domingo, 12 de fevereiro de 2012

Castelos da Raia: Castelo de Miraflores (Alconchel)

Um dos castelos da Raia mais desconhecidos é o Castelo de Miraflores, na localidade de Alconchel, na Extremadura espanhola. Até porque poucos o reconhecem como castelo raiano. Mas, para além da sua beleza intrínseca, vale a pena visitá-lo e situá-lo no seu contexto histórico.

Para quem vem de Portugal, tem dois acessos ao seu dispor: um por Olivença, depois de passar a ponte da Ajuda, e outro pela fronteira de São Leonardo (Mourão) e Villanueva del Fresno. Para quem vem de Badajoz, é muito fácil: segue pela estrada de Olivença e depois continua pela estrada de Olivença até Villanueva del Fresno. Alconchel fica a uns 20 km. a Sul da vila oliventina. O acesso faz-se por uma estrada local que fica mesmo antes da chegada à localidade, vindo de Olivença. Rapidamente encontramos o castelo e as magníficas vistas que explicam a sua importância estratégica.

Agora um pouco de História. Parece que o morro ou outeiro em que fica o castelo já foi povoado em tempos pré-romanos, na época romana e na época visigoda. Mas será com a queda do Califado de Córdoba e a formação do reino aftasi de Badajoz que este lugar começou a adquirir mais importância do ponto de vista estratégico. Já o emir 'Abd-al-Rahman (Abderramão) II (822-852) tinha construído uma fortaleza para defender o território das razias dos exércitos do reino das Astúrias, depois reino de Leão. Os reinos de taifas que surgiram após a desaparição do Califado estavam muitas vezes em guerra entre eles pelo controlo do território e é nesse sentido que devemos ver a reparação e ampliação da fortaleza de Alconchel. 

No século XII, após a conquista de Évora para Portugal em 1165, Geraldo Sempavor ocupa a fortaleza o ano seguinte junto de outras como as de Mourão, Serpa e Juromenha na tentativa de ocupar Badajoz que acaba com o famoso «desastre de Badajoz» em 1170 quando o rei D. Afonso Henriques, a ponto de ocupar a alcáçova, é ferido a causa da aliança do seu genro Fernando II de Leão com os almóadas. O castelo esteve na posse dos leoneses até 1174, em que os almóadas o recuperaram e iniciaram trabalhos de ampliação. Não seria até à década 1230 com a tomada de Badajoz pelo rei Afonso IX de Leão que o castelo e a localidade entrem a formar parte do reino de Leão e com o rei Fernando III, rei de Castela e Leão, faça doação do castelo à Ordem do Templo, que gerirá esta propriedade doada como «juro de herdade e para sempre» até à sua dissolução em 1311.

Entretanto, o Tratado de Alcanices de 1297 fez com que os territórios de Olivença e Táliga passassem para a dominação portuguesa, facto que converterá este castelo em fortaleza fronteiriça. Não devemos esquecer o facto de a fronteira ter-se situado 5 km. a Norte da localidade e 4 a Leste, na direcção de Táliga. Isso fará com que a relevância do castelo aumente de forma considerável. Tomado pelo rei D. Dinis em 1311, a partir de 1313 vai passar a mãos de diferentes casas da nobreza castelhana. As guerras de Portugal com Castela terão grande importância, designadamente nos séculos XVII, XVIII e XIX. O castelo e a vila de Alconchel serão alvo de duas ocupações portuguesas no contexto da Restauração em 1642 e 1643. Será ainda ocupada pelo exército francês aquando da Guerra Peninsular até 1812. Acabada a contenda, a fortaleza perde a sua importância pela anexação de Olivença a Espanha pelo Tratado de Badajoz de 1801 e pelo facto de a vida municipal focalizar-se na Câmara (Ayuntamiento) situada na vila, ao sopé do castelo.

De factura essencialmente gótica, o castelo consta da torre de menagem muralhas e ameias e segue uma tipologia construtiva que podemos observar no castelo de Juromenha ou o castelo de Alburquerque. Consta ainda de algibe ou cisterna de tipo mudéjar para assegurar o subministro de água em épocas de seca ou em cercos ao castelo. Foi alvo de restaurações recentes por parte do Governo da Junta da Extremadura.
A visita do castelo vale a pena pelo não só pela sua beleza, mas também pelas vistas que se apreciam para a vila de Alconchel, a planície que se estende até Olivença e a planície que de Alconchel chega até perto de Táliga e outras aldeias vizinhas. É possível ainda apreciar pequenas serras como a Serra de Montelongo e da Faragosa a Leste, a Serra de Santo Amaro, perto de S. Bento da Contenda (oficial San Benito de la Contienda), e o vizinho Cerro de la Esperanza.

 Foto 1. Vista geral do castelo de Miraflores.
 Foto 2. Vista da muralha e as ameias do lateral Oeste.
 Foto 3. Porta de entrada ao castelo.
 Foto 4. Torre de Menagem.
Foto 5. Vista parcial do castelo (parte Norte).
Foto 6. Vista da planície até Olivença com a Serra de Santo Amaro ao fundo e a Serra de Montelongo à direita.
Foto 7. Pôr-do-sol e Cerro de la Esperanza vistos do castelo.
Foto 8. Muralhas do castelo com vistas para a planície de Alconchel.
Foto 9. Vila de Alconchel vista do castelo de Miraflores.
Foto 10. A planície (Sul) vista do castelo em direcção às aldeias de Táliga e Higuera de Vargas.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Moimenta da Raia/S. Cibrão de Hermisende

Entrando de novo no terreno do esquecimento, lá vai uma fronteira muito pouco conhecida. Trata-se da fronteira existente entre Moimenta da Raia, freguesia e aldeia do concelho de Vinhais, e São Cibrão de Hermisende (San Ciprián, na toponímia oficial). É pouco conhecida porque de Moimenta sai apenas um caminho rural de terra batida, enquanto de S. Cibrão há um desvio pavimentado de apenas uns 200 m. até ao mesmo limite fronteiriço que parte da estrada ZA-L 2698, que liga Hermisende com Castromil, aldeia que está partida em duas partes porque uma pertence ainda à província de Zamora e a outra faz parte já da Galiza, mais exactamente da província de Ourense e do concelho de A Mezquita. 

Partindo de Hermisende, temos de atravessar a ponte da Veiga, ponte medieval situada sobre o rio Tuela, um dos dois rios, que junto com o Rabaçal formam o Tua pouco antes de chegar a Mirandela. Daí há uma subida íngreme na que S. Cibrão fica de lado, visto que temos de passar de pouco mais de 790 m. no fundo do vale até quase os 1 000 m. passando a meia encosta da Serra do Marabón, serra que separa a província de Zamora da Galiza. Daí chegamos a um planalto granítico que desce em suave declive entre os 1 100 e os 900 m., flanqueado pela Serra do Marabón e a Serra da Coroa, situando-se Moimenta da Raia a uma altitude algo inferior aos 900 m., na parte mais baixa do planalto pouco antes de chegarmos às íngremes encostas quase em arribas do vale do Tuela.

Esta situação entre a Galiza, Leão e Portugal deu lugar a pontos como o chamado Penedo dos Três Reinos, não muito longe deste ponto fronteiriço, se bem na realidade o reino da Galiza tinha o seu limite oriental na Portela do Padornelo e as províncias do Antigo Regime mantiveram esta situação até 1833, com a reforma provincial de Javier de Burgos, que deu o território entre esta portela e a Portela da Canda, à província de Zamora. Os penedos graníticos fazem, pois, parte da paisagem deste planalto porque a sua elevada altitude faz com que abundem afloramentos rochosos e uma paisagem quase desoladora de estevas, urzes, giestas ou tojos, ou seja, grandes extensões de mato açoitados por um vento geado no Inverno e pelo calor intenso no Verão.

Daí a importância do fumeiro na região, aquém e além fronteiras, que beneficia destas temperaturas baixas que resultam ideais para o fabrico de enchidos e, no concelho de Vinhais, da cria do porco bísaro, verdadeira iguaria e marca identificadora da região. Como muitas aldeias, esta região sofreu com intensidade a emigração, mas manteve certos usos comunitários hoje em declínio e que, infelizmente, decerto morrerão com a extinção das gerações mais velhas, dedicadas à agricultura e à pecuária, numa economia típica de subsistência.

Do ponto de vista cultural importa salientar o facto de as relações transfronteiriças terem sido muito intensas, o que se traduziu numa mistura de traços do ponto de vista etnográfico e linguístico. As fronteiras na região realmente não foram bem delimitadas até ao Tratado de Limites de 1864. Já as Inquirições de D. Afonso III de 1258 mostravam que Portugal estava na posse da aldeia de Manzalvos e metade da aldeia de Cádavos, actualmente do concelho de A Mezquita, na Galiza. Relativamente à S. Cibrão é comummente aceite que esta aldeia junto com Hermisende e Teixeira pertenceram à coroa portuguesa até 1640, se bem Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e grande estudioso do distrito de Bragança, mostra que a documentação histórica não nos permite afirmar tal hipótese, sendo que talvez tenham sido perdidas ao longo do século XVI.

Seja como for, a dominação portuguesa deixou a sua marca na língua falada na região. A mal chamada Alta Sanábria ou Sanábria galega é na realidade a região das Portelas e o galego é a língua principal de uso, para além do castelhano oficial. No entanto, nestas três aldeias de S. Cibrão, Hermisende e Teixeira há quem afirme que é falado um galego com traços portugueses ou um português em descomposição, com traços galegos. Do ponto de vista filológico, S. Cibrão pertencerá ao grupo do chamado «portelego central», tendo perdido o uso do esse sibilante sonoro, que ainda se mantém nas aldeias de Hermisende e Teixeira, do grupo do «portelego oriental». Os seus habitantes não se consideram sanabreses, mas antes porteixos.

Em resumo, uma região de confluência de culturas que vale a pena visitar quanto mais não seja que pelas suas paisagens, o contacto com a Natureza ou o património cultural e humano. Embora o Verão seja a melhor estação para visitar, quer pelas suas melhores condições meteorológicas, quer pelo facto de haver uma vida mais animada com os emigrantes que voltam de férias e as romarias, eu gosto particularmente no Inverno, quando esse vento frio acaricia o meu rosto e sinto algo de purificador nisso, no meio do cheiro do mato e o fumo da lenha das casas lentamente queimada na lareira para aquecê-la ou até mesmo cozinhar pratos fortes e consistentes. Vai um bom cozido ou umas fatiazinhas de salpicão de porco bísaro?


 Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal e vista do planalto.
 Foto 2. Caminho fronteiriço entre penedos.
 Foto 3. Caminho da Moimenta, com a Serra da Coroa ao fundo.
Foto 4. Vista do planalto, entre Portugal e a Galiza onde se assentam aldeias como Carvalhas, Casares ou Manzalvos.
 Foto 5. Marco fronteiriço com vistas para a Serra do Marabón.
 Foto 6. Mudança de piso que indica o limite fronteiriço visto da parte da província de Zamora.
Foto 7. Vista da estrada da parte de Zamora, o planalto e a Serra do Marabón ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casas de la Duda, Pino (Valência de Alcântara)

Há curiosidades fronteiriças e curiosidades. Esta é possivelmente uma das mais raras e menos conhecidas da Raia. Mas para isso é preciso entrar em antecedentes. Em primeiro lugar, temos de dizer que a fronteira, tal como a conhecemos hoje advém do Tratado de Limites de Lisboa de 1864 e que definiu a fronteira com uma série de trabalhos que consistiram em comparar os documentos existentes por parte das duas comissões, portuguesa e espanhola, e fixar uma série de marcos fronteiriços numerados. Esses trabalhos, como já disse nalgum momento, pararam na confluência do rio Caia com o Guadiana com o marco 807 a causa da questão de Olivença, que levou a um novo tratado, em 1927, que definiu os restantes entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Restam ainda por colocar 100 marcos entre o Caia e a Ribeira de Cuncos a causa da questão citada.

Em segundo lugar, esta curiosidade prende-se pelo facto da própria geografia da região, em plena Serra de São Mamede. Esta serra é na realidade um conjunto de alinhamentos montanhosos, mais ou menos paralelos entre os quais se intercalam pequenos vales, várzeas e meias-encostas nas quais chegam a cultivar-se a oliveira e a videira em socalcos. A linha de fronteira costuma ir paralela ao cume das montanhas, a partir da Serra Fria, que atinge os 974 m., situada entre as localidades de Galegos e Porto da Espada, que pertencem ao concelho de Marvão, mas este não é o caso da Serra da Palha (ou Sierra de la Paja, em espanhol), já que a raia fronteiriça discorre a meia encosta do lado de nascente ou a jusante. 

Em terceiro lugar, um bocadinho de História. O século XVII significou um período de forte crise económica no seio da chamada Monarquia Hispânica (e não Espanha, porque a dinastia dos Habsburgo de Madrid reinavam sobre todos os seus territórios mas estes mantinham as suas leis e estatutos. Nunca houve, apesar dalguns intentos, uma uniformização administrativa). Para Portugal esta situação mais a Guerra da Restauração (1640-1668) significou uma época de verdadeiras penúrias económicas pelos custos de uma guerra prolongada e a posterior reconstrução. Em Espanha vai supor uma mudança de paradigma. Se até o fim do século XVI na pré-crise, o centro peninsular era o mais desenvolvido, designadamente Castela-Velha, Castela-Nova e o antigo reino de Leão (especialmente Salamanca), a crise europeia do século XVII vai fazer com que a periferia, que até então estava muito menos desenvolvida, com excepção da Baixa Andaluzia, comece a destacar-se do centro, enquanto este ficava exangue a causa das contínuas guerras em que a monarquia se viu envolvida a nível europeu e nas colónias americanas. O celeiro de homens para a guerra era Castela, que sofreu mais o decréscimo demográfico e as suas consequências económicas. Resultado: Enquanto Portugal experimentava um notável crescimento económico acrescentado com a vinda do ouro do Brasil no século XVIII, as regiões espanholas do centro peninsular foram as últimas em sair de uma crise que as tinha deixado sem fôlego. Isto traduziu-se num crescimento demográfico muito mais elevado em Portugal, incluindo a região do Alentejo, em claro contraste com as regiões raianas espanholas, verdadeiros desertos demográficos.

Importa salientar que este terceiro factor contribuiu para uma primeira vaga migratória portuguesa para os espaços raianos de algumas partes da Extremadura espanhola pela pressão demográfica existente no Alentejo frente ao vaziamento demográfico da primeira. Se já existia uma aldeia em que se falava português desde a Idade Média (é o caso de Ferreira (Herrera) de Alcântara, no Tejo Internacional), é no século XVIII que começa a colonização de vilas como Cedilho e um conjunto de aldeias que contornam a localidade de Valência de Alcântara como é o caso de Fontanheira (La Fontañera), S. Pedro, Casinhas (Las Casiñas), Hortas (Las Huertas), Pino o Jola, aldeias em que ainda se mantém viva a língua portuguesa, embora seja com alguma influência do castelhano. Nelas fala-se um dialecto de tipo alto-alentejano com traços beirões, pela relativa proximidade da Beira Baixa.

E é em Pino, ou Pino de Alcântara, que encontramos esta curiosidade. O acesso vindo de Portagem/Marvão é muito fácil porque basta seguir a estrada para a fronteira de Galegos/Puerto Roque e já em Espanha, seguir pela estrada N-521, deixar ao lado uma estação de serviço situada à esquerda e, a 2 km. da fronteira, continuar pelo desvio para Pino, que fica a 1 km. Dai temos de chegar até ao fundo da aldeia, lugar em que fica o café local e seguir por um caminho rural de terra batida. A pouco mais do que 1 km. encontramos Casas de la Duda. Trata-se de um conjunto de casas espalhadas a meia encosta da Serra da Palha que ficam à beira da Ribeira da Dúvida, riacho que nasce em território português a jusante da aldeia do Montinho e que atravessa a aldeia de Pino e com outros cursos de água acaba por desaguar no rio Sever, um afluente do Tejo que nasce na Serra de S. Mamede e que acaba por constituir o limite fronteiriço com a província de Cáceres entre os concelhos de Marvão e Nisa, desaguando no Tejo na barragem de Cedilho, ponto em que o Tejo começa a ser inteiramente português.

A particularidade deste lugar tem a ver com os limites fronteiriços, pouco claros e definidos. Foi precisamente essa indefinição o que fez que este conjunto de casas fossem conhecidas como Casas de la Duda (da Dúvida), pela impossibilidade de saber em que lado estavam situadas, se no lado de Espanha ou no lado de Portugal, ficando algumas mesmo «partidas» pela linha de fronteira. Infelizmente, a emigração fez que ficassem abandonadas, sendo algumas usadas para a prática da pecuária, designadamente rebanhos de ovelhas, que pastam pela serra. A fronteira está presente nos dois marcos fronteiriços situados a ambos os dois lados da Ribeira da Dúvida, sem qualquer outra indicação. É de salientar o facto de que algumas das casas apresentam a forma típica de casario alentejano, o que não deve espantar pelas razões históricas acima descritas.

De resto, a aldeia de Pino, e uma bela amostra da mistura entre elementos da casa típica alentejana e traços extremenhos. Frente a nomes de rua de personagens históricos espanhóis, existem outros de indelével marca portuguesa como a Casa do Cabeceirinho (Casa del Cabeceiriño) ou as calles (ruas) Parra e Montiño (Montinho).

Agora só resta ver e apreciar as fotografias ilustrativas!

Foto 1. Marcos fronteiriços na Ribeira da Dúvida.
Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 3. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal com a lua ao fundo.
Foto 5. Marco fronteiriço situado para Oeste da ribeira.
Foto 6. Uma das casas que ficariam no lado português.
Foto 7. Outra das casas do lado português com a Serra da Palha ao fundo.
Foto 8. Vista das casas duvidosas e as encostas.
Foto 9. Casas que ficariam no lado espanhol.
Foto 10. Vista geral do lugar de Casas de la Duda.

Foto 11. Vistas sobre a Ribeira da Dúvida, os marcos fronteiriços e a serra.
Foto 12. Casa com chaminé de tipo alentejano.
 Foto 13. Vista geral da aldeia de Pino.
Foto 14. Igreja matriz.
Foto 15. Ruas da aldeia com casas de traço alentejano.
Foto 16. Chaminé alentejana.
Foto 17. Praça da aldeia no início da calle Montiño.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Ouguela (c. Campo Maior) /Alburquerque

Uma fronteira pouco conhecida mas que vale a pena visitar pelas belas paisagens em que discorre é a existente entre a aldeia de Ouguela, no concelho de Campo Maior, no Alto Alentejo, e a vila de Alburquerque, na Extremadura espanhola. Não vamos falar hoje do belo castelo de Ouguela, a sua história e o seu património, visto ter sido alvo de um 'post' publicado há tempos referido em exclusivo para esta questão e que pode ser (re-)lido aqui, mas sim da fronteira existente neste ponto de ligação da citada aldeia e a vila de Campo Maior com a vila de Alburquerque e La Codosera.

Para quem vem de Campo Maior, antes de chegar à povoação de Ouguela, deve apanhar o desvio para a capela de Nossa Senhora da Enxara, uma capelinha que fica a 1 km. da localidade, à beira do rio Xévora, um afluente do rio Guadiana que nasce na Serra de São Mamede, no concelho de Portalegre e depois entra em Espanha pela aldeia de Rabaça/La Rabaza e continua pela vila de La Codosera, voltando a entrar de novo em Portugal muito perto do ponto fronteiriço do qual estamos a falar, passa ao lado da citada capela e volta a entrar definitivamente em Espanha águas abaixo até desaguar no Guadiana entre a localidade de Gévora (nome espanhol do rio) e a cidade de Badajoz. Esta capela, da qual falaremos noutro 'post', é famosa pela romaria que tem lugar na Páscoa, quando a população de Campo Maior costuma deslocar-se na Sexta-Feira Santa, ficando lá dois ou três dias até à Segunda-Feira acampados no arraial em pleno campo. Lá têm lugar uma missa, uma procissão campal, touradas e há diversos divertimentos como carrosséis, baile e as clássicas barracas para os comes e bebes. 

Passados alguns metros, segue-se por essa estradinha, ficando a capela num desvio à direita, enquanto se contorna o outeiro em que está assentada a aldeia de Ouguela. Depois de passar a ponte sobre a Ribeira de Abrilongo perto da sua confluência com o rio Xévora, continuamos viagem por uma via serpenteante mas muito agradável que dá para apreciar a paisagem de montado alentejano no meio de uma paz bucólica e quase lendária por parecer uma espécie de Arcádia feliz (desculpem, mas por vezes gosto de fantasiar) que nos meses frios, mas especialmente no Inverno e no início da Primavera resulta muito aprazível pela paisagem verdejante, enquanto no final da Primavera, no Verão e início do Outono podemos desfrutar do contraste entre o verde dos sobreiros e azinheiras e o amarelo intenso pela seara fora ou dos montados já secos pelo célebre calor intenso e abrasador do Alentejo. Daí, um desvio com um sinal indicador para Alburquerque, leva-nos ate à fronteira, caso não queiramos seguir caminho por estas paisagens isoladas até a aldeia de Degolados, a outra freguesia do concelho de Campo Maior.

O limite fronteiriço situa-se numa zona de lombas após passar alguma herdade, lembrando a proximidade da Serra de São Mamede, já que na realidade essas lombas fazem parte do extremo desse alinhamento montanhoso antes de sumir numa planície extensa, já no vale do Guadiana. Já na Extremadura espanhola, as lombas aumentam a sua altitude obrigando a contínuas subidas e descidas numa paisagem que em nada mudou a não ser na forma das herdades, próprias desta região, até chegarmos até ao entroncamento em que devemos decidir se queremos chegar até Alburquerque ou La Codosera e de novo a Portugal pela fronteira do Marco. Antes deste ponto, a estrada brinda-nos uma bela vista de montado (chamado dehesa na Extremadura espanhola) e do castelo de Alburquerque, situado em alto.

A História da região foi conturbada, como é óbvio. Em 1218 a vila e castelo de Alburquerque foi reconquistada pelo reino de Leão aos almóadas, após a batalha decisiva das Navas de Tolosa, em 1212, que significará a quebra do poder deste império que ainda ocupava a metade Sul da Península Ibérica. Mas será na década de 1220 quando virá o impulso maior. Do lado de Portugal, o rei D. Sancho II ocupa Elvas em 1226, dando-lhe foral em 1229. Do lado do reino de Leão, após a batalha de Alange em 1230, são ocupadas as cidades de Mérida e Badajoz e ainda Campo Maior e Ouguela. Após a estabilização do conflito com os muçulmanos, começam os conflitos entre a coroa castelhana e Portugal pela definição da fronteira, que foram muito duros na região de Arronches e Alegrete, antiga sede de concelho e hoje uma das freguesias de mais população (excluída a cidade) do concelho de Portalegre. Alegrete passará a formar parte da coroa portuguesa formalmente após o Tratado de Badajoz de 1267, mas Campo Maior e Ouguela deverão esperar até ao Tratado de Alcanices de 1297 quando o rei D. Dinis, que na realidade almejava a posse da cidade de Badajoz, consegue para Portugal as duas localidades mais o território de Olivença, de modo a cercar a citada cidade. No entanto, estas localidades continuarão a depender no eclesiástico da diocese de Badajoz até a reforma diocesana de inícios do século XV. As guerras com Castela serão contínuas, daí a importância da fortaleza e castelo de Ouguela num território de fácil acessibilidade de forma a proteger a vila de Campo Maior, que também possuía o seu castelo e as suas muralhas.

A visita deste ponto avançado do nosso país resulta especialmente indicada para um lindo passeio à tarde se estivermos à procura de sossego e paz no meio do campo. Se acompanharmos isto com uma bifana quentinha no pão (alentejano, obviamente!) e uma bejeca..., é já o summum do prazer!

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
 Foto 2. Caminho rural e marco fronteiriço situado para Leste da linha de fronteira.
 Foto 3. Marco fronteiriço e vista da paisagem de montado.
 Foto 4. Vista do mesmo marco fronteiriço com orientação para Portugal.
 Foto 5. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 6. Estrada de Alburquerque, já na Extremadura espanhola.
Foto 7. Vista da planície no extremo do Alentejo. Ao fundo à direita ficaria situada a cidade de Badajoz (fora do alcance da vista).
Foto 8. Planície alentejana e castelo e aldeia de Ouguela vistos do limite fronteiriço.

Foto 9. Vista da dehesa extremenha com o castelo de Alburquerque ao fundo (a 7 km. do limite fronteiriço.
Foto 10. Vista geral do castelo de Alburquerque, na Extremadura espanhola.


Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Fico contente por ver que a pouco e pouco vai aumentando o número de leitores, bem como o número de amigos no perfil de «Fronteiras» no Facebook. Já no Twitter o sucesso é limitado, mas é compreensível porque talvez seja uma rede social mais especializada e nem todos vejam a utilidade de manter um perfil lá. De qualquer forma, gosto que as pessoas, de livre e espontânea vontade, decidam nos seus perfis a quem adicionar ou seguir ou mesmo até não fazê-lo porque não achem necessidade. No Google Rede Social tenho o prazer de ver que os seguidores aumentam de forma lenta mas contínua contando hoje com 44 seguidores, o que para um blogue claramente minoritário é muito bom. Como costumo fazer, dou as boas-vindas ao nosso último seguidor, Danny Antunes. Espero que continue a apreciar o blogue e os motivos que o levaram a segui-lo se mantenham por muito tempo!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Património raiano: Convento (mosteiro) de Santa Maria de Aguiar

 No concelho de Figueira de Castelo Rodrigo encontramos um rico património histórico e arquitectónico ao qual não foi alheia a constituição da fronteira. Um exemplo disso é o mal chamado Convento de Santa Maria de Aguiar, que na realidade era um mosteiro e que fica situado na freguesia de Castelo Rodrigo, a apenas 11 km. da fronteira com a província de Salamanca, em plena Beira Interior, entre a capital do concelho e a aldeia de Almofala, de clara ressonância árabe.

O mosteiro, do qual restam a igreja e algumas das antigas dependências, tem, no entanto, muita história envolvida. Já no Parochiale Suevum de 569 é mencionada a diocese de Caliábria, que tradicionalmente tem-se associado a este mosteiro ou algum ponto dos arredores e que sofreria um colapso aquando da invasão muçulmana da Península Ibérica, presença que foi bem sentida na região a julgar pelo arco de tipo árabe situado na Cisterna da aldeia de Castelo Rodrigo, freguesia à que pertence o mosteiro. Após a «reconquista» asturiana do Condado Portucalense e todas as terras até ao Baixo Mondego, a condessa Dª. Châmoa Rodrigues (ou Flâmula), sobrinha de Mumadona Dias, condessa do Condado Portucalense e bisneta de Vímara Peres, teve no seu poder uma série de castelos na linha da Beira Alta como Longroiva, Mêda, Marialva ou Trancoso, lá para o século X, como pontos avançados de uma fronteira que visava controlar o território e evitar uma invasão vinda do planalto que se estende pelas actuais terras de Salamanca e Riba Côa, roto apenas por serras como a Serra da Marofa e pelo curso dos rios, cada vez mais encaixados nas rochas graníticas, formando arribas mais profundas segundo avançamos até ao Douro. Obviamente, Santa Maria de Aguiar não fazia parte do reino asturiano primeiro e do reino de Leão depois.

A data da fundação do mosteiro não resulta fácil de desvendar. Para Alexandre Herculano, Pai da historiografia medieval portuguesa, ter-se-ia instalado uma comunidade de monges beneditinos em meados do século XII, quando o território de Riba Côa já estaria na posse do reino de Leão. Para o historiador Rui Pinto de Azevedo, influenciado talvez pela retórica nacionalista da época, o mosteiro teria sido de fundação portuguesa e não leonesa, mais concretamente pelo rei D. Afonso Henriques, segundo o seu artigo de 1962. Seria na década de 1170 quando o convento abraçaria a ordem cisterciense dando lugar à construção do mosteiro que vemos hoje e que tanta atenção prestava à água como elemento básico da vida em comunidade aproveitando a proximidade da ribeira de Aguiar e as canalizações construídas para o efeito. Os edifícios que restam hoje em dia restam a igreja que pretendia ser ainda maior mas que afinal foi mais modesta, talvez por falta de verbas, e a Sala do Capítulo, construídas durante os séculos XIII e XIV. Em tempos posteriores houve aditamentos, nomeadamente nos séculos XVI a XVIII para adaptar o convento às necessidades do momento. As invasões francesas aquando da Guerra Peninsular e a extinção dos conventos em 1834 deram como resultado um estado de abandono que só viria concluir na quarta década do século passado quando começaram os primeiros restauros efectuados com cargo ao Estado e que tiveram continuidade até hoje, com as campanhas do IPPAR.

O mosteiro não recuperou, no entanto, o seu antigo status de sede de diocese que passou à nova fundação, em 1161, de Ciudad Rodrigo, data em que foi restaurada. A nova mitra mirobrigense, no entanto, teria como território natural as terras do Oeste da actual província de Salamanca e as terras de Riba Côa. Importa referir ainda que a existência do mosteiro parece estar relacionada com a formação da Ordem de S. Julião do Pereiro, que alguns referem como instituída pelo conde D. Henrique, sendo mais provável a sua fundação em meados do século XII. Esta ordem militar de origem leonesa teria a sua expressão a partir de 1218 na Ordem de Alcântara, pelo facto desta localidade conquistada aos almóadas ter sido encomendada a esta ordem, sendo que desde essa data a ordem passa a ter a sua sede central lá, o que fará com que o nome original caia no esquecimento e S. Julião do Pereiro passe a constituir apenas uma comenda desta ordem militar.

O mosteiro teve na sua posse importantes propriedades em toda a região, principalmente nos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida e até na vizinha província de Salamanca, designadamente a aldeia da Bouça (La Bouza), que lhe pertenceu até à sua dissolução em 1834. Pode dizer-se que foi o poder feudal de tipo religioso mais importante nas terras de Riba Côa. O reino de Leão dominou estas terras até 1295, quando o rei D. Dinis, aproveitando as lutas internas na coroa castelhana (Leão e Castela uniram-se em 1230, mas cada reino manteve no início as suas particularidades), ocupou esta região e conseguiu que fosse reconhecida para Portugal no Tratado de Alcanices de 1297. Isso não significou a sua decadência; antes pelo contrário: quando muitos mosteiros começam a entrar em declínio a causa do fim das doações piedosas da monarquia e da nobreza, Santa Maria de Aguiar consegue manter o seu domínio, se bem a sua posição raiana vai fazer que uma certa decadência comece a materializar-se já em meados do século XV, devido às contínuas guerras entre Portugal e Castela, que o convertiam em ponto sensível na fronteira. Do ponto de vista eclesiástico, o convento manteve-se na diocese de Ciudad Rodrigo até à reforma de 1403, que redefiniu os limites diocesanos evitando a presença de dioceses estrangeiras em território português. Daí que transitasse para a diocese de Lamego.

A visita do mosteiro é altamente recomendada pelo seu valor artístico e arquitectónico, para além da beleza da paisagem envolvente. Até porque lá mesmo temos um lugar óptimo para ficar, se quisermos optar por um lugar sossegado e longe da civilização, de retiro quase espiritual (expressão que vem mesmo a calhar) na Hospedaria. O mosteiro pode ser um ponto de partida para visitar a região com o seu património arquitectónico e cultural como o castelo de Almofala, a própria aldeia de Castelo Rodrigo, que faz parte das chamadas «Aldeias Históricas de Portugal», antiga sede do concelho até ao século XIX, Figueira de Castelo Rodrigo, a Serra de Marofa, da qual podemos contemplar umas vistas até aonde alcança a vista para as terras de Riba Côa e a peneplanície de Salamanca e a Cordilheira Central (Penha da França e Serras de Gata e Malcata) ou o Castelo de Castelo Melhor, aldeia onde também podemos visitar o Museu e as Gravuras Rupestres do Vale do Côa, Património Mundial. Um bocadinho mais longe poderemos visitar Barca d'Alva, com belas vistas do Alto da Sapinha, lugar em que é possível ver as amendoeiras em flor, precisamente no início do mês de Fevereiro e o ponto em que o rio Águeda desagua no Douro e este passa a ser inteiramente um rio português. Se ainda tivermos vontade, é possível dar um pulinho até Freixo-de-Espada-à-Cinta e ver o Penedo Durão, de belas vistas, neste troço do Parque Nacional do Douro Internacional; ou para sul, ver a vila abaluartada de Almeida ou Ciudad Rodrigo, que com Almeida e S. Felix dos Galegos faz parte das Rotas dos Castelos da Raia. Definitivamente, um roteiro altamente apetitoso que dá para um bom fim-de-semana aliciante em que perder-se nestes belos recantos no nosso país ou do vizinho.

 Foto 1. Mosteiro de Santa Maria de Aguiar visto de Castelo Rodrigo.
 Foto 2. Vista geral da igreja do mosteiro.
 Fotos 3. Interior do claustro do mosteiro.
 Foto 4. Entrada lateral Sul.
 Foto 5. Lateral nascente da igreja (cabeceira da igreja).
 Foto 6. Mísulas românicas da igreja com motivos diversos.
Foto 7. Outra vista da igreja.
Foto 8. Dependências do mosteiro (nascente).
Foto 9. Dependências do mosteiro (poente), actual hospedaria.
Foto 10. Castelo Rodrigo visto do mosteiro.

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Aproveito a ocasião para dizer que mudei a fotografia do fundo. Neste caso, trata-se de uma vista a partir do miradouro do Alto da Sapinha, mencionado no texto, na confluência do rio Águeda com o Douro em Barca d'Alva, aldeia que actualmente tem cais ou embarcadouro de cruzeiros pelo rio Douro e onde podemos apreciar a famosa ponte internacional da antiga ferrovia (já ferrugenta) e a decadência de uma gare que foi muito movimentada até ao encerramento da linha em 1988, após a linha espanhola até Salamanca ter feito o mesmo em 1985.