segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fronteiras: Constantim/Moveros (Nossa Senhora da Luz)

 É bem sabido que a ligação entre Miranda (do Douro) e Bragança pela EN218 nem sempre resulta a melhor opção para chegar à capital do distrito. Por isso, muitos habitantes da região costumam aproveitar o bom estado da estrada espanhola N-122 que teoricamente deverá ser substituída pela auto-estrada A-11 num futuro que vai depender da duração da crise económica, mas que em parte permite hoje evitar o trânsito pela cidade de Zamora depois de ter aberto a variante norte à cidade que leva a auto-estrada a 5 km. à jusante. 

A saída natural para os habitantes do concelho de Miranda é a fronteira entre Constantim e Moveros, onde fica a capela de Nossa Senhora da Luz, situada mesmo no limite fronteiriço. Isto porque até há pouco tempo a fronteira entre Ifanes e Brandilanes, mais próxima, estava num estado lamentável, sendo que neste ano, antes do Verão, as obras da estrada da fronteira eram objecto de uma beneficiação que pedia a gritos. 

 A fronteira da Luz é uma fronteira muito permeável porque está situada num alto mas de não difícil passagem. Se Moveros e Constantim estão situados a umas altitudes que oscilam entre os 800-810 m., o limite fronteiriço fica a pouco mais de 880 m, sendo mais «íngreme» a subida (ou descida) para Moveros do que para Constantim. Ao lado fica a capela de Nossa Senhora da Luz que atinge os 899 m. o que a converte num miradouro privilegiado do Planalto Mirandês e da região de Aliste, com quem partilha bastantes afinidades. Não devemos esquecer, como já foi dito nalguma ocasião, que esta região pertenceu a Portugal e foi um arcediagado da arquidiocese de Braga que recuperou a região em 1103 pela bula do papa Pascoal II que obrigava à diocese de Astorga a restituir as terras de Ledra, Vergantia e Aliste, que tinham sido objecto de uma usurpação em 969 aproveitando o facto de a diocese bracarense não ter sido restaurada após a invasão muçulmana, tendo ficado em mãos da diocese de Lugo, que não queria largar o privilégio de ser sede metropolitana de Lugo-Braga e que só tardiamente, com o Bispo D. Pedro, finalmente foi restaurada em 1071 por iniciativa do rei da Galiza, Garcia II (se bem alguns historiadores consideram que foi o rei Sancho III de Castela, que pretendia restaurar o reino de seu pai Fernando I o Magno, reconquistador de Lamego e Viseu em 1055 e 1056 e de Coimbra em 1064), rei que acabou cegado pelo seu irmão Sancho e morreu no ano de 1091 completamente cego no castelo de Luna, no norte da actual província de Leão, no caminho para as Astúrias.

Depois destes apontamentos históricos, importa salientar o facto de a Luz ter sido um ponto de encontro entre transmontanos e alistanos sendo que a capela costuma ser objecto de peregrinação o último domingo do mês de Abril, se bem este ano a causa de umas festas da Páscoa tardias foi no segundo domingo de Maio. Após a missa, os visitantes desfrutam de um convívio onde as fronteiras são ultrapassadas pela cordialidade das relações e até a amizade entre os habitantes de um e do outro lado da fronteira. São tempos de alegria em que a Primavera já vai avançando e mostra-se propícia para os clássicos pique-niques ao ar livre.

O alto da Luz constitui um óptimo miradouro entre ambas as duas terras, tendo a sua continuação por serras que, orientadas à Oeste, costumam constituir o limite fronteiriço mas nem sempre, sem que essas elevações possam definir-se como um verdadeiro entrave às comunicações como acontece noutras partes da Raia. Essa relativamente elevada altitude faz que a vegetação, que na região de Aliste está formada por matagais de urze, giestas, tojos e estevas situados entre penedos rochosos de granito e zonas de predomínio de algumas espécies mediterrânicas como a azinheira, o que fez o território ter-se especializado na pecuária de vitela de raça alistana e a ovelha para a produção de queijo, seja substituída aos poucos por uma flora de transição onde não falta o carvalho negral e soutos de castanheiros e fetos, que indiciam um clima mais húmido em que se misturam espécies atlânticas, mediterrânicas e de transição. Como contraste, o Planalto Mirandês caracteriza-se por uns solos mais férteis que permitem a cultura do cereal, os lameiros e a pecuária da vitela de raça mirandesa, onde o destaque vai para a sua famosa posta, o ex-libris da região.

A permeabilidade da fronteira fez com que do lado português, a montante da capela da Luz, fossem situadas uma espécie de guaritas a modo de sentinelas para a vigilância de uma fronteira onde o contrabando era moeda de troca corrente de um e do outro lado. Hoje, abandonadas, são testemunhas mudas de tempos passados e miradouros privilegiados de uma paisagem que se estende até perder-se no horizonte. É, sem dúvida, uma fronteira de passagem obrigatória para quem aprecia a Raia no seu todo.

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado espanhol.
 Foto 2. Fronteira espanhola vista do lado português.
 Foto 3. Marco fronteiriço situado entre a estrada e a capela de Nossa Senhora da Luz.
Foto 4. Vista, do ponto fronteiriço, das terras de Aliste com a Sierra de la Culebra ao fundo à direita e as serras de Sanàbria no fundo (centro da fotografia).
 Foto 5. Capela de Nossa Senhora da Luz e adro (vista lateral esquerda).
Foto 6. Capela de Nossa Senhora da Luz vista do lateral direito.
Foto 7. Marco fronteiriço situado a montante da capela donde é possível apreciar o planalto sem diferenciar entre o Planalto Mirandês e as terras de Aliste.
 Foto 8. Planalto Mirandês visto da Luz, com a aldeia de Ifanes ao fundo.
Foto 9. Planalto Mirandês visto da Luz na direcção de Constantim, Póvoa, Especiosa, Genísio e Malhadas.
 Foto 10. Posto de vigilância do lado português e indicação do ponto mais alto (899 m.).
 Foto 11. Terras de Aliste vistas ao sopé do posto de vigilância.
Foto 12. Serras fronteiriças na direcção de Constantim, Cicouro e S. Martinho de Angueira.

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Por razões de espaço não é publicada aqui a sua versão em mirandês, mas sim num novo 'post', pois o autor deste blogue esta firmemente comprometido com a defesa do património cultural e linguístico, sendo sensível sobretudo à situação das línguas minoritárias e menorizadas. O mirandês, como segunda língua oficial no nosso país não pode ser posta de lado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Localidades raianas: A Xironda

Se há poucos dias falávamos de Vilar de Perdizes, hoje vamos fazer o mesmo com A Xironda (ou Gironda), aldeia galega pertencente ao concelho de Cualedro. Situada também perto da Serra do Larouco, a aldeia localiza-se numa espécie de planalto que desce suavemente para o vale do Tâmega, bacia da qual faz parte.

A aldeia é mais pequena em extensão e em população, contando com uns 350 habitantes e com boas ligações para o resto do concelho e para as aldeias barrosãs de Vilar de Perdizes e Santo André. O casario apresenta-se mais modificado do que em Vilar de Perdizes, pelo que para encontrar casas tradicionais temos de procurar pelo centro da aldeia normalmente intercaladas entre construções modernas e por vezes abandonadas, encerradas ou servindo como currais para guardar lá o gado o como garagens e armazéns. Como nas citadas aldeias, a agricultura e pecuária ainda é a actividade económica principal, seguida dos serviços básicos (comércio, hotelaria, serviços de saúde, etc.). É interessante destacar o facto de que nalgumas casas ainda se conserva o cultivo da oliveira, o que de resto, resulta excepcional na Galiza, mas não assim nas aldeias portuguesas da fronteira. Isto mostra que esta cultura deveu estar mais estendida nesta região galega em tempos, sendo que hoje encontra-se em franco declínio e a sua conservação pode ser devida à influência portuguesa, sempre presente, ou como amostra do último rescaldo de uma actividade hoje quase extinta.

A localidade conta com uma bela igreja matriz em honra de S. Salvador, de factura barroca, em granito, que não se diferencia muito das igrejas paroquiais portuguesas vizinhas, talvez porque aqui, a Raia é, sem dúvida, mais difusa do que noutros lugares, pelo que podemos encontrar traços de transição de um e do outro lado da fronteira nestas aldeias arraianas. Se Vilar de Perdizes apresentava elementos que lembram a Galiza, não admira que A Xironda apresente características semelhantes às aldeias portuguesas vizinhas.

A casa tradicional, parecida em forma com as casas que podemos encontrar em Vilar de Perdizes, costuma ser construída em pedra de granito, com blocos irregulares, existindo ainda a casa moderna com lajes de granito que cobre essencialmente uma casa feita de tijolos na qual aparecem as típicas linhas pintadas em branco (ou preto, nalguns casos) a delimitar cada laje. O forno comunitário é outro dos elementos mais característicos da sua arquitectura popular, com lajes de pedra e contrafortes. 

Para além da igreja matriz, na arquitectura religiosa encontramos a Capela de S. Ciriaco, do século XVIII, também em pedra de granito com presbitério e cruz de pedra. Uma mistura da arquitectura religiosa e popular é o chamado «peto de ánimas», um nicho no qual repousa uma imagem em pedra de Nossa Senhora do Carmo com duas almas na parte inferior e com um bispo e o papa contornando a imagem a ambos os dois lados, cobertos pelas chamas do fogo do purgatório. 

Na estrada para Santo André, em plena fronteira, pode visitar-se ainda a vila romana de Grou, situada já ao sopé da Serra do Larouco, mesmo onde acaba o planalto que se estende por esta região fronteiriça.

 Desta aldeia destacam como tradições populares o tradicional magusto (em galego magosto) das castanhas e as «mázcaras» do Entrudo, conhecido em galego como Entroido. Trata-se de máscaras muito coloridas, de forte sabor pagão, como são, aliás, todas as celebrações relacionadas com o Carnaval e que apresentam muitas semelhanças com as de Cualedro, Verín, Laza ou Xinzo de Limia mas com as suas características particulares de cada localidade e que recebem respectivamente os nomes de zarramanculleiros, cigarróns, peliqueiros e pantallas.

Da sua gastronomia importa referir a batata, que tem destaque na economia local, já que o concelho está abrangido pela Denominação de Origem Controlada da batata da Límia, de excelente sabor e óptima para cozer e acompanhar nos pratos mais importantes da gastronomia galega, recebendo estas patacas cozidas o nome de cachelos e caracterizadas por ser firmes e com pouco farelo, pelo que não se desfazem na cozedura. A videira também está presente nos vinhos de Monterrei, que abrangem todo o vale do Tâmega galego com principalmente vinhos brancos com algumas casta portuguesas como é a Trajadura (treixadura em galego) ou Dona Branca e tintos com castas como a Bastardo, também própria dos vinhos da região de Chaves. Quem desejar experimentar a gastronomia da região pode fazê-lo nalguma tasca do concelho. Não deve deixar de provar os clássicos pratos galegos como o caldo galego, o pote galego (com batata, feijão, couve galega e orelha de porco) ou, é claro, o polvo à feira (com ou sem cachelos).

Razões mais do que suficientes para dar uma voltinha por estes lados.
 Foto 1. Igreja matriz.
 Foto 2. Lateral direito da igreja.
 Foto 3. A aldeia vista do adro da igreja.
 Foto 4. Lateral esquerdo da igreja.
 Foto 5. Casas tradicionais vistas da cabeceira da igreja e panorâmica do planalto.
 Foto 6. Casas tradicionais situadas perto da igreja matriz.
 Foto 7. Capela de S. Ciriaco.
 Foto 8. Esplanada da capela com vistas para a aldeia e a igreja matriz.
 Foto 9. Mais casas tradicionais no centro da aldeia.
Foto 10. Outras formas de arquitectura popular.



Ver A Xironda (aldeias raianas) num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P. S. É como é o nosso costume, damos as boas-vindas à nossa nova seguidora ecguelman, sendo assim o seguidor número 38. Esperamos não defraudar aos nossos leitores!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Localidades raianas: Vilar de Perdizes

A Leste do concelho de Montalegre, em pleno planalto barrosão, encontramos a aldeia de Vilar de Perdizes. Esta aldeia raiana fica perto da Serra do Larouco, que faz de limite com a Galiza, mas por contraste com a maior parte das aldeias do município barrosão, não faz parte da bacia do Cávado, mas sim do Douro, mais exactamente do Tâmega, sendo que alguns dos seus afluentes nascem nestas terras.

 Do ponto de vista geográfico, limita a Norte e a Leste com a Galiza, com quem está ligada por intermédio da estrada da Xironda (ou Gironda, em português e em galego reintegracionista). A Sul limita com Meixide, também sede de freguesia, e a Oeste com Santo André, que também possui a sua ligação com a Xironda, sendo que é possível fazer um circuito completo entre estas três aldeias. Por estar situada nesta parte do planalto barrosão, a aldeia encontra-se num pequeno declive iniciado mesmo no ponto em que se rompe o planalto para dar lugar depois a encostas nas que discorrem o rio Porto de Rei e o rio Assureira que se juntam já no concelho galego de Oimbra, antes de desaguar no Tâmega.

A aldeia resulta interessante pelas suas características. Com pouco mais de 500 habitantes consegue, no entanto, parecer bem maior pelo facto de na realidade estar formada por três bairros que no seu tempo eram aldeias próximas mas separadas umas das outras, mas agora, como resultado das novas construções, esse facto é muito mais difuso. Esses bairros ainda formam parte da realidade da aldeia pelo que encontramos o bairro de Sameiro à Norte, Cimo da Vila à Sul e Caria no meio, sendo que fazia parte da chamada Honra de Vilar de Perdizes, que contava com mais de 1 000 habitantes no início do século XIX e abrangia esta aldeia e as vizinhas de Santo André e Solveira.

A sua História, no entanto, remonta-se a tempos pré-históricos, já que contamos com restos de gravuras rupestres nas Pegadas da Burrinha da Nossa Senhora e no Penedo de Caparinho e ainda uns lagares rupestres em Santa Marinha. Da época romana são as inscrições do Altar de Penascrita e do Penedo de Rameseiros. Na Idade Média formou parte do Couto de Ervededo, sendo que em tempos, metade da aldeia pertenceu à Galiza e a outra a Portugal, acabando finalmente por passar por inteiro para o domínio português no marco das lutas entre a diocese de Braga e a diocese de Ourense pelo território de Baronceli

O seu carácter arraiano constata-se no casario tradicional e até na igreja matriz, em honra de S. Miguel. A factura da igreja é claramente portuguesa, mas o remate da igreja, em forma de pequena cúpula, remete-nos para o barroco de tipo galaico, que seguia o estilo da fachada barroca da Sé de Santiago, do século XVIII. A casa tradicional, como não podia ser de outra forma, costuma ser construída em pedra de granito, tendo algumas essa influência galaica da que falávamos, como é o caso de pintar os bordes dos blocos de pedra com que estão construídas. Consta ainda de um Paço, esse com um forte carácter português, que tinha várias dependências e até capela própria, o que da conta da importância económica da família proprietária, sendo que o solar foi berço de filhos d'algo, e junto do qual floresceram o Hospital e a Capela de Santa Cruz, destinados a prestar apoio físico e espiritual aos peregrinos de Santiago de Compostela e do Cristo de Ourense que por ali passavam, vindos dos lados de Chaves, Alto Douro, Beiras e Castela.

A aldeia consta de vários cafés e restaurantes e até alojamento de tipo rural, mas, sem dúvida, o que singulariza esta aldeia de outras é a celebração anual do Congresso de Medicina Popular impulsionado pelo padre Fontes e que teve em 2011 a sua 25ª edição, não sendo isento de alguma polémica por tratarem-se nele questões relacionadas não apenas com chás e plantas medicinais, mas também de tópicos que têm a ver com bruxaria, mau-olhado e outras práticas que o mundo científico costuma olhar com muito receio quando não com negatividade.

Seja como for, a aldeia pode ser o ponto de partida para caminhadas e visitas a aldeias vizinhas, quer do Barroso, quer da Galiza não podendo faltar, é claro, um bom almoço com posta de vitela barrosã, de fazer água na boca. E se a visita for no Verão, na estrada para a Xironda existe um pequeno parque de merendas na beira do rio Porto de Rei onde existe um pequeno estanque formado por um açude em que podemos tomar um fresco banho no meio da quentura desses dias tórridos que por vezes açoitam a região. Ou se preferir, converse com algum dos seus habitantes sobre histórias e estórias do contrabando, que tanto marcou a economia da região durante décadas.

 Foto 1. Igreja matriz.
 Foto 2. Lateral da igreja matriz. Veja-se a cúpula de tipo galaico.
 Foto 3. Vista da aldeia entre o Cimo da Vila e Caria. O bairro de Sameiro fica ao fundo.
 Foto 4. Casario tradicional da aldeia, com algumas casas de tipo galaico.
 Foto 5. Outra vista da aldeia.
 Foto 6. Rua do Valado.
 Foto 7. Paço de Vilar de Perdizes.
 Foto 8. Igreja e antigo hospital.
 Foto 9. Rua do Paço.
 Foto 10. Vista da aldeia da Av. Central.
 Foto 11. Av. Central e Travessa do Aluar.
 Foto 12. Ponte sobre o rio Porto de Rei, na estrada para a Xironda.

Foto 12+1 (não vá o Diabo tecê-las!). Parque de merendas e estanque sobre o rio.

Mapa 1. Mapa de situação.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Curiosidades fronteiriças: Montinho das Laranjeiras

 Rio Guadiana abaixo, já em terras algarvias, nesse Algarve interior, pouco conhecido, deparamo-nos com uma verdadeira jóia arqueológica: o Montinho das Laranjeiras.

Situado a uns 6 km. a sul de Alcoutim, este sítio arqueológico mostra-nos visões de momentos da nossa História antes de Portugal vir a ser Portugal. Aceder ao lugar é muito fácil: baste seguir a EM567 que segue junto ao rio Guadiana, a partir de Alcoutim, ficando, como já foi dito, a 6 km. da localidade à beira da mesma estrada. Além do mais, não há escusa para não fazer uma visitinha porque o acesso é gratuito e passear entre as ruínas existentes não demora mais do que 15-20 minutos.

A particularidade deste lugar reside na sua situação numa planície não muito larga, já que o Guadiana apresenta nesta região uma disposição menos suave, com pequenas montanhas que caem para o rio sem apenas zona ribeirinha. E é que, embora perto da sua foz, ainda não conseguimos imaginar a ampla zona de sapal e salinas que a caracterizam no seu curso mais inferior e isto apesar de nesta região fazerem-se sentir as marés no rio, facto que o converte num rio navegável como já dissemos noutros 'posts' até ao Pomarão em qualquer circunstância e até Mértola em maré alta.

Provavelmente seria essa condição de navegável do rio o que teria feito desenvolver neste cantinho uma unidade de povoamento que integra três áreas distintas de ocupação contínua e de interacção desde o século I ao século XIII.

A villa romana, onde se identificam estruturas quadrangulares por vezes associadas a pátios centrais em torno dos quais se dispõem outros compartimentos, terá tido inicio construtivo no século I e está associada a actividades agrícolas, piscatórias e a rotas comerciais com Mértola e com o Norte de África.

As estruturas de uma igreja apontam para ocupação visigótica - séculos VI-VII. De planta cruciforme é das mais antigas conhecidas na Península Ibérica, deste tipo, apresentando ainda vestígios de utilização posterior. Uma terceira área é formada por um conjunto de casas islâmicas do período almóada séculos XII-XIII.

A sua situação privilegiada na margem direita do Guadiana faz-nos apreciar as montanhas circundantes, o cultivo da oliveira, muito estendido nesta região, e as vizinhas serras situadas além Guadiana, já em Espanha, em Huelva, uma das províncias da Andaluzia.

De resto, podemos continuar a nossa viagem e desfrutar dos meandros do Guadiana, bem como das vistas da vizinha foz do Odeleite, o último afluente importante do Guadiana antes de desaguar no Atlântico ou bem, se nos dirigirmos para Norte, visitar a vila de Alcoutim e fazer o passeio de barco entre Alcoutim e a localidade andaluza de Sanlúcar de Guadiana. Claro que sempre haverá a opção de fazer um pequeno cruzeiro pelo Guadiana a partir de Vila Real de Santo António onde encontraremos várias opções e preços, com ou sem refeição, tudo ao gosto do freguês e do seu bolso, é claro! Seja como for, a visita destas terras arraianas resulta especialmente reconfortante na Primavera, nos meses de Maio e Junho, quando ainda não sentimos a canícula do interior no Verão, mas sim um calor agradável que pode acabar com um banho na praia mais próxima como cereja no topo do bolo. É só experimentar!

 Foto 1. «Casa do senhor». Vila romana.
 Foto 2. Vista parcial da basílica.
 Foto 3. Basílica paleocristã ou visigótica.
 Foto 4. Vista do rio Guadiana e da margem espanhola (esquerda do rio).
 Foto 5. Vista geral do sítio arqueológico.
Foto 6. Celeiro e casas dos camponeses


Ver Montinho das Laranjeiras num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. Damos ainda as boas-vindas à nossa nova amiga Pille no blogue. Esperemos que sejam mais!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Fronteiras: Confluência do Caia com o Guadiana

 Um dos pontos fronteiriços menos conhecidos é a confluência do rio Caia com o Guadiana. Isto prende-se com o facto de apesar de ser relativamente acessível do lado de Badajoz, não ser muito frequentado para além dos proprietários das pequenas quintas existentes no chamado «Rincón de Caya». Do lado português, as terras de lavoura em regadio, que pertencem à freguesia de Ajuda, S. Salvador e Sto. Ildefonso do concelho de Elvas, fazem com que o acesso seja difícil visto tratarem-se de propriedades privadas. No entanto, um entardecer de outono deu-nos umas vistas maravilhosas deste recanto desconhecido e que tínhamos de partilhar com os leitores deste blogue.

O rio Guadiana apresenta uma grande extensão na cidade de Badajoz, facto que contrasta com o fraco caudal observado na ponte da Ajuda, cauda do Grande Lago de Alqueva. Isto deve-se ao facto de existir, águas abaixo de Badajoz, um grande açude que nestes dias apareceu totalmente ao descoberto pela simples razão de que se abriram as comportas e deixaram ver o que a seca está a causar este ano a causa da falta de chuvas e este Verão prolongado. A partir do açude de La Granadilla, nome que recebe o bairro de Badajoz onde está situado, o rio Guadiana desce num suave remanso cujas águas tranquilas banham a planície, entre árvores e sapais. 

E é pouco depois quando se produz a confluência do rio Caia com o Guadiana, descarregando as suas águas que irão além-fronteiras para o Atlântico. Na foz está situado o marco fronteiriço 802-R que tem grande significado. Isto porque foi aqui que acabaram em 1868 os trabalhos de delimitação da fronteira derivados do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 pelo não reconhecimento de Portugal da soberania espanhola sobre Olivença e as suas aldeias. Em 1927 um novo tratado viria à luz estabelecendo os últimos marcos fronteiriços entre a ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Mas ainda faltam cem marcos fronteiriços por colocar entre a foz do Caia e esta ribeira dita de Cuncos. Um novo tratado internacional, este de 1968, relativo às águas entre Portugal e Espanha, que regula o regime de exploração dos grandes rios peninsulares (nem sempre respeitado, como acontece com o rio Tejo e a política de trasfega para as regiões mediterrânicas que deixam o rio quase exangue), reconhece a soberania portuguesa de todas as águas do Guadiana entre a foz do Caia e a ribeira de Cuncos, no que foi, obviamente, um plano que visava evitar confrontos territoriais entre duas ditaduras amigas, a do Estado Novo de Salazar que não renunciava à reclamação de Olivença, e a de Franco, que podia presumir de não ter cedido às pretensões portuguesas.

Seja como for, a questão é que é a partir da foz do Caia que começa o Guadiana Internacional e a sua entrada em Portugal. Deleitemo-nos, então, nas belas paisagens que prazerosamente nos deixou uma quente e serôdia tarde dos últimos estertores do Verão.

 Foto 1. Confluência do Caia com o Guadiana.
 Foto 2. Confluência do Caia com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.

 Foto 3. Foz do rio Caia.
 Foto 4. Foz do rio Caia com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 5. Marco fronteiriço do lado de Espanha.
 Foto 6. Rio Guadiana águas abaixo de Badajoz, antes da foz do Caia.
 Foto 7. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana.
 Foto 8. Rio Caia antes de confluir com o Guadiana com indicação do limite fronteiriço.
 Foto 9. Foz do Caia (outra vista).
 Foto 10. Foz do Caia (outra vista) com indicação do limite fronteiriço.



Ver Caia/Guadiana num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

P.S. A proposta de um leitor nosso (Exmº Senhor José Costa), todos os marcos fronteiriços podem ser vistos no seguinte site: //igeoe-wservices.igeoe.pt/Fronteira/.