segunda-feira, 4 de junho de 2012

Património raiano: Mosteiro do Castro de Avelãs (c. de Bragança)

Uma das jóias arquitectónicas que há em Portugal e que é muito pouco conhecida é o mosteiro do Castro de Avelãs, aldeia que fica a 5 km. a oeste de Bragança e que tem muita história às costas. Do mosteiro resta hoje a igreja, que mesmo assim, apresenta umas características muito invulgares na arquitectura medieval portuguesa. Mas antes de entrar em pormenores, resulta interessante compreender os factos históricos mais relevantes relacionados com esta localidade.

Pelo que sabemos, parece que o Castro de Avelãs teria sido a cabeceira de uma civitas romana. Ao contrário das grandes cidades romanas do Sul e Leste peninsular, a região transmontana continuava a ser uma área profundamente ruralizada, pelo que apesar do nome, não existiam verdadeiras cidades no território. O Nordeste Transmontano fazia parte do Conventus Asturum, cuja sede estava situada em Asturica Augusta, actual cidade leonesa de Astorga. Isto porque toda a região de Trás-os-Montes oriental fazia parte do território povoado pelos astures, facto que sem dúvida, explica a supervivência da língua mirandesa, de origem asturo-leonesa, e diferentes falares raianos (Rio de Onor, Guadramil, Petisqueira, Deilão,...) em várias aldeias do concelho de Bragança que terão sobrevivido ao recuo da fronteira linguística entre o domínio galaico-português e o asturo-leonês. Castro de Avelãs seria assim um dos centros administrativos da civitas Zoelarum, da qual sabemos da sua existência pelos a achados arqueológicos, designadamente lápides funerárias dos séculos I e II e que se estenderia pelo território transmontano a Leste do rio Sabor, a região zamorana de Aliste e Sanábria e os territórios situados até a Serra da Nogueira. No Parochiale Suevum, de 569, que recolhe a organização eclesiástica das dioceses do reino suevo, há uma referência ao pagus (uma paróquia rural) de Vergantia. Daí até 1145 a escuridão é quase absoluta. Sabemos que após a ocupação do território pelo reino asturiano nos tempos do rei Afonso III na sequência das presúrias do conde Vímara Peres no Porto em 868 e do conde Odoário em Chaves em 872, a diocese de Astorga, que já tinha sido restaurada, aproveitou o vazio de poder para usurpar as terras de Aliste, Vergantia e Ledra (território relacionado com Mirandela) em 969 à diocese de Braga que não tinha sido restaurada porque a diocese de Lugo, na Galiza, tinha ficado com os direitos desta enquanto diocese metropolitana, o que significava que as restantes seriam sufragâneas. Daí que a sua restauração não viria a ter lugar até 1071 com o seu primeiro bispo D. Pedro pelo rei da Galiza Garcia I ou Sancho II de Castela (existem dúvidas entre os historiadores), que contestará a dita «usurpação» com a bula de Pascoal II em 1103 que obrigou à diocese de Astorga, sufragânea de Braga, a devolver-lhe esses territórios.

Será em 1145 quando tenhamos a primeira referência ao mosteiro do Castro de Avelãs enquanto instituição monástica. Infelizmente a documentação medieval é escassa e só sabemos da sua história por meios indirectos. Em 1187 o mosteiro doou a sua herdade de Benquerença, em troca de outras propriedades, ao rei D. Sancho I, que fundaria a cidade de Bragança e deu-lhe foral num momento em que Portugal encontrava-se numa situação de «definição de fronteiras». Daí a importância de ter uma praça forte e sentinela do reino neste cantinho longínquo dos poderes centrais da monarquia. As guerras com Leão foram frequentes, pelo que não admira que em 1199 o mosteiro aceitasse um contrato de filiação com o mosteiro de S. Martinho da Castanheira, situado na parte norte e ribanceira do lago de Sanábria, já no reino de Leão. A relação com Castanheira parece que foi muito fluída porque alguns abades desse mosteiro foram portugueses e deram muita atenção às propriedades portuguesas deste mosteiro leonês, mantendo-as até tão tarde como o início do século XVIII. A oposição da arquidiocese de Braga fez com que em 1218 o mosteiro do Castro de Avelãs fosse obrigado a rescindir a filiação junto do mosteiro de S. Martinho da Castanheira. Do domínio monástico sabemos que teve a posse de amplas propriedades em todo o Nordeste Transmontano como assim mostram as Inquirições de D. Afonso III em 1258. Apesar disso, este mosteiro conta apenas com um estudo, uma dissertação de mestrado da antiga directora do Arquivo Distrital de Bragança e actual directora do Museu Abade de Baçal, Ana Maria Afonso, que analisa a história do mosteiro já na primeira metade do século XVI.

A igreja do mosteiro, assim que chegarmos à entrada, mais uma típica igrejinha portuguesa de factura tipicamente barroca. Mas o edifício reserva-nos várias surpresas. A maior é o exterior da cabeceira, com uma abside central e duas absidíolas laterais de menor tamanho de tipo românico, com arcos-cegos de meio ponto. A originalidade deste tipo de estrutura, por outra parte muito distintiva da arte românica, é o facto de estar totalmente construída em tijolo vermelho, o que faz desta igreja a única em Portugal destas características e que a relaciona com outras construções similares que encontramos no reino de Leão (p. ex. o importante mosteiro leonês de Sahagún) e em Castela. Este tipo de arte é conhecida como arte mudéjar e foi uma expressão de artesãos muçulmanos que não abandonaram as suas moradas após a Reconquista Cristã.

Outro rasgo característico podemos encontrá-lo na absidíola lateral direita, hoje ao ar livre, na qual está situada uma campa que alegadamente terá sido do conde Ariães. A lenda diz que este conde, que era muito mau, zangou-se muitíssimo com a sua mãe por não lhe ter preparado o jantar quando voltava de uma jornada de caça. Perante esta situação, açulou-lhe os cães que a morderam e acabou por morrer. Em penitência foi-lhe imposto que tirasse um cabelo da sua própria cabeça e o metesse numa pia de cantaria com água, debaixo de uma pedra, até que se convertesse em cobra e depois a fosse criando até ser bastante grande e então se meteria numa tumba com ela até esta o devorar para que assim, ele filho mau, que matou quem o gerou, de si mesmo criasse quem lhe fizesse outro tanto. Daí o túmulo mencionado.

Lendas são lendas, mas o Abade de Baçal refere a existência de um conde D. Pelaio, alegadamente, conde de Ariães que terá assinado como Pelagius Bregantiae Comes na sagração da igreja compostelana em 879, segundo refere Sampiro, bispo de Astorga. Existem ainda referências no Livro de Linhagens, que fala em termos similares sobre o braganção D. Fernão Mendes, o Bravo, desta importante família que fez inclinar a balança em favor de Portugal num momento em que o território transmontano oriental, segundo a documentação existente, no século XI ainda não fazia parte do território português, encontrando-se numa indefinição entre Portugal e Leão.

Se Bragança, já per se, vaut le voyage, em expressão do guia Michelin, uma visita à região não pode estar completa sem antes ver esta maravilha arquitectónica num marco rural incomparável, com uma bela ponte, também chamada de Ariães, no rio próximo, entre casas, hortas e milheirais, e tão perto da cidade brigantina. Talvez encontrem algum simpático aldeão, como foi no meu caso, que explique a lenda e mostre a igreja e os seus pormenores.

Foto 1. Fachada principal da igreja do mosteiro de Castro de Avelãs.
Foto 2. Vista da abside principal e da absidíola esquerda.
Foto 3. Outra vista da cabeceira.

Foto 4. Absidíola direita e túmulo do conde Ariães.
Foto 5. Capelinha situada na entrada, à direita, com uma porta gótica.
Foto 6. Outro pormenor da capelinha com outra porta gótica e diferentes ritmos de construção.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

domingo, 13 de maio de 2012

Curiosidades históricas: Elvas e a fronteira do Caia em 1942

A partir de um blogue elvense, Cida'Elvas assisti a um interessante vídeo que mostra Elvas e a fronteira do Caia no ano de 1942. Não resisti e fica aqui como lembrança das velhas fronteiras em pleno Estado Novo. O vídeo, de quase doze minutos, fala de Elvas e da fronteira a partir do minuto 9:30 e é recomendado para quem quiser ter uma perspectiva histórica da fronteira. Espero que gostem!


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Curiosidades da Raia: Pedra Alçada (f. de Santiago Maior, c. do Alandroal)

Em 27 de Abril do ano em curso, fui convidado pelos meus amigos Luís e Nice do blogue Raia-Alentejo para uma caminhada organizada pela Junta de Freguesia de Santiago Maior, situada no concelho do Alandroal. Sendo este município um concelho raiano, não me resisti a deixar constância do passeio pelo seu alto interesse do ponto de vista etnográfico, histórico e paisagístico. 

Na realidade tratava-se de uma caminhada de 8 km., mas muito leviana porque quase não houve subidas nem descidas com pendentes fortes. Saindo da sede da Junta de Freguesia, na aldeia das Pias, fomos logo ao encontro do clássico montado alentejano com a sorte de encontrar um dia ensolarado, com uns céus limpos e cores intensas, graças ao facto de a atmosfera estar completamente limpa pelas chuvas que até ao dia anterior tinham caído com certa intensidade. Este Inverno-Primavera alargado deu-nos a oportunidade de usufruir de belas paisagem, verdejantes e cheias de vida, viçosas, com flores como que alcatifando o solo.

A companhia, mais do que agradável, com oportunidade de falar com pessoas com bagagem cultural interessante, fez com que o passeio decorresse sem quase dar por nós. Após as últimas casas da aldeia, a paisagem tradicional do Alentejo estava à nossa espera, com uma floresta densa de azinho e sobreiro no meio de penedos rochosos e ribeiras já secas. E logo após uma pequena descida suave encontrámos a primeira surpresa do passeio: dois fornos para o fabrico do carvão a partir da lenha de azinho ou sobro feitos com tijolo e cobertos com terra, com um agradável cheiro que nos faz recriar o fumeiro aquando da preparação dos enchidos. Sem dúvida uma jóia etnográfica que convém preservar, em tempos em que estas profissões encontram-se à beira da extinção.

Seguindo o passeio, atravessámos campos floridos que nos fazem entrar em comunhão quase espiritual com a natureza, embasbacados com a beleza da planície que fazem da Primavera a melhor estação para ver um Alentejo verde, viçoso, do qual nunca nos cansamos. Só a alegre algazarra do grupo quebra (mas não muito) essa paz melancólica que encontramos nestas paragens. E é assim que chegamos à Pedra Alçada, que recebe esse nome por tratar-se de duas pedras em posição vertical, uma acima da outra, como que alçadas, não sabemos se de forma natural ou pela mão do homem. Apesar das notáveis parecenças com um menir, não podemos dizer ao certo se foi mesmo assim, mas quer fosse uma estrutura natural sem a intervenção humana, quer fosse construída pelo homem, a hipótese de ter sido um lugar de encontro na era megalítica não pode ser posta de parte.

Uma breve pausa reconfortante permitiu-nos desfrutar de um lanchinho consistente numa sandes mista, uma maçã e uma bebida, gentileza da Junta de Freguesia, empreendemos o caminho de volta, passando ao lado de interessantes formações geológicas em granito, com marcas que parecem petróglifos, mas que talvez sejam mesmo naturais, não sem experimentar os efeitos de um pequeno chuvisco que quase não chegou a molhar a terra. Já perto da aldeia, uma bela panorâmica permitia-nos contemplar a imensidade da planície até à Serra d'Ossa, já nos concelhos do Redondo e de Estremoz.

E como não podia ser de outra forma, na sede da Junta esperava-nos um delicioso almoço: saladas, queijinhos da região, enchidos, salada fria de grão e de feijão frade e, finalmente, uma açorda de favas que estava mesmo muito, muito boa, feita por mãos espertas que sabem dar esse ponto característico de quem segue a tradição gastronómica do Alentejo. Com um café na tasca mais próxima, despedi-me dos meus amigos não sem antes prometer que iria participar no encontro seguinte. É de louvar este tipo de iniciativas por parte de freguesias rurais que nos permitem conhecer lugares da região por uma contribuição meramente simbólica, ao tempo que interagimos com outras pessoas que aportam a sua simpatia e a sua bagagem cultural.

Parabéns aos organizadores e à Junta de Santiago Maior!

Foto 1. Paisagem de montado logo no início do passeio com vistas para os concelhos do Redondo e Reguengos.
Foto 2. Fornos de fabrico do carvão vegetal.
Foto 3. Fornos de fabrico do carvão em perspectiva geral.
Foto 4. Campos floridos no montado.
 Foto 5. A beleza da planície.
Foto 6. Penedos rochosos característicos da região.
Foto 7. Pedra Alçada, vista parcial.
 Foto 8. Pedra Alçada, vista geral.
Foto 9. Outra vista de perfil da Pedra Alçada.
Foto 10. Formações rochosas em granito.
Foto 11. Cavalos no meio do montado.
Foto 12. Vista geral da planície, perto da aldeia das Pias, com a Serra d'Ossa ao fundo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

domingo, 6 de maio de 2012

Fronteiras: Santo André (c. de Montalegre) / A Xironda

Depois de algum tempo afastado do blogue por motivos de saúde e, porquê não, pelo cansaço, vamos hoje retomar o nosso périplo pela Raia, desta vez, entre a aldeia de Santo André, no concelho de Montalegre, e A Xironda, no concelho galego de Cualedro. A fronteira está situada numa estrada local que liga as duas localidades, no fundo de um pequeno vale ao sopé da Serra do Larouco.

A região pertence a uma zona de transição entre o Barroso e a região do Alto Tâmega. Sendo o concelho de Montalegre muito extenso, Santo André faz parte junto com Vilar de Perdizes e outras poucas freguesias, daquela parte do município que pertence à bacia do Tâmega através dos seus afluentes. É por isso que estamos numa região de planalto que desce em suave declive para o vale do Tâmega. Se a aldeia de Santo André está situada entre os 820 e os 850 m. de altitude, já a aldeia da Xironda está situada entre os 750 e os 760 m. Entre ambas as duas, situa-se um pequeno relevo que ultrapassa os 790 m. do lado da Galiza para logo descer suavemente até ao limite fronteiriço, num pequeno vale situado entre os 730 e os 740 m. por onde discorre a Ribeira do Inferno, e onde encontramos extensos milheirais entre outras terras de lavoura e pequenas explorações avícolas e pecuárias. Após uma mudança de piso para uma estrada mais estreita já em terras portuguesas, uma pequena subida, mais íngreme do que a anterior, leva-nos ao planalto onde está situada a aldeia de Santo André, interessante do ponto de vista etnográfico.

No meio, um desvio por caminho de terra batida, indica a existência da vila romana de Grou. Infelizmente, não existe qualquer indicador da tal vila já após termos apanhado tal estradinha e ficamos, mesmo ao pé da Serra do Larouco, com a sensação de estarmos em terra de ninguém, porque sabemos que a fronteira está mesmo aí, desconhecendo se a ultrapassámos ou não. Mais um caso de sinalética que devia ser melhorada porque de nada vale por-nos o mel nos lábios de uma alegada vila romana e depois não encontrar outra coisa do que estradas esburacadas não asfaltadas pouco aptas para ligeiros e nada que indique a presença, mesmo que mínima, de restos arqueológicos da época romana.

De resto, a fronteira não oferece nada de interessante, a não ser o facto de estarmos perante uma bela paisagem e mais uma via de ligação entre Santo André e Vilar de Perdizes, esta vez, por terras galegas. Se pretendermos brincar com o jogo do gato e do rato com as fronteiras, este é o lugar ideal para ir mudando continuamente de país, pois teremos estradas locais daí até Vilarinho da Raia, já à beira do Tâmega.

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza. 
Foto 2. Limite com a Galiza visto do lado de Portugal.
Foto 3. Limite e marco fronteiriço.
Foto 4. Milheiral raiano, mesmo no limite fronteiriço visto para o lado de Portugal.
Foto 5. Vista da Serra do Larouco perto de Santo André.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fronteiras: Ponte internacional do rio Sever (Beirã (c. de Marvão)/Valência de Alcântara)

Uma fronteira muito interessante pela paisagem envolvente é a ponte internacional do rio Sever, um afluente do Tejo. Aliás, tem a particularidade de ser uma fronteira de uma linha ferroviária correspondente ao chamado «ramal de Cáceres», hoje infelizmente encerrado. O nome do ramal é devido a que da Torre das Vargens contorna Castelo de Vide e Marvão e entra em Espanha dirigindo-se para Valência de Alcântara e Cáceres, a segunda maior cidade da Extremadura espanhola. Daí vai até Madrid.

Esta linha foi construída inicialmente para dar saída aos fosfatos extraídos de uma mina situada perto de Cáceres pelo porto de Lisboa porque o transporte de passageiros fazia-se pelo ramal do Leste, via Elvas e Badajoz e estava prevista a construção de uma ferrovia a partir da linha da Beira Baixa. Como esse projecto foi abandonado, finalmente o ramal, inaugurado finalmente em 1881, serviu também para esse propósito, apesar de não reunir as melhores condições para o tráfego. O seu encerramento foi equacionado o ano passado de 2011 na sequência dos cortes orçamentais que têm vindo afectar várias linhas ferroviárias consideradas deficitárias. É esta linha por onde discorria o famoso Expresso Lusitânia, um expresso nocturno que fazia a ligação Lisboa-Madrid saindo da Estação de Santa Apolónia até à Estação de Chamartín entre 1943 e 1995, que foi substituído pelo Lusitânia Comboio-Hotel. Nunca foi um comboio barato, nem ainda hoje pois só o bilhete em classe turista, isto é sem direito a cama custa 60,50 EUR no bilhete simples e 97,00 EUR no bilhete de ida e volta. Já o preço mais caro vai para os que pretenderem uma viagem de ida e volta em cama «Gran classe»: a «módica» importância de 325,40 EUR, que inclui ainda pequeno-almoço e jantar (com esse preço só faltava que não estivesse incluído!)

A ponte internacional é uma ponte de ferro, com dois pilares, sobre o rio Sever que nesta parte é já um rio fronteiriço até à sua foz ao desaguar no Tejo. Resulta interessante o facto de indicar o marco fronteiriço 673 no meio da ponte e ainda os materiais da ferrovia, alguns deles bastante antigos, como indica uma placa de 1908 escrita ainda antes do Acordo Ortográfico de 1910. A paisagem envolvente é de montado em ambos os lados da fronteira, com herdades isoladas no campo. A azinheira é a árvore rei, se bem encontramos ao longo do rio árvores de ribeira. A região é também rica em antas, mamoas o dólmenes, nomes utilizados para estas amostras de arquitectura megalítica das quais o Alentejo e a Extremadura espanhola apresentam a maior concentração da Europa.

De resto, o local é ideal para dar passeios, especialmente na Primavera, quando brotam as flores, e o tempo é aprazível.

Foto 1. Ramal de Cáceres visto da parte espanhola.
Foto 2. Ponte internacional visto da parte espanhola.
Foto 3. Ponte internacional e sua estrutura vistos da parte portuguesa.
Foto 4. Vista geral da ponte.
Foto 5. Arqueologia industrial: placa de 1908.
Foto 6. Marco fronteiriço no meio da ponte.
Foto 7. Pequena herdade vista da ferrovia do lado português.
Foto 8. Paisagem vista da ponte do lado português. A linha de árvores de ribeira indica a posição do rio Sever e a fronteira.
Foto 9. Rio Sever visto da margem norte da ponte.
Foto 10. Rio Sever visto da margem sul da ponte.
Foto 11. Paisagem de montado visto da ponte para a parte espanhola.
Foto 12. Herdade Tira-calças (Tiracalzas em espanhol) a 3 km. da ponte internacional.
Foto 13. Paisagem de montado vista da parte espanhola com a fronteira e o rio à direita.
Foto 14. Rio Sever visto da herdade Tira-calças. A parte portuguesa fica na margem esquerda.
Foto 15. Rio Sever com a parte portuguesa na outra margem.
Foto 16. Paisagem de montado na parte portuguesa com restos de uma anta vistos do lado espanhol do rio Sever.
 Foto 17. Rio Sever no seu lento percurso para o Tejo.
 Foto 18. Zona ribeirinha e paisagem de montado da parte espanhola (Herdade de Tira-calças).
Foto 18. No meio do rio Sever, com a margem portuguesa à direita.



Mapa 1.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Castelos da Raia: Castelo Melhor (c. de Vila Nova de Foz Côa)

Hoje vamos falar de um castelo pouco conhecido, mas que teve uma importância estratégica de relevo. Estou a falar do castelo de Castelo Melhor, aldeia e freguesia do concelho de V. N. de Foz Côa. Situada a 15 km. da sede de concelho, Castelo Melhor é hoje uma aldeia pacata na qual encontramos belas amostras etnográficas com casas que denotam a transição entre a casa transmontana e a casa beirã, aproximando-se mais a esta última. Há quem diga: Castelo da Raia, o castelo de Castelo Melhor??? Pois é. A simples vista pareceria um engano pela minha parte, mas não é. Isto porque geograficamente estamos perante uma freguesia situada em território transcudano, isto é, do ponto de vista português, um território situado na região «Trans Côa» ou «Além Côa» porque a região em questão formava parte do território de Riba-Côa. 

A região esteve sujeita às oscilações da fronteira nos séculos XII e XIII. Parece que nos tempos do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques teria sido um território em posse do reino de Portugal. Daí as dúvidas relativamente à origem do vizinho Convento de Santa Maria de Aguiar sobre se este terá sido de origem portuguesa ou leonesa. O que é certo é que as condições mudaram talvez a partir da Conferência de Celanova de 1160, que entre outros artigos, obrigou ao rei português a retirar-se progressivamente da região, hoje zamorana, de Aliste. Isto condiz com o facto de ter sido restaurada a diocese mirobrigense de Ciudad Rodrigo, baseada nos alegados direitos sobre a diocese de Caliábria, que terá existido nos séculos VI a VIII e teria a sua sede no território do Convento de Aguiar ou arredores. Com isto, o rei leonês, Fernando II, teria pretendido estender o seu território pela região da bacia do rio Águeda e do rio Côa com o intuito de consolidar as fronteiras nesse ponto relativamente aos limites do reino de Portugal. Seja como for, no início do século XIII o território de Riba-Côa já formava parte integrante do reino de Leão.

Nesse sentido temos de ver o foral outorgado a Castelo Melhor em 1208 pelo rei Afonso IX de Leão que elevou a localidade a concelho, o que mostra a importância desta no marco do reino leonês. E que não era para menos: a fronteira ficava delimitada pela foz do Côa no ponto em que este rio desagua no Douro, a uns 4 km. de Vila Nova. Castelo Melhor era, portanto, a primeira via de entrada (e último ponto de saída) do reino de Leão e o foral tinha a missão de reforçar o poder leonês na região e de contar com infra-estruturas militares que travassem as contínuas invasões que haverá durante esta centúria. 

O castelo domina um amplo outeiro do qual é possível ver grande parte do planalto que se estende desta região até Figueira de Castelo Rodrigo, vista limitada a sul apenas pela Serra da Marofa. A norte, pela sua proximidade ao Douro, permitia controlar este espaço mais íngreme, já que as lombas caem quase a prumo como que em desfiladeiro, com uma agricultura dedicada ao cultura da vinha, com uma morfologia do terreno em socalcos, já que estamos na região do Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da UNESCO. Como costuma acontecer, o declínio deste tipo de construções militares, designadamente a partir do século XIX, senão anteriormente, fez com que os moradores preferissem as zonas mais baixas que ficavam ao sopé da montanha em que estava situado o castelo, sendo que a aldeia se desenvolveu a partir destes terrenos de mais fácil comunicação e mais próximas aos campos de lavoura e aos destinados à exploração da pecuária. Portanto, a maior parte do que podemos ver neste castelo é a construção original do século XIII, século em que atinge o seu máximo auge. O Tratado de Alcanizes de 1297 fez com que o nosso rei D. Dinis conseguisse legalmente a posse de uns territórios que já tinham sido ocupados em 1295, movendo a fronteira mais a leste ao ficar delimitada pela linha dos rios Águeda e Tourões, tendo-se mantido (com a excepção da localidade de S. Félix dos Galegos) praticamente inalterada até hoje.

Isso fez de Castelo Melhor uma localidade com um papel secundário. Apesar da renovação, em 1298, do foral leonês por D. Dinis, só houve melhoras na Porta da Vila, transmitindo uma sensação de força e solidez ao visitante, mas o resto manteve-se praticamente igual. Em tempos do rei D. Fernando foram feitas algumas obras de melhora e reforço a causa das guerras contínuas com Castela (época pré-Aljubarrota) e sabe-se que em meados do século XV terá passado a sua posse à importante família Cabral com solar em Belmonte. Do século XV até ao século XVIII, apesar da localidade ter sido elevada a condado no século XVI e a marquesado no século XVIII, nada foi feito relativamente à obras de melhora e restauro, facto que explica porquê o castelo manteve grande parte da sua factura original. O castelo estava desprovido de merlões mas tinha três cubelos e a estrutura urbana estava caracterizada pela existência de duas ruas principais na qual o destaque vai para uma pequena praça central em que estava situada a igreja.

A antiga vila recebe-nos, vindo de V. N. de Foz Côa, com belas vistas do castelo e das paisagens envolventes com amendoeiras, oliveiras, azinheiras e videiras. Na entrada, vemos um monumento dedicado a Afonso IX de Leão com uma placa que indica como este rei tinha dado foral à vila em 1208. Para além de poder deliciar-nos a passear pelas ruas da povoação, flanqueadas por casas de granito puro, temos a oportunidade de subir ao castelo por um pequeno caminho de terra batida e cascalho (não recomendado a ligeiros) que resulta algo íngreme. Existem alguns cafés e restaurantes em que podemos saciar a nossa vontade de satisfazer os nossos sentidos alimentícios. E há ainda um Centro de Interpretação das Gravuras Rupestres do Vale do Côa, também Património Mundial, lugar em que, por marcação, podemos visitar em jipe conduzido pelos guias, algumas desses achados mais importantes e que remontam ao Paleolítico. É, portanto, uma aldeia que pode ser um ponto de visita para um dia inteiro se se quiser: visita das gravuras de manhã, almoço num restaurante local, visita do castelo e aldeia à tarde (ajudando a baixar o estômago) e cafezinho ou uma mini final num café qualquer da povoação. A evitar, obviamente, o Verão. Quem escreve, sofreu nas suas carnes os rigores da canícula. Se na sede do concelho num dia de Julho a temperatura era de 32ºC, esta passou a 39ºC-40ºC na área da foz do Côa e a 35ºC em Castelo Melhor. Daí que infelizmente não possa desta vez oferecer vistas mais próximas do castelo e do seu interior. Avisados ficam!

Foto 1. Zona de confluência do rio Côa com o Douro. 
Foto 2. Mesma foto, indicando os antigos limites fronteiriços até Alcanizes. 
Foto 3. Alto Douro Vinhateiro visto da foz do Côa em direcção de Barca d'Alva e o Penedo Durão (c. de Freixo de Espada-à-Cinta) ao fundo. Antes de Alcanizes, a margem direita do rio era leonesa.
Foto 4. Vista geral do castelo de Castelo Melhor.

Foto 5. Monumento a D. Afonso IX de Leão, situado à entrada da localidade.
Foto 6. Placa do citado monumento.
Foto 7. Vista geral de Castelo Melhor a partir da entrada.
Foto 8. Castelo Melhor visto ao sopé do castelo.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.