As mini-férias de Páscoa serviram, para além de descontrair, para visitar lugares espectaculares, alguns deles relacionados com a nossa Raia. É por isso que quero partilhar convosco algumas das minhas experiências, pelo que iremos dar um pulo do Alentejo à Terra Fria Transmontana, nos mais profundos lugares do Parque Natural de Montesinho.
Por ser muito desconhecido, muitas pessoas, até mesmo da região, não sabem da existência da estrada municipal entre Moimenta da Raia e Mofreita, ambas as duas freguesias e aldeias do concelho de Vinhais. Limitada pela Serra da Coroa e a vizinha Serra do Marabón que separa a Galiza da província leonesa de Zamora, Moimenta da Raia está situada num relativamente amplo planalto que cai em declive suave, ficando a aldeia no seu extremo Sueste a algo menos de 900 m. de altitude, erguendo-se sobranceira, sobre o vale do rio Tuela, que forma um desfiladeiro com encostas muito íngremes. É por isso que os primeiros quilómetros da estrada apresentam uma descida continuada até atingirmos a ponte sobre o rio (chamada Ponte do Couço), já a menos de 750 m. formando um talvegue, entre rochas graníticas e xistosas, onde discorre, encaixado, o rio.
A beleza da paisagem envolvente é, simplesmente, espectacular. Devido à sua relativamente elevada altitude, as árvores não tinham quaisquer indícios de as flores começarem a desabrochar mostrando que já estamos na Primavera. De facto, pelas frescas temperaturas, dir-se-ia que em vez do mês de Abril estivéssemos ainda no Outono. Isto porque muitas das espécies vegetais da região pertencem a uma área de transição entre a região euro-siberiana e a região mediterrânica. A presença de espécies remanescentes mostra isso: árvores de folha caduca que mantêm a folha na rama até os novos rebentos começarem a crescer como é o carvalho negral. Daí que a paisagem mostrasse esse ar característico outonal. Além disso, belas amostras de líquenes a dar verdura às árvores davam um ar aprazível à par que misterioso ao ambiente. Da ponte, a fronteira ficava a apenas 750 a Leste, ponto em que o Tuela entra em Portugal após ter nascido na Serra Segundeira, no Parque Natural do Lago de Sanábria, no concelho portelego ou porteixo de Lubián e ter percorrido um estreito vale que dá lugar a uma pequena planície ribeirinha na vizinhança da aldeia de Hermisende, que esteve na posse do nosso país durante séculos, deixando profundas marcas na fala local, uma mistura de português transmontano e galego oriental.
A estrada volta a subir em forte pendente até atingirmos os 950 m., numa espécie de pequeno planalto que não é mais do que uma lomba que desce de forma relativamente suave para os lados de Mofreita, enquanto caem a prumo do lado de Hermisende. Estamos perante a denominada Serra da Escusaña que atinge os 1 147 m. de altitude no monte Escagalhos. No entanto, a estrada discorre entre os 950 e os 1 050 m. no meio de pequenas lombas. Há que dizer que o asfalto é recente e a sensação de solidão e de ir caminho de nenhures é quase absoluta, o que é de facto reconfortante neste nosso atribulado dia-a-dia quotidiano. É a partir do Alto da Parada que a estrada segue a linha de fronteira, com belas vistas para toda a região envolvente apartando-se unicamente do limite fronteiriço no Alto de Castrapeiro, em que um pequeno pico, Redaria (1 037 m.) obriga a estrada a afastar-se dele, se bem existe um pequeno caminho de terra batida e cascalho que que permite contorná-lo a norte, entrando brevemente em Espanha. Logo após o alto, voltamos ao limite fronteiriço por algumas centenas de metros até começarmos a descer suavemente para a aldeia de Mofreita entre alguma floresta, alguns campos cultivados, já perto da aldeia, e matagais de urze, tojos e giestas. O único que ensombra esta idílica e pastoril paisagem é, infelizmente, a marca de incêndios recentes que tanto tem assolado o país, fruto de um abandono absoluto do campo e uma má política de conservação florestal derivada do primeiro problema. Certamente o desleixo para os nossos bosques como consequência do abandono da actividade agro-pecuária num interior do país cada vez mais abandonado, tem muito a culpa disso. Aí fica a denúncia...
Foto 2. Rio Tuela visto da Ponte do Couço vindo de Hermisende, com a fronteira a menos de 750 m.
Foto 3. Floresta de árvores com líquenes situada no vale do Tuela. Foto 4. Paisagem «outonal» na Primavera, na Ponte do Couço.
Foto 5. Aldeia da Moimenta da Raia vista da subida da Ponte do Couço em direcção a Mofreita.
Foto 6. Primeiro marco fronteiriço visto da estrada após o Alto da Parada. Foto 7. Segundo marco fronteiriço.
Foto 8. Mesmo marco fronteiriço com vista da estrada e ao fundo a Serra do Marabón, entre a Galiza e a província de Zamora.
Foto 9. Moimenta da Raia, o planalto e ao fundo a Serra da Esculqueira (Esculqueira (c. de A Mezquita-GZ/ Pinheiro Velho (c. de Vinhais-P)), vistos da estrada.
Foto 10. Serra da Coroa e aldeia de Montouto (c. de Vinhais) vistos da estrada. Reparem nos estragos dos incêndios.
Foto 11. Vista do vale do Tuela no concelho de Vinhais. Em primeiro plano, o Lombo do Seixo. Foto 12. Terceiro marco fronteiriço.
Foto 13. Quarto marco fronteiriço.
Foto 14. Marco fronteiriço anterior com vistas para o vale do Tuela nos concelhos de Lubián e Hermisende com a Serra do Marabón à esquerda, a Serra Segundeira ao fundo e a Serra da Gamoeda à direita.
Foto 15. Pequena planície do rio Tuela entre S. Cibrão de Hermisende (à esquerda) e Hermisende (à direita).
Foto 16. Aldeia de Hermisende vista da linha de fronteira. Foto 17. Quinto marco fronteiriço.
Foto 18. Sexto e último marco fronteiriço à beira da estrada.
Ver Curiosidades fronteiriças: EM Moimenta-Mofreita (c. de Vinhais) num mapa maior
Ver Curiosidades fronteiriças: EM Moimenta-Mofreita (c. de Vinhais) num mapa maior





