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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fronteiras: Três Marras (Avelanoso/Alcanices)

Depois de um tempo sem escrever nada, volto novamente, esta vez para falar da fronteira das Três Marras, que liga Avelanoso, no concelho de Vimioso, com Alcanices, localidade muito conhecida na história portuguesa pelo tratado de 1297 que definiu as fronteiras do nosso país.

O nome desta fronteira deve-se ao facto de existir uma série de marcos fronteiriços na zona de passagem que delimitam a Raia. A linha da fronteira decorre nesta região que separa a Terra de Miranda da região zamorana de Aliste normalmente pelos cumes das pequenas elevações que nunca foram um entrave para as comunicações se exceptuarmos o caso de Villarino Tras la Sierra e Vale de Frades, onde a aldeia espanhola fica do lado de aquém, isto é «isolada» do resto das aldeias espanholas vizinhas. Estas pequenas serras não atingem uma altitude importante. Enquanto as aldeias ficam, no geral, num planalto que oscila entre os 750 e os 780 metros, tanto do lado do Planalto Mirandês como da região alistana, as colinas que servem de limite não costumam ultrapassar os 900 metros. Serve de separação física e até psicológica de um país e outro mas realmente não nas comunicações que, entretanto, sempre foram muito intensas ao longo da História. Famosas são as estórias ligadas ao contrabando e a emigração nas décadas de quarenta até setenta. Um facto que mostra que as relações de um lado e do outro da fronteira é a recente celebração da romaria de Nossa Senhora da Luz, da qual teremos ocasião de falar mais adiante.

Esta fronteira é uma fronteira local muito transitada. Do lado português, permite chegar à estrada espanhola N-122 e chegar facilmente até Bragança, visto que somente há duas opções sem passar por Espanha pela N218 via Carção e Argozelo até Rio Frio, onde se apanha o IP4 ou pela N218-2 por Pinelo, que são estradas cheias de curvas nomeadamente nas arribas do rio Maçãs. Relativamente à população residente, Vimioso e Alcanices têm mais ou menos a mesma população, ao redor dos 1 200 habitantes e as aldeias envolventes ficam entre os 200 e 300 habitantes no melhor dos casos, existindo mais aldeias do lado transmontano do que do lado alistano.

A estação melhor para uma visita à região seja talvez a Primavera ou o Outono porque o Inverno pode ser duro e frio, com nevões que não são infrequentes e temperaturas em geral muito baixas. No Verão as temperaturas podem atingir perfeitamente os 35ºC e às vezes até os 40ºC no fundo dos rios, se bem as aldeias costumam estar mais cheias de vida pelas férias dos emigrantes que voltam para a terra pelo que as romarias, jantaradas em família lá em casa ou nos restaurantes são habituais. Fora dessa estação a vantagem é que, mesmo com menos pessoas, o contacto humano faz-se com os naturais da região e é mais frequente travar conversa com as pessoas.

A cozinha da região, pelas duras condições climatéricas, costuma ser contundente. O destaque vai, sem dúvida, para a posta mirandesa, um belo naco de vitela que para os amantes da boa carne (vegans abster-se), grelhadinho e mal passado com os sucos naturais da carne a saírem com cada corte no prato é de chorar por mais. E uma sobremesa de papas de milho com compotas é um belo final nesta experiência gastronómica ímpar. Do lado da região alistana, a carne de vitela também não desmerece, designadamente na aldeia de San Vitero onde dizem que preparam as melhores da região.

Sem dúvida, uma muito boa escolha de fim-de-semana ou de até mais dias para quem quiser usufruir da tranquilidade e o sossego sem (quase) sair lá de casa.

Foto 1. Vista da fronteira para o lado de Portugal. Entrada ao concelho de Vimioso.
Foto 2. Marco fronteiriço nas Três Marras.
Foto 3. Caminho fronteiriço (E-esquerda, P-direita) em direcção à Serra de Bouças.
Foto 4. Fronteira vista para o lado de Espanha.
Foto 5. Vista geral de Alcanices, a 4 km. da fronteira.


Ver Fronteira de Três Marras (Avelanoso/Alcanices) num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Quero dar as boas-vindas aos nossos novos amigos Cristian Facós e Marta D. Espero que continuem a gostar do blogue! Informo ainda que o blogue tem um perfil no Facebook: Fronteiras Historiasdaraia e no Twitter: @FronteirasPT. Para além de informar da saída de novos 'posts', vou recolhendo notícias que aparecem nos jornais de um e do outro lado da fronteira, blogues, sites diversos relativamente às relações transfronteiriças, eventos culturais e tudo aquilo que tenha a ver de uma forma ou outra com a fronteira e que, por motivos evidentes, não podem ser comentados no blogue. Fica pendente uma renovação do visual do blogue que seja mais moderno e mais atractivo, mas as novidades aparecerão aos poucos. Confio em que os leitores gostem!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fronteiras: Guadramil/Riomanzanas

Em exclusivo para os leitores deste blogue, umas fotografias acabadinhas de fazer, da «nova» fronteira entre Guadramil y Riomanzanas.

Entre esta aldeia transmontana, hoje pertencente à freguesia de Rio de Onor, onde também se mantinham, embora com menos vigor, traços de vida comunitária, e a vizinha aldeia de Riomanzanas, na região de Aliste, na província de Zamora, não havia mais do que quatro quilómetros entre ambas as duas. Por isso, as relações sempre foram bastante intensas, pelo menos antigamente, antes do despovoamento generalizado com a emigração a partir da década de sessenta.

Essa realidade foi reconhecida pelo facto de existir hoje uma estrada, novinha em folha, pelo menos por parte portuguesa, até ao limite fronteiriço, visto que para já, a parte espanhola continua a ser um caminho de terra batida, se bem é provável que brevemente isso venha a mudar, dado que normalmente este tipo de actuações costumam ser acordos transfronteiriços.

Temos de celebrar, pois, mais uma estrada de ligação que permite fazer o percurso Guadramil-Riomanzanas em apenas 4 km. em vez de termos de apanhar o desvio até à Petisqueira, passar a «ponte» sobre o rio Maçãs e depois apanhar a estrada para esta referida aldeia perto de Villarino de Manzanas, num total de cerca de 20 km.

Espero que em breve possa falar da estrada espanhola como sendo finalizada, bem como da nova ponte que está a ser construída na Petisqueira, a substituir uma «ponte» que não é tal, e que fica alagada quando há cheias no rio Maçãs.

Finalmente, presenteio-vos com uma fotografia que tomei perto de Rio de Onor, ainda em terras de Sanábria, na estrada entre Puebla de Sanábria y Rio de Onor. Entre essa fotografia e as fotografias da fronteira há apenas uns minutos de diferença, mas a sua beleza ímpar, vale a pena.

Foto 1. Limite e marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 2. Vista do marco fronteiriço e das terras de Aliste, incluindo um afluente do rio Maçãs.
Foto 3. Território português visto do limite fronteiriço.
Foto 4. Limite fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 5. Neve perto de Rio de Onor.



Ver Fronteira Guadramil/Riomanzanas num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Dou as boas-vindas ao Marcos Monteiro por ter sido o nosso vigésimo sexto seguidor do blogue. Espero que por muito tempo!

sábado, 6 de novembro de 2010

Fronteiras: Portelo/Calabor

Duas fronteiras ligam a linda região da Sanábria (Seabra) com o Nordeste Transmontano: a fronteira de Rio de Onor, a mítica aldeia raiana, e a fronteira de Portelo/Calabor. A falta de uma boa ligação entre Puebla de Sanábria e Bragança (tem-se falado na construção de uma auto-estrada), estas são as duas únicas opções existentes. Um aspecto importante é a melhora da estrada espanhola entre Puebla de Sanábria e a fronteira, se bem que não evita as múltiplas curvas lá existentes. O alcatroado é muito recente e finalmente podemos ter uma ligação numas condições aceitáveis.

A estrada atravessa zonas despovoadas onde não se vê vivalma, sobre tudo depois de ter passado a localidade de Pedralba de la Pradería, última aldeia antes de chegar a Calabor. A fronteira decorre uns quilómetros depois de termos passado esta povoação e logo a seguir chegamos a Portelo, já na Terra Fria Transmontana. Do lado português as aldeias sucedem-se: Portelo, França, Rabal e, finalmente, chegamos a Bragança, não sem antes entrar brevemente na freguesia de Meixedo. São aldeias que pertencem ao Parque Natural de Montesinho, mas que, no entanto, segundo o meu ponto de vista, trata-se de aldeias mais bem descaracterizadas, se bem que não isentas de certa beleza natural. De facto encontramos parques de merendas e zonas de banho e até mesmo moinhos ao lado do rio Sabor, mas não têm nada a ver com a «aldeia preservada» de Montesinho a 1 km. do Portelo, à que se acede por uma estrada que fica a Sul desta última.

Do lado espanhol, resulta interessante o facto de Calabor ser, segundo estudos filológicos, uma aldeia onde ainda se fala um dialecto de origem galaico-portuguesa onde os portuguesismos são frequentes, o que não admira, visto o facto de a aldeia mais próxima ser à do Portelo e de ficar mais perto de Bragança do que de Puebla de Sanábria. Embora a tipologia do casario seja parecida, cá destacam os telhados de xisto, que no Portelo só encontrámos nas casas mais velhas, sendo substituídos por telhas de barro cozido vermelho.

A Natureza, como não pode ser de outra forma, é o activo mais importante da região. Sanábria bem merece uma visita em qualquer estação do ano. No Inverno poderemos ver os cumes das montanhas nevados e desfrutar de um bom cozido feito com o feijão típico da região conhecido como habones. De salientar ainda a truta do lago de Sanábria e o polvo, feito de forma semelhante à maneira galega e as carnes de vitela. Na Primavera é o despertar e veremos a região verdejante e, sobre tudo, sem muitos turistas. No Verão, embora os turistas às vezes cheguem a ser excessivos, bem vale a pena tomar banho no lago de Sanábria, sobre tudo num dia quente. Finalmente, no Outono, vale a pena ver a região e contemplar os tons dourados das árvores, principalmente castanheiros. Para quem não é do Nordeste Transmontano, é uma região muito desconhecida para o turista português, mas tem uma riquíssima etnografia popular e muitas ligações de proximidade. Atrevo-me a afirmar que seja talvez a mais «portuguesa» das regiões da província de Zamora. É claro que é apenas minha opinião, mas acho que tem algum fundamento. Puebla de Sanábria e o seu castelo e igreja, o mosteiro de S. Martinho da Castanheira, o lago de Sanábria e, em geral, qualquer aldeia, é óptima para um passeio ou para iniciar percursos pela Natureza onde descobriremos vales glaciários, cascatas, florestas, etc.

De qualquer forma, continuo a preferir a ligação entre Bragança e Puebla de Sanábria por Rio de Onor, se bem que não é apta para autocarros nem viaturas de grandes dimensões, já que as ruas desta aldeia são um bocadinho estreitas, mas é óptima para ligeiros. Apesar de a estrada de ligação entre Rio de Onor e Puebla de Sanábria ser bem mais estreitinha, não há tantas curvas e o percurso é menos demorado. De qualquer forma, há duas opções à escolha!


Foto 1. Antiga alfândega espanhola.
Foto 2. Zona da alfândega espanhola.
Foto 3. Fronteira espanhola vista do limite fronteiriço.
Foto 4. Limite fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 5. Marco fronteiriço (lado de nascente).
Foto 6. Terras raianas.
Foto 7. Marco fronteiriço (lado de poente).
Foto 8. Fronteira portuguesa.
Foto 9. Cores do Outono junto do limite fronteiriço de poente.
Foto 10. Estrada portuguesa N103-5 com vistas para a Serra de Montesinho e as vizinhas serras espanholas.
Foto 11. Antiga alfândega portuguesa. Aquando dos controlos fronteiriços existia uma coberta como as existentes nas bombas de carburante onde ficava a GNR a fazer tais controlos.
Foto 12. Fronteira espanhola vista da fronteira portuguesa.



Ver Fronteiras: Portelo/Calabor num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

domingo, 17 de outubro de 2010

Curiosidades fronteiriças: Estrada da Petisqueira

A Raia está cheia de pequenas curiosidades fronteiriças que costumam passar desapercebidas para quem não liga a estas coisas ou quem não repara em pequenos pormenores a não ser que seja uma pessoa viciada em fronteiras, é claro!

É o caso da EM1039 que liga a Petisqueira à EN308 e daí a Deilão, sede da junta de freguesia, e a Bragança, capital do concelho. Esta estrada não é mais do que uma pequena estrada municipal que parece mesmo um caminho a nenhures, em uma região de lombas (não é por acaso que esta região recebe o nome de Lombada), com um pequeno planalto que em esta parte do território entra em um declive suave mas contínuo que faz com que a altitude, que no entroncamento com a EN308 é de 900 m., desça até os 690 m. já na Petisqueira.

Segundo a antropóloga Paula Godinho, Professora na Universidade Nova de Lisboa e talvez a melhor especialista em contrabando e fronteiras da Península Ibérica, esta estrada era conhecida por «estrada das forças armadas» e foi construída no PREC (Processo Revolucionário em Curso, que decorreu entre Abril de 1974 e Novembro de 1975), já que até esse momento o único elo de ligação com o território português era um caminho que só dava para a passagem de burros. Daí a forte interacção entre esta aldeia e as aldeias vizinhas de Riomanzanas e Villarino de Manzanas, na região alistana, muito mais próximas, o que se reflecte nas tradições populares, muito semelhantes, como tem posto em relevo o estudioso das tradições transmontanas António Tiza. Um exemplo disso é a celebração conjunta da festa em honra de Nossa Senhora de Fátima com Villarino nas margens do rio Maçãs, ou os falares raianos (ou o que resta deles) da Petisqueira, dentro do chamado dialecto maçaneiro, de origem asturo-leonesa.

Mas tem uma particularidade: uma boa parte da estrada está limitada pela fronteira de forma que podemos observar vários marcos fronteiriços ao longo da mesma e, ao lado, uns sinais de reserva de caça da Junta de Castela e Leão, já que estamos mesmo no limite com a província de Zamora, na região de Aliste. Parar nesta estrada, desligar o carro e ficar em silêncio faz com que, de repente, sintamos uma estranha solidão, uma sensação de sermos insignificantes, de estarmos mesmo sós, no meio daquelas lombas cheias de urzes, giestas e tojos, absolutamente sem árvores nenhumas, sem vermos aldeias por perto (ficam escondidinhas no fundo dos vales) e onde não há vivalma. Imaginem isso em uma manhã de Inverno, com um vento frio de rachar a passar pelo meu rosto. Eis que foi assim que eu me senti, mas em paz comigo mesmo. Afinal estava mesmo numa terra de ninguém e era possível usufruir de uma certa aura de liberdade, mesmo que fosse apenas uma ilusão, abstraindo-me do resto do mundo. Se puderem, experimentem no vosso local favorito. Vale a pena!

Foto 1. Marco fronteiriço junto à estrada da Petisqueira.
Foto 2. Estrada da Petisqueira ao lado do marco fronteiriço e do sinal da reserva de Castela e Leão.


Ver Fronteira na estrada da Petisqueira num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Fico muito grato por ter como novos amigos a Suso Díaz, David García e Fátima Amante. As minhas boas-vindas e espero que continuem a gostar do blogue.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fronteiras: Fontes de Transbaceiro/Teixeira

Uma das fronteiras talvez mais desconhecidas é a que liga a aldeia das Fontes de Transbaceiro até à Teixeira (La Tejera). Se bem que as relações entre ambos os dois lados da fronteira sempre foram constantes (não esqueçamos o facto de a Teixeira ter pertencido a Portugal), realmente não existiu nenhuma ligação fronteiriça por estrada até 2006.

Esta fronteira é óptima para quem gosta de se perder (como eu) pelas serras, entre aldeias e sentir a beleza da solidão numa paragem incrivelmente linda e cheia de vida como é esta região do Transbaceiro, do lado do concelho de Bragança, e as Portelas, do lado da província de Zamora mas tradicionalmente fazendo parte da vizinha Galiza junto com outras aldeias como Hermisende (Ermesinde) ou Lubián.

Esta sensação de isolamento talvez possa ser sentida em vários momentos do ano: o Inverno, num dia claro como o das fotografias mas com uma sensação de frio convida a uma sopinha quente numa casa de pedra da região enquanto uma chaminé cheia de lenha queima-a lentamente e ouve-se o doce crepitar e saltam as pequenas faíscas que ressaltam da madeira. O Verão, no entanto, permite pensar no calor quente, passarinhos a voar e o cheiro dos tojos, as giestas e outras plantas do mato enquanto lobos e veados convivem juntamente no mesmo espaço e não é impossível vê-los em algum momento do dia.

São, sem dúvida, percepções sensoriais que só podem ser usufruídas nesse cantinho do Parque Natural de Montesinho onde pequenas aldeias aqui e acolá que povoam o território e onde o tempo parece resistir o pulso da vida moderna. Não procurem grandes coisas cá mas sim as coisas simples: uma conversa com as gentes das aldeias, um passeio de Verão nas horas finais da tarde, um jogo de cartas numa tasca qualquer a acompanhar o café ou o prazer de ver as pessoas atarefadas nos afazeres quotidianos do campo.

Estamos, talvez, num dos locais mais isolados da Raia.

Foto 1. Fronteira do lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço.
Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Aldeia vizinha da Teixeira.
Foto 5. Caminho da Teixeira. Ou a nenhures?
Foto 6. Terras do concelho de Hermisende vistas da fronteira.
Foto 7. Montanhas envolventes à fronteira com a região da Portela da Canda (limite actual com a Galiza) ao fundo.



Ver Fronteiras: Fontes de Transbaceiro/Teixeira num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Não quero deixar de passar a ocasião de dar as boas-vindas para dois novos amigos como são Albert Lázaro-Tinaut, um blogger catalão com interessantes reportagens sobre a Europa de Leste e ainda para Alsul-Alentejo, do raiano concelho de Arronches, no Alto Alentejo, com o seu blogue com notícias sobre a região.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Limites: O limite mais oriental de Portugal/Lhemites: L lhemite mais ouriental de Pertual

Têm-se falado muito estes dias do Inverno especialmente chuvoso que está a assolar a Península Ibérica. Certamente é uma realidade sobretudo desde o mês de Dezembro em que não tem parado de chover. Os rios transbordam e estão a galgar em algumas localidades, designadamente os nossos rios principais como o Minho, o Douro, o Tejo e o Guadiana.

A pensar num novo 'post' para o blogue, lembrei-me de que recentemente tinha passado pela Terra de Miranda e a região zamorana de Aliste, onde o Douro ia bastante crescidinho já na altura. É por isso que aproveito para matar dois coelhos de uma cajadada e falo não apenas do tempo, mas também da região mais oriental de Portugal: o entroncamento entre a Ribeira de Castro e a Barragem de Castro de Alcañices, na freguesia de Paradela, em Terra de Miranda.

A barragem de Castro marca o início das chamadas Arribas do Douro, do lado de Espanha, e o Douro Internacional, do nosso, se bem já temos uma paisagem de arribas muito antes de o Douro chegar a Portugal, designadamente da confluência do Esla com o Douro que foi, aliás, o limite do reino de Portugal no reinado do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, visto que o arcediagado de Aliste pertencia à arquidiocese de Braga, que tinha disputado o território à diocese de Astorga. Pelos vistos a demarcação da fronteira continuou nesse ponto até 1160, aquando da Conferência de Celanova, se bem a perda completa da região alistana parece ter sido definitiva no início do século XIII, quando começamos a ver tenentes leoneses em Alcanices. Mas a parte mais espectacular das arribas começa aqui, na linha de fronteira até Barca d'Alva, depois de ter passado cinco barragens (Miranda, Picote, Bemposta, Aldeadávila e Saucelle), as três primeiras portuguesas e as duas últimas espanholas, mas todas elas caracterizadas pela sua espectacularidade.

E depois de dito isto, pouco tenho mais a dizer a não ser desfrutar das vistas que oferecem as fotografias, já que elas falam mais do que eu possa expressar com palavras. De visita obrigatória para quem esteja a explorar a região!

Finalmente, em honra à nossa língua mirandesa, que faz também parte do nosso património cultural português, ofereço o mesmo texto em mirandês (com tradutor automático). Peço antecipadamente desculpa se algum leitor de língua materna mirandesa achar erros. Todas as correcções serão bem-vindas.

Em mirandês:

Ténen-se falado mui estes dies de l Ambierno specialmente chubioso que stá a assolar la Península Eibérica. Cierta minte ye ua rialidade subretodo zde l més de Dezembre an que nun ten parado de chober. Ls rius trasbordan i stan a galgar an alguas lhocalidades, zeignadamente ls nuossos rius percipales cumo l Minho, l Douro, l Teijo i l Guadiana.

A pensar nun nuobo 'post' pa l blogue, lhembrei-me de que recentemente tenie passado pula Tierra de Miranda i la region zamorana de Aleste, adonde l Douro iba bastante crecidinho yá na altura. Ye por esso qu'aprobeito para matar dous coneilhos dua cajadada i falo nun solo de l tiempo, mas tamien de la region mais ouriental de Pertual: l'antroncamiento antre la Rieira de Castro i la Barraige de Castro de Alcañices, na freguesie de Paradela, an Tierra de Miranda.

La barraige de Castro marca l'ampeço de las chamadas Arribas de l Douro, de l lhado de Spanha, i l Douro Anternacional, de l nuosso, se bien yá tenemos ua paisaige d'arribas mui antes de l Douro chegar la Pertual, zeignadamente de la cunfluéncia de l Sla cul Douro que fui, aliás, l lhemite de l reino de Pertual ne l reinado de l nuosso purmeiro rei D. Fonso Heinriques, bisto que l'arcediagado de Aleste pertencia a l'arquidiocese de Braga, que tenie çputado l território a la diocese de Astorga. Puls bistos la demarcaçon de la frunteira cuntinou nesse punto até 1160, aquando de la Cunferéncia de Celanoba, se bien la perda cumpleta de la region alistana parece tener sido defenitiba ne l'ampeço de l seclo XIII, quando ampeçamos a ber tenentes lheoneses an Alcanhiças. Mas la parte mais spetacular de las arribas ampeça eiqui, na lhinha de frunteira até Varca d'Alba, depuis de tener passado cinco barraiges (Miranda, Picuote, Bempuosta, Aldeadábila i Saucelle), las trés purmeiras pertuesas i las dues radadeiras spanholas, mas todas eilhas caratelizadas pula sue spetacularidade.

I depuis de dezido esto, pouco tengo mais a dezir la nun ser çfrutar de las bistas qu'ouferecen las retratos, yá qu'eilhas falan mais de l que you puoda spressar cun palabras. De bejita oubrigatória para quien steia a splorar la region!

Nota: As fotografias apresentam um sentido descendente/Las retratos apersentan un sentido çcendente.

Foto 1. O Douro perto da estrada de cruzamento de Castro e Salto de Castro.
Foto 2. O Douro caminho da barragem de Castro. Planalto de Saiago do outro lado do rio.
Foto 3. O Douro na barragem de Castro.
Foto 4. Vista geral da barragem de Castro. As terras portuguesas começam logo à direita além da barragem.
Foto 5. Barragem e comportas.
Foto 6. Barragem e vista das terras mais orientais de Portugal à direita.
Foto 7. Início do Parque Natural do Douro Internacional. Arribas do Douro.
Foto 8. Mesma fotografia com indicação da fronteira.
Foto 9. Barragem de Castro vista do miradouro de Paradela, já em Portugal.
Foto 10. Caminho de Miranda. Terras espanholas de Saiago à esquerda, Parque Natural do Douro Internacional à direita, em Terra de Miranda.


Ver Ponto mais oriental de Portugal num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Fronteiras: Vale de Frades/Villarino Tras la Sierra

Uma das fronteiras menos conhecidas do Nordeste Transmontano e da província de Zamora é talvez a fronteira que liga Vale de Frades, no concelho de Vimioso, com a aldeia de Villarino Tras la Sierra, também conhecida como Vilarinho, na região de Aliste. Não admira o facto tendo em conta que a estrada alcatroada desde ambos os lados da fronteira é muito recente como pode ver-se nas fotografias que se seguem.

Nesta região, onde a maior parte da população são idosos que ainda conservam muitas das tradições antigas, o destaque vai para a natureza e o património. A paisagem move-se na alternância entre planaltos e pequenas serras que em nenhum caso chegam a ser impedimento para as comunicações. A Oeste, o rio Maçãs, fronteiriço numa parte do seu percurso, contribui para um relevo mais montanhoso lembrando-nos a paisagem de arribas do Douro em pequena escala.

O património é sobretudo património etnográfico, com casas de pedra, vedações para os campos em que se usam lajes de granito, se bem tem sido alterado com a «modernidade» como são as casas dos emigrantes que em nome da comodidade têm respeitado muito pouco o património tradicional. Infelizmente é uma coisa que se dá em todo o lado, não sendo exclusiva desta região. Este é, precisamente, um dos perigos da globalização, no sentido de que apaga muitas das particularidades regionais em nome de uma alegada «eficiência». Um edifício moderno, digamos, do tipo arranha-céus de vidro e metal pode causar impacte. Mas, será que depois de ver diferentes variações do mesmo tipo em meio mundo vamos ficar mesmo impactados? No entanto, a arquitectura tradicional sempre vai ter o encanto de ser diferente em todo o lado, em observarmos as subtilezas das pequenas mudanças consoante o território, mesmo dentro da mesma região. Afinal, não é o mesmo a casa tradicional na Terra de Miranda do que em Vinhais, a casa alentejana do Alto Alentejo do que a casa alentejana do Baixo Alentejo, as casas do Alto Minho do que as casas da Beira Litoral. Não terão, porventura, mais a ver as casas tradicionais da região alistana com as do Nordeste Transmontano?

É por isso que estas viagens pela Raia têm esse sabor do esquecido: fazem-nos transportar, em questão de segundos, para outros mundos, porque, sim, há outros mundos para além de Lisboa, de Madrid, do Porto, de Badajoz, tão longe e tão perto ao mesmo tempo. Longe das nossas mentalidades, perto fisicamente de nós. Não que esteja a abominar da modernidade. Senão não estaria a usar a Net. Mas é sim uma chamada de atenção para essa febre utilitarista que nos rodeia na que tudo tem de ser prático e útil em termos económicos: a formação académica, as línguas que aprendemos, os investimentos, etc., esquecendo muitas vezes que não serve de nada tudo isso se não valorizamos as coisas, as usufruímos, que para além do útil, está o prazer estético de se deliciar naquilo de que gostamos: uma pintura, uma especialidade gastronómica, as paisagens como as das fotografias, o simples cheiro da lenha queimada num dia de chuva de Inverno como tive a oportunidade de desfrutar nestas aldeias raianas de Vale de Frades e Vilarinho, longe das multidões e de ruralismos pré-fabricados ao gosto do consumidor... tantas e tantas coisas!

Vale de Frades e Vilarinho representam as coisas simples, às vezes sem nada de especial, mas que, a pouco que se procure, escondem lá os seus encantos. É por isso que gosto sempre de ilustrar com fotografias. Deixem-se levar pela sua imaginação e desfrutem. É tão simples quanto isso!

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço.
Foto 4. Serras da fronteira, com vistas da aldeia alistana de Latedo ao fundo.
Foto 5. Vista do planalto entre o concelho de Vimioso e Vilarinho. A Raia fica algures no meio do planalto. A fotografia foi tomada «Trás-da-Serra» que separa Vilarinho do resto da região de Aliste.
Foto 6. Vista do planalto e das serras entre Vilarinho e Vale de Frades.
Foto 7. Vedação em lajes de pedra de granito em Vilarinho (comum a ambos os lados da fronteira).
Foto 8. Vista geral de Vale de Frades com as videiras em primeiro plano.
Foto 9. Vilarinho vista do Vale de Frades. Giesta-das-vassouras em primeiro plano.


Ver Fronteira: Vale de Frades/Vilarinho num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.