terça-feira, 20 de março de 2012

Fronteiras: Sobral da Adiça/Rosal de la Frontera-II (more funny borders!)

Já tínhamos falado, num dos primeiros 'posts' do blogue, da fronteira entre a aldeia e freguesia de Sobral da Adiça (c. de Moura) y Rosal de la Frontera. Já se passou algum tempo e as coisas mudaram um bocado, o que permitiu estabelecer melhor onde está situado o limite fronteiriço no ponto da fronteira na estrada que liga as duas localidades. 

Pode-se dizer que é uma fronteira engraçada porque fica mesmo no meio de um ilhéu direccional da estrada. Já imaginaram alguma vez? Eu não, mas como já estou acostumado a ver coisas caricatas com isto das fronteiras, não fiquei surpreendido. Por isso não podia deixar de fazer uma referência a isto para deleite dos meus leitores. Another funny border!

Foto 1. Marco fronteiriço visto para o lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço visto para o lado da Andaluzia, Espanha.
Foto 3. Estrada para Sobral da Adiça. A planície alentejana inicia-se depois de serpentear alguns quilómetros pela Serra da Adiça. O limite fronteiriço segue pela margem esquerda do caminho de terra batida que se observa à esquerda da estrada.
Foto 4. Limite fronteiriço que segue pela estrada de terra batida, pelos cumes da Serra da Adiça.
Foto 5. Primeira herdade andaluza (nada a ver com as nossas herdades do Alentejo), vista do ponto fronteiriço.
Foto 6. Estrada para Rosal de la Frontera e vistas da antiga alfândega? espanhola.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Curiosidades fronteiriças: Fronteira nos Degolados (c. de Campo Maior)

As fronteiras têm a particularidade de que podem aparecer em qualquer lado, mesmo naqueles lugares menos insuspeitos. É o caso da linha de fronteira que decorre a apenas uns metros da estrada local que liga a aldeia e freguesia de Campo Maior de Nossa Senhora de Graça dos Degolados com a povoação de Ouguela.

A um pulo, pelo caminho de terra batida, como se pode apreciar nas fotografias, a linha de fronteira surge no meio de um cúmulo de vedações de arame farpado que a  delimitam, sendo que os marcos fronteiriços seguem a linha das vedações junto do caminho rural que terá a sua continuidade até à barragem do Abrilongo, uma das ribeiras que constituem um dos afluentes do rio Xévora.

Do lado de Espanha, no município de Alburquerque, contempla-se uma bela paisagem de montado que é ainda uma reserva de caça como indica o sinal em espanhol. Do lado português a zona de caça é também marcada pelo sinal correspondente em português. Refira-se ainda o facto de o lado espanhol apresentar o nome do dono com um sinal de fundo verde com o seu último nome: «Gragera» que é, aliás, um apelido muito típico da Extremadura espanhola.

O local resulta especialmente indicado para um agradável passeio pelo campo, no fim da tarde, enquanto se desfrutam de belas vistas da planície, convidativas ao sossego e à serenidade.

Foto 1. Caminho de terra batida do limite fronteiriço até à estrada pavimentada.
Foto 2. Caminho rural visto do limite fronteiriço. À direita ficam os marcos fronteiriços que delimitam a fronteira espanhola.
Foto 3. Ponto de encontro das reservas de caça espanhola e portuguesa.
Foto 4. Linha de vedação que delimita a fronteira campo através, no meio do montado.
Foto 5. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 6. Vista da planície do Alentejo em direcção à aldeia dos Degolados.



Mapa 1. Mapa de situação.


Mapa 2. Mapa específico.

P.S.: Damos as boas-vindas a um novo membro da Rede Social Google, NEZOCA. Esperamos que continue a gostar do blogue!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Curiosidades fronteiriças: Quinta do Pão de Trigo (Rabaça, f. de S. Julião, c. de Portalegre)

As fronteiras têm essas curiosidades que não por menos conhecidas, deixam de surpreender. No concelho de Portalegre, nos limites entre as freguesias de São Julião e Alegrete, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, deparamo-nos com uma quintinha chamada de Pão de Trigo. A quinta apresenta a particularidade de estar situada na mesma linha de fronteira e a limitar com outras vizinhas, já do outro lado da fronteira, mas com o mesmo nome e mesmas características formais.

O acesso ao local faz-se pela estrada municipal EM1044 de São Julião até Rabaça e daí na direcção de Soverete. Após passar a ponte do rio Xévora, a estrada começa a sua subida contínua por entre uma série de lombas nas que domina bem o matagal, bem uma floresta de eucaliptos. A particularidade desta parte da estrada é o facto de, na sua parte final, antes da curva que faz com que mude a sua direcção de Sul para Oeste, é que é possível ver daí a maior parte da planície formada pelo vale do rio Xévora no município de La Codosera, já na Extremadura espanhola. A linha de fronteira corre praticamente paralela à estrada, sendo que na curva antes descrita, a Raia fica a apenas cinco metros da estrada. 

Se na Rabaça a altitude média estava situada entre os 390 e os 420 metros, cá estamos situados a mais de 510 m., com vistas para a pequena serra na que está situado o monte Nasce Água, a 649 m. de altitude, separado da Serra de Bastos pela ribeira de Soverete, afluente do rio Xévora, que fica para além da quinta do Pão de Trigo. No meio desta serra surge um pequeno vale que terá continuidade, já em terras extremenhas, na aldeia de Bacoco, aldeia formada por várias casas e herdades espalhadas pela planície. Importa salientar que a tradição alentejana nesta região raiana é forte, pelos mesmos motivos que os das aldeias vizinhas do Marco, Tojeira ou Rabaça: a colonização portuguesa do último quartel do século XIX.

São estas terras terras de olival, de videiras e de montado, com grande importância da pecuária e a fronteira não parece mais do que um acidente numas terras que parecem reivindicar a sua unidade. Mas que lá está, está. A quintinha é uma bela casa alentejana com uma albufeira com açude e belos campos de videiras e olival. O simpático dono da casa indicou-nos a posição dos marcos fronteiriços, pelo que ficamos a saber que existiam três: um marco maior e outro mais pequeno, no meio de um olival, com a vizinha casa espanhola do mesmo nome ao lado, sendo que o terceiro ficava no meio da floresta no início da curva indicada. E com esse fim fomos dar um aprazível passeio no fim da tarde, acompanhados dos cães da quinta com o intuito de conhecer estes mais isolados recantos raianos e poder mostrá-los aos nossos leitores. Espero que gostem!

Foto 1. Vista geral da quinta do Pão de Trigo.
Foto 2. Vista da floresta e do limite fronteiriço. O casebre que fica a meia encosta marca a fronteira. Para além das árvores fica a quinta do Pão de Trigo espanhola.
Foto 3. Marco fronteiriço pequeno.
Foto 4. Vista do olival transfronteiriço e da planície do rio Xévora com a Serra da Calera ao fundo.
Foto 5. Limite fronteiriço visto do lado de Portugal com a primeira casa do Pão de Trigo de estilo alentejano que pertence à aldeia de Bacoco, na Extremadura espanhola.
Foto 6. Quinta do Pão de Trigo portuguesa vista do limite fronteiriço.
Foto 7. Marco fronteiriço grande no meio do olival.
Foto 8. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha com a quinta do Pão de Trigo portuguesa ao fundo.
Foto 9. Marco fronteiriço visto do lado português.
Foto 10. Olival transfronteiriço.
Foto 11. Vista da quinta do Pão de Trigo espanhola, em estilo alentejano.
Foto 12. Marco fronteiriço situado no início da curva da EM1044.
Foto 13. Paisagem vista da EM1044 ao lado do limite fronteiriço.
Foto 14. Vista das duas Rabaças do limite fronteiriço: Rabaça (f. de São Julião) à esquerda e a Rabaça espanhola (La Rabaza) à direita.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fronteiras: A fronteira no Guadiana (Monsaraz/Ribeira de Cuncos)

Um dos lugares mais aprazíveis para passar o final da tarde nos arredores da vila de Monsaraz e poder contemplar as terras raianas é o ancoradouro ou embarcadouro de Monsaraz. Isto porque permite observar, mesmo que seja de modo panorâmico, espaços que de outra forma seriam impossíveis de serem apreciados pela sua dificuldade no acesso. O embarcadouro é acessível a partir da estrada N514 vindo, quer da aldeia do Telheiro, quer de Monsaraz. Na pequena aldeia do Ferragudo há uma indicação para o Convento da Orada numa rotunda. É essa a direcção que deve tomar-se para chegar até este ponto. Após passar algumas herdades, a beleza indescritível do Guadiana e do Grande Lago de Alqueva é uma realidade ao chegarmos a uma pequena área de lazer onde não falta o típico café, um parque infantil e o embarcadouro com as docas flutuantes para a chegada e amarre dos barcos que passeiam pelo rio.

O espaço fica exactamente no ponto de confluência da Ribeira de Azevel, na margem direita do Guadiana, e da Ribeira de Cuncos, na margem esquerda. A Ribeira de Cuncos, apesar de não passar de um riacho, tem especial relevância na delimitação da fronteira. O próprio rio serve de fronteira nos últimos quilómetros entre Portugal e Espanha antes de desaguar no Guadiana pela margem esquerda. A partir do ponto em que o riacho é totalmente espanhol, uma linha de fronteira quase recta parte a planície que separa o Alentejo da Extremadura espanhola até à fronteira de São Leonardo, que comunica a vila de Mourão com a vizinha extremenha de Villanueva del Fresno pela N256-1. 

Mas não só. A Ribeira de Cuncos foi designada como limite a partir do qual continuariam os trabalhos de delimitação da fronteira com o Tratado de Limites de 1927. Lembre-se o facto de que o Tratado de Limites de Lisboa de 1864 tinha dado lugar a uma série de trabalhos de delimitação da fronteira que ficaram interrompidos na foz do Caia, na confluência deste rio com o Guadiana a causa da disputa pelo território de Olivença. O não reconhecimento da soberania espanhola sobre este território fez com que do Caia até à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António não houvesse nenhuma delimitação aceite pelos dois estados. Para ultrapassar isto, ficou decidido que a Ribeira de Cuncos seria o ponto em que os trabalhos recomeçariam, facto que permitiu finalizar a delimitação da fronteira Sul. Restam ainda cem marcos fronteiriços correspondentes ao espaço entre a foz do Caia e este ponto, mas não é de esperar que essa situação se resolva em breve. Para complicar mais a situação, o acordo internacional referido às águas dos principais rios ibéricos, segundo foi assinado no Tratado de Águas de 1967, dá a Portugal a posse das águas de ambas as margens do Guadiana entre o Caia e a Ribeira de Cuncos, em vez de estar delimitado pelo ponto médio existente em cada rio como aconteceu com os outros rios como o Minho, o Douro ou o Tejo na sua parte internacional. Esta solução permitiu a Espanha chegar a um acordo sem reconhecer a reclamação portuguesa de Olivença e Portugal mostrou assim que também não renunciava a este território, o que não deixou, no entanto, de ocasionar alguns atritos, designadamente na Ponte da Ajuda ou os relacionados com a navegabilidade do Guadiana que serão oportunamente tratados em 'posts' posteriores.

De qualquer forma, fora de disputas políticas, o passeio vale mesmo a pena, pela paisagem envolvente e pela beleza intrínseca do lugar. Para além de Monsaraz, visita óbvia, vale a pena ver o Convento da Orada, um convento do século XVIII construído no lugar em que D. Nuno Álvares Pereira terá rezado antes de várias batalhas contra Castela, ou o Cromeleque de Xarez, único monumento transferido para outro local aquando da construção da barragem de Alqueva.  E para quem quiser, é possível dar passeios pelo Grande Lago em barco, quer em roteiros estabelecidos por empresas do lugar com duração de 1 ou 2 horas com possibilidade de almoço incluído, quer por intermédio do aluguer de embarcações para as quais não é preciso experiência nenhuma com uma duração de até 7 dias, no «resort» da Amieira Marina. Pena é, neste Inverno de 2012, a situação de seca extrema que temos vindo a padecer pela falta de chuvas nestes últimos dois meses e que está a afectar já à agricultura da região.


Foto 1. Foz da Ribeira de Cuncos vista do embarcadouro de Monsaraz. As linhas vermelhas indicam a fronteira delimitada.
Foto 2. Mesma foto que a foto 1, mas sem marcas.
Foto 3. Monte de Domingo Lopes (c. de Mourão), mesmo no limite fronteiriço.
Foto 4. Vista da planície e do Grande Lago de Alqueva entre os concelhos de Reguengos e Mourão. Advirtam-se os efeitos da seca.
 Foto 5. Vista do embarcadouro de Monsaraz ao pôr-do-sol.
Foto 6. Viaduto do Guadiana (N256) e Grande Lago vistos do embarcadouro de Monsaraz.
Foto 7. Área de lazer do embarcadouro.
Foto 8. Convento da Orada (vista da fachada).
Foto 9. Convento da Orada visto do cromeleque de Xarez.
Foto 10. Cromeleque de Xarez (vista geral). Mais informações aqui.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Curiosidades fronteiriças: Casa de Bastos (Alto dos Três Termos)

A Raia tem essas coisas que não por serem realmente curiosas, deixam menos de surpreender. É o caso de uma herdade situada na mesma linha de fronteira, perto do Alto dos Três Termos. Este alto é realmente uma pequena lomba não muito elevada (521 m.) em que confluem os termos dos concelhos de Arronches e Portalegre e o município da Extremadura espanhola de La Codosera. 

A herdade, conhecida como Casa de Bastos, está situada a pouco mais de 480 m. de altitude e a uns 2 km. da aldeia da Tojeira, que pertence ao município de La Codosera e da qual já falamos neste blogue, e a uns 3 km. da aldeia de Besteiros, situada na freguesia de Alegrete, no concelho de Portalegre, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede. Lá perto fica ainda o Monte de Parra, na freguesia de Mosteiros, no concelho de Arronches e que está unida à Tojeira por uma estrada local que atravessa a Ribeira de Abrilongo.

A fronteira está delimitada por uma série de caminhos rurais de terra batida e a herdade fica no meio do pequeno vale situado entre o Alto dos Três Termos e a Serra de Bastos, alinhamento montanhoso que segue a linha de fronteira e que atinge os 600 m. de altitude. O acesso pode fazer-se a partir da estrada que liga a Tojeira com a aldeia vizinha de Bacoco ou pelo caminho de terra batida que de Besteiros liga ao limite fronteiriço. A região é na realidade uma bela floresta na que domina o sobro e o azinho e na que são patentes umas características climatéricas próprias de uma maior humidade no território, talvez pela proximidade da Serra de S. Mamede, que daria lugar a uma maior abundância de precipitações. 

A herdade é, na realidade, um monte alentejano típico, apesar de situado já em Espanha. Isso não deve surpreender-nos porque não será senão um resultado da segunda vaga migratória de população portuguesa para os territórios fronteiriços vizinhos. Se já houve uma primeira vaga no século XVIII na região circundante de Valência de Alcântara, esta segunda vaga teve lugar no último quartel do século XIX. Nisso teve muito que ver o Tratado de Limites de 1864 que definiu os limites fronteiriços nos trabalhos que decorreram até 1868. Até esse momento eram muito frequentes as chamadas «contendas», territórios pouco definidos, em terra de ninguém, que costumavam ser aproveitados como espaços para a exploração pecuária pelos camponeses dos municípios de um e do outro lado da fronteira como foi o caso da Contenda de Arronches. Obviamente, essas terras, pela sua indefinição jurídica, costumavam ficar desertas, isto é, não existia um povoamento estável de relevância. A delimitação da fronteira clarificou muito a situação do ponto de vista jurídico, o que permitiu o aparecimento de pequenas aldeias que foram povoadas por portugueses dos concelhos vizinhos no que hoje é o município de La Codosera. Daí que os nomes sejam claramente portugueses: Marco, Tojeira, Bacoco ou Rabaça são bons exemplos disso. A língua portuguesa é presentemente um facto, até porque a maior parte dos seus habitantes não romperam o cordão umbilical com a pátria e há até quem conserve a nacionalidade portuguesa ou mesmo só tenha esta.

Daí que, mesmo já em terras espanholas, não nos seja estranho o território, inclusive quando o casario apresente, por via de mimetização, alguns elementos de mistura próprios da tradição da Extremadura espanhola como podem ser os gradeamentos nas janelas. Não podemos esquecer que a Raia do Alentejo com a Extremadura espanhola é das que menos diferenças apresenta do ponto de vista da paisagem porque ambas as duas regiões caracterizam-se por uma estrutura da propriedade em que domina a grande propriedade latifundiária e a paisagem de montado e de searas como formas tradicionais de exploração agrária e pecuária.

Fica, pois, mais uma amostra das curiosidades que podemos encontrar na Raia num simples passeio de tarde por estes recantos tão pouco conhecidos.

Foto 1. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
 Foto 2. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
 Foto 3. Caminho fronteiriço em que a fronteira discorre pela vedação de arame farpado.
 Foto 4. Herdade de Casa de Bastos e linha de fronteira (os cães não ligam nenhuma a isso!!!)
 Foto 5. Caminho fronteiro na direcção do Alto dos Três Termos.
Foto 6. Floresta de azinho e sobro do lado português, no termo de Besteiros, freguesia de Alegrete.



Mapa 1. Mapa de situação.


Mapa 2. Mapa específico.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Fortalezas da Raia: Castelo de Terena (Alandroal)

O Alentejo é uma região com um património incrível. Acho que isso fica fora de toda dúvida e é consensual. Praticamente qualquer localidade que teve alguma importância histórica apresenta um património arquitectónico singular. Por isso o Alentejo é uma das regiões nas que o viajante pode perder-se numa jornada prazerosa na que é possível conjugar uma boa gastronomia, belas paisagens e aldeias limpas e caiadas e um património digno de se ver.

No Alentejo Central é o caso do concelho do Alandroal. Talvez por ter ficado no meio entre Reguengos de Monsaraz e Vila Viçosa/Borba, soube manter melhor a tradição alentejana e as suas aldeias não foram tão afectadas pela modernização que descaracterizou grande parte do nosso país. Este concelho é rico em património: é o concelho dos três castelos, dos quais já falamos do castelo de Juromenha, à beira do Guadiana. Mas não só. Para além dos castelos do Alandroal e da Terena, do qual vamos falar, existem numerosas antas, cruzeiros e azenhas, algumas das quais, infelizmente, já submersas no Grande Lago após o encerramento das comportas da barragem de Alqueva.

O Castelo da Terena é singular pelo facto de não estar muito modificado em relação à sua factura original, que aproveitou um pequeno outeiro, do qual é possível contemplar uma ampla paisagem, dando lugar a um castelo de tipo pentagonal que data do último terço do século XIII. A localidade terá recebido foral em 1262 quando o cavaleiro-régio Gil Martins e sua esposa Maria João lho outorgaram. Ficou ainda famosa pela sua romaria na capela de Nossa Senhora da Boa Nova, celebrada no Domingo de Ressurreição e na Segunda de Pascoela, já nesse século porque é mencionada pelo rei sábio, Afonso X de Castela, nas Cantigas de Santa Maria. O Castelo formava parte da linha defensiva do Guadiana à qual pertenciam ainda os castelos de Elvas, Juromenha e Alandroal. De facto, já contamos com notícias, relativamente ao mesmo, da existência do castelo e da barbacã em 1380. Com a crise de 1383-1385, o rei D. João I doa o território à Ordem de Avis, o que deu lugar a uma ampla obra de construção. Já no século XV e XVI beneficiou de obras de ampliação, incluindo a Torre de Menagem, com o alcaide-mor Nuno Martins da Silveira, a partir de 1482, na qual terão participado os arquitectos Diogo e Francisco de Arruda, famosos, entre outras obras, pelo Aqueduto da Amoreira de Elvas. Contamos ainda com os desenhos feitos por Duarte d'Armas em 1509 no seu Livro das Fortalezas.

No entanto, o castelo perdeu importância a partir da Guerra da Restauração, facto que talvez explique a breve ocupação castelhana em 1652, já que não contamos com as clássicas fortificações abaluartadas que definem sobretudo a cidade de Elvas e os fortes da Graça e de Santa Luzia e ainda a fortaleza de Juromenha e de Olivença. Terá sido objecto de algumas obras de restauro, designadamente a chamada Porta das Sortidas, chamando a atenção o facto de estar de costas viradas para Espanha, o potencial inimigo. O terramoto de 1755 veio a fazer estragos no castelo não se tendo conhecimento de novas obras. A localidade, que era sede de concelho, abrangendo, para além da freguesia de São Pedro de Terena, as vizinhas de Capelins e Santiago Maior, perdeu o seu estatuto de capital de município quando este foi integrado no concelho do Alandroal em 1836, juntamente com o concelho extinto de Juromenha. Isso fez com que o castelo estivesse devotado à degradação até a quarta década do século XX em que começaram algumas obras de restauro que tiveram continuidade na década de oitenta.

A visita do castelo e da vila resulta altamente indicada para um passeio de domingo de Primavera, quando os campos ainda estão verdejantes e é possível ter uma vista da planície e outras amostras de património arquitectónico como os Antigos Paços do Concelho, o Pelourinho, a Torre do Relógio, o Santuário de Endovélico, a Igreja matriz de S. Pedro ou a Capela de Nossa Senhora da Boa Nova. Conta ainda com uma ponte e barragem no rio Lucefecit, de clara ressonância latina.


 Foto 1. Vista exterior da Porta das Sortidas.
Foto 2. Torre de Menagem vista do interior do castelo.
Foto 3. Torre de Menagem (vista exterior).
Foto 4. Porta das Sortidas com vistas para a planície.
Foto 5. Interior do castelo com vistas para a barragem de Lucefecit e a Serra d'Ossa (c. do Redondo) ao fundo.
 Foto 6. Vista do castelo (perspectiva).

 Foto 7. Interior do castelo e vista da barragem de Lucefecit.
 Foto 8. Torre de Menagem (ameias).
 Foto 9. Torre de Menagem vista para o exterior.
 Foto 10. Terena vista do castelo.
 Foto 11. Vista da planície para Leste, com a Serra da Lor (Olivença) ao fundo.
 Foto 12. Vista da planície para Sul.
Foto 13. Rua Direita vista ao sopé do castelo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.