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terça-feira, 6 de Novembro de 2012

Fortalezas da Raia: Castelo de Alburquerque

A nossa Raia tem lugares pouco conhecidos para o grande público. Um desses é a vila de Alburquerque, situada na Extremadura espanhola, perto da fronteira portuguesa. Para quem vem de Badajoz, há uma bela estrada que liga esta cidade com a vila, situada a 50 km. Do Alentejo é possível aceder pela estrada que vem de Campo Maior e que contorna a aldeia e castelo de Ouguela, saindo para uma estrada que liga Alburquerque com La Codosera. De Arronches, pela fronteira do Marco, acede-se rapidamente a La Codosera e depois à estrada que liga esta localidade com a vila. É ainda possível aceder pela fronteira da Rabaça, na Serra de S. Mamede e seguir logo até La Codosera e daí pela estrada antes citada. Outra via, para quem vem de Marvão, é a fronteira de Galegos/Puerto Roque, que vai dar até Valência de Alcântara, que é também o acesso natural para quem vem de Cáceres. Daí é possível chegar até Alburquerque, que dista a 40 km. desta localidade.

Sem dúvida, o foco de atenção vai para o seu castelo, o castelo de Luna, que se ergue sobranceiro sobre um outeiro rochoso, com uma queda importante para a parte Sul, a partir do qual é possível divisar uma bela vista, facto que obviamente determinou a escolha dessa localização. O castelo faz parte do centro histórico muralhado conhecido como «Villa Adentro», que foi a vila medieval por excelência. De facto, no mês de Junho há um festival medieval que congrega multidões que se deslocam para desfrutar de um bom ambiente num marco incomparável. 

O território parece ter sido povoado já antes da conquista romana da Lusitânia, mas será na Idade Média quando adquira uma notável importância. Relativamente à origem do nome existem duas teorias: a primeira faz derivar o topónimo do termo latino Albus Quercus, isto é, «azinheira branca», mas a segunda hipótese parece mais plausível pela vegetação dominante. Segundo esta teoria, o nome viria do árabe Abu-al-Qurq, ou seja, «país dos sobreiros» o que condiz com a persistência da população islâmica na região e com a abundância de sobreiros em regime de montado. Não devemos esquecer que a vila é conhecida pela qualidade dos seus enchidos, principalmente o presunto ibérico de porco preto, alimentado apenas com bolotas e o capim que cresce no montado.

Em 1166, após a conquista de Évora por Geraldo Sempavor o ano anterior, o primeiro rei português, D. Afonso Henriques terá ocupado estas terras aos almóadas, bem como a região de Cáceres e Trujillo, que terão permanecido na sua posse até o «desastre de Badajoz» em 1170, quando o seu genro, Fernando II de Leão, em ajuda dos almóadas, impediu a toma da cidade a falta de ocupar a alcáçova. O território terá passado ao reino de Leão, mas em 1174 voltou às mãos dos almóadas. Foi só depois da batalha das Navas de Tolosa em 1212 que o rei Afonso IX teve a oportunidade de ocupar definitivamente Alburquerque em 1217 (ou 1218 segundo outros historiadores) incorporando-a ao reino de Leão antes da ocupação de Badajoz. O perigo almóada só teria desaparecido após a conquista de Elvas pelo rei D. Sancho II em 1226 e a conquista de Campo Maior, Ouguela e Badajoz em 1230 pelo rei Afonso IX de Leão.

As guerras com Portugal foram muito frequentes é de facto na Raia houve um espaço indefinido, conhecido como «contenda» que recebeu o nome de Contenda de Arronches ou de Alburquerque, na qual pastavam os rebanhos de ovelhas. Terá de ser a partir do Tratado de Lisboa de 1864 e os trabalhos de delimitação da fronteira que o território ficou definitivamente marcado. Houve de facto, uma ocupação portuguesa da vila, na sequência da Guerra de Sucessão Espanhola entre 1705 e 1716, período em que foi construída uma muralha de tipo Vauban que separava o castelo da vila.

O acesso ao castelo faz-se por uma série de portas, sendo as principais a Porta de Valência e a Porta da Vila, que tinha o escudo do filho bastardo de D. Dinis, Afonso Sanches, que foi senhor de Alburquerque e do qual existe uma inscrição em português arcaico hoje custodiado no Museu Arqueológico de Badajoz. Destacam ainda a igreja de Santa Maria do Mercado, do século XV, e a igreja de S. Mateus, dos séculos XVI e XVII.

Do castelo é possível divisar uma grande extensão de território num raio de 60 km. A Leste e a Norte, a Serra de S. Pedro circunda a vila, enquanto a Sul é possível adivinhar a fértil veiga do Guadiana e a cidade de Badajoz. A Oeste temos uma bela vista da Serra de S. Mamede e a Sudoeste uma panorâmica muito extensa que abrange a planície alentejana até à Serra d'Ossa. Não admira que tivesse um grande valor estratégico. De facto o castelo é visível do castelo de Ouguela, já no concelho de Campo Maior e da estrada que liga Campo Maior com Arronches. Definitivamente uma visita que bem vale a pena!


Foto 1. Porta de Valência.
 Foto 2. Uma vista de Alburquerque da «Villa Adentro».
Foto 3. Vista geral do castelo, fechado actualmente (Nov. 2012) por obras.
Foto 4. Uma vista das muralhas e da vila, com a Serra de S. Mamede ao fundo.
 Foto 5. Vista do recinto muralhado.
Foto 6. Paisagem de montado na direcção Sul para a veiga do Guadiana.
Foto 7. Castelo visto da muralha.
Foto 8. Paisagem de montado com a cidade de Badajoz ao fundo.
Foto 9. Vila (vista geral) e Serra de S. Pedro vistas do castelo.
Foto 10. Centro histórico e muralhas vistos do castelo.
Foto 11. Igreja de Santa Maria do Mercado, igreja de S. Mateus e muralhas estilo Vauban portuguesas vistas do castelo.
Foto 12. Fachada da igreja de Santa Maria do Mercado.
Foto 13. Paisagem de montado vista do castelo do vale do rio Xévora.
Foto 14. Muralhas, Serra de S. Mamede e planície alentejana vistas do castelo, com a Serra d'Ossa muito a fundo (quase imperceptível).
Foto 15. Castelo de Alburquerque (seta) visto da fortaleza abaluartada de Ouguela (c. de Campo Maior), já no Alentejo.



Ver Castelo de Luna (Alburquerque) num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.


Ver Castelo de Luna (Alburquerque) num mapa maior
Mapa 2. Mapa específico.

P.S. Muda-se o papel de parede para uma bela vista da fortaleza de Ouguela. Espero que gostem!

segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Fronteiras: A fronteira no Guadiana (Monsaraz/Ribeira de Cuncos)

Um dos lugares mais aprazíveis para passar o final da tarde nos arredores da vila de Monsaraz e poder contemplar as terras raianas é o ancoradouro ou embarcadouro de Monsaraz. Isto porque permite observar, mesmo que seja de modo panorâmico, espaços que de outra forma seriam impossíveis de serem apreciados pela sua dificuldade no acesso. O embarcadouro é acessível a partir da estrada N514 vindo, quer da aldeia do Telheiro, quer de Monsaraz. Na pequena aldeia do Ferragudo há uma indicação para o Convento da Orada numa rotunda. É essa a direcção que deve tomar-se para chegar até este ponto. Após passar algumas herdades, a beleza indescritível do Guadiana e do Grande Lago de Alqueva é uma realidade ao chegarmos a uma pequena área de lazer onde não falta o típico café, um parque infantil e o embarcadouro com as docas flutuantes para a chegada e amarre dos barcos que passeiam pelo rio.

O espaço fica exactamente no ponto de confluência da Ribeira de Azevel, na margem direita do Guadiana, e da Ribeira de Cuncos, na margem esquerda. A Ribeira de Cuncos, apesar de não passar de um riacho, tem especial relevância na delimitação da fronteira. O próprio rio serve de fronteira nos últimos quilómetros entre Portugal e Espanha antes de desaguar no Guadiana pela margem esquerda. A partir do ponto em que o riacho é totalmente espanhol, uma linha de fronteira quase recta parte a planície que separa o Alentejo da Extremadura espanhola até à fronteira de São Leonardo, que comunica a vila de Mourão com a vizinha extremenha de Villanueva del Fresno pela N256-1. 

Mas não só. A Ribeira de Cuncos foi designada como limite a partir do qual continuariam os trabalhos de delimitação da fronteira com o Tratado de Limites de 1927. Lembre-se o facto de que o Tratado de Limites de Lisboa de 1864 tinha dado lugar a uma série de trabalhos de delimitação da fronteira que ficaram interrompidos na foz do Caia, na confluência deste rio com o Guadiana a causa da disputa pelo território de Olivença. O não reconhecimento da soberania espanhola sobre este território fez com que do Caia até à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António não houvesse nenhuma delimitação aceite pelos dois estados. Para ultrapassar isto, ficou decidido que a Ribeira de Cuncos seria o ponto em que os trabalhos recomeçariam, facto que permitiu finalizar a delimitação da fronteira Sul. Restam ainda cem marcos fronteiriços correspondentes ao espaço entre a foz do Caia e este ponto, mas não é de esperar que essa situação se resolva em breve. Para complicar mais a situação, o acordo internacional referido às águas dos principais rios ibéricos, segundo foi assinado no Tratado de Águas de 1967, dá a Portugal a posse das águas de ambas as margens do Guadiana entre o Caia e a Ribeira de Cuncos, em vez de estar delimitado pelo ponto médio existente em cada rio como aconteceu com os outros rios como o Minho, o Douro ou o Tejo na sua parte internacional. Esta solução permitiu a Espanha chegar a um acordo sem reconhecer a reclamação portuguesa de Olivença e Portugal mostrou assim que também não renunciava a este território, o que não deixou, no entanto, de ocasionar alguns atritos, designadamente na Ponte da Ajuda ou os relacionados com a navegabilidade do Guadiana que serão oportunamente tratados em 'posts' posteriores.

De qualquer forma, fora de disputas políticas, o passeio vale mesmo a pena, pela paisagem envolvente e pela beleza intrínseca do lugar. Para além de Monsaraz, visita óbvia, vale a pena ver o Convento da Orada, um convento do século XVIII construído no lugar em que D. Nuno Álvares Pereira terá rezado antes de várias batalhas contra Castela, ou o Cromeleque de Xarez, único monumento transferido para outro local aquando da construção da barragem de Alqueva.  E para quem quiser, é possível dar passeios pelo Grande Lago em barco, quer em roteiros estabelecidos por empresas do lugar com duração de 1 ou 2 horas com possibilidade de almoço incluído, quer por intermédio do aluguer de embarcações para as quais não é preciso experiência nenhuma com uma duração de até 7 dias, no «resort» da Amieira Marina. Pena é, neste Inverno de 2012, a situação de seca extrema que temos vindo a padecer pela falta de chuvas nestes últimos dois meses e que está a afectar já à agricultura da região.


Foto 1. Foz da Ribeira de Cuncos vista do embarcadouro de Monsaraz. As linhas vermelhas indicam a fronteira delimitada.
Foto 2. Mesma foto que a foto 1, mas sem marcas.
Foto 3. Monte de Domingo Lopes (c. de Mourão), mesmo no limite fronteiriço.
Foto 4. Vista da planície e do Grande Lago de Alqueva entre os concelhos de Reguengos e Mourão. Advirtam-se os efeitos da seca.
 Foto 5. Vista do embarcadouro de Monsaraz ao pôr-do-sol.
Foto 6. Viaduto do Guadiana (N256) e Grande Lago vistos do embarcadouro de Monsaraz.
Foto 7. Área de lazer do embarcadouro.
Foto 8. Convento da Orada (vista da fachada).
Foto 9. Convento da Orada visto do cromeleque de Xarez.
Foto 10. Cromeleque de Xarez (vista geral). Mais informações aqui.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casa de Bastos (Alto dos Três Termos)

A Raia tem essas coisas que não por serem realmente curiosas, deixam menos de surpreender. É o caso de uma herdade situada na mesma linha de fronteira, perto do Alto dos Três Termos. Este alto é realmente uma pequena lomba não muito elevada (521 m.) em que confluem os termos dos concelhos de Arronches e Portalegre e o município da Extremadura espanhola de La Codosera. 

A herdade, conhecida como Casa de Bastos, está situada a pouco mais de 480 m. de altitude e a uns 2 km. da aldeia da Tojeira, que pertence ao município de La Codosera e da qual já falamos neste blogue, e a uns 3 km. da aldeia de Besteiros, situada na freguesia de Alegrete, no concelho de Portalegre, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede. Lá perto fica ainda o Monte de Parra, na freguesia de Mosteiros, no concelho de Arronches e que está unida à Tojeira por uma estrada local que atravessa a Ribeira de Abrilongo.

A fronteira está delimitada por uma série de caminhos rurais de terra batida e a herdade fica no meio do pequeno vale situado entre o Alto dos Três Termos e a Serra de Bastos, alinhamento montanhoso que segue a linha de fronteira e que atinge os 600 m. de altitude. O acesso pode fazer-se a partir da estrada que liga a Tojeira com a aldeia vizinha de Bacoco ou pelo caminho de terra batida que de Besteiros liga ao limite fronteiriço. A região é na realidade uma bela floresta na que domina o sobro e o azinho e na que são patentes umas características climatéricas próprias de uma maior humidade no território, talvez pela proximidade da Serra de S. Mamede, que daria lugar a uma maior abundância de precipitações. 

A herdade é, na realidade, um monte alentejano típico, apesar de situado já em Espanha. Isso não deve surpreender-nos porque não será senão um resultado da segunda vaga migratória de população portuguesa para os territórios fronteiriços vizinhos. Se já houve uma primeira vaga no século XVIII na região circundante de Valência de Alcântara, esta segunda vaga teve lugar no último quartel do século XIX. Nisso teve muito que ver o Tratado de Limites de 1864 que definiu os limites fronteiriços nos trabalhos que decorreram até 1868. Até esse momento eram muito frequentes as chamadas «contendas», territórios pouco definidos, em terra de ninguém, que costumavam ser aproveitados como espaços para a exploração pecuária pelos camponeses dos municípios de um e do outro lado da fronteira como foi o caso da Contenda de Arronches. Obviamente, essas terras, pela sua indefinição jurídica, costumavam ficar desertas, isto é, não existia um povoamento estável de relevância. A delimitação da fronteira clarificou muito a situação do ponto de vista jurídico, o que permitiu o aparecimento de pequenas aldeias que foram povoadas por portugueses dos concelhos vizinhos no que hoje é o município de La Codosera. Daí que os nomes sejam claramente portugueses: Marco, Tojeira, Bacoco ou Rabaça são bons exemplos disso. A língua portuguesa é presentemente um facto, até porque a maior parte dos seus habitantes não romperam o cordão umbilical com a pátria e há até quem conserve a nacionalidade portuguesa ou mesmo só tenha esta.

Daí que, mesmo já em terras espanholas, não nos seja estranho o território, inclusive quando o casario apresente, por via de mimetização, alguns elementos de mistura próprios da tradição da Extremadura espanhola como podem ser os gradeamentos nas janelas. Não podemos esquecer que a Raia do Alentejo com a Extremadura espanhola é das que menos diferenças apresenta do ponto de vista da paisagem porque ambas as duas regiões caracterizam-se por uma estrutura da propriedade em que domina a grande propriedade latifundiária e a paisagem de montado e de searas como formas tradicionais de exploração agrária e pecuária.

Fica, pois, mais uma amostra das curiosidades que podemos encontrar na Raia num simples passeio de tarde por estes recantos tão pouco conhecidos.

Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
 Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
 Foto 3. Caminho fronteiriço em que a fronteira discorre pela vedação de arame farpado.
 Foto 4. Herdade de Casa de Bastos e linha de fronteira (os cães não ligam nenhuma a isso!!!)
 Foto 5. Caminho fronteiro na direcção do Alto dos Três Termos.
Foto 6. Floresta de azinho e sobro do lado português, no termo de Besteiros, freguesia de Alegrete.



Mapa 1. Mapa de situação.


Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Fronteiras: Moimenta da Raia/S. Cibrão de Hermisende

Entrando de novo no terreno do esquecimento, lá vai uma fronteira muito pouco conhecida. Trata-se da fronteira existente entre Moimenta da Raia, freguesia e aldeia do concelho de Vinhais, e São Cibrão de Hermisende (San Ciprián, na toponímia oficial). É pouco conhecida porque de Moimenta sai apenas um caminho rural de terra batida, enquanto de S. Cibrão há um desvio pavimentado de apenas uns 200 m. até ao mesmo limite fronteiriço que parte da estrada ZA-L 2698, que liga Hermisende com Castromil, aldeia que está partida em duas partes porque uma pertence ainda à província de Zamora e a outra faz parte já da Galiza, mais exactamente da província de Ourense e do concelho de A Mezquita. 

Partindo de Hermisende, temos de atravessar a ponte da Veiga, ponte medieval situada sobre o rio Tuela, um dos dois rios, que junto com o Rabaçal formam o Tua pouco antes de chegar a Mirandela. Daí há uma subida íngreme na que S. Cibrão fica de lado, visto que temos de passar de pouco mais de 790 m. no fundo do vale até quase os 1 000 m. passando a meia encosta da Serra do Marabón, serra que separa a província de Zamora da Galiza. Daí chegamos a um planalto granítico que desce em suave declive entre os 1 100 e os 900 m., flanqueado pela Serra do Marabón e a Serra da Coroa, situando-se Moimenta da Raia a uma altitude algo inferior aos 900 m., na parte mais baixa do planalto pouco antes de chegarmos às íngremes encostas quase em arribas do vale do Tuela.

Esta situação entre a Galiza, Leão e Portugal deu lugar a pontos como o chamado Penedo dos Três Reinos, não muito longe deste ponto fronteiriço, se bem na realidade o reino da Galiza tinha o seu limite oriental na Portela do Padornelo e as províncias do Antigo Regime mantiveram esta situação até 1833, com a reforma provincial de Javier de Burgos, que deu o território entre esta portela e a Portela da Canda, à província de Zamora. Os penedos graníticos fazem, pois, parte da paisagem deste planalto porque a sua elevada altitude faz com que abundem afloramentos rochosos e uma paisagem quase desoladora de estevas, urzes, giestas ou tojos, ou seja, grandes extensões de mato açoitados por um vento geado no Inverno e pelo calor intenso no Verão.

Daí a importância do fumeiro na região, aquém e além fronteiras, que beneficia destas temperaturas baixas que resultam ideais para o fabrico de enchidos e, no concelho de Vinhais, da cria do porco bísaro, verdadeira iguaria e marca identificadora da região. Como muitas aldeias, esta região sofreu com intensidade a emigração, mas manteve certos usos comunitários hoje em declínio e que, infelizmente, decerto morrerão com a extinção das gerações mais velhas, dedicadas à agricultura e à pecuária, numa economia típica de subsistência.

Do ponto de vista cultural importa salientar o facto de as relações transfronteiriças terem sido muito intensas, o que se traduziu numa mistura de traços do ponto de vista etnográfico e linguístico. As fronteiras na região realmente não foram bem delimitadas até ao Tratado de Limites de 1864. Já as Inquirições de D. Afonso III de 1258 mostravam que Portugal estava na posse da aldeia de Manzalvos e metade da aldeia de Cádavos, actualmente do concelho de A Mezquita, na Galiza. Relativamente à S. Cibrão é comummente aceite que esta aldeia junto com Hermisende e Teixeira pertenceram à coroa portuguesa até 1640, se bem Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e grande estudioso do distrito de Bragança, mostra que a documentação histórica não nos permite afirmar tal hipótese, sendo que talvez tenham sido perdidas ao longo do século XVI.

Seja como for, a dominação portuguesa deixou a sua marca na língua falada na região. A mal chamada Alta Sanábria ou Sanábria galega é na realidade a região das Portelas e o galego é a língua principal de uso, para além do castelhano oficial. No entanto, nestas três aldeias de S. Cibrão, Hermisende e Teixeira há quem afirme que é falado um galego com traços portugueses ou um português em descomposição, com traços galegos. Do ponto de vista filológico, S. Cibrão pertencerá ao grupo do chamado «portelego central», tendo perdido o uso do esse sibilante sonoro, que ainda se mantém nas aldeias de Hermisende e Teixeira, do grupo do «portelego oriental». Os seus habitantes não se consideram sanabreses, mas antes porteixos.

Em resumo, uma região de confluência de culturas que vale a pena visitar quanto mais não seja que pelas suas paisagens, o contacto com a Natureza ou o património cultural e humano. Embora o Verão seja a melhor estação para visitar, quer pelas suas melhores condições meteorológicas, quer pelo facto de haver uma vida mais animada com os emigrantes que voltam de férias e as romarias, eu gosto particularmente no Inverno, quando esse vento frio acaricia o meu rosto e sinto algo de purificador nisso, no meio do cheiro do mato e o fumo da lenha das casas lentamente queimada na lareira para aquecê-la ou até mesmo cozinhar pratos fortes e consistentes. Vai um bom cozido ou umas fatiazinhas de salpicão de porco bísaro?


 Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal e vista do planalto.
 Foto 2. Caminho fronteiriço entre penedos.
 Foto 3. Caminho da Moimenta, com a Serra da Coroa ao fundo.
Foto 4. Vista do planalto, entre Portugal e a Galiza onde se assentam aldeias como Carvalhas, Casares ou Manzalvos.
 Foto 5. Marco fronteiriço com vistas para a Serra do Marabón.
 Foto 6. Mudança de piso que indica o limite fronteiriço visto da parte da província de Zamora.
Foto 7. Vista da estrada da parte de Zamora, o planalto e a Serra do Marabón ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casas de la Duda, Pino (Valência de Alcântara)

Há curiosidades fronteiriças e curiosidades. Esta é possivelmente uma das mais raras e menos conhecidas da Raia. Mas para isso é preciso entrar em antecedentes. Em primeiro lugar, temos de dizer que a fronteira, tal como a conhecemos hoje advém do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 e que definiu a fronteira com uma série de trabalhos que consistiram em comparar os documentos existentes por parte das duas comissões, portuguesa e espanhola, e fixar uma série de marcos fronteiriços numerados. Esses trabalhos, como já disse nalgum momento, pararam na confluência do rio Caia com o Guadiana com o marco 807 a causa da questão de Olivença, que levou a um novo tratado, em 1927, que definiu os restantes entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Restam ainda por colocar 100 marcos entre o Caia e a Ribeira de Cuncos a causa da questão citada.

Em segundo lugar, esta curiosidade prende-se pelo facto da própria geografia da região, em plena Serra de São Mamede. Esta serra é na realidade um conjunto de alinhamentos montanhosos, mais ou menos paralelos entre os quais se intercalam pequenos vales, várzeas e meias-encostas nas quais chegam a cultivar-se a oliveira e a videira em socalcos. A linha de fronteira costuma ir paralela ao cume das montanhas, a partir da Serra Fria, que atinge os 974 m., situada entre as localidades de Galegos e Porto da Espada, que pertencem ao concelho de Marvão, mas este não é o caso da Serra da Palha (ou Sierra de la Paja, em espanhol), já que a raia fronteiriça discorre a meia encosta do lado de nascente ou a jusante. 

Em terceiro lugar, um bocadinho de História. O século XVII significou um período de forte crise económica no seio da chamada Monarquia Hispânica (e não Espanha, porque a dinastia dos Habsburgo de Madrid reinavam sobre todos os seus territórios mas estes mantinham as suas leis e estatutos. Nunca houve, apesar dalguns intentos, uma uniformização administrativa). Para Portugal esta situação mais a Guerra da Restauração (1640-1668) significou uma época de verdadeiras penúrias económicas pelos custos de uma guerra prolongada e a posterior reconstrução. Em Espanha vai supor uma mudança de paradigma. Se até o fim do século XVI na pré-crise, o centro peninsular era o mais desenvolvido, designadamente Castela-Velha, Castela-Nova e o antigo reino de Leão (especialmente Salamanca), a crise europeia do século XVII vai fazer com que a periferia, que até então estava muito menos desenvolvida, com excepção da Baixa Andaluzia, comece a destacar-se do centro, enquanto este ficava exangue a causa das contínuas guerras em que a monarquia se viu envolvida a nível europeu e nas colónias americanas. O celeiro de homens para a guerra era Castela, que sofreu mais o decréscimo demográfico e as suas consequências económicas. Resultado: Enquanto Portugal experimentava um notável crescimento económico acrescentado com a vinda do ouro do Brasil no século XVIII, as regiões espanholas do centro peninsular foram as últimas em sair de uma crise que as tinha deixado sem fôlego. Isto traduziu-se num crescimento demográfico muito mais elevado em Portugal, incluindo a região do Alentejo, em claro contraste com as regiões raianas espanholas, verdadeiros desertos demográficos.

Importa salientar que este terceiro factor contribuiu para uma primeira vaga migratória portuguesa para os espaços raianos de algumas partes da Extremadura espanhola pela pressão demográfica existente no Alentejo frente ao vaziamento demográfico da primeira. Se já existia uma aldeia em que se falava português desde a Idade Média (é o caso de Ferreira (Herrera) de Alcântara, no Tejo Internacional), é no século XVIII que começa a colonização de vilas como Cedilho e um conjunto de aldeias que contornam a localidade de Valência de Alcântara como é o caso de Fontanheira (La Fontañera), S. Pedro, Casinhas (Las Casiñas), Hortas (Las Huertas), Pino o Jola, aldeias em que ainda se mantém viva a língua portuguesa, embora seja com alguma influência do castelhano. Nelas fala-se um dialecto de tipo alto-alentejano com traços beirões, pela relativa proximidade da Beira Baixa.

E é em Pino, ou Pino de Alcântara, que encontramos esta curiosidade. O acesso vindo de Portagem/Marvão é muito fácil porque basta seguir a estrada para a fronteira de Galegos/Puerto Roque e já em Espanha, seguir pela estrada N-521, deixar ao lado uma estação de serviço situada à esquerda e, a 2 km. da fronteira, continuar pelo desvio para Pino, que fica a 1 km. Dai temos de chegar até ao fundo da aldeia, lugar em que fica o café local e seguir por um caminho rural de terra batida. A pouco mais do que 1 km. encontramos Casas de la Duda. Trata-se de um conjunto de casas espalhadas a meia encosta da Serra da Palha que ficam à beira da Ribeira da Dúvida, riacho que nasce em território português a jusante da aldeia do Montinho e que atravessa a aldeia de Pino e com outros cursos de água acaba por desaguar no rio Sever, um afluente do Tejo que nasce na Serra de S. Mamede e que acaba por constituir o limite fronteiriço com a província de Cáceres entre os concelhos de Marvão e Nisa, desaguando no Tejo na barragem de Cedilho, ponto em que o Tejo começa a ser inteiramente português.

A particularidade deste lugar tem a ver com os limites fronteiriços, pouco claros e definidos. Foi precisamente essa indefinição o que fez que este conjunto de casas fossem conhecidas como Casas de la Duda (da Dúvida), pela impossibilidade de saber em que lado estavam situadas, se no lado de Espanha ou no lado de Portugal, ficando algumas mesmo «partidas» pela linha de fronteira. Infelizmente, a emigração fez que ficassem abandonadas, sendo algumas usadas para a prática da pecuária, designadamente rebanhos de ovelhas, que pastam pela serra. A fronteira está presente nos dois marcos fronteiriços situados a ambos os dois lados da Ribeira da Dúvida, sem qualquer outra indicação. É de salientar o facto de que algumas das casas apresentam a forma típica de casario alentejano, o que não deve espantar pelas razões históricas acima descritas.

De resto, a aldeia de Pino, e uma bela amostra da mistura entre elementos da casa típica alentejana e traços extremenhos. Frente a nomes de rua de personagens históricos espanhóis, existem outros de indelével marca portuguesa como a Casa do Cabeceirinho (Casa del Cabeceiriño) ou as calles (ruas) Parra e Montiño (Montinho).

Agora só resta ver e apreciar as fotografias ilustrativas!

Foto 1. Marcos fronteiriços na Ribeira da Dúvida.
Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal com a lua ao fundo.
Foto 5. Marco fronteiriço situado para Oeste da ribeira.
Foto 6. Uma das casas que ficariam no lado português.
Foto 7. Outra das casas do lado português com a Serra da Palha ao fundo.
Foto 8. Vista das casas duvidosas e as encostas.
Foto 9. Casas que ficariam no lado espanhol.
Foto 10. Vista geral do lugar de Casas de la Duda.

Foto 11. Vistas sobre a Ribeira da Dúvida, os marcos fronteiriços e a serra.
Foto 12. Casa com chaminé de tipo alentejano.
 Foto 13. Vista geral da aldeia de Pino.
Foto 14. Igreja matriz.
Foto 15. Ruas da aldeia com casas de traço alentejano.
Foto 16. Chaminé alentejana.
Foto 17. Praça da aldeia no início da calle Montiño.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.