segunda-feira, 1 de março de 2010

Limites: O limite mais oriental de Portugal/Lhemites: L lhemite mais ouriental de Pertual

Têm-se falado muito estes dias do Inverno especialmente chuvoso que está a assolar a Península Ibérica. Certamente é uma realidade sobretudo desde o mês de Dezembro em que não tem parado de chover. Os rios transbordam e estão a galgar em algumas localidades, designadamente os nossos rios principais como o Minho, o Douro, o Tejo e o Guadiana.

A pensar num novo 'post' para o blogue, lembrei-me de que recentemente tinha passado pela Terra de Miranda e a região zamorana de Aliste, onde o Douro ia bastante crescidinho já na altura. É por isso que aproveito para matar dois coelhos de uma cajadada e falo não apenas do tempo, mas também da região mais oriental de Portugal: o entroncamento entre a Ribeira de Castro e a Barragem de Castro de Alcañices, na freguesia de Paradela, em Terra de Miranda.

A barragem de Castro marca o início das chamadas Arribas do Douro, do lado de Espanha, e o Douro Internacional, do nosso, se bem já temos uma paisagem de arribas muito antes de o Douro chegar a Portugal, designadamente da confluência do Esla com o Douro que foi, aliás, o limite do reino de Portugal no reinado do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, visto que o arcediagado de Aliste pertencia à arquidiocese de Braga, que tinha disputado o território à diocese de Astorga. Pelos vistos a demarcação da fronteira continuou nesse ponto até 1160, aquando da Conferência de Celanova, se bem a perda completa da região alistana parece ter sido definitiva no início do século XIII, quando começamos a ver tenentes leoneses em Alcanices. Mas a parte mais espectacular das arribas começa aqui, na linha de fronteira até Barca d'Alva, depois de ter passado cinco barragens (Miranda, Picote, Bemposta, Aldeadávila e Saucelle), as três primeiras portuguesas e as duas últimas espanholas, mas todas elas caracterizadas pela sua espectacularidade.

E depois de dito isto, pouco tenho mais a dizer a não ser desfrutar das vistas que oferecem as fotografias, já que elas falam mais do que eu possa expressar com palavras. De visita obrigatória para quem esteja a explorar a região!

Finalmente, em honra à nossa língua mirandesa, que faz também parte do nosso património cultural português, ofereço o mesmo texto em mirandês (com tradutor automático). Peço antecipadamente desculpa se algum leitor de língua materna mirandesa achar erros. Todas as correcções serão bem-vindas.

Em mirandês:

Ténen-se falado mui estes dies de l Ambierno specialmente chubioso que stá a assolar la Península Eibérica. Cierta minte ye ua rialidade subretodo zde l més de Dezembre an que nun ten parado de chober. Ls rius trasbordan i stan a galgar an alguas lhocalidades, zeignadamente ls nuossos rius percipales cumo l Minho, l Douro, l Teijo i l Guadiana.

A pensar nun nuobo 'post' pa l blogue, lhembrei-me de que recentemente tenie passado pula Tierra de Miranda i la region zamorana de Aleste, adonde l Douro iba bastante crecidinho yá na altura. Ye por esso qu'aprobeito para matar dous coneilhos dua cajadada i falo nun solo de l tiempo, mas tamien de la region mais ouriental de Pertual: l'antroncamiento antre la Rieira de Castro i la Barraige de Castro de Alcañices, na freguesie de Paradela, an Tierra de Miranda.

La barraige de Castro marca l'ampeço de las chamadas Arribas de l Douro, de l lhado de Spanha, i l Douro Anternacional, de l nuosso, se bien yá tenemos ua paisaige d'arribas mui antes de l Douro chegar la Pertual, zeignadamente de la cunfluéncia de l Sla cul Douro que fui, aliás, l lhemite de l reino de Pertual ne l reinado de l nuosso purmeiro rei D. Fonso Heinriques, bisto que l'arcediagado de Aleste pertencia a l'arquidiocese de Braga, que tenie çputado l território a la diocese de Astorga. Puls bistos la demarcaçon de la frunteira cuntinou nesse punto até 1160, aquando de la Cunferéncia de Celanoba, se bien la perda cumpleta de la region alistana parece tener sido defenitiba ne l'ampeço de l seclo XIII, quando ampeçamos a ber tenentes lheoneses an Alcanhiças. Mas la parte mais spetacular de las arribas ampeça eiqui, na lhinha de frunteira até Varca d'Alba, depuis de tener passado cinco barraiges (Miranda, Picuote, Bempuosta, Aldeadábila i Saucelle), las trés purmeiras pertuesas i las dues radadeiras spanholas, mas todas eilhas caratelizadas pula sue spetacularidade.

I depuis de dezido esto, pouco tengo mais a dezir la nun ser çfrutar de las bistas qu'ouferecen las retratos, yá qu'eilhas falan mais de l que you puoda spressar cun palabras. De bejita oubrigatória para quien steia a splorar la region!

Nota: As fotografias apresentam um sentido descendente/Las retratos apersentan un sentido çcendente.

Foto 1. O Douro perto da estrada de cruzamento de Castro e Salto de Castro.
Foto 2. O Douro caminho da barragem de Castro. Planalto de Saiago do outro lado do rio.
Foto 3. O Douro na barragem de Castro.
Foto 4. Vista geral da barragem de Castro. As terras portuguesas começam logo à direita além da barragem.
Foto 5. Barragem e comportas.
Foto 6. Barragem e vista das terras mais orientais de Portugal à direita.
Foto 7. Início do Parque Natural do Douro Internacional. Arribas do Douro.
Foto 8. Mesma fotografia com indicação da fronteira.
Foto 9. Barragem de Castro vista do miradouro de Paradela, já em Portugal.
Foto 10. Caminho de Miranda. Terras espanholas de Saiago à esquerda, Parque Natural do Douro Internacional à direita, em Terra de Miranda.


Ver Ponto mais oriental de Portugal num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fronteiras: Sendim/Baltar

Uma das regiões onde mais postos fronteiriços existem é no Barroso. É tradicional a relação da aldeia de Tourém, da qual teremos ocasião de falar em outro momento, com as vizinhas aldeias galegas. No entanto, nos últimos anos abriram-se novos pontos de passagem que atravessam a Serra do Larouco, limite natural desta região barrosã com a Galiza, das quais a mais importante pela ligação com Montalegre é a fronteira de Sendim/Baltar.

A fronteira está situada perto da aldeia de Sendim numa pequena passagem situada entre as montanhas envolventes da Serra do Larouco. Estas terras, próximas ao Couto Misto, e tão ricas em estórias de contrabando, têm agora umas boas comunicações que permitem chegar rapidamente de Montalegre até Xinzo de Limia, na região ourensana da Limia, onde nasce o nosso rio Lima, e vice-versa.

Na fronteira actual existe hoje uma área de serviço moderna, com bomba, café e loja, situada do lado português, para além de centro de lavagem e outros serviços (parece que estou a fazer publicidade!), mas o interesse vai para as aldeias vizinhas, que tanto na Galiza como no Barroso caracterizam-se pela dualidade entre os usos tradicionais do campo, com casas em pedra, sobretudo de granito, e as novas tendências impulsionadas pelos emigrantes, que construíram casas que muitas vezes nada têm a ver com a casa tradicional. O contraste é, por vezes, espantoso, até ao ponto de que muitas vezes pode saber-se quem emigrou e quem não, sendo isto talvez mais marcante na Galiza, já que na região da Limia houve muitos que emigraram para a Suíça designadamente, enquanto no Barroso foi mais a tradicional emigração para a França. Mesmo assim, vale a pena visitar Montalegre e o seu castelo, dar um passeio pelas aldeias barrosãs e galegas vizinhas o pela barragem do Alto Regabão ou simplesmente descontrair numa casa de aldeia a tomar um pequeno almoço à luz do sol na esplanada da casa. Acreditem. Vale mesmo a pena!

Outro ponto de destaque é a gastronomia. Quem gostar do polvo, não pode deixar de ir na feira de Xinzo de Limia onde comerá um bom polvo à feira, feito ao estilo galego. Mas quem gostar da carne, nada melhor do que uma posta de vitela barrosã, arroz de chouriça ou, agora que estamos já perto da Páscoa, um bom folar de Páscoa. Isso sem falar dos enchidos, que são do bom e do melhor. É que eu, francamente, não concebo uma viagem onde não haja essa fusão entre os prazeres do espírito, como é uma bela paisagem, o cheiro de um lugar, o património, falar com os vizinhos de uma aldeia, a pele tersa saída após um refrescante banho de Verão num rio qualquer..., com os prazeres da carne, que obviamente inclui uma boa refeição acompanhada de um bom vinho, para além de outras coisas que nem sempre têm de ser comida, é claro!

Foto 1. Fronteira portuguesa de Sendim, tomada mesmo do limite fronteiriço.
Foto 2. Sinal a anunciar a fronteira da Galiza, se bem o limite fronteiriço situa-se mesmo na parte de trás da casa que há ao fundo.
Foto 3. Entrada na Galiza vista do limite fronteiriço.
Foto 4. Marco fronteiriço situado na parte de trás da última casa portuguesa.
Foto 5. Área de serviço da fronteira. Vista geral.
Foto 6. Serra do Larouco vista para os lados de Sendim (situada na parte baixa da serra).
Foto 7. Serra do Larouco (vista para Leste) enquanto limite fronteiriço.
Foto 8. Vista das terras galegas da Limia da fronteira.


Ver Fronteira Sendim/Baltar num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Fronteiras: Penamacor/Valverde del Fresno

Uma das fronteiras talvez menos conhecidas é a que liga Penamacor com a localidade de Valverde del Fresno. A particularidade desta fronteira é que é capaz de ser a fronteira na que as localidades ligadas ficam mais distante, uma coisa como 30 km., sem nenhuma aldeia ou povoação intermédia. De facto, a fronteira de Aldeia do Bispo, através da passagem pela aldeia de Navasfrías, já em terras de Salamanca, fica mais próxima de Valverde del Fresno, apesar de ter de atravessar a Serra de Gata, do que a fronteira de Penamacor.

No entanto, vale a pena percorrer estes 30 km. Do lado português, a bela localidade de Penamacor, com o seu castelo, entre outros elementos interessantes do ponto de vista turístico. Do lado espanhol, a particularidade de Valverde del Fresno pertencer aos chamados Três Lugares, conjuntamente con Eljas y San Martín del Trevejo. Estas três localidades apresentam a peculiaridade de formarem parte do chamado Vale de Xálima, onde é falado um dialecto, ainda vivo, de origem galaico-portuguesa com alguns traços asturo-leoneses. É possível, de facto, achar uma sinalética bilingue em alguma destas aldeias onde cada localidade tem o seu dialecto particular designado como valverdeiro, lagarteiro e manhego, segundo se trate de Valverde do Freisno, As Ellas ou Sa Martin de Trevellu.

A paisagem é também interessante, já que quem desce do sistema montanhoso das serras de Gata-Malcata pode observar uma gradação na vegetação da região entre uma vegetação atlântico-mediterrânica a Norte do sistema e uma vegetação plenamente mediterrânica a Sul, com predomínio das azinheiras, mas também oliveiras, videiras e outras espécies mais expostas aos rigores do Verão, muito mais quente para este lado. O relevo da região é o de uma pequena peneplanície alombada quebrada apenas pelo curso de pequenos riachos que dão uma sensação de relevo mais abrupto e onde o destaque vai sobre tudo para o granito, que é a matéria prima das casas tradicionais beirãs da região. Existem ainda muitos caos graníticos ou inselbergs que dão um ar misterioso à zona.

Sem dúvida, uma região a visitar!

Foto 1. Fronteira portuguesa.
Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 3. Antiga estrada sobre o rio Torto (afluente do Erges) e marco fronteiriço.
Foto 4. Marco fronteiriço situado do lado de Espanha.
Foto 5. Limite fronteiriço situado na ponte sobre o rio.
Foto 6. Valverde del Fresno visto da subida pela estrada a Navasfrías.
Foto 7. Vista das Eillas e da Serra de Gata.
Foto 8. Vista da Serra de Gata (limite Extremadura/Salamanca) da estrada a Navasfrías.


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Mapa 1. Mapa de situação.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Fronteiras: Vale de Frades/Villarino Tras la Sierra

Uma das fronteiras menos conhecidas do Nordeste Transmontano e da província de Zamora é talvez a fronteira que liga Vale de Frades, no concelho de Vimioso, com a aldeia de Villarino Tras la Sierra, também conhecida como Vilarinho, na região de Aliste. Não admira o facto tendo em conta que a estrada alcatroada desde ambos os lados da fronteira é muito recente como pode ver-se nas fotografias que se seguem.

Nesta região, onde a maior parte da população são idosos que ainda conservam muitas das tradições antigas, o destaque vai para a natureza e o património. A paisagem move-se na alternância entre planaltos e pequenas serras que em nenhum caso chegam a ser impedimento para as comunicações. A Oeste, o rio Maçãs, fronteiriço numa parte do seu percurso, contribui para um relevo mais montanhoso lembrando-nos a paisagem de arribas do Douro em pequena escala.

O património é sobretudo património etnográfico, com casas de pedra, vedações para os campos em que se usam lajes de granito, se bem tem sido alterado com a «modernidade» como são as casas dos emigrantes que em nome da comodidade têm respeitado muito pouco o património tradicional. Infelizmente é uma coisa que se dá em todo o lado, não sendo exclusiva desta região. Este é, precisamente, um dos perigos da globalização, no sentido de que apaga muitas das particularidades regionais em nome de uma alegada «eficiência». Um edifício moderno, digamos, do tipo arranha-céus de vidro e metal pode causar impacte. Mas, será que depois de ver diferentes variações do mesmo tipo em meio mundo vamos ficar mesmo impactados? No entanto, a arquitectura tradicional sempre vai ter o encanto de ser diferente em todo o lado, em observarmos as subtilezas das pequenas mudanças consoante o território, mesmo dentro da mesma região. Afinal, não é o mesmo a casa tradicional na Terra de Miranda do que em Vinhais, a casa alentejana do Alto Alentejo do que a casa alentejana do Baixo Alentejo, as casas do Alto Minho do que as casas da Beira Litoral. Não terão, porventura, mais a ver as casas tradicionais da região alistana com as do Nordeste Transmontano?

É por isso que estas viagens pela Raia têm esse sabor do esquecido: fazem-nos transportar, em questão de segundos, para outros mundos, porque, sim, há outros mundos para além de Lisboa, de Madrid, do Porto, de Badajoz, tão longe e tão perto ao mesmo tempo. Longe das nossas mentalidades, perto fisicamente de nós. Não que esteja a abominar da modernidade. Senão não estaria a usar a Net. Mas é sim uma chamada de atenção para essa febre utilitarista que nos rodeia na que tudo tem de ser prático e útil em termos económicos: a formação académica, as línguas que aprendemos, os investimentos, etc., esquecendo muitas vezes que não serve de nada tudo isso se não valorizamos as coisas, as usufruímos, que para além do útil, está o prazer estético de se deliciar naquilo de que gostamos: uma pintura, uma especialidade gastronómica, as paisagens como as das fotografias, o simples cheiro da lenha queimada num dia de chuva de Inverno como tive a oportunidade de desfrutar nestas aldeias raianas de Vale de Frades e Vilarinho, longe das multidões e de ruralismos pré-fabricados ao gosto do consumidor... tantas e tantas coisas!

Vale de Frades e Vilarinho representam as coisas simples, às vezes sem nada de especial, mas que, a pouco que se procure, escondem lá os seus encantos. É por isso que gosto sempre de ilustrar com fotografias. Deixem-se levar pela sua imaginação e desfrutem. É tão simples quanto isso!

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço.
Foto 4. Serras da fronteira, com vistas da aldeia alistana de Latedo ao fundo.
Foto 5. Vista do planalto entre o concelho de Vimioso e Vilarinho. A Raia fica algures no meio do planalto. A fotografia foi tomada «Trás-da-Serra» que separa Vilarinho do resto da região de Aliste.
Foto 6. Vista do planalto e das serras entre Vilarinho e Vale de Frades.
Foto 7. Vedação em lajes de pedra de granito em Vilarinho (comum a ambos os lados da fronteira).
Foto 8. Vista geral de Vale de Frades com as videiras em primeiro plano.
Foto 9. Vilarinho vista do Vale de Frades. Giesta-das-vassouras em primeiro plano.


Ver Fronteira: Vale de Frades/Vilarinho num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Fronteiras: Cambedo da Raia

Na região do Alto Tâmega, na freguesia de Vilarelho da Raia, concelho de Chaves, encontramos entre montanhas, a pequena aldeia de Cambedo da Raia. A aldeia não seria mais do que uma típica aldeia transmontana se não fosse pela sua situação fronteiriça e pelas circunstâncias históricas que a rodeiam.

Cambedo é, como foi dito, um dos chamados «povos promíscuos» juntamente com Lamadarcos e Soutelinho da Raia. Ao contrário das outras duas aldeias, no Cambedo havia uma predominância dos fogos espanhóis relativamente aos portugueses pelo que no início, quando começaram os trabalhos da comissão para a delimitação da fronteira segundo o Tratado de Limites de 1864, a ideia que se estava a equacionar era a da anexação da aldeia a Espanha, sendo que as outras duas passariam a mãos portuguesas pro indiviso. No entanto, como surgiu a questão do chamado Couto Misto, do qual teremos oportunidade de falar mais logo, a solução foi a passagem das três aldeias a Portugal em troca do Couto Misto, que passou para Espanha, a integrar na província galega de Ourense. Daí, em 1868 a aldeia passou a ser portuguesa, se bem os contactos de um e do outro lado da fronteira continuaram como foram desde havia séculos.

Outro episódio histórico muito desconhecido pela maior parte dos portugueses e também pela maioria dos espanhóis são os acontecimentos de 1946 relacionados com os movimentos guerrilheiros do maquis. Os maquis, para quem não saibam, eram guerrilheiros anti-fascistas que lutavam contra o regime de Franco após a Guerra de Espanha depois de 1939. Eram conhecidos pelas suas ideias de esquerda e havia entre eles socialistas, comunistas e anarquistas. O seu início situa-se na guerrilha da Resistência francesa contra o invasor nazi na Segunda Guerra Mundial e parte deles tentarão entrar em Espanha pelos Pirenéus. Outros eram simplesmente pessoas de esquerda que decidiram fugir e esconder-se nas montanhas. Na Galiza recebiam o nome de fuxidos.

Na verdade, finalizada a guerra, a Raia seca era um óptimo lugar para se esconder: havia muitas famílias de um e do outro lado, estavam aqueles que iam fazer compras e, é claro, os contrabandistas. Isto apesar da Cortina de Cortiça (semelhante à Cortina de Ferro, mas ibérica) entre os regimes salazarista e franquista que impunha um controlo férreo das fronteiras. De forma muito breve a história (ou estória) é a seguinte: três guerrilheiros galegos tinham se refugiado nas casas de algumas famílias da aldeia fugindo de um fuzilamento certo nas vizinhas aldeias galegas do concelho de Oimbra em Dezembro de 1946. A PIDE teria surpreendido um deles que tentou fugir com um dos filhos da família onde tinha ficado para a fronteira sendo que, como a Guardia Civil estava lá, tentou voltar fugir por outro caminho e depois foi baleado e morto pela Guarda Nacional Republicana perto da aldeia e exposto seu cadáver em Chaves. Dois dois que restavam, de um diz-se ter-se suicidado com a última bala depois de terem matado dois elementos da guarda republicana e foi exposto também em Chaves. O outro alegadamente teria ficado sem balas pelo que foi levado pelas autoridades militares para a cadeia e depois foi duramente julgado em tribunal pelo Tribunal Militar Territorial do Porto em 1947 e foi condenado à dezanove anos de prisão na temível prisão do Tarrafal, no Cabo Verde onde teria ficado até 1965, exilando-se depois para França, onde morreu sem voltar nunca para Espanha. Mas a aldeia também foi alvo da repressão em 21 de Dezembro, cercada pela Guarda Nacional Republicana, o Exército e a Guardia Civil espanhola e foi bombardeada ao ser atacada com morteiros com mortos e feridos, casas em ruínas e parte da população presa pela PIDE.

Obviamente o acontecimento foi silenciado e somente a acção de historiadores actuais têm vindo a dar a conhecer estes factos que tinham ficado reduzidos ao âmbito familiar e que constituem um exemplo da barbárie das ditaduras que nunca mais deveríamos permitir. Resulta inexplicável ainda que existam pessoas que justifiquem ditaduras como estas em nome de uma falsa prosperidade económica ou de factores ideológicos e de segurança frente a outros regimes políticos legais e democráticos. Mas se o Hitler foi capaz de encandear as massas, não admira que este tipo de regimes tenham os seus defensores, infelizmente. Ainda existe hoje uma placa comemorativa, em galego, intitulada «En lembranza do voso sofrimento».

Quanto à Raia, a linha de demarcação fronteiriça foi a que mais recuou em favor de Portugal ficando pelos cumes das montanhas com dois caminhos de terra batida que ligam o Cambedo com as aldeias galegas de Casas do Monte e San Cibrao de Oimbra. O caminho que vai para esta última aldeia oferece-nos belas vistas do vale do Alto Tâmega galego vendo-se inclusive até à vila de Verín, uma das duas partes da eurocidade Chaves-Verín. A região é óptima para dar longos passeios no Verão, de preferência depois das horas mais quentes, e de conversa com os vizinhos destas aldeias raianas.

Foto 1. Vista geral de Cambedo da Raia do caminho que vai para San Cibrao de Oimbra.
Foto 2. Marco fronteiriço no cume da serra, acima de um penedo.
Foto 3. Caminho fronteiriço (o limite vai pela parte direita do caminho, sendo que o caminho pertence a Portugal.
Foto 4. Marco fronteiriço ao lado do caminho, perto do cume.
Foto 5. Outro marco fronteiriço com vistas para as terras galegas.
Foto 6. Marco fronteiriço que fica mesmo à beira do caminho.
Foto 7. Vista do vale do Alto Tâmega galego com Verín ao fundo antes do caminho ser inteiramente galego.
Foto 8. Vista do vale do Tâmega entre Feces de Abaixo, Lamadarcos, Rabal e Vilarelho da Raia. Vêem-se as obras da auto-estrada que vai ligar a auto-estrada A24 com a A-52 espanhola ou Auto-estrada das Rias Baixas.


Ver Fronteiras: Cambedo da Raia num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação de Cambedo da Raia e dos limites fronteiriços.

P.S. Quem quiser ampliar conhecimentos sobre os terríveis acontecimentos de 1946 em Cambedo da Raia pode seguir a história completa, dia por dia, na Internet no blogue no blogue de Fernando Ribeiro sobre a questão. Conta ainda com um blogue fotográfico sobre o concelho de Chaves que é do bom e do melhor! Existe ainda uma monografia sobre a questão: AA.VV., O Cambedo da Raia. 1946, Solidariedade galego-portuguesa silenciada, Asociación Amigos da República, Ourense, 2004.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A herança portuguesa em Olivença: S. Jorge da Lor

Como vem sendo habitual no blogue nestes últimos tempos, damos as boas-vindas a mais um amigo, neste caso o fotógrafo Javier Alonso, que tem vários blogues dos quais destaco o dedicado à fotografia. As suas fotos sobre o mundo rural das regiões de Zamora de Sanábria, Carballeda e Aliste, bem como as áreas raianas do Nordeste Transmontano são lindas de se ver. Recomendo-o sem falta!

Hoje vou falar da herança portuguesa em Olivença. Como este blogue não é político, não vou falar da questão oliventina. Importa apenas indicar que a região oliventina tem estado na posse de Espanha desde 1801, depois da Guerra das Laranjas, um episódio emoldurado dentro das chamadas guerras napoleónicas. Mas Olivença foi «reconquistada» e repovoada por cavaleiros da Ordem de Cristo vindos de Portugal a partir de 1234, sendo que o território fazia parte inicialmente do reino de Leão. A povoação não teve muito desenvolvimento, talvez a causa da indefinição de fronteiras que levaram ao Tratado de Badajoz de 1267 pelo qual o Guadiana fazia de limite entre Portugal e o reino de Castela e depois ao Tratado de Alcanices de 1297, pelo qual Campo Maior, Ouguela, inicialmente leonesas, e Olivença e Táliga passavam a mãos portuguesas. Daí, o domínio português sobre o território foi contínuo, a excepção de breves períodos de conquista nas contínuas guerras que decorreram nos mais de cinco séculos que durou a dominação portuguesa. Foi então que Olivença cresceu como vila abaluartada com muralhas e fossos para a defesa do reino sendo uma das chaves da fronteira juntamente com Elvas e Ouguela.

O território oliventino estava formado por tres concelhos: Olivença, Táliga e Juromenha, que detinha a aldeia de Vila-Real (Villarreal, segundo a toponímia oficial, em diante t.o.). Para além de Táliga e de Olivença, esta região apresenta várias aldeias espalhadas pela planície com a presença vizinha da Serra da Lor (de Alor, t.o.). Talvez a mais característica é a aldeia de São Jorge da Lor (San Jorge de Alor, t.o.) pelas suas vistosas chaminés alentejanas, algumas de início do século XIX.

Trata-se de uma aldeia situada nas encostas da Serra da Lor, com vistas para a localidade extremenha de Valverde de Leganés, com típicas casas brancas caiadas ao modo alentejano, mas com varandas e grades nas janelas ao modo da Extremadura espanhola. Afinal, duzentos anos de dominação espanhola fazem mossa, mas mesmo assim, é das aldeias com menos deturpações relativamente ao que seria caso tivesse permanecido sob soberania portuguesa. Mas é, sem dúvida, a chaminé o que dá à aldeia o seu carácter alentejano. E é que a chaminé alentejana é uma chaminé em tronco de pirâmide quadrangular, fazendo parte do alçado ou da frontaria da casa, encontrando-se normalmente junto à porta da entrada. Essa forma rectangular é a mais característica, mas existem outras, designadamente de forma cilíndrica, com remates em cúpula ou em pináculos, sendo que o fumo sai pelos interstícios deixados pelos tijolos colocados de forma vertical que suportam essas cúpulas ou pináculos.

De resto, S. Jorge da Lor podia ser mais uma aldeia alentejana se não fosse pelo facto de estar situada na região oliventina e ter sofrido essa forte pressão uniformizadora no sentido de se integrar em Espanha. Daí a proibição do uso da língua portuguesa e a castelhanização dos apelidos familiares até extremos ridículos do tipo Perera/Pereira, Cuello/Coelho, Sardiña/Sardinha, Pesoa/Pessoa, e assim por diante. Os topónimos também têm sido deturpados, apesar do qual ainda é possível observar claramente essa herança portuguesa.

S. Jorge da Lor e a restante região oliventina deve constituir um bom exemplo de valorização do património cultural, artístico e imaterial, incluindo a língua portuguesa. Não apenas para uns quantos portugueses nostálgicos e saudosistas ou para a maior parte dos portugueses que estão-se nas tintas para a «questão» de Olivença, mas também para os espanhóis de deviam valorizar mais a sua riqueza cultural e linguística. É por isso que não posso deixar de louvar a iniciativa da associação Além Guadiana, criada por oliventinos cientes do seu património e que querem recuperar essa herança portuguesa também longe de disputas políticas e à qual já me tenho referido em mais de uma ocasião. Essa falta de visão é o que tem feito estar em perigo essa herança pois em Espanha, como já tive ocasião de ver, às vezes mistura-se língua com nacionalismo, o qual constitui um erro. Não é por acaso que uma das emendas ao novo Estatuto da Região Autónoma da Extremadura espanhola no parlamento espanhol seja a protecção à língua portuguesa em Olivença, para além das falas galaico-portuguesas do vale de Xálima, na região raiana do noroeste da província de Cáceres, perto de Penamacor, na Beira Interior.

Por isso, toda acção com o intuito de recuperar o património de um lugar, quer etnográfico, quer linguístico, quer imaterial, como é o caso da «Além Guadiana» é digna de se ter em conta. Esperemos que os seus esforços não sejam em vão e dêem os seus frutos.

Foto 1. Vista geral de S. Jorge da Lor.
Foto 2. Rua da aldeia com as típicas chaminés alentejanas.
Foto 3. Igreja matriz, de óbvia factura portuguesa.
Foto 4. Chaminé alentejana e grades extremenhas.
Foto 5. Outros recantos da aldeia.
Foto 6. Olivença vista da estrada de S. Jorge da Lor.
Foto 7. Elvas vista de S. Jorge da Lor.


Ver S. Jorge da Lor num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Quem desejar obter mais informações, não deve deixar de ler o livro de José António González Carrillo, oliventino de gema, intitulado Olivenza oculta, em espanhol e em português, com muitas imagens da região.