segunda-feira, 16 de abril de 2012

Curiosidades fronteiriças: Estrada Moimenta da Raia-Mofreita (c. de Vinhais)

As mini-férias de Páscoa serviram, para além de descontrair, para visitar lugares espectaculares, alguns deles relacionados com a nossa Raia. É por isso que quero partilhar convosco algumas das minhas experiências, pelo que iremos dar um pulo do Alentejo à Terra Fria Transmontana, nos mais profundos lugares do Parque Natural de Montesinho.

Por ser muito desconhecido, muitas pessoas, até mesmo da região, não sabem da existência da estrada municipal entre Moimenta da Raia e Mofreita, ambas as duas freguesias e aldeias do concelho de Vinhais. Limitada pela Serra da Coroa e a vizinha Serra do Marabón que separa a Galiza da província leonesa de Zamora, Moimenta da Raia está situada num relativamente amplo planalto que cai em declive suave, ficando a aldeia no seu extremo Sueste a algo menos de 900 m. de altitude, erguendo-se sobranceira, sobre o vale do rio Tuela, que forma um desfiladeiro com encostas muito íngremes. É por isso que os primeiros quilómetros da estrada apresentam uma descida continuada até atingirmos a ponte sobre o rio (chamada Ponte do Couço), já a menos de 750 m. formando um talvegue, entre rochas graníticas e xistosas, onde discorre, encaixado, o rio.

A beleza da paisagem envolvente é, simplesmente, espectacular. Devido à sua relativamente elevada altitude, as árvores não tinham quaisquer indícios de as flores começarem a desabrochar mostrando que já estamos na Primavera. De facto, pelas frescas temperaturas, dir-se-ia que em vez do mês de Abril estivéssemos ainda no Outono. Isto porque muitas das espécies vegetais da região pertencem a uma área de transição entre a região euro-siberiana e a região mediterrânica. A presença de espécies remanescentes mostra isso: árvores de folha caduca que mantêm a folha na rama até os novos rebentos começarem a crescer como é o carvalho negral. Daí que a paisagem mostrasse esse ar característico outonal. Além disso, belas amostras de líquenes a dar verdura às árvores davam um ar aprazível à par que misterioso ao ambiente. Da ponte, a fronteira ficava a apenas 750 a Leste, ponto em que o Tuela entra em Portugal após ter nascido na Serra Segundeira, no Parque Natural do Lago de Sanábria, no concelho portelego ou porteixo de Lubián e ter percorrido um estreito vale que dá lugar a uma pequena planície ribeirinha na vizinhança da aldeia de Hermisende, que esteve na posse do nosso país durante séculos, deixando profundas marcas na fala local, uma mistura de português transmontano e galego oriental.

A estrada volta a subir em forte pendente até atingirmos os 950 m., numa espécie de pequeno planalto que não é mais do que uma lomba que desce de forma relativamente suave para os lados de Mofreita, enquanto caem a prumo do lado de Hermisende. Estamos perante a denominada Serra da Escusaña que atinge os 1 147 m. de altitude no monte Escagalhos. No entanto, a estrada discorre entre os 950 e os 1 050 m. no meio de pequenas lombas. Há que dizer que o asfalto é recente e a sensação de solidão e de ir caminho de nenhures é quase absoluta, o que é de facto reconfortante neste nosso atribulado dia-a-dia quotidiano. É a partir do Alto da Parada que a estrada segue a linha de fronteira, com belas vistas para toda a região envolvente apartando-se unicamente do limite fronteiriço no Alto de Castrapeiro, em que um pequeno pico, Redaria (1 037 m.) obriga a estrada a afastar-se dele, se bem existe um pequeno caminho de terra batida e cascalho que que permite contorná-lo a norte, entrando brevemente em Espanha. Logo após o alto, voltamos ao limite fronteiriço por algumas centenas de metros até começarmos a descer suavemente para a aldeia de Mofreita entre alguma floresta, alguns campos cultivados, já perto da aldeia, e matagais de urze, tojos e giestas. O único que ensombra esta idílica e pastoril paisagem é, infelizmente, a marca de incêndios recentes que tanto tem assolado o país, fruto de um abandono absoluto do campo e uma má política de conservação florestal derivada do primeiro problema. Certamente o desleixo para os nossos bosques como consequência do abandono da actividade agro-pecuária num interior do país cada vez mais abandonado, tem muito a culpa disso. Aí fica a denúncia...

Foto 1. Rio Tuela visto da Ponte do Couço na direcção da Moimenta.
Foto 2. Rio Tuela visto da Ponte do Couço vindo de Hermisende, com a fronteira a menos de 750 m.
Foto 3. Floresta de árvores com líquenes situada no vale do Tuela.
Foto 4. Paisagem «outonal» na Primavera, na Ponte do Couço.
Foto 5. Aldeia da Moimenta da Raia vista da subida da Ponte do Couço em direcção a Mofreita.
Foto 6. Primeiro marco fronteiriço visto da estrada após o Alto da Parada.
Foto 7. Segundo marco fronteiriço.
Foto 8. Mesmo marco fronteiriço com vista da estrada e ao fundo a Serra do Marabón, entre a Galiza e a província de Zamora.
Foto 9. Moimenta da Raia, o planalto e ao fundo a Serra da Esculqueira (Esculqueira (c. de A Mezquita-GZ/ Pinheiro Velho (c. de Vinhais-P)), vistos da estrada.
Foto 10. Serra da Coroa e aldeia de Montouto (c. de Vinhais) vistos da estrada. Reparem nos estragos dos incêndios.
Foto 11. Vista do vale do Tuela no concelho de Vinhais. Em primeiro plano, o Lombo do Seixo.
Foto 12. Terceiro marco fronteiriço.
Foto 13. Quarto marco fronteiriço.
Foto 14. Marco fronteiriço anterior com vistas para o vale do Tuela nos concelhos de Lubián e Hermisende com a Serra do Marabón à esquerda, a Serra Segundeira ao fundo e a Serra da Gamoeda à direita.
Foto 15. Pequena planície do rio Tuela entre S. Cibrão de Hermisende (à esquerda) e Hermisende (à direita).
Foto 16. Aldeia de Hermisende vista da linha de fronteira.
Foto 17. Quinto marco fronteiriço.
Foto 18. Sexto e último marco fronteiriço à beira da estrada.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Curiosidades fronteiriças: Pulo do Lobo (c. de Mértola)

Embora não seja propriamente um local estritamente fronteiriço, vale a pena dar destaque a esta maravilha ímpar da Natureza, até porque pertence a um município fronteiriço como é o concelho de Mértola e certamente não fica muito longe em linha recta da fronteira. Estamos a falar do famoso à par que desconhecido Pulo do Lobo, situado em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana.

É que o rio Guadiana é, sem dúvida, o rio mais surpreendente dos grandes rios ibéricos. Surpreendente no sentido das esquisitices que apresenta no seu curso. Ora vejamos: nasce nas Lagoas de Ruidera, um conjunto de lagoas situadas na região de La Mancha, entre as províncias de Albacete e Ciudad Real. E pouco depois, primeira surpresa: o rio some e desaparece! Daí, perto do Parque Nacional de las Tablas de Daimiel, volta a aparecer nos chamados Ojos (olhos) del Guadiana. O rio é segue o seu curso abandonando progressivamente a região para entrar na Estremadura espanhola onde é represado em sucessivas barragens antes de vaguear lentamente pela planície agrária mais importante da região conhecida como Vegas del Guadiana, de agricultura intensiva (tomate, arroz, pomares, etc.) sendo cada vez mais largo graças aos aportes dos seus afluentes até chegar à cidade de Badajoz. A partir da confluência do Caia, o rio começa a ficar encaixado durante vários quilómetros passando pela histórica Ponte da Ajuda, que ligava Elvas com Olivença sendo que desde esse ponto começa a estender-se novamente a causa da barragem de Alqueva, formando o Grande Lago, com um comprimento de mais de 100 km. Após a barragem, passa pelos arredores de Moura, com menos caudal, mas ainda com uma largura importante. Já no concelho de Serpa, limitando com o município de Beja, o rio começa a estreitar-se de novo, encaixado entre lombas não muito altas mas sim íngremes e frequentemente rochosas. E eis aqui que se produz o milagre: de repente, sem que possamos adivinhar, o rio fica reduzido a um curso muito reduzido formando uma grande cascata, com quedas múltiplas de água, até a queda final, em que cai mais de 20 m., formando um lago de águas serenas.

Esta queda d'água ou cascata é conhecida pelo nome de Pulo do Lobo, pois acredita-se que devido ao facto de as margens serem tão estreitas e apertadas, um lobo  em caça era capaz de transpor as duas margens de um salto. Não sei se isso é lenda o realidade, mas a verdade é que era capaz de ser assim nos tempos em que o lobo ainda habitava a região, antes da grande regressão das populações do lobo do último século. As águas correm turbulentas num mar de espuma, no meio de rochas de xisto que adoptam estranhas formas que denotam dobramentos intensos na era paleozóica, arrasadas na era mesozóica e depois desbastadas pela erosão no Terciário. Na realidade, o que vemos hoje é um vale rochoso que não é mais do que o antigo curso do rio que, pela erosão, ficou encaixado entre as rochas. Resulta interessante ainda o facto de entre o xisto estarem intercaladas várias camadas de cascalho e areia nas que importa salientar a presença de inúmeros fósseis de bivalves que não se devem às amêijoas utilizadas num arroz de marisco (ou de uma paelha à espanhola!), mas sim, a restos da fauna existente. Evidentemente não estamos perante a planície que o Alentejo evoca porque esta deu lugar a uma paisagem de lombas não muito elevadas, mas que rompem a monotonia. As searas e o montado é substituído progressivamente por um matagal próprio da região termomediterrânica, de clima mais quente e que acusa características mais meridionais, no qual o destaque vai para as estevas, que florescem na Primavera e impregnam com o seu odor o ambiente.

O acesso à cascata era até há bem pouco bem complicado. Na realidade existem duas formas de aceder. A mais fácil e cómoda é pelo concelho de Mértola chegando ate à aldeia de Corte Gafo de Cima e daí até à Amendoeira da Serra onde encontramos ainda cafés e algum restaurante, caso queiramos usufruir da autêntica cozinha alentejana. A partir desta aldeia segue-se a estrada para o Monte das Pias que agora, não sei se felizmente (pelos estragos do turismo maciço), já está pavimentada até à entrada da Herdade do Pulo do Lobo, uma propriedade privada. Lá somos advertidos da existência de um portão que devemos abrir e depois fechar se passarmos tanto a pé como de carro. A distância até ao Pulo do Lobo é de apenas 1,2 km. Para quem gosta de caminhadas, é importante saber que há um lugar antes do portão em que podemos deixar comodamente o carro e o caminho faz-se facilmente na ida, já que é uma descida contínua, mais íngreme no último trecho. Mas a volta pode ser cansativa porque é exactamente o contrário: uma subida contínua, íngreme por vezes. É por isso que há que evitar o Verão, especialmente no pico de mais calor, sendo preferível de manhã cedo ou já a meia tarde. A Primavera é, obviamente, a estação ideal porque é quando o rio apresenta um caudal maior a causa das chuvas invernais e a temperatura é agradável. De carro é fácil ir pela estrada de terra batida. Na realidade, a excepção de um par de pontos em que devemos ter cuidado e passar devagar pela existência de alguns buracos, qualquer ligeiro pode ir sem problemas até ao ponto em que a estrada acaba.

O outro acesso é pela aldeia de Vale do Poço, dividida entre os concelhos de Mértola e Serpa. Daí é possível apanhar uma estrada que chega até Serpa, mas a partir de Cabeceiras do Vale Quinado a estrada é de terra batida e o desvio até ao Pulo do Lobo é uma estradinha de 2 km. em bastante mau estado na qual muitos condutores hesitariam em meter o carro lá. Mesmo de carro, há um ponto em que devemos deixá-lo porque a descida até à cascata é muito íngreme e é somente acessível a pé. A vista da cascata é talvez menos espectacular desta margem, mas a panorâmica inteira do vale vale mesmo a pena.

O mais surpreendente disto, e o Guadiana já deu belas amostras disso, é que apenas uns 10 km. a sul chegamos à capital do concelho: Mértola que merece por si uma visita. Mas ninguém diria, estando na cascata, que podemos dar um belo passeio e ter belas vistas da vila pelo cais onde existem barcos ancorados porque é até este ponto que o rio é navegável e experimentamos um estranho cheiro a maresia porque as marés sentem-se até cá o qual é bem visível das rochas e areais existentes nas margens.

Pulo do Lobo: mais uma razão para explorar este cantinho tão desconhecido do nosso país!


Foto 1. Ponte ferroviária da linha de Moura sobre o Guadiana , entre Serpa e Baleizão (c. de Beja).
Foto 2. Pulo do Lobo com a espuma formada pelas águas do rio.
Foto 3. Lago remanso de águas serenas após a cascata com vistas do vale.
 Foto 4. Vista de conjunto do Pulo do Lobo.
Foto 5. Ponto em que começa a cascata.
Foto 6. Ponto mais estreito da cascata (advirta-se a fotomontagem do lobo a pular!).
Foto 7. Lago visto da cascata.
Foto 8. Acesso ao miradouro.
 Foto 9. Vista da envolvente da cascata. Veja-se o acesso desde Vale do Poço na outra margem.
Foto 10. Vista do vale, entre rochas.
Foto 11. Rio Guadiana encaixado no vale.
Foto 12. Vista do antigo curso do rio.
Foto 13. Outra vista do vale.
Foto 14. Vale do Guadiana visto do acesso do Vale do Poço. Apesar da fraca qualidade da fotografia, advirta-se o antigo curso do rio e o rio encaixado entre as rochas actualmente.
Foto 15. Monte das Pias, perto da Herdade do Pulo do Lobo.
Foto 16. O rio Guadiana em Mértola, visto do cais, sujeito a influência das marés e com barcos ancorados.

 
Vídeo 1. Vídeo de Youtube em que se pode apreciar o Pulo do Lobo no seu esplendor. Embora existam outros, escolhi este por ter uma duração de apenas 1:40 minutos. Não resulta pesado.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.


Aldeias fronteiriças: Santo Aleixo da Restauração (c. de Moura)

No Baixo Alentejo, entre Safara e Barrancos, encontramos a que talvez seja a aldeia do Alentejo mais profundo: Santo Aleixo da Restauração, localidade e freguesia do concelho de Moura que está situada muito perto da linha de fronteira, entre a Serra da Adiça e a Contenda de Moura, um dos lugares mais desconhecidos do nosso país e com uma grande variedade de vegetação e actividade cinegética.

A aldeia já está documentada no século II a.C. com o nome de Totalica, que fazia referência aos metais lá explorados na época romana. Com este nome será designada a povoação no século X pelo geógrafo Al-Rāzī numa descrição do Al-Ándalus e parece que assim continuou até à sua conquista pelos portugueses pela Ordem do Hospital. Mas a sua fama virá com a Guerra da Restauração, facto que levará à Junta de Freguesia a pedir, em 1957, que fosse designada como Santo Aleixo da Restauração, para se distinguir de localidades com o mesmo nome. O facto é que, como consequência da sua situação fronteiriça, a aldeia vai sofrer vários sítios e pilhagens dos exércitos castelhanos em 1641 e 1644. Apesar da desvantagem numérica, os seus habitantes vão conseguir resistir heroicamente e causaram inúmeras baixas no exército invasor. O sítio de 6 de Outubro de 1641 vai ser o mais assinalável porque os castelhanos sitiaram a aldeia com 1 300 soldados e 200 cavaleiros contra apenas 100 soldados portugueses comandados pelo Capitão Martinho Carrasco Pimenta. Depois de repelir dez investidas, o exército castelhano viu-se na necessidade de se retirar vergonhosamente depois de ter 55 baixas contra duas portuguesas após umas três horas de confronto. No entanto, grande parte da aldeia sofreu saque e o incêndio de várias casas. A povoação sofrerá, para além destes dois sítios, um terceiro, já em 1704, no marco da Guerra de Sucessão Espanhola, que arruinará a aldeia.

A localidade apresenta traços característicos do Alentejo, com um domínio das actividades agro-pecuárias nas quais a grande propriedade latifundiária é dominante. A falta de perspectivas tem feito que a emigração tenha sido a saída habitual para fugir à pobreza e à falta de emprego, o que supôs uma queda demográfica de pouco mais de 3 000 habitantes em 1950, no seu máximo demográfico, para um cerca de 800 segundo o censo de 2011. As searas e a oliveira são as culturas mais representativas junto da exploração do gado bovino, ovino e suíno, por esta ordem, sendo que no gado suíno tem especial destaque o porco preto.

Do ponto de vista etnográfico, Santo Aleixo apresenta uma estranha mistura de elementos tipicamente alentejanos, que são os dominantes, com alguma influência espanhola nalguma das casas lá existentes como o uso de certo tipo de azulejos nas fachadas ou até gradeamentos nas janelas.  De facto, ao perguntarmos pela estrada para a Contenda de Moura, reparámos que alguns dos seus habitantes apresentavam uma fala um tanto espanholada, por falarem com vogais mais abertas. Mas o destaque vai para um traço muito próprio do Alentejo como são as suas chaminés, das quais Santo Aleixo tem belas amostras um pouco por toda a aldeia. A parte mais antiga, na qual está situada a Igreja Matriz, declarada Monumento Nacional, e datada no século XVII, fica no alto de um outeiro a partir do qual temos belas vistas da planície. Do outro lado da ribeira de Santo Aleixo, seca na maior parte do ano, fica outra parte da aldeia, mais recente, de ruas rectas que sobem até meia encosta das lombas vizinhas, entre um mar de oliveiras. A tradição alentejana está presente ainda no cantares alentejanos pelo facto de contar com três grupos corais numa aldeia com tão poucos habitantes.

No Largo da Restauração está situado um obelisco que rememora os sítios de 1641, 1644 e 1704 e resulta um lugar muito aprazível. Ao lado, a Igreja Matriz, com belas portas barrocas em mármore de tons rosáceos que contrastam com o branco puro do edifício. Pena é que, tendo sido visitada num domingo, estivesse tudo fechado, até os portões de entrada. Não ajuda isto muito ao desenvolvimento do turismo. Outro monumento a destacar é o Convento da Tomina, a vários km. da aldeia, situado na Contenda de Moura, perto da confluência do ribeiro de Pai Joannes com a ribeira de Murtigão, numa zona de difícil acesso. Trata-se de um convento fundado em 1686, infelizmente hoje degradado, em honra de Nossa Senhora das Necessidades, e que beneficiou de grandes obras como riquíssimos paramentos e decoração chinesa oferecida pelo rei D. Pedro II. No último fim-de-semana de Agosto tem lugar uma romaria de cinco dias, sendo um ponto de encontro de carácter transfronteiriço. É de salientar o facto de que se bem Santo Aleixo fica a uns 6 km. da fronteira e a 12 de Rosal de la Frontera, o Convento da Tomina está situado mais próximo da localidade de Aroche (Huelva). 

Outro ponto em foco é a própria Contenda de Moura. Como o seu nome indica, trata-se de um território no início pouco definido, já existente desde a conquista portuguesa do território e que pela sua indefinição acabará por ser alvo de uma Concordata em 1542 para o seu uso colectivo pelos habitantes do concelho de Moura e dos andaluzes de Encinasola e Aroche, ficando interdita a agricultura e a construção de casas. É por isso que o território passou a ser uma reserva cinegética de primeira ordem com abundante vegetação autóctone.  Pelo Tratado de Madrid de 1893 a fronteira da Contenda foi claramente delimitada sendo que com o Tratado de Limites de 1927 ficou inserida entre os marcos fronteiriços 992 e 1011. Hoje é um lugar ideal para caminhadas e para apreciar a natureza. 

A localidade pode ser um belo ponto de partida para explorar a região, contando ainda com belos exemplos de estabelecimentos de agro-turismo como a Herdade da Negrita, que nos remete para o prazer do «dolce far niente», enquanto desfrutamos de um belo serão ou simplesmente da contemplação da imensidade da planície. Sem dúvida, é uma região a descobrir!


Foto 1. Santo Aleixo da Restauração visto da ribeira do mesmo nome.
Foto 2. Vista da parte mais «moderna» da aldeia, na outra margem da ribeira de Santo Aleixo.
Foto 3. Outra vista da parte mais «moderna» da aldeia.
Foto 4. Chaminés alentejanas.
Foto 5. Obelisco do Largo da Restauração.
Foto 6. Rua da Igreja vista do Largo da Restauração.
Foto 7. Esplanada no Largo da Restauração com vistas à planície (restos do antigo fortim).
Foto 8. Largo da Restauração. Vista geral.
Foto 9. Casas alentejanas típicas com a planície ao fundo.
Foto 10. Porta barroca da Igreja Matriz.
Foto 11. Lateral sul da Igreja Matriz.
Foto 12. Fachada da Igreja Matriz e vista da aldeia.
 Foto 13. Vista geral de Santo Aleixo da Restauração pela estrada de Sobral da Adiça.
 Foto 14. Vista da povoação com a Contenda de Moura ao fundo.
Foto 15. Pôr-do-sol na planície perto da Herdade da Negrita com a Serra da Adiça ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Fronteiras: Sobral da Adiça/Rosal de la Frontera-III

A uns 2 km. da aldeia de Sobral da Adiça, quase no limite com o concelho de Serpa, separado pela Serra da Adiça da localidade do Ficalho, na que está situada a fronteira mais importante da região, contamos com outro ponto de passagem da fronteira pelo Vale de Grou para chegarmos até Rosal de la Frontera, na Andaluzia espanhola. Trata-se de uma fronteira local, com estradas em muito mau estado. De facto, na estrada N385 nem sequer existe um indicador que mostre que estamos perante um desvio que nos leva até ao limite fronteiriço. Até porque a estrada portuguesa é mesmo péssima, com um pavimento em muito mau estado e esburacada por momentos (atenção aos amortecedores!!!). Mas a estrada espanhola é ainda pior pois não estando esburacada, é uma estrada de cascalho sem pavimentar. De facto, o sinal de limitação da velocidade a 50 km/h parece uma piada de mau gosto a não ser que queiramos arriscar a ter amolgadelas no carro ou até mesmo partir os vidros indo a essa velocidade. Isso por não falar da poeira que iria cobrir o carro, pedindo-nos de imediato uma ida até uma estação de lavagem.

O mais notável neste aspecto é a paisagem. Uma paisagem de montado, designadamente de sobreiros, o que está a indicar uma maior humidade do clima, já que o sobreiro precisa de pelo menos 500 mm. de precipitação anual para ter umas condições óptimas de crescimento. Mas também uma paisagem de olival que cobre totalmente a Serra da Adiça para os lados que dão para a vila do Ficalho, fornecendo umas paisagens idílicas de paz e sossego. De facto, para além de uma ou outra herdade espalhada pelo campo, a vida selvagem tem todo o sentido neste lugar. Tivemos a oportunidade de ver perdizes a correr, assustadas as coitadinhas com o barulho do carro. O privilégio de ver os animais em liberdade não tem preço e nisso o Alentejo é um lugar de oportunidades nesse sentido, bem como a possibilidade de ver o céu estrelado enquanto o luar ilumina o montado. São, sem dúvida, momentos inesquecíveis para partilhar de forma romântica com a nossa cara-metade, abraçados os dois sentindo esse aconchego tão especial que só experimentamos com quem estamos apaixonados.

A fronteira é bastante curiosa porque está em parte delimitada por vedações de arame farpado salpicadas por vários marcos fronteiriços que mostram ao viajante avisado que estamos perante o limite fronteiriço entre dois estados. Como não podia ser de outra forma, essas vedações separam propriedades dedicadas à exploração da oliveira ou à pecuária, com especial importância do porco preto que, alimentado exclusivamente de bolotas, dá-nos a oportunidade de degustar essa iguaria sem igual que é o presunto de porco preto, também chamado de pata negra, que na vila de Barrancos atinge a sua máxima expressão e do lado da província andaluza de Huelva, no presunto de Jabugo, do qual é de salientar que uma parte importante dos porcos provêm do Baixo Alentejo, nos montados dos concelhos de Serpa e Moura, para dar saída à procura deste produto.

A região resulta indicada para visitar talvez algumas das aldeias mais autênticas do Baixo Alentejo, as que se situam na margem esquerda do Guadiana como Safara, Sobral da Adiça ou Santo Aleixo da Restauração, para além dos espaços naturais como a Contenda de Moura, cujo nome advém do facto de as fronteiras estarem mal definidas, o que deu lugar a conflitos entre um e outro lado pelos direitos de exploração e propriedade e que neste caso só finalizariam com o Tratado de Limites de 1927, quando se estabeleceram os marcos fronteiriços entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Do lado da Andaluzia é possível visitar Rosal de la Frontera, vila fronteiriça e comercial onde poderemos atestar o carro e tomar umas cañas (cerveja a pressão) com tapas oferecidas de graça nas tascas do lugar. É interessante ainda a vila de Aroche e a sua contenda, que limita com a contenda de Moura na Serra de Aroche, na qual poderemos ver os restos do castelo. 

Importa salientar o facto de que esta região foi conquistada por Portugal aos mouros na última etapa da «Reconquista» num intento de atingir o controlo da região de Sevilha de forma que Aracena e Aroche, as localidades mais importantes da região, estiveram na posse de Portugal até pelo menos 1253. De facto, este território esteve em disputa com Castela a causa da questão do Algarve, já que o «rei sábio», Afonso X de Castela, detinha o título de rei do Algarve. D. Afonso III, que casou em 1253 com D. Brites, filha deste rei e mãe do futuro rei D. Dinis, recebeu do seu pai um dote que incluiu, após a morte do rei castelhano, as vilas de Mourão, Serpa, Moura, Noudar e Niebla (Huelva). O Tratado de Badajoz de 1267, que fixou as fronteiras na margem do Guadiana, serviu para assegurar para Portugal o chamado «reino do Algarve», facto que explica por que os réis portugueses intitulavam-se réis de Portugal e do Algarve. Em troca, Portugal abandonava os territórios além Guadiana. No entanto, a sagacidade política de D. Dinis permitiu-lhe, em substituição de uns alegados direitos sobre Aracena e Aroche, recuperar as vilas de Mourão, Serpa, Moura e Noudar no Tratado de Alcanices de 1297, para além das localidades de Campo Maior, Ouguela e Olivença. Séculos mais tarde, a guerra da Restauração foi terrível na região a causa dos contínuos assaltos das tropas castelhanas e portuguesas nas aldeias fronteiriças. O contrabando substituiu os conflitos bélicos e hoje, após a aberturas das fronteiras fruto da adesão à UE, o território tenta encontrar o seu lugar na economia moderna entre o declínio das estruturas agrárias tradicionais e a necessidade de apostar pela qualidade e a inovação tecnológica no sector agro-alimentar.

Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço situado à Norte da estrada visto do lado de Portugal.
 Foto 3. O mesmo marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Segundo marco fronteiriço próximo ao anterior.
Foto 5. Linha de fronteira entre os marcos fronteiriços pela vedação de arame.
Foto 6. Marco fronteiriço situado a Sul da estrada, visto do lado de Portugal.
Foto 7. Linha de fronteira que vai pela vedação de arame.
Foto 8. Segundo marco fronteiriço a seguir ao anterior.
Foto 9. Linha de fronteira que segue a vedação de arame.
Foto 10. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 11. Linha de fronteira entre vedações.
Foto 12. Vale de Grou ao pôr-do-sol, com a Serra da Adiça à esquerda.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

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