segunda-feira, 2 de abril de 2012

Aldeias fronteiriças: Santo Aleixo da Restauração (c. de Moura)

No Baixo Alentejo, entre Safara e Barrancos, encontramos a que talvez seja a aldeia do Alentejo mais profundo: Santo Aleixo da Restauração, localidade e freguesia do concelho de Moura que está situada muito perto da linha de fronteira, entre a Serra da Adiça e a Contenda de Moura, um dos lugares mais desconhecidos do nosso país e com uma grande variedade de vegetação e actividade cinegética.

A aldeia já está documentada no século II a.C. com o nome de Totalica, que fazia referência aos metais lá explorados na época romana. Com este nome será designada a povoação no século X pelo geógrafo Al-Rāzī numa descrição do Al-Ándalus e parece que assim continuou até à sua conquista pelos portugueses pela Ordem do Hospital. Mas a sua fama virá com a Guerra da Restauração, facto que levará à Junta de Freguesia a pedir, em 1957, que fosse designada como Santo Aleixo da Restauração, para se distinguir de localidades com o mesmo nome. O facto é que, como consequência da sua situação fronteiriça, a aldeia vai sofrer vários sítios e pilhagens dos exércitos castelhanos em 1641 e 1644. Apesar da desvantagem numérica, os seus habitantes vão conseguir resistir heroicamente e causaram inúmeras baixas no exército invasor. O sítio de 6 de Outubro de 1641 vai ser o mais assinalável porque os castelhanos sitiaram a aldeia com 1 300 soldados e 200 cavaleiros contra apenas 100 soldados portugueses comandados pelo Capitão Martinho Carrasco Pimenta. Depois de repelir dez investidas, o exército castelhano viu-se na necessidade de se retirar vergonhosamente depois de ter 55 baixas contra duas portuguesas após umas três horas de confronto. No entanto, grande parte da aldeia sofreu saque e o incêndio de várias casas. A povoação sofrerá, para além destes dois sítios, um terceiro, já em 1704, no marco da Guerra de Sucessão Espanhola, que arruinará a aldeia.

A localidade apresenta traços característicos do Alentejo, com um domínio das actividades agro-pecuárias nas quais a grande propriedade latifundiária é dominante. A falta de perspectivas tem feito que a emigração tenha sido a saída habitual para fugir à pobreza e à falta de emprego, o que supôs uma queda demográfica de pouco mais de 3 000 habitantes em 1950, no seu máximo demográfico, para um cerca de 800 segundo o censo de 2011. As searas e a oliveira são as culturas mais representativas junto da exploração do gado bovino, ovino e suíno, por esta ordem, sendo que no gado suíno tem especial destaque o porco preto.

Do ponto de vista etnográfico, Santo Aleixo apresenta uma estranha mistura de elementos tipicamente alentejanos, que são os dominantes, com alguma influência espanhola nalguma das casas lá existentes como o uso de certo tipo de azulejos nas fachadas ou até gradeamentos nas janelas.  De facto, ao perguntarmos pela estrada para a Contenda de Moura, reparámos que alguns dos seus habitantes apresentavam uma fala um tanto espanholada, por falarem com vogais mais abertas. Mas o destaque vai para um traço muito próprio do Alentejo como são as suas chaminés, das quais Santo Aleixo tem belas amostras um pouco por toda a aldeia. A parte mais antiga, na qual está situada a Igreja Matriz, declarada Monumento Nacional, e datada no século XVII, fica no alto de um outeiro a partir do qual temos belas vistas da planície. Do outro lado da ribeira de Santo Aleixo, seca na maior parte do ano, fica outra parte da aldeia, mais recente, de ruas rectas que sobem até meia encosta das lombas vizinhas, entre um mar de oliveiras. A tradição alentejana está presente ainda no cantares alentejanos pelo facto de contar com três grupos corais numa aldeia com tão poucos habitantes.

No Largo da Restauração está situado um obelisco que rememora os sítios de 1641, 1644 e 1704 e resulta um lugar muito aprazível. Ao lado, a Igreja Matriz, com belas portas barrocas em mármore de tons rosáceos que contrastam com o branco puro do edifício. Pena é que, tendo sido visitada num domingo, estivesse tudo fechado, até os portões de entrada. Não ajuda isto muito ao desenvolvimento do turismo. Outro monumento a destacar é o Convento da Tomina, a vários km. da aldeia, situado na Contenda de Moura, perto da confluência do ribeiro de Pai Joannes com a ribeira de Murtigão, numa zona de difícil acesso. Trata-se de um convento fundado em 1686, infelizmente hoje degradado, em honra de Nossa Senhora das Necessidades, e que beneficiou de grandes obras como riquíssimos paramentos e decoração chinesa oferecida pelo rei D. Pedro II. No último fim-de-semana de Agosto tem lugar uma romaria de cinco dias, sendo um ponto de encontro de carácter transfronteiriço. É de salientar o facto de que se bem Santo Aleixo fica a uns 6 km. da fronteira e a 12 de Rosal de la Frontera, o Convento da Tomina está situado mais próximo da localidade de Aroche (Huelva). 

Outro ponto em foco é a própria Contenda de Moura. Como o seu nome indica, trata-se de um território no início pouco definido, já existente desde a conquista portuguesa do território e que pela sua indefinição acabará por ser alvo de uma Concordata em 1542 para o seu uso colectivo pelos habitantes do concelho de Moura e dos andaluzes de Encinasola e Aroche, ficando interdita a agricultura e a construção de casas. É por isso que o território passou a ser uma reserva cinegética de primeira ordem com abundante vegetação autóctone.  Pelo Tratado de Madrid de 1893 a fronteira da Contenda foi claramente delimitada sendo que com o Tratado de Limites de 1927 ficou inserida entre os marcos fronteiriços 992 e 1011. Hoje é um lugar ideal para caminhadas e para apreciar a natureza. 

A localidade pode ser um belo ponto de partida para explorar a região, contando ainda com belos exemplos de estabelecimentos de agro-turismo como a Herdade da Negrita, que nos remete para o prazer do «dolce far niente», enquanto desfrutamos de um belo serão ou simplesmente da contemplação da imensidade da planície. Sem dúvida, é uma região a descobrir!


Foto 1. Santo Aleixo da Restauração visto da ribeira do mesmo nome.
Foto 2. Vista da parte mais «moderna» da aldeia, na outra margem da ribeira de Santo Aleixo.
Foto 3. Outra vista da parte mais «moderna» da aldeia.
Foto 4. Chaminés alentejanas.
Foto 5. Obelisco do Largo da Restauração.
Foto 6. Rua da Igreja vista do Largo da Restauração.
Foto 7. Esplanada no Largo da Restauração com vistas à planície (restos do antigo fortim).
Foto 8. Largo da Restauração. Vista geral.
Foto 9. Casas alentejanas típicas com a planície ao fundo.
Foto 10. Porta barroca da Igreja Matriz.
Foto 11. Lateral sul da Igreja Matriz.
Foto 12. Fachada da Igreja Matriz e vista da aldeia.
 Foto 13. Vista geral de Santo Aleixo da Restauração pela estrada de Sobral da Adiça.
 Foto 14. Vista da povoação com a Contenda de Moura ao fundo.
Foto 15. Pôr-do-sol na planície perto da Herdade da Negrita com a Serra da Adiça ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Fronteiras: Sobral da Adiça/Rosal de la Frontera-III

A uns 2 km. da aldeia de Sobral da Adiça, quase no limite com o concelho de Serpa, separado pela Serra da Adiça da localidade do Ficalho, na que está situada a fronteira mais importante da região, contamos com outro ponto de passagem da fronteira pelo Vale de Grou para chegarmos até Rosal de la Frontera, na Andaluzia espanhola. Trata-se de uma fronteira local, com estradas em muito mau estado. De facto, na estrada N385 nem sequer existe um indicador que mostre que estamos perante um desvio que nos leva até ao limite fronteiriço. Até porque a estrada portuguesa é mesmo péssima, com um pavimento em muito mau estado e esburacada por momentos (atenção aos amortecedores!!!). Mas a estrada espanhola é ainda pior pois não estando esburacada, é uma estrada de cascalho sem pavimentar. De facto, o sinal de limitação da velocidade a 50 km/h parece uma piada de mau gosto a não ser que queiramos arriscar a ter amolgadelas no carro ou até mesmo partir os vidros indo a essa velocidade. Isso por não falar da poeira que iria cobrir o carro, pedindo-nos de imediato uma ida até uma estação de lavagem.

O mais notável neste aspecto é a paisagem. Uma paisagem de montado, designadamente de sobreiros, o que está a indicar uma maior humidade do clima, já que o sobreiro precisa de pelo menos 500 mm. de precipitação anual para ter umas condições óptimas de crescimento. Mas também uma paisagem de olival que cobre totalmente a Serra da Adiça para os lados que dão para a vila do Ficalho, fornecendo umas paisagens idílicas de paz e sossego. De facto, para além de uma ou outra herdade espalhada pelo campo, a vida selvagem tem todo o sentido neste lugar. Tivemos a oportunidade de ver perdizes a correr, assustadas as coitadinhas com o barulho do carro. O privilégio de ver os animais em liberdade não tem preço e nisso o Alentejo é um lugar de oportunidades nesse sentido, bem como a possibilidade de ver o céu estrelado enquanto o luar ilumina o montado. São, sem dúvida, momentos inesquecíveis para partilhar de forma romântica com a nossa cara-metade, abraçados os dois sentindo esse aconchego tão especial que só experimentamos com quem estamos apaixonados.

A fronteira é bastante curiosa porque está em parte delimitada por vedações de arame farpado salpicadas por vários marcos fronteiriços que mostram ao viajante avisado que estamos perante o limite fronteiriço entre dois estados. Como não podia ser de outra forma, essas vedações separam propriedades dedicadas à exploração da oliveira ou à pecuária, com especial importância do porco preto que, alimentado exclusivamente de bolotas, dá-nos a oportunidade de degustar essa iguaria sem igual que é o presunto de porco preto, também chamado de pata negra, que na vila de Barrancos atinge a sua máxima expressão e do lado da província andaluza de Huelva, no presunto de Jabugo, do qual é de salientar que uma parte importante dos porcos provêm do Baixo Alentejo, nos montados dos concelhos de Serpa e Moura, para dar saída à procura deste produto.

A região resulta indicada para visitar talvez algumas das aldeias mais autênticas do Baixo Alentejo, as que se situam na margem esquerda do Guadiana como Safara, Sobral da Adiça ou Santo Aleixo da Restauração, para além dos espaços naturais como a Contenda de Moura, cujo nome advém do facto de as fronteiras estarem mal definidas, o que deu lugar a conflitos entre um e outro lado pelos direitos de exploração e propriedade e que neste caso só finalizariam com o Tratado de Limites de 1927, quando se estabeleceram os marcos fronteiriços entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Do lado da Andaluzia é possível visitar Rosal de la Frontera, vila fronteiriça e comercial onde poderemos atestar o carro e tomar umas cañas (cerveja a pressão) com tapas oferecidas de graça nas tascas do lugar. É interessante ainda a vila de Aroche e a sua contenda, que limita com a contenda de Moura na Serra de Aroche, na qual poderemos ver os restos do castelo. 

Importa salientar o facto de que esta região foi conquistada por Portugal aos mouros na última etapa da «Reconquista» num intento de atingir o controlo da região de Sevilha de forma que Aracena e Aroche, as localidades mais importantes da região, estiveram na posse de Portugal até pelo menos 1253. De facto, este território esteve em disputa com Castela a causa da questão do Algarve, já que o «rei sábio», Afonso X de Castela, detinha o título de rei do Algarve. D. Afonso III, que casou em 1253 com D. Brites, filha deste rei e mãe do futuro rei D. Dinis, recebeu do seu pai um dote que incluiu, após a morte do rei castelhano, as vilas de Mourão, Serpa, Moura, Noudar e Niebla (Huelva). O Tratado de Badajoz de 1267, que fixou as fronteiras na margem do Guadiana, serviu para assegurar para Portugal o chamado «reino do Algarve», facto que explica por que os réis portugueses intitulavam-se réis de Portugal e do Algarve. Em troca, Portugal abandonava os territórios além Guadiana. No entanto, a sagacidade política de D. Dinis permitiu-lhe, em substituição de uns alegados direitos sobre Aracena e Aroche, recuperar as vilas de Mourão, Serpa, Moura e Noudar no Tratado de Alcanices de 1297, para além das localidades de Campo Maior, Ouguela e Olivença. Séculos mais tarde, a guerra da Restauração foi terrível na região a causa dos contínuos assaltos das tropas castelhanas e portuguesas nas aldeias fronteiriças. O contrabando substituiu os conflitos bélicos e hoje, após a aberturas das fronteiras fruto da adesão à UE, o território tenta encontrar o seu lugar na economia moderna entre o declínio das estruturas agrárias tradicionais e a necessidade de apostar pela qualidade e a inovação tecnológica no sector agro-alimentar.

Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço situado à Norte da estrada visto do lado de Portugal.
 Foto 3. O mesmo marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Segundo marco fronteiriço próximo ao anterior.
Foto 5. Linha de fronteira entre os marcos fronteiriços pela vedação de arame.
Foto 6. Marco fronteiriço situado a Sul da estrada, visto do lado de Portugal.
Foto 7. Linha de fronteira que vai pela vedação de arame.
Foto 8. Segundo marco fronteiriço a seguir ao anterior.
Foto 9. Linha de fronteira que segue a vedação de arame.
Foto 10. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 11. Linha de fronteira entre vedações.
Foto 12. Vale de Grou ao pôr-do-sol, com a Serra da Adiça à esquerda.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

P.S. O número de amigos que seguem este blogue pela rede social Google continua a aumentar com a recente incorporação de fernandopereirapinto, a quem damos as boas-vindas e esperamos que os motivos que o levaram a aderir perdurem no tempo, ganhando assim mais leitores assíduos deste blogue.

terça-feira, 20 de março de 2012

Fronteiras: Sobral da Adiça/Rosal de la Frontera-II (more funny borders!)

Já tínhamos falado, num dos primeiros 'posts' do blogue, da fronteira entre a aldeia e freguesia de Sobral da Adiça (c. de Moura) y Rosal de la Frontera. Já se passou algum tempo e as coisas mudaram um bocado, o que permitiu estabelecer melhor onde está situado o limite fronteiriço no ponto da fronteira na estrada que liga as duas localidades. 

Pode-se dizer que é uma fronteira engraçada porque fica mesmo no meio de um ilhéu direccional da estrada. Já imaginaram alguma vez? Eu não, mas como já estou acostumado a ver coisas caricatas com isto das fronteiras, não fiquei surpreendido. Por isso não podia deixar de fazer uma referência a isto para deleite dos meus leitores. Another funny border!

Foto 1. Marco fronteiriço visto para o lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço visto para o lado da Andaluzia, Espanha.
Foto 3. Estrada para Sobral da Adiça. A planície alentejana inicia-se depois de serpentear alguns quilómetros pela Serra da Adiça. O limite fronteiriço segue pela margem esquerda do caminho de terra batida que se observa à esquerda da estrada.
Foto 4. Limite fronteiriço que segue pela estrada de terra batida, pelos cumes da Serra da Adiça.
Foto 5. Primeira herdade andaluza (nada a ver com as nossas herdades do Alentejo), vista do ponto fronteiriço.
Foto 6. Estrada para Rosal de la Frontera e vistas da antiga alfândega? espanhola.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Curiosidades fronteiriças: Fronteira nos Degolados (c. de Campo Maior)

As fronteiras têm a particularidade de que podem aparecer em qualquer lado, mesmo naqueles lugares menos insuspeitos. É o caso da linha de fronteira que decorre a apenas uns metros da estrada local que liga a aldeia e freguesia de Campo Maior de Nossa Senhora de Graça dos Degolados com a povoação de Ouguela.

A um pulo, pelo caminho de terra batida, como se pode apreciar nas fotografias, a linha de fronteira surge no meio de um cúmulo de vedações de arame farpado que a  delimitam, sendo que os marcos fronteiriços seguem a linha das vedações junto do caminho rural que terá a sua continuidade até à barragem do Abrilongo, uma das ribeiras que constituem um dos afluentes do rio Xévora.

Do lado de Espanha, no município de Alburquerque, contempla-se uma bela paisagem de montado que é ainda uma reserva de caça como indica o sinal em espanhol. Do lado português a zona de caça é também marcada pelo sinal correspondente em português. Refira-se ainda o facto de o lado espanhol apresentar o nome do dono com um sinal de fundo verde com o seu último nome: «Gragera» que é, aliás, um apelido muito típico da Extremadura espanhola.

O local resulta especialmente indicado para um agradável passeio pelo campo, no fim da tarde, enquanto se desfrutam de belas vistas da planície, convidativas ao sossego e à serenidade.

Foto 1. Caminho de terra batida do limite fronteiriço até à estrada pavimentada.
Foto 2. Caminho rural visto do limite fronteiriço. À direita ficam os marcos fronteiriços que delimitam a fronteira espanhola.
Foto 3. Ponto de encontro das reservas de caça espanhola e portuguesa.
Foto 4. Linha de vedação que delimita a fronteira campo através, no meio do montado.
Foto 5. Marco fronteiriço visto do lado de Portugal.
Foto 6. Vista da planície do Alentejo em direcção à aldeia dos Degolados.



Mapa 1. Mapa de situação.


Mapa 2. Mapa específico.

P.S.: Damos as boas-vindas a um novo membro da Rede Social Google, NEZOCA. Esperamos que continue a gostar do blogue!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Curiosidades fronteiriças: Quinta do Pão de Trigo (Rabaça, f. de S. Julião, c. de Portalegre)

As fronteiras têm essas curiosidades que não por menos conhecidas, deixam de surpreender. No concelho de Portalegre, nos limites entre as freguesias de São Julião e Alegrete, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, deparamo-nos com uma quintinha chamada de Pão de Trigo. A quinta apresenta a particularidade de estar situada na mesma linha de fronteira e a limitar com outras vizinhas, já do outro lado da fronteira, mas com o mesmo nome e mesmas características formais.

O acesso ao local faz-se pela estrada municipal EM1044 de São Julião até Rabaça e daí na direcção de Soverete. Após passar a ponte do rio Xévora, a estrada começa a sua subida contínua por entre uma série de lombas nas que domina bem o matagal, bem uma floresta de eucaliptos. A particularidade desta parte da estrada é o facto de, na sua parte final, antes da curva que faz com que mude a sua direcção de Sul para Oeste, é que é possível ver daí a maior parte da planície formada pelo vale do rio Xévora no município de La Codosera, já na Extremadura espanhola. A linha de fronteira corre praticamente paralela à estrada, sendo que na curva antes descrita, a Raia fica a apenas cinco metros da estrada. 

Se na Rabaça a altitude média estava situada entre os 390 e os 420 metros, cá estamos situados a mais de 510 m., com vistas para a pequena serra na que está situado o monte Nasce Água, a 649 m. de altitude, separado da Serra de Bastos pela ribeira de Soverete, afluente do rio Xévora, que fica para além da quinta do Pão de Trigo. No meio desta serra surge um pequeno vale que terá continuidade, já em terras extremenhas, na aldeia de Bacoco, aldeia formada por várias casas e herdades espalhadas pela planície. Importa salientar que a tradição alentejana nesta região raiana é forte, pelos mesmos motivos que os das aldeias vizinhas do Marco, Tojeira ou Rabaça: a colonização portuguesa do último quartel do século XIX.

São estas terras terras de olival, de videiras e de montado, com grande importância da pecuária e a fronteira não parece mais do que um acidente numas terras que parecem reivindicar a sua unidade. Mas que lá está, está. A quintinha é uma bela casa alentejana com uma albufeira com açude e belos campos de videiras e olival. O simpático dono da casa indicou-nos a posição dos marcos fronteiriços, pelo que ficamos a saber que existiam três: um marco maior e outro mais pequeno, no meio de um olival, com a vizinha casa espanhola do mesmo nome ao lado, sendo que o terceiro ficava no meio da floresta no início da curva indicada. E com esse fim fomos dar um aprazível passeio no fim da tarde, acompanhados dos cães da quinta com o intuito de conhecer estes mais isolados recantos raianos e poder mostrá-los aos nossos leitores. Espero que gostem!

Foto 1. Vista geral da quinta do Pão de Trigo.
Foto 2. Vista da floresta e do limite fronteiriço. O casebre que fica a meia encosta marca a fronteira. Para além das árvores fica a quinta do Pão de Trigo espanhola.
Foto 3. Marco fronteiriço pequeno.
Foto 4. Vista do olival transfronteiriço e da planície do rio Xévora com a Serra da Calera ao fundo.
Foto 5. Limite fronteiriço visto do lado de Portugal com a primeira casa do Pão de Trigo de estilo alentejano que pertence à aldeia de Bacoco, na Extremadura espanhola.
Foto 6. Quinta do Pão de Trigo portuguesa vista do limite fronteiriço.
Foto 7. Marco fronteiriço grande no meio do olival.
Foto 8. Marco fronteiriço visto do lado de Espanha com a quinta do Pão de Trigo portuguesa ao fundo.
Foto 9. Marco fronteiriço visto do lado português.
Foto 10. Olival transfronteiriço.
Foto 11. Vista da quinta do Pão de Trigo espanhola, em estilo alentejano.
Foto 12. Marco fronteiriço situado no início da curva da EM1044.
Foto 13. Paisagem vista da EM1044 ao lado do limite fronteiriço.
Foto 14. Vista das duas Rabaças do limite fronteiriço: Rabaça (f. de São Julião) à esquerda e a Rabaça espanhola (La Rabaza) à direita.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fronteiras: A fronteira no Guadiana (Monsaraz/Ribeira de Cuncos)

Um dos lugares mais aprazíveis para passar o final da tarde nos arredores da vila de Monsaraz e poder contemplar as terras raianas é o ancoradouro ou embarcadouro de Monsaraz. Isto porque permite observar, mesmo que seja de modo panorâmico, espaços que de outra forma seriam impossíveis de serem apreciados pela sua dificuldade no acesso. O embarcadouro é acessível a partir da estrada N514 vindo, quer da aldeia do Telheiro, quer de Monsaraz. Na pequena aldeia do Ferragudo há uma indicação para o Convento da Orada numa rotunda. É essa a direcção que deve tomar-se para chegar até este ponto. Após passar algumas herdades, a beleza indescritível do Guadiana e do Grande Lago de Alqueva é uma realidade ao chegarmos a uma pequena área de lazer onde não falta o típico café, um parque infantil e o embarcadouro com as docas flutuantes para a chegada e amarre dos barcos que passeiam pelo rio.

O espaço fica exactamente no ponto de confluência da Ribeira de Azevel, na margem direita do Guadiana, e da Ribeira de Cuncos, na margem esquerda. A Ribeira de Cuncos, apesar de não passar de um riacho, tem especial relevância na delimitação da fronteira. O próprio rio serve de fronteira nos últimos quilómetros entre Portugal e Espanha antes de desaguar no Guadiana pela margem esquerda. A partir do ponto em que o riacho é totalmente espanhol, uma linha de fronteira quase recta parte a planície que separa o Alentejo da Extremadura espanhola até à fronteira de São Leonardo, que comunica a vila de Mourão com a vizinha extremenha de Villanueva del Fresno pela N256-1. 

Mas não só. A Ribeira de Cuncos foi designada como limite a partir do qual continuariam os trabalhos de delimitação da fronteira com o Tratado de Limites de 1927. Lembre-se o facto de que o Tratado de Limites de Lisboa de 1864 tinha dado lugar a uma série de trabalhos de delimitação da fronteira que ficaram interrompidos na foz do Caia, na confluência deste rio com o Guadiana a causa da disputa pelo território de Olivença. O não reconhecimento da soberania espanhola sobre este território fez com que do Caia até à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António não houvesse nenhuma delimitação aceite pelos dois estados. Para ultrapassar isto, ficou decidido que a Ribeira de Cuncos seria o ponto em que os trabalhos recomeçariam, facto que permitiu finalizar a delimitação da fronteira Sul. Restam ainda cem marcos fronteiriços correspondentes ao espaço entre a foz do Caia e este ponto, mas não é de esperar que essa situação se resolva em breve. Para complicar mais a situação, o acordo internacional referido às águas dos principais rios ibéricos, segundo foi assinado no Tratado de Águas de 1967, dá a Portugal a posse das águas de ambas as margens do Guadiana entre o Caia e a Ribeira de Cuncos, em vez de estar delimitado pelo ponto médio existente em cada rio como aconteceu com os outros rios como o Minho, o Douro ou o Tejo na sua parte internacional. Esta solução permitiu a Espanha chegar a um acordo sem reconhecer a reclamação portuguesa de Olivença e Portugal mostrou assim que também não renunciava a este território, o que não deixou, no entanto, de ocasionar alguns atritos, designadamente na Ponte da Ajuda ou os relacionados com a navegabilidade do Guadiana que serão oportunamente tratados em 'posts' posteriores.

De qualquer forma, fora de disputas políticas, o passeio vale mesmo a pena, pela paisagem envolvente e pela beleza intrínseca do lugar. Para além de Monsaraz, visita óbvia, vale a pena ver o Convento da Orada, um convento do século XVIII construído no lugar em que D. Nuno Álvares Pereira terá rezado antes de várias batalhas contra Castela, ou o Cromeleque de Xarez, único monumento transferido para outro local aquando da construção da barragem de Alqueva.  E para quem quiser, é possível dar passeios pelo Grande Lago em barco, quer em roteiros estabelecidos por empresas do lugar com duração de 1 ou 2 horas com possibilidade de almoço incluído, quer por intermédio do aluguer de embarcações para as quais não é preciso experiência nenhuma com uma duração de até 7 dias, no «resort» da Amieira Marina. Pena é, neste Inverno de 2012, a situação de seca extrema que temos vindo a padecer pela falta de chuvas nestes últimos dois meses e que está a afectar já à agricultura da região.


Foto 1. Foz da Ribeira de Cuncos vista do embarcadouro de Monsaraz. As linhas vermelhas indicam a fronteira delimitada.
Foto 2. Mesma foto que a foto 1, mas sem marcas.
Foto 3. Monte de Domingo Lopes (c. de Mourão), mesmo no limite fronteiriço.
Foto 4. Vista da planície e do Grande Lago de Alqueva entre os concelhos de Reguengos e Mourão. Advirtam-se os efeitos da seca.
 Foto 5. Vista do embarcadouro de Monsaraz ao pôr-do-sol.
Foto 6. Viaduto do Guadiana (N256) e Grande Lago vistos do embarcadouro de Monsaraz.
Foto 7. Área de lazer do embarcadouro.
Foto 8. Convento da Orada (vista da fachada).
Foto 9. Convento da Orada visto do cromeleque de Xarez.
Foto 10. Cromeleque de Xarez (vista geral). Mais informações aqui.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.