. Mais «outonalidades».
Foto 10. Casa tradicional da Esculqueira, em ruínas.
 Foto 11. Vista geral do planalto, com a Portela da Canda ao fundo.
 Foto 12. Vista geral do Pinheiro Velho, com o rescaldo de incêndios recentes.

 Foto 13. Entrada à aldeia e um bom exemplo de harmonização do moderno e do tradicional.
 Foto 14. Casas em granito no centro da aldeia.
 Foto 15. Mais casas tradicionais.
 Foto 16. Entre o antigo e o moderno...
 Foto 17. Outras ruas da aldeia.
 Foto 18. Mais ruas e canelhas, com o granito omnipresente.
 Foto 19. Largo da igreja.
 Foto 21. Igrejinha da aldeia.
 Foto 21. Regatos e hortas.
 Foto 22. Vista da fértil veiga do Pinheiro Velho com as serras fronteiriças ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Damos ainda as boas-vindas como amigos do blogue a Lamartine Dias e a Carmen. Esperamos não defraudar as suas expectativas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Fronteiras: Lamadarcos/Vilarello da Cota

Uma das fronteiras menos conhecidas do Alto Tâmega é talvez a existente entre Lamadarcos e a aldeia galega de Vilarello da Cota, que faz parte do concelho de Vilardevós. Este ponto da fronteira é pouco conhecido porque a ligação entre as duas localidades faz-se por meio de um caminho de terra batida com muitos seixos que, se bem é acessível para qualquer tipo de carro, o mais certo será ter de dar um jeitinho no centro de lavagem mais próximo de modo a tirar a poeira levantada com a nossa passagem, deixando a parte da mala do carro completamente branca.

O acesso é relativamente fácil se partirmos de Vilarello da Cota pela estrada OU-1006 que liga a aldeia à capital do concelho e à vizinha localidade de Feces de Cima, que possui também uma ligação local com Lamadarcos. Numa curva bastante fechada encontramos à esquerda um caminho que parece mais o clássico caminho que vai para os lameiros ou os matagais da região, já que se o viajante não é avisado, não dá por ele tratar-se de um caminho fronteiriço em que a fronteira fica mesmo a uns metros da estrada. 

O interesse desta fronteira, para além do facto de ser muito desconhecida, radica nas suas paisagens em que descemos aos poucos, em suave descida, das altas serras do alto de Mairos até o centro do Vale do Tâmega, chegando até as primeiras casas da localidade de Lamadarcos, da qual já falámos neste blogue como sendo um dos «povos promíscuos» que depois dos trabalhos da Comissão Luso-espanhola formada aos efeitos como consequência do Tratado de Limites de Lisboa de 1864, passou na íntegra a pertencer a Portugal em troca do Couto Misto, que foi integrado na Galiza. Das três aldeias promíscuas, Lamadarcos era e ainda é a maior de todas em população até ao ponto de possuir duas igrejas que eram as igrejas matrizes da parte galega e da parte portuguesa, em contraste com as aldeias de Cambedo da Raia e Soutelinho da Raia, mais isoladas e com menos população.

Da lembrança dessa «promiscuidade» dá conta o estudo de Maria José de Moura Santo intitulado «Os falares fronteiriços de Trás-os-Montes», na separata da Revista Portuguesa de Filologia, publicada em 1966 num total de 452 páginas. As misturas existentes entre o galego e o português são evidentes, mas também não resultam estranhas de tudo até porque ambas as duas línguas fazem parte do mesmo diassistema linguístico. Por isso as múltiplas interacções entre ambas são frequentes nestas aldeias raianas.

Definitivamente, mais um pretexto para dar um pulinho até estas terras da Raia, talvez num dos pontos mais permeáveis da mesma pela facilidade nas comunicações e as intensas relações entre ambos os dois lados da fronteira a causa do comércio local, o contrabando, que foi uma actividade tradicional quando ainda existiam fronteiras fiscalizadas pelo posto de Vila Verde da Raia e Feces de Abaixo mas que parece voltar a ressurgir nestes tempos de crise com o contrabando de carburante ou de tabaco chinês que chega a ser vendido até dois euros mais barato do que o tabaco normal comprado na tabacaria. Enfim, tempos em que a necessidade aguça a imaginação das pessoas para tentar ganhar mais uns trocos, mas nem sempre enveredando pelos caminhos certos...




 Foto 1. Limite fronteiriço com Portugal visto da Galiza.
 Foto 2. Marco fronteiriço.
 Foto 3. Marco fronteiriço e limite com a Galiza visto do lado português.
 Foto 4. Vista das serras do concelho de Vilardevós com a aldeia de Vilar de Cervos ao fundo.
 Foto 5. Vista da aldeia de Feces de Cima do limite fronteiriço entre giestas e estevas.
 Foto 6. Vista das lombas em suave descida do alto de Mairos na direcção de Lamadarcos.
 Foto 7. Vilarello da Cota visto da estrada de Mairos.
 Foto 8. Vista do vale do Tâmega com a auto-estrada A24 e A-75 no fundo do vale perto de Vilarello.


Mapa 1. Mapa de situação.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fronteiras: Constantim/Moveros (Nossa Senhora da Luz)

 É bem sabido que a ligação entre Miranda (do Douro) e Bragança pela EN218 nem sempre resulta a melhor opção para chegar à capital do distrito. Por isso, muitos habitantes da região costumam aproveitar o bom estado da estrada espanhola N-122 que teoricamente deverá ser substituída pela auto-estrada A-11 num futuro que vai depender da duração da crise económica, mas que em parte permite hoje evitar o trânsito pela cidade de Zamora depois de ter aberto a variante norte à cidade que leva a auto-estrada a 5 km. à jusante. 

A saída natural para os habitantes do concelho de Miranda é a fronteira entre Constantim e Moveros, onde fica a capela de Nossa Senhora da Luz, situada mesmo no limite fronteiriço. Isto porque até há pouco tempo a fronteira entre Ifanes e Brandilanes, mais próxima, estava num estado lamentável, sendo que neste ano, antes do Verão, as obras da estrada da fronteira eram objecto de uma beneficiação que pedia a gritos. 

 A fronteira da Luz é uma fronteira muito permeável porque está situada num alto mas de não difícil passagem. Se Moveros e Constantim estão situados a umas altitudes que oscilam entre os 800-810 m., o limite fronteiriço fica a pouco mais de 880 m, sendo mais «íngreme» a subida (ou descida) para Moveros do que para Constantim. Ao lado fica a capela de Nossa Senhora da Luz que atinge os 899 m. o que a converte num miradouro privilegiado do Planalto Mirandês e da região de Aliste, com quem partilha bastantes afinidades. Não devemos esquecer, como já foi dito nalguma ocasião, que esta região pertenceu a Portugal e foi um arcediagado da arquidiocese de Braga que recuperou a região em 1103 pela bula do papa Pascoal II que obrigava à diocese de Astorga a restituir as terras de Ledra, Vergantia e Aliste, que tinham sido objecto de uma usurpação em 969 aproveitando o facto de a diocese bracarense não ter sido restaurada após a invasão muçulmana, tendo ficado em mãos da diocese de Lugo, que não queria largar o privilégio de ser sede metropolitana de Lugo-Braga e que só tardiamente, com o Bispo D. Pedro, finalmente foi restaurada em 1071 por iniciativa do rei da Galiza, Garcia II (se bem alguns historiadores consideram que foi o rei Sancho III de Castela, que pretendia restaurar o reino de seu pai Fernando I o Magno, reconquistador de Lamego e Viseu em 1055 e 1056 e de Coimbra em 1064), rei que acabou cegado pelo seu irmão Sancho e morreu no ano de 1091 completamente cego no castelo de Luna, no norte da actual província de Leão, no caminho para as Astúrias.

Depois destes apontamentos históricos, importa salientar o facto de a Luz ter sido um ponto de encontro entre transmontanos e alistanos sendo que a capela costuma ser objecto de peregrinação o último domingo do mês de Abril, se bem este ano a causa de umas festas da Páscoa tardias foi no segundo domingo de Maio. Após a missa, os visitantes desfrutam de um convívio onde as fronteiras são ultrapassadas pela cordialidade das relações e até a amizade entre os habitantes de um e do outro lado da fronteira. São tempos de alegria em que a Primavera já vai avançando e mostra-se propícia para os clássicos pique-niques ao ar livre.

O alto da Luz constitui um óptimo miradouro entre ambas as duas terras, tendo a sua continuação por serras que, orientadas à Oeste, costumam constituir o limite fronteiriço mas nem sempre, sem que essas elevações possam definir-se como um verdadeiro entrave às comunicações como acontece noutras partes da Raia. Essa relativamente elevada altitude faz que a vegetação, que na região de Aliste está formada por matagais de urze, giestas, tojos e estevas situados entre penedos rochosos de granito e zonas de predomínio de algumas espécies mediterrânicas como a azinheira, o que fez o território ter-se especializado na pecuária de vitela de raça alistana e a ovelha para a produção de queijo, seja substituída aos poucos por uma flora de transição onde não falta o carvalho negral e soutos de castanheiros e fetos, que indiciam um clima mais húmido em que se misturam espécies atlânticas, mediterrânicas e de transição. Como contraste, o Planalto Mirandês caracteriza-se por uns solos mais férteis que permitem a cultura do cereal, os lameiros e a pecuária da vitela de raça mirandesa, onde o destaque vai para a sua famosa posta, o ex-libris da região.

A permeabilidade da fronteira fez com que do lado português, a montante da capela da Luz, fossem situadas uma espécie de guaritas a modo de sentinelas para a vigilância de uma fronteira onde o contrabando era moeda de troca corrente de um e do outro lado. Hoje, abandonadas, são testemunhas mudas de tempos passados e miradouros privilegiados de uma paisagem que se estende até perder-se no horizonte. É, sem dúvida, uma fronteira de passagem obrigatória para quem aprecia a Raia no seu todo.

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado espanhol.
 Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado português.
 Foto 3. Marco fronteiriço situado entre a estrada e a capela de Nossa Senhora da Luz.
Foto 4. Vista, do ponto fronteiriço, das terras de Aliste com a Sierra de la Culebra ao fundo à direita e as serras de Sanàbria no fundo (centro da fotografia).
 Foto 5. Capela de Nossa Senhora da Luz e adro (vista lateral esquerda).
Foto 6. Capela de Nossa Senhora da Luz vista do lateral direito.
Foto 7. Marco fronteiriço situado a montante da capela donde é possível apreciar o planalto sem diferenciar entre o Planalto Mirandês e as terras de Aliste.
 Foto 8. Planalto Mirandês visto da Luz, com a aldeia de Ifanes ao fundo.
Foto 9. Planalto Mirandês visto da Luz na direcção de Constantim, Póvoa, Especiosa, Genísio e Malhadas.
 Foto 10. Posto de vigilância do lado português e indicação do ponto mais alto (899 m.).
 Foto 11. Terras de Aliste vistas ao sopé do posto de vigilância.
Foto 12. Serras fronteiriças na direcção de Constantim, Cicouro e S. Martinho de Angueira.

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Por razões de espaço não é publicada aqui a sua versão em mirandês, mas sim num novo 'post', pois o autor deste blogue esta firmemente comprometido com a defesa do património cultural e linguístico, sendo sensível sobretudo à situação das línguas minoritárias e menorizadas. O mirandês, como segunda língua oficial no nosso país não pode ser posta de lado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Localidades raianas: A Xironda

Se há poucos dias falávamos de Vilar de Perdizes, hoje vamos fazer o mesmo com A Xironda (ou Gironda), aldeia galega pertencente ao concelho de Cualedro. Situada também perto da Serra do Larouco, a aldeia localiza-se numa espécie de planalto que desce suavemente para o vale do Tâmega, bacia da qual faz parte.

A aldeia é mais pequena em extensão e em população, contando com uns 350 habitantes e com boas ligações para o resto do concelho e para as aldeias barrosãs de Vilar de Perdizes e Santo André. O casario apresenta-se mais modificado do que em Vilar de Perdizes, pelo que para encontrar casas tradicionais temos de procurar pelo centro da aldeia normalmente intercaladas entre construções modernas e por vezes abandonadas, encerradas ou servindo como currais para guardar lá o gado o como garagens e armazéns. Como nas citadas aldeias, a agricultura e pecuária ainda é a actividade económica principal, seguida dos serviços básicos (comércio, hotelaria, serviços de saúde, etc.). É interessante destacar o facto de que nalgumas casas ainda se conserva o cultivo da oliveira, o que de resto, resulta excepcional na Galiza, mas não assim nas aldeias portuguesas da fronteira. Isto mostra que esta cultura deveu estar mais estendida nesta região galega em tempos, sendo que hoje encontra-se em franco declínio e a sua conservação pode ser devida à influência portuguesa, sempre presente, ou como amostra do último rescaldo de uma actividade hoje quase extinta.

A localidade conta com uma bela igreja matriz em honra de S. Salvador, de factura barroca, em granito, que não se diferencia muito das igrejas paroquiais portuguesas vizinhas, talvez porque aqui, a Raia é, sem dúvida, mais difusa do que noutros lugares, pelo que podemos encontrar traços de transição de um e do outro lado da fronteira nestas aldeias arraianas. Se Vilar de Perdizes apresentava elementos que lembram a Galiza, não admira que A Xironda apresente características semelhantes às aldeias portuguesas vizinhas.

A casa tradicional, parecida em forma com as casas que podemos encontrar em Vilar de Perdizes, costuma ser construída em pedra de granito, com blocos irregulares, existindo ainda a casa moderna com lajes de granito que cobre essencialmente uma casa feita de tijolos na qual aparecem as típicas linhas pintadas em branco (ou preto, nalguns casos) a delimitar cada laje. O forno comunitário é outro dos elementos mais característicos da sua arquitectura popular, com lajes de pedra e contrafortes. 

Para além da igreja matriz, na arquitectura religiosa encontramos a Capela de S. Ciriaco, do século XVIII, também em pedra de granito com presbitério e cruz de pedra. Uma mistura da arquitectura religiosa e popular é o chamado «peto de ánimas», um nicho no qual repousa uma imagem em pedra de Nossa Senhora do Carmo com duas almas na parte inferior e com um bispo e o papa contornando a imagem a ambos os dois lados, cobertos pelas chamas do fogo do purgatório. 

Na estrada para Santo André, em plena fronteira, pode visitar-se ainda a vila romana de Grou, situada já ao sopé da Serra do Larouco, mesmo onde acaba o planalto que se estende por esta região fronteiriça.

 Desta aldeia destacam como tradições populares o tradicional magusto (em galego magosto) das castanhas e as «mázcaras» do Entrudo, conhecido em galego como Entroido. Trata-se de máscaras muito coloridas, de forte sabor pagão, como são, aliás, todas as celebrações relacionadas com o Carnaval e que apresentam muitas semelhanças com as de Cualedro, Verín, Laza ou Xinzo de Limia mas com as suas características particulares de cada localidade e que recebem respectivamente os nomes de zarramanculleiros, cigarróns, peliqueiros e pantallas.

Da sua gastronomia importa referir a batata, que tem destaque na economia local, já que o concelho está abrangido pela Denominação de Origem Controlada da batata da Límia, de excelente sabor e óptima para cozer e acompanhar nos pratos mais importantes da gastronomia galega, recebendo estas patacas cozidas o nome de cachelos e caracterizadas por ser firmes e com pouco farelo, pelo que não se desfazem na cozedura. A videira também está presente nos vinhos de Monterrei, que abrangem todo o vale do Tâmega galego com principalmente vinhos brancos com algumas casta portuguesas como é a Trajadura (treixadura em galego) ou Dona Branca e tintos com castas como a Bastardo, também própria dos vinhos da região de Chaves. Quem desejar experimentar a gastronomia da região pode fazê-lo nalguma tasca do concelho. Não deve deixar de provar os clássicos pratos galegos como o caldo galego, o pote galego (com batata, feijão, couve galega e orelha de porco) ou, é claro, o polvo à feira (com ou sem cachelos).

Razões mais do que suficientes para dar uma voltinha por estes lados.
 Foto 1. Igreja matriz.
 Foto 2. Lateral direito da igreja.
 Foto 3. A aldeia vista do adro da igreja.
 Foto 4. Lateral esquerdo da igreja.
 Foto 5. Casas tradicionais vistas da cabeceira da igreja e panorâmica do planalto.
 Foto 6. Casas tradicionais situadas perto da igreja matriz.
 Foto 7. Capela de S. Ciriaco.
 Foto 8. Esplanada da capela com vistas para a aldeia e a igreja matriz.
 Foto 9. Mais casas tradicionais no centro da aldeia.
Foto 10. Outras formas de arquitectura popular.



Ver A Xironda (aldeias raianas) num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P. S. É como é o nosso costume, damos as boas-vindas à nossa nova seguidora ecguelman, sendo assim o seguidor número 38. Esperamos não defraudar aos nossos leitores!