quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Localidades raianas: Vilar de Perdizes

A Leste do concelho de Montalegre, em pleno planalto barrosão, encontramos a aldeia de Vilar de Perdizes. Esta aldeia raiana fica perto da Serra do Larouco, que faz de limite com a Galiza, mas por contraste com a maior parte das aldeias do município barrosão, não faz parte da bacia do Cávado, mas sim do Douro, mais exactamente do Tâmega, sendo que alguns dos seus afluentes nascem nestas terras.

 Do ponto de vista geográfico, limita a Norte e a Leste com a Galiza, com quem está ligada por intermédio da estrada da Xironda (ou Gironda, em português e em galego reintegracionista). A Sul limita com Meixide, também sede de freguesia, e a Oeste com Santo André, que também possui a sua ligação com a Xironda, sendo que é possível fazer um circuito completo entre estas três aldeias. Por estar situada nesta parte do planalto barrosão, a aldeia encontra-se num pequeno declive iniciado mesmo no ponto em que se rompe o planalto para dar lugar depois a encostas nas que discorrem o rio Porto de Rei e o rio Assureira que se juntam já no concelho galego de Oimbra, antes de desaguar no Tâmega.

A aldeia resulta interessante pelas suas características. Com pouco mais de 500 habitantes consegue, no entanto, parecer bem maior pelo facto de na realidade estar formada por três bairros que no seu tempo eram aldeias próximas mas separadas umas das outras, mas agora, como resultado das novas construções, esse facto é muito mais difuso. Esses bairros ainda formam parte da realidade da aldeia pelo que encontramos o bairro de Sameiro à Norte, Cimo da Vila à Sul e Caria no meio, sendo que fazia parte da chamada Honra de Vilar de Perdizes, que contava com mais de 1 000 habitantes no início do século XIX e abrangia esta aldeia e as vizinhas de Santo André e Solveira.

A sua História, no entanto, remonta-se a tempos pré-históricos, já que contamos com restos de gravuras rupestres nas Pegadas da Burrinha da Nossa Senhora e no Penedo de Caparinho e ainda uns lagares rupestres em Santa Marinha. Da época romana são as inscrições do Altar de Penascrita e do Penedo de Rameseiros. Na Idade Média formou parte do Couto de Ervededo, sendo que em tempos, metade da aldeia pertenceu à Galiza e a outra a Portugal, acabando finalmente por passar por inteiro para o domínio português no marco das lutas entre a diocese de Braga e a diocese de Ourense pelo território de Baronceli

O seu carácter arraiano constata-se no casario tradicional e até na igreja matriz, em honra de S. Miguel. A factura da igreja é claramente portuguesa, mas o remate da igreja, em forma de pequena cúpula, remete-nos para o barroco de tipo galaico, que seguia o estilo da fachada barroca da Sé de Santiago, do século XVIII. A casa tradicional, como não podia ser de outra forma, costuma ser construída em pedra de granito, tendo algumas essa influência galaica da que falávamos, como é o caso de pintar os bordes dos blocos de pedra com que estão construídas. Consta ainda de um Paço, esse com um forte carácter português, que tinha várias dependências e até capela própria, o que da conta da importância económica da família proprietária, sendo que o solar foi berço de filhos d'algo, e junto do qual floresceram o Hospital e a Capela de Santa Cruz, destinados a prestar apoio físico e espiritual aos peregrinos de Santiago de Compostela e do Cristo de Ourense que por ali passavam, vindos dos lados de Chaves, Alto Douro, Beiras e Castela.

A aldeia consta de vários cafés e restaurantes e até alojamento de tipo rural, mas, sem dúvida, o que singulariza esta aldeia de outras é a celebração anual do Congresso de Medicina Popular impulsionado pelo padre Fontes e que teve em 2011 a sua 25ª edição, não sendo isento de alguma polémica por tratarem-se nele questões relacionadas não apenas com chás e plantas medicinais, mas também de tópicos que têm a ver com bruxaria, mau-olhado e outras práticas que o mundo científico costuma olhar com muito receio quando não com negatividade.

Seja como for, a aldeia pode ser o ponto de partida para caminhadas e visitas a aldeias vizinhas, quer do Barroso, quer da Galiza não podendo faltar, é claro, um bom almoço com posta de vitela barrosã, de fazer água na boca. E se a visita for no Verão, na estrada para a Xironda existe um pequeno parque de merendas na beira do rio Porto de Rei onde existe um pequeno estanque formado por um açude em que podemos tomar um fresco banho no meio da quentura desses dias tórridos que por vezes açoitam a região. Ou se preferir, converse com algum dos seus habitantes sobre histórias e estórias do contrabando, que tanto marcou a economia da região durante décadas.

 Foto 1. Igreja matriz.
 Foto 2. Lateral da igreja matriz. Veja-se a cúpula de tipo galaico.
 Foto 3. Vista da aldeia entre o Cimo da Vila e Caria. O bairro de Sameiro fica ao fundo.
 Foto 4. Casario tradicional da aldeia, com algumas casas de tipo galaico.
 Foto 5. Outra vista da aldeia.
 Foto 6. Rua do Valado.
 Foto 7. Paço de Vilar de Perdizes.
 Foto 8. Igreja e antigo hospital.
 Foto 9. Rua do Paço.
 Foto 10. Vista da aldeia da Av. Central.
 Foto 11. Av. Central e Travessa do Aluar.
 Foto 12. Ponte sobre o rio Porto de Rei, na estrada para a Xironda.

Foto 12+1 (não vá o Diabo tecê-las!). Parque de merendas e estanque sobre o rio.

Mapa 1. Mapa de situação.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Curiosidades fronteiriças: Montinho das Laranjeiras

 Rio Guadiana abaixo, já em terras algarvias, nesse Algarve interior, pouco conhecido, deparamo-nos com uma verdadeira jóia arqueológica: o Montinho das Laranjeiras.

Situado a uns 6 km. a sul de Alcoutim, este sítio arqueológico mostra-nos visões de momentos da nossa História antes de Portugal vir a ser Portugal. Aceder ao lugar é muito fácil: baste seguir a EM567 que segue junto ao rio Guadiana, a partir de Alcoutim, ficando, como já foi dito, a 6 km. da localidade à beira da mesma estrada. Além do mais, não há escusa para não fazer uma visitinha porque o acesso é gratuito e passear entre as ruínas existentes não demora mais do que 15-20 minutos.

A particularidade deste lugar reside na sua situação numa planície não muito larga, já que o Guadiana apresenta nesta região uma disposição menos suave, com pequenas montanhas que caem para o rio sem apenas zona ribeirinha. E é que, embora perto da sua foz, ainda não conseguimos imaginar a ampla zona de sapal e salinas que a caracterizam no seu curso mais inferior e isto apesar de nesta região fazerem-se sentir as marés no rio, facto que o converte num rio navegável como já dissemos noutros 'posts' até ao Pomarão em qualquer circunstância e até Mértola em maré alta.

Provavelmente seria essa condição de navegável do rio o que teria feito desenvolver neste cantinho uma unidade de povoamento que integra três áreas distintas de ocupação contínua e de interacção desde o século I ao século XIII.

A villa romana, onde se identificam estruturas quadrangulares por vezes associadas a pátios centrais em torno dos quais se dispõem outros compartimentos, terá tido inicio construtivo no século I e está associada a actividades agrícolas, piscatórias e a rotas comerciais com Mértola e com o Norte de África.

As estruturas de uma igreja apontam para ocupação visigótica - séculos VI-VII. De planta cruciforme é das mais antigas conhecidas na Península Ibérica, deste tipo, apresentando ainda vestígios de utilização posterior. Uma terceira área é formada por um conjunto de casas islâmicas do período almóada séculos XII-XIII.

A sua situação privilegiada na margem direita do Guadiana faz-nos apreciar as montanhas circundantes, o cultivo da oliveira, muito estendido nesta região, e as vizinhas serras situadas além Guadiana, já em Espanha, em Huelva, uma das províncias da Andaluzia.

De resto, podemos continuar a nossa viagem e desfrutar dos meandros do Guadiana, bem como das vistas da vizinha foz do Odeleite, o último afluente importante do Guadiana antes de desaguar no Atlântico ou bem, se nos dirigirmos para Norte, visitar a vila de Alcoutim e fazer o passeio de barco entre Alcoutim e a localidade andaluza de Sanlúcar de Guadiana. Claro que sempre haverá a opção de fazer um pequeno cruzeiro pelo Guadiana a partir de Vila Real de Santo António onde encontraremos várias opções e preços, com ou sem refeição, tudo ao gosto do freguês e do seu bolso, é claro! Seja como for, a visita destas terras arraianas resulta especialmente reconfortante na Primavera, nos meses de Maio e Junho, quando ainda não sentimos a canícula do interior no Verão, mas sim um calor agradável que pode acabar com um banho na praia mais próxima como cereja no topo do bolo. É só experimentar!

 Foto 1. «Casa do senhor». Vila romana.
 Foto 2. Vista parcial da basílica.
 Foto 3. Basílica paleocristã ou visigótica.
 Foto 4. Vista do rio Guadiana e da margem espanhola (esquerda do rio).
 Foto 5. Vista geral do sítio arqueológico.
Foto 6. Celeiro e casas dos camponeses


Ver Montinho das Laranjeiras num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Damos ainda as boas-vindas à nossa nova amiga Pille no blogue. Esperemos que sejam mais!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Fronteiras: Confluência do Caia com o Guadiana

 Um dos pontos fronteiriços menos conhecidos é a confluência do rio Caia com o Guadiana. Isto prende-se com o facto de apesar de ser relativamente acessível do lado de Badajoz, não ser muito frequentado para além dos proprietários das pequenas quintas existentes no chamado «Rincón de Caya». Do lado português, as terras de lavoura em regadio, que pertencem à freguesia de Ajuda, S. Salvador e Sto. Ildefonso do concelho de Elvas, fazem com que o acesso seja difícil visto tratarem-se de propriedades privadas. No entanto, um entardecer de outono deu-nos umas vistas maravilhosas deste recanto desconhecido e que tínhamos de partilhar com os leitores deste blogue.

O rio Guadiana apresenta uma grande extensão na cidade de Badajoz, facto que contrasta com o fraco caudal observado na ponte da Ajuda, cauda do Grande Lago de Alqueva. Isto deve-se ao facto de existir, águas abaixo de Badajoz, um grande açude que nestes dias apareceu totalmente ao descoberto pela simples razão de que se abriram as comportas e deixaram ver o que a seca está a causar este ano a causa da falta de chuvas e este Verão prolongado. A partir do açude de La Granadilla, nome que recebe o bairro de Badajoz onde está situado, o rio Guadiana desce num suave remanso cujas águas tranquilas banham a planície, entre árvores e sapais. 

E é pouco depois quando se produz a confluência do rio Caia com o Guadiana, descarregando as suas águas que irão além-fronteiras para o Atlântico. Na foz está situado o marco fronteiriço 802-R que tem grande significado. Isto porque foi aqui que acabaram em 1868 os trabalhos de delimitação da fronteira derivados do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 pelo não reconhecimento de Portugal da soberania espanhola sobre Olivença e as suas aldeias. Em 1927 um novo tratado viria à luz estabelecendo os últimos marcos fronteiriços entre a ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Mas ainda faltam cem marcos fronteiriços por colocar entre a foz do Caia e esta ribeira dita de Cuncos. Um novo tratado internacional, este de 1968, relativo às águas entre Portugal e Espanha, que regula o regime de exploração dos grandes rios peninsulares (nem sempre respeitado, como acontece com o rio Tejo e a política de trasfega para as regiões mediterrânicas que deixam o rio quase exangue), reconhece a soberania portuguesa de todas as águas do Guadiana entre a foz do Caia e a ribeira de Cuncos, no que foi, obviamente, um plano que visava evitar confrontos territoriais entre duas ditaduras amigas, a do Estado Novo de Salazar que não renunciava à reclamação de Olivença, e a de Franco, que podia presumir de não ter cedido às pretensões portuguesas.

Seja como for, a questão é que é a partir da foz do Caia que começa o Guadiana Internacional e a sua entrada em Portugal. Deleitemo-nos, então, nas belas paisagens que prazerosamente nos deixou uma quente e serôdia tarde dos últimos estertores do Verão.

 Foto 1. Confluência do Caia com o Guadiana.
 Foto 2. Confluência do Caia com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.

 Foto 3. Foz do rio Caia.
 Foto 4. Foz do rio Caia com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 5. Marco fronteiriço do lado de Espanha.
 Foto 6. Rio Guadiana águas abaixo de Badajoz, antes da foz do Caia.
 Foto 7. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana.
 Foto 8. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 9. Foz do Caia (outra vista).
 Foto 10. Foz do Caia (outra vista) com indicação do limite fronteiriço.



Ver Caia/Guadiana num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. A proposta de um leitor nosso (Exmº Senhor José Costa), todos os marcos fronteiriços podem ser vistos no seguinte site: //igeoe-wservices.igeoe.pt/Fronteira/.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rio de Onor: A mítica aldeia raiana

Chegou o tempo de falar de Rio de Onor, a mítica aldeia raiana. Mítica porque foi alvo de vários estudos etnográficos como o famoso estudo de Jorge Dias (Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril) e linguísticos. As práticas comunitárias em Rio de Onor têm sido objecto de inúmeras reportagens em televisão e a sua particularidade de se tratar de uma aldeia transfronteiriça ou se quiser, duas aldeias gémeas: a portuguesa de Rio de Onor e a espanhola de Rihonor. 

Hoje vamos falar apenas em fronteiras porque falar em Rio de Onor vai muito mais além do que um simples 'post' no blogue. De facto existem tantos tópicos que podem ser tratados (ponto de vista histórico, etnografia, história recente, linguística, tradições, etc.) que quase poderíamos escrever um blogue em exclusivo sobre a(s) aldeia(s).

Rio de Onor está situada no limite fronteiriço que separa a região da Sanábria, na província de Zamora, e o Nordeste Transmontano, dentro do Parque Natural de Montesinho, sendo que a aldeia portuguesa está considerada como uma «aldeia preservada». O nome da aldeia serve também para dar nome ao rio que a atravessa, se bem que o rio também é conhecido como rio Contensa. Este rio abeira-se às casas que fazem parte de Rio de Onor de Cima, as mais tradicionais, erguendo-se sobranceira, a igreja matriz. Do outro lado apenas há umas poucas casas modernas no caminho à fronteira. Já em Rio de Onor de Baixo, passado o açude existente e o moinho, hoje em desuso, há uma ponte que parece de factura medieval que separa os dois bairros da aldeia portuguesa.

A fronteira está delimitada pelos marcos fronteiriços, o próprio rio e a ribeira de Regassores, que já aparece nas Inquirições de 1258, mandadas pelo rei D. Afonso III, designado como riuulum de Açores. Mas na realidade nunca houve fronteira aqui. Até ao dia de hoje as relações entre os vizinhos de ambos os lados da fronteira são relações de família. Os casamentos mistos são frequentes como frequentes são as deslocações de um e do outro lado da fronteira para trabalhar nos campos de lavoura. 

 O livre trânsito foi a realidade quotidiana de sempre e hoje ninguém daria pela diferença entre um e o outro lado da fronteira a não ser por alguns pormenores como a calçada portuguesa em Rio de Onor de Baixo frente ao pavimento de betão de Rio de Onor de Cima. As casas tradicionais respondem a um mesmo padrão: casas de xisto com telhado também de xisto, com andar térreo que normalmente serve de curral e um primeiro piso que serve de habitação com escadaria e varanda em madeira.

Mas a fronteira não se vê por lado nenhum. Resulta anedótico o facto de ter existido uma corrente que dividia ambas as aldeias de 1975 a 1990. Pelos vistos, depois do 25 de Abril de 1974 existiu o temor de que as tropas de Franco entrassem em Portugal por este ponto fronteiriço. Diz-se ainda que foi para controlar o contrabando e evitar uma emigração maciça nos tempos do PREC (como se não houvesse já tantos emigrantes portugueses que fugiram da guerra colonial e da pobreza...). De qualquer forma parece que um tenente chamado Pinheiro coloca na fronteira uma corrente para impedir a passagem de viaturas motorizadas, o que vai causar inúmeros incómodos a população local, acostumada como estava à passagem com carros de bois, vacas, ovelhas ou tractores. Não foi até o 24 de Agosto de 1990 que puderam passar normalmente carros e tractores como numa estrada qualquer.

Disso hoje não resta nada em Ruidenore, nome que recebe a aldeia no dialecto rionorês, um dialecto de base asturo-leonesa que apresenta alguns traços do português transmontano e que foi definido por Maria José de Moura Santos no seu clássico estudo sobre os falares fronteiriços de Trás-os-Montes publicado em 1966 como um dos falares raianos melhor caracterizados, enquanto recentemente o filólogo espanhol Xavier Frías Conde que o situa dentro do dialecto sanabrés do Sul, dentro do sub-sistema de dialectos da língua asturo-leonesa.

Quem visitar hoje Rio de Onor desfrutará de belas paisagens, apreciará uma tradição etnográfica ímpar, mas sobretudo, travará boas e animadas conversas com os naturais do lugar. Não verá fronteira nenhuma. Pena que alguém, em 2008 tenha destacado na parte espanhola o sinal de estado que não existe do lado português e que é o único pormenor que afeia o lugar. Não faz sentido numa aldeia sem fronteiras muito antes da tão badalada Europa sem fronteiras. Mágoa!

 Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado português.
 Foto 2. Simulação da corrente que existiu entre 1975 e 1990.
 Foto 3. Delimitação da fronteira vista de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 4. Vista da fronteira e da ribeira de Regassores.
 Foto 5. Fronteira portuguesa vista do lado espanhol.
 Foto 6. Rio de Onor de Baixo visto do limite fronteiriço.
 Foto 7. Moinho e açude com indicação da fronteira visto de Rio de Onor de Baixo.
 Foto 8. Marco fronteiriço situado na ribeira de Regassores e ponte que liga ambos os lados da fronteira.
 Foto 9. Marco fronteiriço e foz da ribeira de Regassores vistos da ponte fronteiriça.
 Foto 10. Limites fronteiriços visto da foz do Regassores.
 Foto 11. Ribeira de Regassores com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 12. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores.
Foto 13. Limite fronteiriço na ribeira de Regassores com vista para a igreja matriz de Rio de Onor de Cima.



Ver Rio de Onor / Ruidenore num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Douro Internacional: Barca d'Alva/Barragem de Saucelhe

Hoje vamos falar de uma das partes talvez menos conhecidas do nosso país. Trata-se do Douro Internacional, no troço entre Barca d'Alva e a barragem de Saucelhe.  O ponto de partida é Barca d'Alva, aldeia hoje pacata e onde o declínio devido ao encerramento da actividade ferroviária é ainda hoje visível. Quase sem serviços, hoje beneficia do turismo vindo dos cruzeiros que atracam nos cais criados para o efeito ou bem no cais de Vega de Terrón, já em Espanha, em terras de Salamanca, na foz do Águeda. Costuma ser ponto de partida para excursões para Salamanca ou a vizinha Figueira de Castelo Rodrigo, concelho com muita história e que vale a pena visitar. Por estar à beira-rio, o acesso desde esta última localidade faz-se pela N221, sendo que a partir de Escalhão o planalto começa a romper-se dando lugar a uma paisagem atormentada coroada pelas amendoeiras e as oliveiras, próprias deste micro-clima muito mais quente e que nada tem a ver com a rigorosidade do planalto das terras de Riba-Côa, continuação da peneplanície zamorano-salmantina, só interrompida a partir do rio Côa e pelos seus pequenos afluentes ou do Águeda e seus afluentes, que dão lugar à formação de arribas.

Passada a ponte, o percurso pela N221 não está isento de beleza, antes pelo contrário, mas é uma estrada não apta para aqueles que costumam ficar enjoados porque tem inúmeras curvas, a par de belas paisagens. Do lado português, o território encontra-se bem melhor explorado, com alternância entre as oliveiras, alguma amendoeira, árvores de rio e, sobretudo, as videiras nas encostas do Penedo Durão, cultivadas em socalcos. Do lado da província de Salamanca, talvez por tratar-se de uma zona de arribas com fortes pendentes, só há em destaque uma pedreira que contribui para a degradação desta paragem natural, e a abundância de matagais, próprio de terras pouco produtivas como é natural nesta região, com solos ácidos com abundância de granitos e quartzitos.

Esta paisagem continua durante todo o percurso de que estamos a falar. O micro-clima que contrasta com o clima geral das regiões vizinhas faz com que do ponto de vista agrário se dêem boas condições para o cultivo da videira, dentro da Região Demarcada Douro, Sub-Região Douro Internacional, e, portanto, fazendo parte do Alto Douro Vinhateiro, designado Património Mundial pela UNESCO em 2001, da oliveira e da amendoeira. As geadas rareiam nesta região e alguns pontos gabam-se de nunca terem sido cobertos pela neve. Não sabemos se é exagero ou não, mas o que é óbvio e que no Verão é possível ver isto. Se num dia de manhã, por volta das 10 horas encontramos uma temperatura de 21-22ºC no planalto ou no Freixo, é muito provável que tenhamos de suportar temperaturas de 26-27ºC nesta região. Se for um dia quente, no planalto podemos ter temperaturas de 32-33ºC, mas nesta região facilmente será de 39-40ºC, com a humidade acrescentada do Douro. Daí a alta qualidade do vinho e do azeite nesta região.

Já perto da barragem de Saucelhe, podemos optar por continuar viagem até Freixo de Espada-à-Cinta pela N221, que será alvo de um novo tópico no blogue, ou atravessar a barragem e conhecer as pequenas aldeias das Arribes salmantinas onde encontraremos pequenos solares e uma economia dedicada basicamente à pecuária. De facto, subindo para Saucelle, encontramos paisagens de azinhais que até nos lembram o clássico montado alentejano nestas latitudes setentrionais.

A viagem pode servir de pretexto para visitar o Penedo Durão ou perder-se pelas estradinhas que ligam esta região com Torre de Moncorvo, onde poderemos avistar formações geológicas muito antigas e aves rapazes e outros animais selvagens, sem esquecer as aldeias tradicionais.

Do lado dos Arribes salmantinos vale a pena visitar algumas aldeias com solares de pequenos fidalgos da região, ainda bem conservados, a barragem de Aldeadávila, que fica em paralelo com a localidade de Lagoaça, a primeira em receber foral do rei D. Afonso Henriques, e, perto de Masueco, o chamado Pozo (Poço) de los Humos, a visitar de preferência na Primavera, quando o rio leva muita água e o calor é suportável.

Não podemos finalizar sem dedicar umas palavrinhas à gastronomia, com destaque para o vinho (não deixar de provar o branco «Montes Ermos» de Freixo de Espada-à-Cinta, baratinho e bom), o azeite da região de Freixo, a posta mirandesa e os enchidos, é claro.

Espero com isto ter contribuído para dar a conhecer mais recantos raianos como uma janela aberta ao mundo onde qualquer pessoa possa deliciar-se com esta viagem com a sua imaginação ou mesmo fazendo-a!



 Foto 1. Ponte sobre o Douro em Barca d'Alva.

 Foto 2. Foz do Águeda. Início do Douro Internacional. À esquerda do Águeda começam as terras de Salamanca.

 Foto 3. O Douro visto da N221 perto de Poiares ao sopé do pico Durão.

 Foto 4. Vista do Douro com os olivais em primeiro plano (c. Freixo de Espada-à-Cinta) e as terras de Salamanca na outra margem (município de La Fregeneda).
 Foto 5. O Douro Internacional perto da barragem de Saucelhe, visto da N221.
 Foto 6. Paisagem do Alto Douro Vinhateiro (Património Mundial) da Região Demarcada Douro. À esquerda, foz do Huebra, afluente do Douro, nas mais áridas terras salmantinas.
Foto 7. Foz do rio Huebra e vistas das encostas das terras de Salamanca (Arribas del Duero), já perto da barragem.


 Foto 8. Central eléctrica da barragem de Saucelhe e vista de Salto de Saucelle, hoje campo de férias.
 Foto 9. Vista geral da barragem de Saucelhe.
 Foto 10. Barragem de Saucelhe.
Foto 11. Vista de Salto de Saucelle, hoje campo de férias.
 Foto 11. Douro Internacional visto de Saucelhe, com a foz do rio Huebra à esquerda e as encostas do monte Durão à direita.
 Foto 12. Vista geral do Douro da Barragem de Saucelhe até Barca d'Alva. Ao fundo, V. N. de Foz Côa.
 Foto 13. Douro Internacional entre Saucelhe e Freixo de Espada-à-Cinta.
 Foto 14. Freixo de Espada-à-Cinta visto de Saucelle.

P.S. Não queria deixar de passar a ocasião de dar as boas-vindas ao Rui, o nosso trigésimo-sexto seguidor. E, se quiserem, não deixem de aderir ao perfil do blogue no Twitter e no Facebook.