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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Património raiano: Convento (mosteiro) de Santa Maria de Aguiar

 No concelho de Figueira de Castelo Rodrigo encontramos um rico património histórico e arquitectónico ao qual não foi alheia a constituição da fronteira. Um exemplo disso é o mal chamado Convento de Santa Maria de Aguiar, que na realidade era um mosteiro e que fica situado na freguesia de Castelo Rodrigo, a apenas 11 km. da fronteira com a província de Salamanca, em plena Beira Interior, entre a capital do concelho e a aldeia de Almofala, de clara ressonância árabe.

O mosteiro, do qual restam a igreja e algumas das antigas dependências, tem, no entanto, muita história envolvida. Já no Parochiale Suevum de 569 é mencionada a diocese de Caliábria, que tradicionalmente tem-se associado a este mosteiro ou algum ponto dos arredores e que sofreria um colapso aquando da invasão muçulmana da Península Ibérica, presença que foi bem sentida na região a julgar pelo arco de tipo árabe situado na Cisterna da aldeia de Castelo Rodrigo, freguesia à que pertence o mosteiro. Após a «reconquista» asturiana do Condado Portucalense e todas as terras até ao Baixo Mondego, a condessa Dª. Châmoa Rodrigues (ou Flâmula), sobrinha de Mumadona Dias, condessa do Condado Portucalense e bisneta de Vímara Peres, teve no seu poder uma série de castelos na linha da Beira Alta como Longroiva, Mêda, Marialva ou Trancoso, lá para o século X, como pontos avançados de uma fronteira que visava controlar o território e evitar uma invasão vinda do planalto que se estende pelas actuais terras de Salamanca e Riba Côa, roto apenas por serras como a Serra da Marofa e pelo curso dos rios, cada vez mais encaixados nas rochas graníticas, formando arribas mais profundas segundo avançamos até ao Douro. Obviamente, Santa Maria de Aguiar não fazia parte do reino asturiano primeiro e do reino de Leão depois.

A data da fundação do mosteiro não resulta fácil de desvendar. Para Alexandre Herculano, Pai da historiografia medieval portuguesa, ter-se-ia instalado uma comunidade de monges beneditinos em meados do século XII, quando o território de Riba Côa já estaria na posse do reino de Leão. Para o historiador Rui Pinto de Azevedo, influenciado talvez pela retórica nacionalista da época, o mosteiro teria sido de fundação portuguesa e não leonesa, mais concretamente pelo rei D. Afonso Henriques, segundo o seu artigo de 1962. Seria na década de 1170 quando o convento abraçaria a ordem cisterciense dando lugar à construção do mosteiro que vemos hoje e que tanta atenção prestava à água como elemento básico da vida em comunidade aproveitando a proximidade da ribeira de Aguiar e as canalizações construídas para o efeito. Os edifícios que restam hoje em dia restam a igreja que pretendia ser ainda maior mas que afinal foi mais modesta, talvez por falta de verbas, e a Sala do Capítulo, construídas durante os séculos XIII e XIV. Em tempos posteriores houve aditamentos, nomeadamente nos séculos XVI a XVIII para adaptar o convento às necessidades do momento. As invasões francesas aquando da Guerra Peninsular e a extinção dos conventos em 1834 deram como resultado um estado de abandono que só viria concluir na quarta década do século passado quando começaram os primeiros restauros efectuados com cargo ao Estado e que tiveram continuidade até hoje, com as campanhas do IPPAR.

O mosteiro não recuperou, no entanto, o seu antigo status de sede de diocese que passou à nova fundação, em 1161, de Ciudad Rodrigo, data em que foi restaurada. A nova mitra mirobrigense, no entanto, teria como território natural as terras do Oeste da actual província de Salamanca e as terras de Riba Côa. Importa referir ainda que a existência do mosteiro parece estar relacionada com a formação da Ordem de S. Julião do Pereiro, que alguns referem como instituída pelo conde D. Henrique, sendo mais provável a sua fundação em meados do século XII. Esta ordem militar de origem leonesa teria a sua expressão a partir de 1218 na Ordem de Alcântara, pelo facto desta localidade conquistada aos almóadas ter sido encomendada a esta ordem, sendo que desde essa data a ordem passa a ter a sua sede central lá, o que fará com que o nome original caia no esquecimento e S. Julião do Pereiro passe a constituir apenas uma comenda desta ordem militar.

O mosteiro teve na sua posse importantes propriedades em toda a região, principalmente nos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida e até na vizinha província de Salamanca, designadamente a aldeia da Bouça (La Bouza), que lhe pertenceu até à sua dissolução em 1834. Pode dizer-se que foi o poder feudal de tipo religioso mais importante nas terras de Riba Côa. O reino de Leão dominou estas terras até 1295, quando o rei D. Dinis, aproveitando as lutas internas na coroa castelhana (Leão e Castela uniram-se em 1230, mas cada reino manteve no início as suas particularidades), ocupou esta região e conseguiu que fosse reconhecida para Portugal no Tratado de Alcanices de 1297. Isso não significou a sua decadência; antes pelo contrário: quando muitos mosteiros começam a entrar em declínio a causa do fim das doações piedosas da monarquia e da nobreza, Santa Maria de Aguiar consegue manter o seu domínio, se bem a sua posição raiana vai fazer que uma certa decadência comece a materializar-se já em meados do século XV, devido às contínuas guerras entre Portugal e Castela, que o convertiam em ponto sensível na fronteira. Do ponto de vista eclesiástico, o convento manteve-se na diocese de Ciudad Rodrigo até à reforma de 1403, que redefiniu os limites diocesanos evitando a presença de dioceses estrangeiras em território português. Daí que transitasse para a diocese de Lamego.

A visita do mosteiro é altamente recomendada pelo seu valor artístico e arquitectónico, para além da beleza da paisagem envolvente. Até porque lá mesmo temos um lugar óptimo para ficar, se quisermos optar por um lugar sossegado e longe da civilização, de retiro quase espiritual (expressão que vem mesmo a calhar) na Hospedaria. O mosteiro pode ser um ponto de partida para visitar a região com o seu património arquitectónico e cultural como o castelo de Almofala, a própria aldeia de Castelo Rodrigo, que faz parte das chamadas «Aldeias Históricas de Portugal», antiga sede do concelho até ao século XIX, Figueira de Castelo Rodrigo, a Serra de Marofa, da qual podemos contemplar umas vistas até aonde alcança a vista para as terras de Riba Côa e a peneplanície de Salamanca e a Cordilheira Central (Penha da França e Serras de Gata e Malcata) ou o Castelo de Castelo Melhor, aldeia onde também podemos visitar o Museu e as Gravuras Rupestres do Vale do Côa, Património Mundial. Um bocadinho mais longe poderemos visitar Barca d'Alva, com belas vistas do Alto da Sapinha, lugar em que é possível ver as amendoeiras em flor, precisamente no início do mês de Fevereiro e o ponto em que o rio Águeda desagua no Douro e este passa a ser inteiramente um rio português. Se ainda tivermos vontade, é possível dar um pulinho até Freixo-de-Espada-à-Cinta e ver o Penedo Durão, de belas vistas, neste troço do Parque Nacional do Douro Internacional; ou para sul, ver a vila abaluartada de Almeida ou Ciudad Rodrigo, que com Almeida e S. Felix dos Galegos faz parte das Rotas dos Castelos da Raia. Definitivamente, um roteiro altamente apetitoso que dá para um bom fim-de-semana aliciante em que perder-se nestes belos recantos no nosso país ou do vizinho.

 Foto 1. Mosteiro de Santa Maria de Aguiar visto de Castelo Rodrigo.
 Foto 2. Vista geral da igreja do mosteiro.
 Fotos 3. Interior do claustro do mosteiro.
 Foto 4. Entrada lateral Sul.
 Foto 5. Lateral nascente da igreja (cabeceira da igreja).
 Foto 6. Mísulas românicas da igreja com motivos diversos.
Foto 7. Outra vista da igreja.
Foto 8. Dependências do mosteiro (nascente).
Foto 9. Dependências do mosteiro (poente), actual hospedaria.
Foto 10. Castelo Rodrigo visto do mosteiro.

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Aproveito a ocasião para dizer que mudei a fotografia do fundo. Neste caso, trata-se de uma vista a partir do miradouro do Alto da Sapinha, mencionado no texto, na confluência do rio Águeda com o Douro em Barca d'Alva, aldeia que actualmente tem cais ou embarcadouro de cruzeiros pelo rio Douro e onde podemos apreciar a famosa ponte internacional da antiga ferrovia (já ferrugenta) e a decadência de uma gare que foi muito movimentada até ao encerramento da linha em 1988, após a linha espanhola até Salamanca ter feito o mesmo em 1985.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Festas do Povo: Campo Maior (2011)

Reconheço que tinha um bocadinho abandonado o blogue. Diferentes projectos profissionais, entre os quais o meu Doutoramento em História, viagens que tive de fazer, férias, etc., para além da vontade do dolce far niente, tem feito que não tinha postado nada estes meses. Mas isso não quer dizer que tenha estado parado. De facto aproveitei o tempo para visitar diferentes lugares, entre eles alguns da Raia, para poder apresentar aos meus leitores mais fotografias ilustrativas dos locais que valem a pena mesmo visitar e que se inserem na temática tratada neste blogue.

E para entrar em grande, nada melhor do que falar das Festas do Povo de Campo Maior, que tiveram lugar a semana passada e que foram alvo de programas televisivos, nomeadamente a RTP, a transmitir de lá parte dos eventos que tiveram lugar nesta vila raiana. Praticamente estiveram lá visitantes de todo o país, dos emigrantes que voltavam para a terra e da vizinha Extremadura espanhola. Não devemos esquecer que a fronteira do Retiro fica mesmo a 13 km. e logo em seguida está a cidade de Badajoz.

Para quem não conheça estas festas, consistem na decoração das ruas com flores de papel feitas de forma completamente artesanal pelas próprias gentes do lugar. É por isso que bem se pode dizer que são as festas do povo, porque é o povo desta querida vila alentejana quem participa na confecção das flores e de dar voltas à imaginação com o intuito de conseguir ser a rua mais bonita. Uma explicação mais alargada encontra-se no próprio site da organização, que pode ser consultado aqui.

A última vez que estas festas tiveram lugar foi no ano de 2004, sendo que depois de tanto tempo, os alentejanos, os portugueses e gentes de outras terras tivemos o privilégio de presenciar esta maravilha. Se bem que houve dias de fortes chuvas que estragaram um bocadinho a festa, o espírito dos campomaiorenses não descaiu e a festa continuou como prevista, inclusive com a visita do Presidente da República e do Primeiro-Ministro. Mas os protagonistas não são as personalidades, mas sim quem trabalhou por conseguir que a festa fosse todo um sucesso: o próprio povo de Campo Maior.

Na festa não podiam faltar alguns divertimentos, stands de produtos variados (produtos em pele, produtos alimentares como a ginjinha d'Óbidos, serviços de todo tipo, etc.), bem como as clássicas lanchonetes de festa onde não faltaram churros, farturas, pipocas, bifanas, hamburguers, cachorros quentes, espetadas, carnes grelhadas, etc. Eu, valorizando os produtos cá da terra, deliciei-me com um picadinho de carne alentejana de vitela de denominação de origem protegida com batata, e, é claro, o omnipresente café Delta, o maior produtor de café da Península Ibérica e que tem a sua fábrica aqui em Campo Maior.

Não faltaram espectáculos musicais e de dança e, obviamente, os cantos típicos de Campo Maior, com as mulheres com os pandeiros a tocar e a cantar canções tradicionais. Quer fossem ranchos folclóricos, quer grupos de amigos, aqui e acolá improvisavam-se espaços de canto num convívio que, longe de ser caótico, resultava de todo harmónico. Estes cantos típicos, onde as mulheres tocam pandeiros enfeitados com fitas a cores, e acompanhados pelo tambor e, às vezes pelo acordeão, e onde as mulheres assumem o papel principal no canto, apresentam semelhanças com outros cantos tradicionais do Noroeste. Não devemos esquecer que Campo Maior foi uma vila de reconquista leonesa e não portuguesa. Quando o rei D. Sancho II conquistava Elvas em 1226, o rei leonês Afonso IX, fazia o próprio ao reconquistar Mérida, Badajoz, Campo Maior e Ouguela aos muçulmanos em 1230. Em mãos leonesas esteve até o Tratado de Alcanices de 1297, quando o rei D. Dinis, astuciosamente, soube aproveitar o vazio de poder em Castela e ampliar as fronteiras do seu reino acrescentando Campo Maior, Ouguela e Olivença. Sendo uma tradição única n0 Alentejo, e não sendo eu um erudito em questões musicais, não deixo de observar, no entanto, semelhanças com cantos tradicionais que já tenho ouvido nas Astúrias e Leão, designadamente nas tradições dos chamados «vaqueiros de alzada», ou na Galiza. Reminiscências de tradições asturo-leonesas? O certo é que um elemento comum a todas estas tradições há: o grupo de mulheres que cantam com pandeiro com ritmos bastante semelhantes. Talvez algum historiador da música ou etnógrafo possa algum dia tirar-nos a dúvida...

E como nada melhor do que uma imagem, lá vai uma selecção de imagens, todas elas nocturnas, das ruas floridas de Campo Maior. Espero que gostem. Ah! E fiquem atentos ao blogue. Não vão ficar desiludidos!
















segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fronteiras: Três Marras (Avelanoso/Alcanices)

Depois de um tempo sem escrever nada, volto novamente, esta vez para falar da fronteira das Três Marras, que liga Avelanoso, no concelho de Vimioso, com Alcanices, localidade muito conhecida na história portuguesa pelo tratado de 1297 que definiu as fronteiras do nosso país.

O nome desta fronteira deve-se ao facto de existir uma série de marcos fronteiriços na zona de passagem que delimitam a Raia. A linha da fronteira decorre nesta região que separa a Terra de Miranda da região zamorana de Aliste normalmente pelos cumes das pequenas elevações que nunca foram um entrave para as comunicações se exceptuarmos o caso de Villarino Tras la Sierra e Vale de Frades, onde a aldeia espanhola fica do lado de aquém, isto é «isolada» do resto das aldeias espanholas vizinhas. Estas pequenas serras não atingem uma altitude importante. Enquanto as aldeias ficam, no geral, num planalto que oscila entre os 750 e os 780 metros, tanto do lado do Planalto Mirandês como da região alistana, as colinas que servem de limite não costumam ultrapassar os 900 metros. Serve de separação física e até psicológica de um país e outro mas realmente não nas comunicações que, entretanto, sempre foram muito intensas ao longo da História. Famosas são as estórias ligadas ao contrabando e a emigração nas décadas de quarenta até setenta. Um facto que mostra que as relações de um lado e do outro da fronteira é a recente celebração da romaria de Nossa Senhora da Luz, da qual teremos ocasião de falar mais adiante.

Esta fronteira é uma fronteira local muito transitada. Do lado português, permite chegar à estrada espanhola N-122 e chegar facilmente até Bragança, visto que somente há duas opções sem passar por Espanha pela N218 via Carção e Argozelo até Rio Frio, onde se apanha o IP4 ou pela N218-2 por Pinelo, que são estradas cheias de curvas nomeadamente nas arribas do rio Maçãs. Relativamente à população residente, Vimioso e Alcanices têm mais ou menos a mesma população, ao redor dos 1 200 habitantes e as aldeias envolventes ficam entre os 200 e 300 habitantes no melhor dos casos, existindo mais aldeias do lado transmontano do que do lado alistano.

A estação melhor para uma visita à região seja talvez a Primavera ou o Outono porque o Inverno pode ser duro e frio, com nevões que não são infrequentes e temperaturas em geral muito baixas. No Verão as temperaturas podem atingir perfeitamente os 35ºC e às vezes até os 40ºC no fundo dos rios, se bem as aldeias costumam estar mais cheias de vida pelas férias dos emigrantes que voltam para a terra pelo que as romarias, jantaradas em família lá em casa ou nos restaurantes são habituais. Fora dessa estação a vantagem é que, mesmo com menos pessoas, o contacto humano faz-se com os naturais da região e é mais frequente travar conversa com as pessoas.

A cozinha da região, pelas duras condições climatéricas, costuma ser contundente. O destaque vai, sem dúvida, para a posta mirandesa, um belo naco de vitela que para os amantes da boa carne (vegans abster-se), grelhadinho e mal passado com os sucos naturais da carne a saírem com cada corte no prato é de chorar por mais. E uma sobremesa de papas de milho com compotas é um belo final nesta experiência gastronómica ímpar. Do lado da região alistana, a carne de vitela também não desmerece, designadamente na aldeia de San Vitero onde dizem que preparam as melhores da região.

Sem dúvida, uma muito boa escolha de fim-de-semana ou de até mais dias para quem quiser usufruir da tranquilidade e o sossego sem (quase) sair lá de casa.

Foto 1. Vista da fronteira para o lado de Portugal. Entrada ao concelho de Vimioso.
Foto 2. Marco fronteiriço nas Três Marras.
Foto 3. Caminho fronteiriço (E-esquerda, P-direita) em direcção à Serra de Bouças.
Foto 4. Fronteira vista para o lado de Espanha.
Foto 5. Vista geral de Alcanices, a 4 km. da fronteira.


Ver Fronteira de Três Marras (Avelanoso/Alcanices) num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Quero dar as boas-vindas aos nossos novos amigos Cristian Facós e Marta D. Espero que continuem a gostar do blogue! Informo ainda que o blogue tem um perfil no Facebook: Fronteiras Historiasdaraia e no Twitter: @FronteirasPT. Para além de informar da saída de novos 'posts', vou recolhendo notícias que aparecem nos jornais de um e do outro lado da fronteira, blogues, sites diversos relativamente às relações transfronteiriças, eventos culturais e tudo aquilo que tenha a ver de uma forma ou outra com a fronteira e que, por motivos evidentes, não podem ser comentados no blogue. Fica pendente uma renovação do visual do blogue que seja mais moderno e mais atractivo, mas as novidades aparecerão aos poucos. Confio em que os leitores gostem!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fronteiras: S. Pedro de Rio Seco/La Alameda de Gardón

Um exemplo dos bons resultados dos fundos europeus (nem tudo tem de ser mau!) é a multiplicação de novas ligações transfronteiriças. É o caso da fronteira entre São Pedro de Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Interior, com a aldeia de La Alameda de Gardón, na província de Salamanca.

A ligação fronteiriça é muito recente (2008) se bem não tem sido até finais de 2009 que a estrada ficou já pronta com toda a sinalética. A ligação não é directa, mas sim por intermédio da estrada SA-470, que liga Aldea del Obispo com Fuentes de Oñoro/Vilar Formoso. Daí, a estrada local que vai até La Alameda de Gardón, fica umas centenas de metros mais além. Refira-se o facto de esta estrada SA-470 ser praticamente paralela à linha fronteiriça, sendo que nalguns pontos os marcos fronteiriços estão situados quase na berma da estrada conforme já foi dito noutro 'post' anterior. De facto, a fronteira fica a menos de dez metros do entroncamento da estrada portuguesa com a espanhola, como se pode ver nas fotografias que seguem.

As duas aldeias são um bom exemplo de aldeias raianas com as suas particularidades próprias dependendo do lado da Raia em que fiquem. A aldeia de São Pedro de Rio Seco fazia parte do território de Riba Côa, a pertencer ao reino de Leão antes do Tratado de Alcanices de 1297 e pertenceu ainda à diocese de Ciudad Rodrigo. Mais informações podem ser tiradas do site da freguesia. Relativamente à La Alameda de Gardón, referir apenas o facto de ser uma aldeia com metade da população de S. Pedro. De resto, ambas as duas aldeias fazem parte da peneplanície envolvente, que não conhece fronteiras, rota apenas por rios e ribeiras como a ribeira de Tourões, afluente do rio Águeda, que desagua em Barca d'Alva. A pecuária é a actividade mais importante, para além dos serviços. A emigração tem sido a saída de muitos dos seus moradores à procura de uma vida melhor. Do ponto de vista etnográfico, resultam interessantes as casas em pedra tipicamente beirãs, em granito, de S. Pedro de Rio Seco, que está muito melhor condicionada do que La Alameda de Gardón. Parece que as aldeias raianas de Salamanca estivessem votadas ao abandono...

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço.
Foto 4. Ponte sobre a ribeira de Tourões, a menos de duzentos metros da fronteira.
Foto 5. Ribeira de Tourões completamente seca, no Verão.
Foto 6. Caminho de S. Pedro de Rio Seco.


Ver Fronteiras: S. Pedro de Rio Seco/La Alameda de Gardón num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação. Refira-se o facto de não aparecer a nova estrada no mapa a causa da sua construção ter sido muito recente.

P.S. Dou as boas-vindas a Ricardo Nabais por ter sido o amigo do blogue número 31. Confio em que os motivos que o têm motivado continuem vigentes por muito tempo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Fortalezas da Raia: San Felices de los Gallegos

A Raia está cheia de percursos interessantes que são culturalmente estimulantes e que resultam, para o viajante ávido de novas realidades culturais, um prazer para os seus sentidos a todos os níveis. Talvez possa estar enganado, mas acho que não existe nenhum percurso transfronteiriço como a Rota das Fortalezas da Raia que há entre Ciudad Rodrigo, San Felices de los Gallegos, o Forte da Conceição (na própria Raia, entre Vale da Mula e Aldea del Obispo) e Almeida. Uns situados na província de Salamanca, a vila de Almeida na Beira Interior, no distrito da Guarda. Já falei a respeito do Forte da Conceição. Hoje vou falar sobre a aldeia de San Felices de los Gallegos (em português São Felizes ou São Félix dos Galegos).

A aldeia de S. Félix dos Galegos recebe esse nome por ter sido repovoada alegadamente por galegos que vieram ocupar estas terras. A inclusão desta região no reino leonês foi relativamente tardia e teve muito a ver o facto de Ciudad Rodrigo ter sido elevada a sede da diocese homónima em oposição à de Salamanca. A região, no entanto, sempre foi importante do ponto de vista histórico e aí temos a antiga diocese de Caliábria, já da época dos suevos e dos visigodos, que hoje se relaciona com o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, situado perto de Figueira de Castelo Rodrigo, nas terras de Riba Côa, que pertenciam ao reino de Leão, o que vai motivar a construção de castelos de um e do outro lado da antiga fronteira, situada no Côa, como Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Castelo Mendo, Sabugal ou Sortelha, para além do foral dado à cidade da Guarda em 1199.

A aldeia fica numa peneplanície perto do limite das arribas formadas pelo rio Águeda, afluente do Douro e relativamente perto também do conjunto arqueológico de gravuras paleolíticas de Siega Verde e que vêm a complementar o Parque Arqueológico do Vale do Côa, Património Mundial da Unesco. Responde às características das aldeias da região, com casas em pedra e um importante património medieval e renascentista fundamentalmente, épocas que coincidem com o auge máximo do território. Do ponto de vista histórico cumpre salientar o facto de que o Tratado de Alcanices de 1297 fez com que a aldeia fosse portuguesa e o castelo fosse construído pelo nosso rei D. Dinis. A data de re-integração em Castela segundo alguns historiadores teria sido em 1350 e segundo outros em 1476 no marco das frequentes rupturas das relações feudais que se davam nesta altura. De facto, a aldeia dista em linha recta a uma distância inferior a 15 km. de Escarigo numa linha imaginária que passaria por Puerto Seguro y La Bouza (Bouça). No entanto, a inexistência de estradas de ligação directa faz com que o percurso actual seja de mais de 50 km.

De resto, a aldeia tem uma vocação económica baseada na agricultura e na pecuária onde o clima faz possível já que nas encostas do Águeda encontremos as oliveiras apesar do clima rigoroso da região, muito frio e seco no Inverno e quente no Verão. Resulta particularmente indicado para um fim-de-semana pelas fortificações abaluartadas da Raia fazendo o percurso anteriormente descrito. A Primavera é a época mais adequada visto que não temos a afluência de turistas do Verão (e o calor!) nem o frio do Inverno e podemos-nos deliciar com umas terras verdejantes e viçosas.

Foto 1. Vista geral da aldeia.
Foto 2. Castelo construído por D. Dinis.
Foto 3. Porta de entrada ao castelo.
Foto 4. Igreja matriz.
Foto 5. Largo da igreja.
Foto 6. Torre-sineira e caminho de entrada para o castelo.
Foto 7. Torre-sineira. Parte de trás.
Foto 8. Vista geral da peneplanície e da zona de arribas do rio Águeda.
Foto 9. A planície vista do castelo com a Serra da Marofa (c. Figueira de Castelo Rodrigo) ao fundo.
Foto 10. Peneplanície das terras de Salamanca vistas do castelo (direcção NE).


Ver S. Felix dos Galegos num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A herança portuguesa em Olivença: S. Jorge da Lor

Como vem sendo habitual no blogue nestes últimos tempos, damos as boas-vindas a mais um amigo, neste caso o fotógrafo Javier Alonso, que tem vários blogues dos quais destaco o dedicado à fotografia. As suas fotos sobre o mundo rural das regiões de Zamora de Sanábria, Carballeda e Aliste, bem como as áreas raianas do Nordeste Transmontano são lindas de se ver. Recomendo-o sem falta!

Hoje vou falar da herança portuguesa em Olivença. Como este blogue não é político, não vou falar da questão oliventina. Importa apenas indicar que a região oliventina tem estado na posse de Espanha desde 1801, depois da Guerra das Laranjas, um episódio emoldurado dentro das chamadas guerras napoleónicas. Mas Olivença foi «reconquistada» e repovoada por cavaleiros da Ordem de Cristo vindos de Portugal a partir de 1234, sendo que o território fazia parte inicialmente do reino de Leão. A povoação não teve muito desenvolvimento, talvez a causa da indefinição de fronteiras que levaram ao Tratado de Badajoz de 1267 pelo qual o Guadiana fazia de limite entre Portugal e o reino de Castela e depois ao Tratado de Alcanices de 1297, pelo qual Campo Maior, Ouguela, inicialmente leonesas, e Olivença e Táliga passavam a mãos portuguesas. Daí, o domínio português sobre o território foi contínuo, a excepção de breves períodos de conquista nas contínuas guerras que decorreram nos mais de cinco séculos que durou a dominação portuguesa. Foi então que Olivença cresceu como vila abaluartada com muralhas e fossos para a defesa do reino sendo uma das chaves da fronteira juntamente com Elvas e Ouguela.

O território oliventino estava formado por tres concelhos: Olivença, Táliga e Juromenha, que detinha a aldeia de Vila-Real (Villarreal, segundo a toponímia oficial, em diante t.o.). Para além de Táliga e de Olivença, esta região apresenta várias aldeias espalhadas pela planície com a presença vizinha da Serra da Lor (de Alor, t.o.). Talvez a mais característica é a aldeia de São Jorge da Lor (San Jorge de Alor, t.o.) pelas suas vistosas chaminés alentejanas, algumas de início do século XIX.

Trata-se de uma aldeia situada nas encostas da Serra da Lor, com vistas para a localidade extremenha de Valverde de Leganés, com típicas casas brancas caiadas ao modo alentejano, mas com varandas e grades nas janelas ao modo da Extremadura espanhola. Afinal, duzentos anos de dominação espanhola fazem mossa, mas mesmo assim, é das aldeias com menos deturpações relativamente ao que seria caso tivesse permanecido sob soberania portuguesa. Mas é, sem dúvida, a chaminé o que dá à aldeia o seu carácter alentejano. E é que a chaminé alentejana é uma chaminé em tronco de pirâmide quadrangular, fazendo parte do alçado ou da frontaria da casa, encontrando-se normalmente junto à porta da entrada. Essa forma rectangular é a mais característica, mas existem outras, designadamente de forma cilíndrica, com remates em cúpula ou em pináculos, sendo que o fumo sai pelos interstícios deixados pelos tijolos colocados de forma vertical que suportam essas cúpulas ou pináculos.

De resto, S. Jorge da Lor podia ser mais uma aldeia alentejana se não fosse pelo facto de estar situada na região oliventina e ter sofrido essa forte pressão uniformizadora no sentido de se integrar em Espanha. Daí a proibição do uso da língua portuguesa e a castelhanização dos apelidos familiares até extremos ridículos do tipo Perera/Pereira, Cuello/Coelho, Sardiña/Sardinha, Pesoa/Pessoa, e assim por diante. Os topónimos também têm sido deturpados, apesar do qual ainda é possível observar claramente essa herança portuguesa.

S. Jorge da Lor e a restante região oliventina deve constituir um bom exemplo de valorização do património cultural, artístico e imaterial, incluindo a língua portuguesa. Não apenas para uns quantos portugueses nostálgicos e saudosistas ou para a maior parte dos portugueses que estão-se nas tintas para a «questão» de Olivença, mas também para os espanhóis de deviam valorizar mais a sua riqueza cultural e linguística. É por isso que não posso deixar de louvar a iniciativa da associação Além Guadiana, criada por oliventinos cientes do seu património e que querem recuperar essa herança portuguesa também longe de disputas políticas e à qual já me tenho referido em mais de uma ocasião. Essa falta de visão é o que tem feito estar em perigo essa herança pois em Espanha, como já tive ocasião de ver, às vezes mistura-se língua com nacionalismo, o qual constitui um erro. Não é por acaso que uma das emendas ao novo Estatuto da Região Autónoma da Extremadura espanhola no parlamento espanhol seja a protecção à língua portuguesa em Olivença, para além das falas galaico-portuguesas do vale de Xálima, na região raiana do noroeste da província de Cáceres, perto de Penamacor, na Beira Interior.

Por isso, toda acção com o intuito de recuperar o património de um lugar, quer etnográfico, quer linguístico, quer imaterial, como é o caso da «Além Guadiana» é digna de se ter em conta. Esperemos que os seus esforços não sejam em vão e dêem os seus frutos.

Foto 1. Vista geral de S. Jorge da Lor.
Foto 2. Rua da aldeia com as típicas chaminés alentejanas.
Foto 3. Igreja matriz, de óbvia factura portuguesa.
Foto 4. Chaminé alentejana e grades extremenhas.
Foto 5. Outros recantos da aldeia.
Foto 6. Olivença vista da estrada de S. Jorge da Lor.
Foto 7. Elvas vista de S. Jorge da Lor.


Ver S. Jorge da Lor num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Quem desejar obter mais informações, não deve deixar de ler o livro de José António González Carrillo, oliventino de gema, intitulado Olivenza oculta, em espanhol e em português, com muitas imagens da região.