terça-feira, 25 de outubro de 2011

Fronteiras: Confluência do Caia com o Guadiana

 Um dos pontos fronteiriços menos conhecidos é a confluência do rio Caia com o Guadiana. Isto prende-se com o facto de apesar de ser relativamente acessível do lado de Badajoz, não ser muito frequentado para além dos proprietários das pequenas quintas existentes no chamado «Rincón de Caya». Do lado português, as terras de lavoura em regadio, que pertencem à freguesia de Ajuda, S. Salvador e Sto. Ildefonso do concelho de Elvas, fazem com que o acesso seja difícil visto tratarem-se de propriedades privadas. No entanto, um entardecer de outono deu-nos umas vistas maravilhosas deste recanto desconhecido e que tínhamos de partilhar com os leitores deste blogue.

O rio Guadiana apresenta uma grande extensão na cidade de Badajoz, facto que contrasta com o fraco caudal observado na ponte da Ajuda, cauda do Grande Lago de Alqueva. Isto deve-se ao facto de existir, águas abaixo de Badajoz, um grande açude que nestes dias apareceu totalmente ao descoberto pela simples razão de que se abriram as comportas e deixaram ver o que a seca está a causar este ano a causa da falta de chuvas e este Verão prolongado. A partir do açude de La Granadilla, nome que recebe o bairro de Badajoz onde está situado, o rio Guadiana desce num suave remanso cujas águas tranquilas banham a planície, entre árvores e sapais. 

E é pouco depois quando se produz a confluência do rio Caia com o Guadiana, descarregando as suas águas que irão além-fronteiras para o Atlântico. Na foz está situado o marco fronteiriço 802-R que tem grande significado. Isto porque foi aqui que acabaram em 1868 os trabalhos de delimitação da fronteira derivados do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 pelo não reconhecimento de Portugal da soberania espanhola sobre Olivença e as suas aldeias. Em 1927 um novo tratado viria à luz estabelecendo os últimos marcos fronteiriços entre a ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Mas ainda faltam cem marcos fronteiriços por colocar entre a foz do Caia e esta ribeira dita de Cuncos. Um novo tratado internacional, este de 1968, relativo às águas entre Portugal e Espanha, que regula o regime de exploração dos grandes rios peninsulares (nem sempre respeitado, como acontece com o rio Tejo e a política de trasfega para as regiões mediterrânicas que deixam o rio quase exangue), reconhece a soberania portuguesa de todas as águas do Guadiana entre a foz do Caia e a ribeira de Cuncos, no que foi, obviamente, um plano que visava evitar confrontos territoriais entre duas ditaduras amigas, a do Estado Novo de Salazar que não renunciava à reclamação de Olivença, e a de Franco, que podia presumir de não ter cedido às pretensões portuguesas.

Seja como for, a questão é que é a partir da foz do Caia que começa o Guadiana Internacional e a sua entrada em Portugal. Deleitemo-nos, então, nas belas paisagens que prazerosamente nos deixou uma quente e serôdia tarde dos últimos estertores do Verão.

 Foto 1. Confluência do Caia com o Guadiana.
 Foto 2. Confluência do Caia com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.

 Foto 3. Foz do rio Caia.
 Foto 4. Foz do rio Caia com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 5. Marco fronteiriço do lado de Espanha.
 Foto 6. Rio Guadiana águas abaixo de Badajoz, antes da foz do Caia.
 Foto 7. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana.
 Foto 8. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 9. Foz do Caia (outra vista).
 Foto 10. Foz do Caia (outra vista) com indicação do limite fronteiriço.



Ver Caia/Guadiana num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. A proposta de um leitor nosso (Exmº Senhor José Costa), todos os marcos fronteiriços podem ser vistos no seguinte site: //igeoe-wservices.igeoe.pt/Fronteira/.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rio de Onor: A mítica aldeia raiana

Chegou o tempo de falar de Rio de Onor, a mítica aldeia raiana. Mítica porque foi alvo de vários estudos etnográficos como o famoso estudo de Jorge Dias (Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril) e linguísticos. As práticas comunitárias em Rio de Onor têm sido objecto de inúmeras reportagens em televisão e a sua particularidade de se tratar de uma aldeia transfronteiriça ou se quiser, duas aldeias gémeas: a portuguesa de Rio de Onor e a espanhola de Rihonor. 

Hoje vamos falar apenas em fronteiras porque falar em Rio de Onor vai muito mais além do que um simples 'post' no blogue. De facto existem tantos tópicos que podem ser tratados (ponto de vista histórico, etnografia, história recente, linguística, tradições, etc.) que quase poderíamos escrever um blogue em exclusivo sobre a(s) aldeia(s).

Rio de Onor está situada no limite fronteiriço que separa a região da Sanábria, na província de Zamora, e o Nordeste Transmontano, dentro do Parque Natural de Montesinho, sendo que a aldeia portuguesa está considerada como uma «aldeia preservada». O nome da aldeia serve também para dar nome ao rio que a atravessa, se bem que o rio também é conhecido como rio Contensa. Este rio abeira-se às casas que fazem parte de Rio de Onor de Cima, as mais tradicionais, erguendo-se sobranceira, a igreja matriz. Do outro lado apenas há umas poucas casas modernas no caminho à fronteira. Já em Rio de Onor de Baixo, passado o açude existente e o moinho, hoje em desuso, há uma ponte que parece de factura medieval que separa os dois bairros da aldeia portuguesa.

A fronteira está delimitada pelos marcos fronteiriços, o próprio rio e a ribeira de Regassores, que já aparece nas Inquirições de 1258, mandadas pelo rei D. Afonso III, designado como riuulum de Açores. Mas na realidade nunca houve fronteira aqui. Até ao dia de hoje as relações entre os vizinhos de ambos os lados da fronteira são relações de família. Os casamentos mistos são frequentes como frequentes são as deslocações de um e do outro lado da fronteira para trabalhar nos campos de lavoura. 

 O livre trânsito foi a realidade quotidiana de sempre e hoje ninguém daria pela diferença entre um e o outro lado da fronteira a não ser por alguns pormenores como a calçada portuguesa em Rio de Onor de Baixo frente ao pavimento de betão de Rio de Onor de Cima. As casas tradicionais respondem a um mesmo padrão: casas de xisto com telhado também de xisto, com andar térreo que normalmente serve de curral e um primeiro piso que serve de habitação com escadaria e varanda em madeira.

Mas a fronteira não se vê por lado nenhum. Resulta anedótico o facto de ter existido uma corrente que dividia ambas as aldeias de 1975 a 1990. Pelos vistos, depois do 25 de Abril de 1974 existiu o temor de que as tropas de Franco entrassem em Portugal por este ponto fronteiriço. Diz-se ainda que foi para controlar o contrabando e evitar uma emigração maciça nos tempos do PREC (como se não houvesse já tantos emigrantes portugueses que fugiram da guerra colonial e da pobreza...). De qualquer forma parece que um tenente chamado Pinheiro coloca na fronteira uma corrente para impedir a passagem de viaturas motorizadas, o que vai causar inúmeros incómodos a população local, acostumada como estava à passagem com carros de bois, vacas, ovelhas ou tractores. Não foi até o 24 de Agosto de 1990 que puderam passar normalmente carros e tractores como numa estrada qualquer.

Disso hoje não resta nada em Ruidenore, nome que recebe a aldeia no dialecto rionorês, um dialecto de base asturo-leonesa que apresenta alguns traços do português transmontano e que foi definido por Maria José de Moura Santos no seu clássico estudo sobre os falares fronteiriços de Trás-os-Montes publicado em 1966 como um dos falares raianos melhor caracterizados, enquanto recentemente o filólogo espanhol Xavier Frías Conde que o situa dentro do dialecto sanabrés do Sul, dentro do sub-sistema de dialectos da língua asturo-leonesa.

Quem visitar hoje Rio de Onor desfrutará de belas paisagens, apreciará uma tradição etnográfica ímpar, mas sobretudo, travará boas e animadas conversas com os naturais do lugar. Não verá fronteira nenhuma. Pena que alguém, em 2008 tenha destacado na parte espanhola o sinal de estado que não existe do lado português e que é o único pormenor que afeia o lugar. Não faz sentido numa aldeia sem fronteiras muito antes da tão badalada Europa sem fronteiras. Mágoa!

 Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado português.
 Foto 2. Simulação da corrente que existiu entre 1975 e 1990.
 Foto 3. Delimitação da fronteira vista de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 4. Vista da fronteira e da ribeira de Regassores.
 Foto 5. Fronteira portuguesa vista do lado espanhol.
 Foto 6. Rio de Onor de Baixo visto do limite fronteiriço.
 Foto 7. Moinho e açude com indicação da fronteira visto de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 8. Marco fronteiriço situado na ribeira de Regassores e ponte que liga ambos os lados da fronteira.
 Foto 9. Marco fronteiriço e foz da ribeira de Regassores vistos da ponte fronteiriça.
 Foto 10. Limites fronteiriços visto da foz do Regassores.
 Foto 11. Ribeira de Regassores com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 12. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores.
Foto 13. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores com vista para a igreja matriz de Rio de Onor de Cima.



Ver Rio de Onor / Ruidenore num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Douro Internacional: Barca d'Alva/Barragem de Saucelhe

Hoje vamos falar de uma das partes talvez menos conhecidas do nosso país. Trata-se do Douro Internacional, no troço entre Barca d'Alva e a barragem de Saucelhe.  O ponto de partida é Barca d'Alva, aldeia hoje pacata e onde o declínio devido ao encerramento da actividade ferroviária é ainda hoje visível. Quase sem serviços, hoje beneficia do turismo vindo dos cruzeiros que atracam nos cais criados para o efeito ou bem no cais de Vega de Terrón, já em Espanha, em terras de Salamanca, na foz do Águeda. Costuma ser ponto de partida para excursões para Salamanca ou a vizinha Figueira de Castelo Rodrigo, concelho com muita história e que vale a pena visitar. Por estar à beira-rio, o acesso desde esta última localidade faz-se pela N221, sendo que a partir de Escalhão o planalto começa a romper-se dando lugar a uma paisagem atormentada coroada pelas amendoeiras e as oliveiras, próprias deste micro-clima muito mais quente e que nada tem a ver com a rigorosidade do planalto das terras de Riba-Côa, continuação da peneplanície zamorano-salmantina, só interrompida a partir do rio Côa e pelos seus pequenos afluentes ou do Águeda e seus afluentes, que dão lugar à formação de arribas.

Passada a ponte, o percurso pela N221 não está isento de beleza, antes pelo contrário, mas é uma estrada não apta para aqueles que costumam ficar enjoados porque tem inúmeras curvas, a par de belas paisagens. Do lado português, o território encontra-se bem melhor explorado, com alternância entre as oliveiras, alguma amendoeira, árvores de rio e, sobretudo, as videiras nas encostas do Penedo Durão, cultivadas em socalcos. Do lado da província de Salamanca, talvez por tratar-se de uma zona de arribas com fortes pendentes, só há em destaque uma pedreira que contribui para a degradação desta paragem natural, e a abundância de matagais, próprio de terras pouco produtivas como é natural nesta região, com solos ácidos com abundância de granitos e quartzitos.

Esta paisagem continua durante todo o percurso de que estamos a falar. O micro-clima que contrasta com o clima geral das regiões vizinhas faz com que do ponto de vista agrário se dêem boas condições para o cultivo da videira, dentro da Região Demarcada Douro, Sub-Região Douro Internacional, e, portanto, fazendo parte do Alto Douro Vinhateiro, designado Património Mundial pela UNESCO em 2001, da oliveira e da amendoeira. As geadas rareiam nesta região e alguns pontos gabam-se de nunca terem sido cobertos pela neve. Não sabemos se é exagero ou não, mas o que é óbvio e que no Verão é possível ver isto. Se num dia de manhã, por volta das 10 horas encontramos uma temperatura de 21-22ºC no planalto ou no Freixo, é muito provável que tenhamos de suportar temperaturas de 26-27ºC nesta região. Se for um dia quente, no planalto podemos ter temperaturas de 32-33ºC, mas nesta região facilmente será de 39-40ºC, com a humidade acrescentada do Douro. Daí a alta qualidade do vinho e do azeite nesta região.

Já perto da barragem de Saucelhe, podemos optar por continuar viagem até Freixo de Espada-à-Cinta pela N221, que será alvo de um novo tópico no blogue, ou atravessar a barragem e conhecer as pequenas aldeias das Arribes salmantinas onde encontraremos pequenos solares e uma economia dedicada basicamente à pecuária. De facto, subindo para Saucelle, encontramos paisagens de azinhais que até nos lembram o clássico montado alentejano nestas latitudes setentrionais.

A viagem pode servir de pretexto para visitar o Penedo Durão ou perder-se pelas estradinhas que ligam esta região com Torre de Moncorvo, onde poderemos avistar formações geológicas muito antigas e aves rapazes e outros animais selvagens, sem esquecer as aldeias tradicionais.

Do lado dos Arribes salmantinos vale a pena visitar algumas aldeias com solares de pequenos fidalgos da região, ainda bem conservados, a barragem de Aldeadávila, que fica em paralelo com a localidade de Lagoaça, a primeira em receber foral do rei D. Afonso Henriques, e, perto de Masueco, o chamado Pozo (Poço) de los Humos, a visitar de preferência na Primavera, quando o rio leva muita água e o calor é suportável.

Não podemos finalizar sem dedicar umas palavrinhas à gastronomia, com destaque para o vinho (não deixar de provar o branco «Montes Ermos» de Freixo de Espada-à-Cinta, baratinho e bom), o azeite da região de Freixo, a posta mirandesa e os enchidos, é claro.

Espero com isto ter contribuído para dar a conhecer mais recantos raianos como uma janela aberta ao mundo onde qualquer pessoa possa deliciar-se com esta viagem com a sua imaginação ou mesmo fazendo-a!



 Foto 1. Ponte sobre o Douro em Barca d'Alva.

 Foto 2. Foz do Águeda. Início do Douro Internacional. À esquerda do Águeda começam as terras de Salamanca.

 Foto 3. O Douro visto da N221 perto de Poiares ao sopé do pico Durão.

 Foto 4. Vista do Douro com os olivais em primeiro plano (c. Freixo de Espada-à-Cinta) e as terras de Salamanca na outra margem (município de La Fregeneda).
 Foto 5. O Douro Internacional perto da barragem de Saucelhe, visto da N221.
 Foto 6. Paisagem do Alto Douro Vinhateiro (Património Mundial) da Região Demarcada Douro. À esquerda, foz do Huebra, afluente do Douro, nas mais áridas terras salmantinas.
Foto 7. Foz do rio Huebra e vistas das encostas das terras de Salamanca (Arribas del Duero), já perto da barragem.


 Foto 8. Central eléctrica da barragem de Saucelhe e vista de Salto de Saucelle, hoje campo de férias.
 Foto 9. Vista geral da barragem de Saucelhe.
 Foto 10. Barragem de Saucelhe.
Foto 11. Vista de Salto de Saucelle, hoje campo de férias.
 Foto 11. Douro Internacional visto de Saucelhe, com a foz do rio Huebra à esquerda e as encostas do monte Durão à direita.
 Foto 12. Vista geral do Douro da Barragem de Saucelhe até Barca d'Alva. Ao fundo, V. N. de Foz Côa.
 Foto 13. Douro Internacional entre Saucelhe e Freixo de Espada-à-Cinta.
 Foto 14. Freixo de Espada-à-Cinta visto de Saucelle.

P.S. Não queria deixar de passar a ocasião de dar as boas-vindas ao Rui, o nosso trigésimo-sexto seguidor. E, se quiserem, não deixem de aderir ao perfil do blogue no Twitter e no Facebook.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Festas do Povo: Campo Maior (2011)

Reconheço que tinha um bocadinho abandonado o blogue. Diferentes projectos profissionais, entre os quais o meu Doutoramento em História, viagens que tive de fazer, férias, etc., para além da vontade do dolce far niente, tem feito que não tinha postado nada estes meses. Mas isso não quer dizer que tenha estado parado. De facto aproveitei o tempo para visitar diferentes lugares, entre eles alguns da Raia, para poder apresentar aos meus leitores mais fotografias ilustrativas dos locais que valem a pena mesmo visitar e que se inserem na temática tratada neste blogue.

E para entrar em grande, nada melhor do que falar das Festas do Povo de Campo Maior, que tiveram lugar a semana passada e que foram alvo de programas televisivos, nomeadamente a RTP, a transmitir de lá parte dos eventos que tiveram lugar nesta vila raiana. Praticamente estiveram lá visitantes de todo o país, dos emigrantes que voltavam para a terra e da vizinha Extremadura espanhola. Não devemos esquecer que a fronteira do Retiro fica mesmo a 13 km. e logo em seguida está a cidade de Badajoz.

Para quem não conheça estas festas, consistem na decoração das ruas com flores de papel feitas de forma completamente artesanal pelas próprias gentes do lugar. É por isso que bem se pode dizer que são as festas do povo, porque é o povo desta querida vila alentejana quem participa na confecção das flores e de dar voltas à imaginação com o intuito de conseguir ser a rua mais bonita. Uma explicação mais alargada encontra-se no próprio site da organização, que pode ser consultado aqui.

A última vez que estas festas tiveram lugar foi no ano de 2004, sendo que depois de tanto tempo, os alentejanos, os portugueses e gentes de outras terras tivemos o privilégio de presenciar esta maravilha. Se bem que houve dias de fortes chuvas que estragaram um bocadinho a festa, o espírito dos campomaiorenses não descaiu e a festa continuou como prevista, inclusive com a visita do Presidente da República e do Primeiro-Ministro. Mas os protagonistas não são as personalidades, mas sim quem trabalhou por conseguir que a festa fosse todo um sucesso: o próprio povo de Campo Maior.

Na festa não podiam faltar alguns divertimentos, stands de produtos variados (produtos em pele, produtos alimentares como a ginjinha d'Óbidos, serviços de todo tipo, etc.), bem como as clássicas lanchonetes de festa onde não faltaram churros, farturas, pipocas, bifanas, hamburguers, cachorros quentes, espetadas, carnes grelhadas, etc. Eu, valorizando os produtos cá da terra, deliciei-me com um picadinho de carne alentejana de vitela de denominação de origem protegida com batata, e, é claro, o omnipresente café Delta, o maior produtor de café da Península Ibérica e que tem a sua fábrica aqui em Campo Maior.

Não faltaram espectáculos musicais e de dança e, obviamente, os cantos típicos de Campo Maior, com as mulheres com os pandeiros a tocar e a cantar canções tradicionais. Quer fossem ranchos folclóricos, quer grupos de amigos, aqui e acolá improvisavam-se espaços de canto num convívio que, longe de ser caótico, resultava de todo harmónico. Estes cantos típicos, onde as mulheres tocam pandeiros enfeitados com fitas a cores, e acompanhados pelo tambor e, às vezes pelo acordeão, e onde as mulheres assumem o papel principal no canto, apresentam semelhanças com outros cantos tradicionais do Noroeste. Não devemos esquecer que Campo Maior foi uma vila de reconquista leonesa e não portuguesa. Quando o rei D. Sancho II conquistava Elvas em 1226, o rei leonês Afonso IX, fazia o próprio ao reconquistar Mérida, Badajoz, Campo Maior e Ouguela aos muçulmanos em 1230. Em mãos leonesas esteve até o Tratado de Alcanices de 1297, quando o rei D. Dinis, astuciosamente, soube aproveitar o vazio de poder em Castela e ampliar as fronteiras do seu reino acrescentando Campo Maior, Ouguela e Olivença. Sendo uma tradição única n0 Alentejo, e não sendo eu um erudito em questões musicais, não deixo de observar, no entanto, semelhanças com cantos tradicionais que já tenho ouvido nas Astúrias e Leão, designadamente nas tradições dos chamados «vaqueiros de alzada», ou na Galiza. Reminiscências de tradições asturo-leonesas? O certo é que um elemento comum a todas estas tradições há: o grupo de mulheres que cantam com pandeiro com ritmos bastante semelhantes. Talvez algum historiador da música ou etnógrafo possa algum dia tirar-nos a dúvida...

E como nada melhor do que uma imagem, lá vai uma selecção de imagens, todas elas nocturnas, das ruas floridas de Campo Maior. Espero que gostem. Ah! E fiquem atentos ao blogue. Não vão ficar desiludidos!