terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fortalezas da Raia: Castelo de Alburquerque

A nossa Raia tem lugares pouco conhecidos para o grande público. Um desses é a vila de Alburquerque, situada na Extremadura espanhola, perto da fronteira portuguesa. Para quem vem de Badajoz, há uma bela estrada que liga esta cidade com a vila, situada a 50 km. Do Alentejo é possível aceder pela estrada que vem de Campo Maior e que contorna a aldeia e castelo de Ouguela, saindo para uma estrada que liga Alburquerque com La Codosera. De Arronches, pela fronteira do Marco, acede-se rapidamente a La Codosera e depois à estrada que liga esta localidade com a vila. É ainda possível aceder pela fronteira da Rabaça, na Serra de S. Mamede e seguir logo até La Codosera e daí pela estrada antes citada. Outra via, para quem vem de Marvão, é a fronteira de Galegos/Puerto Roque, que vai dar até Valência de Alcântara, que é também o acesso natural para quem vem de Cáceres. Daí é possível chegar até Alburquerque, que dista a 40 km. desta localidade.

Sem dúvida, o foco de atenção vai para o seu castelo, o castelo de Luna, que se ergue sobranceiro sobre um outeiro rochoso, com uma queda importante para a parte Sul, a partir do qual é possível divisar uma bela vista, facto que obviamente determinou a escolha dessa localização. O castelo faz parte do centro histórico muralhado conhecido como «Villa Adentro», que foi a vila medieval por excelência. De facto, no mês de Junho há um festival medieval que congrega multidões que se deslocam para desfrutar de um bom ambiente num marco incomparável. 

O território parece ter sido povoado já antes da conquista romana da Lusitânia, mas será na Idade Média quando adquira uma notável importância. Relativamente à origem do nome existem duas teorias: a primeira faz derivar o topónimo do termo latino Albus Quercus, isto é, «azinheira branca», mas a segunda hipótese parece mais plausível pela vegetação dominante. Segundo esta teoria, o nome viria do árabe Abu-al-Qurq, ou seja, «país dos sobreiros» o que condiz com a persistência da população islâmica na região e com a abundância de sobreiros em regime de montado. Não devemos esquecer que a vila é conhecida pela qualidade dos seus enchidos, principalmente o presunto ibérico de porco preto, alimentado apenas com bolotas e o capim que cresce no montado.

Em 1166, após a conquista de Évora por Geraldo Sempavor o ano anterior, o primeiro rei português, D. Afonso Henriques terá ocupado estas terras aos almóadas, bem como a região de Cáceres e Trujillo, que terão permanecido na sua posse até o «desastre de Badajoz» em 1170, quando o seu genro, Fernando II de Leão, em ajuda dos almóadas, impediu a toma da cidade a falta de ocupar a alcáçova. O território terá passado ao reino de Leão, mas em 1174 voltou às mãos dos almóadas. Foi só depois da batalha das Navas de Tolosa em 1212 que o rei Afonso IX teve a oportunidade de ocupar definitivamente Alburquerque em 1217 (ou 1218 segundo outros historiadores) incorporando-a ao reino de Leão antes da ocupação de Badajoz. O perigo almóada só teria desaparecido após a conquista de Elvas pelo rei D. Sancho II em 1226 e a conquista de Campo Maior, Ouguela e Badajoz em 1230 pelo rei Afonso IX de Leão.

As guerras com Portugal foram muito frequentes é de facto na Raia houve um espaço indefinido, conhecido como «contenda» que recebeu o nome de Contenda de Arronches ou de Alburquerque, na qual pastavam os rebanhos de ovelhas. Terá de ser a partir do Tratado de Lisboa de 1864 e os trabalhos de delimitação da fronteira que o território ficou definitivamente marcado. Houve de facto, uma ocupação portuguesa da vila, na sequência da Guerra de Sucessão Espanhola entre 1705 e 1716, período em que foi construída uma muralha de tipo Vauban que separava o castelo da vila.

O acesso ao castelo faz-se por uma série de portas, sendo as principais a Porta de Valência e a Porta da Vila, que tinha o escudo do filho bastardo de D. Dinis, Afonso Sanches, que foi senhor de Alburquerque e do qual existe uma inscrição em português arcaico hoje custodiado no Museu Arqueológico de Badajoz. Destacam ainda a igreja de Santa Maria do Mercado, do século XV, e a igreja de S. Mateus, dos séculos XVI e XVII.

Do castelo é possível divisar uma grande extensão de território num raio de 60 km. A Leste e a Norte, a Serra de S. Pedro circunda a vila, enquanto a Sul é possível adivinhar a fértil veiga do Guadiana e a cidade de Badajoz. A Oeste temos uma bela vista da Serra de S. Mamede e a Sudoeste uma panorâmica muito extensa que abrange a planície alentejana até à Serra d'Ossa. Não admira que tivesse um grande valor estratégico. De facto o castelo é visível do castelo de Ouguela, já no concelho de Campo Maior e da estrada que liga Campo Maior com Arronches. Definitivamente uma visita que bem vale a pena!


Foto 1. Porta de Valência.
 Foto 2. Uma vista de Alburquerque da «Villa Adentro».
Foto 3. Vista geral do castelo, fechado actualmente (Nov. 2012) por obras.
Foto 4. Uma vista das muralhas e da vila, com a Serra de S. Mamede ao fundo.
 Foto 5. Vista do recinto muralhado.
Foto 6. Paisagem de montado na direcção Sul para a veiga do Guadiana.
Foto 7. Castelo visto da muralha.
Foto 8. Paisagem de montado com a cidade de Badajoz ao fundo.
Foto 9. Vila (vista geral) e Serra de S. Pedro vistas do castelo.
Foto 10. Centro histórico e muralhas vistos do castelo.
Foto 11. Igreja de Santa Maria do Mercado, igreja de S. Mateus e muralhas estilo Vauban portuguesas vistas do castelo.
Foto 12. Fachada da igreja de Santa Maria do Mercado.
Foto 13. Paisagem de montado vista do castelo do vale do rio Xévora.
Foto 14. Muralhas, Serra de S. Mamede e planície alentejana vistas do castelo, com a Serra d'Ossa muito a fundo (quase imperceptível).
Foto 15. Castelo de Alburquerque (seta) visto da fortaleza abaluartada de Ouguela (c. de Campo Maior), já no Alentejo.



Ver Castelo de Luna (Alburquerque) num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.


Ver Castelo de Luna (Alburquerque) num mapa maior
Mapa 2. Mapa específico.

P.S. Muda-se o papel de parede para uma bela vista da fortaleza de Ouguela. Espero que gostem!

domingo, 21 de outubro de 2012

Fronteiras: Serra das Mesas - Nascente do rio Côa (f. dos Fóios, c. do Sabugal)

Depois de uma etapa de inactividade, volto com energias renovadas ao blogue para continuar com o percurso por estas nossas terras raianas. Realmente as férias foram mesmo muito boas, mas o retorno não foi assim tanto, talvez por oposição ao lazer descontraído que costumamos ter quando estamos fora de casa. A questão é que não me apetecia fazer nada; daí a minha demora em publicar mais entradas ou atender as minhas contas do Facebook e do Twitter. Celebro que, entretanto, o número de visitantes e o número de «fãs» que aderiram ao blogue tenha aumentado até aos 54 amigos actuais na rede social Google e aos 191 no Facebook. Umas calorosas boas-vindas para todos eles!

Aproveitando a minha viagem recente que me levou, entre outras partes, ao interessantíssimo concelho do Sabugal, no distrito da Guarda, na Beira Interior, vou falar hoje da Serra das Mesas e da nascente do rio Côa. Da vila do Sabugal, da qual teremos oportunidade de falar noutra entrada, uma estrada serpenteia seguindo o curso do rio Côa pelas aldeias de Quadrazais, Vale do Espinho e, finalmente, os Fóios. As paisagens são absolutamente maravilhosas, pois contornam a Serra da Malcata, indicada convenientemente nos trilhos que existem ao longo da estrada e que nos permitem fazer caminhadas em plena natureza. Para quem desejar um refrescante banho num dia quente de Verão, existe um pequeno parque de merendas à saída de Quadrazais, um caminho de terra batida que em 200 metros leva-nos ao rio Côa e à reserva natural da Serra da Malcata, sendo que o rio oferece uma bela vista do lugar, contornado por árvores que fornecem sombra e dão esse ar fresco pretendido em dias quentes. A água costuma estar fresca e é altamente relaxante e o banho é absolutamente seguro porque permite-nos mergulhar no rio sem que exista perigo por afogamento, devido à escassa profundidade, já que não chega a cobrir uma pessoa de tamanho médio.

Uma vez passada a aldeia dos Fóios, freguesia e sede da mesma, na qual encontraremos belos exemplos de casas tradicionais e até restaurantes que por um bom preço permitem-nos deliciarmo-nos com uma boa refeição, a estrada começa uma subida, de início suave, como aliás, tem-se verificado a partir do ponto em que a apanhamos no Sabugal, para iniciar uma subida com mais pendente onde não raro, encontraremos, dependendo da hora, rebanhos de ovelhas com o pastor e o cão a guiá-las, cena absolutamente linda e que nos faz entrar em comunhão com a natureza. Ao chegarmos a um pequeno planalto em que encontrámos um entroncamento de estradas: de um lado podemos seguir pelo caminho de terra batida (em mau estado, diga-se tudo) que nos leva à Serra Alta, na qual está situado um parque eólico e da qual temos belas vistas da peneplanície de Ribacôa e das vizinhas terras da província de Salamanca. A frente continua a estrada para a localidade raiana da Aldeia do Bispo; à direita, com sinalização «Espanha», é possível chegar ao limite fronteiriço entre os Fóios e Navasfrías, aldeia de Salamanca da qual temos falado e que, neste caso, apresenta a particularidade de que a estrada portuguesa, asfaltada, dá lugar a um caminho de terra batida no outro lado da fronteira.

No entanto, mesmo à entrada, no início da estrada a Navasfrías, temos uma estrada que vai para a nascente do rio Côa e a Serra das Mesas. Uma estrada que, como teremos ocasião de ver noutra entrada, tem como particularidade que numa parte dela, a fronteira decorre mesmo ao lado. Por uma paisagem de floresta de abetos, carvalhos negros e castanheiros, sempre a mais de 1 000 metros de altitude, serpenteamos uma espécie de planalto que abandonamos logo quando, numa curva, iniciamos o ascenso à Serra das Mesas, contornando-a. Perto do seu final, uma pedra avisa-nos que estamos perante o trilho pelo qual podemos aceder à nascente do rio Côa e à parte mais alta da Serra. 

Iniciado o caminho, a nascente não fica muito longe, se bem o rio Côa é mais um produto da união de vários regueiros que podem ser, qualquer um, a sua nascente. Tradicionalmente, no entanto, é a que vamos ver nas fotos, a que foi considerada como sendo a própria. Uma vez visto este pequeno recanto, podemos iniciar uma ascensão à serra é bem cedo encontramo-nos com uma vedação de arame, que lembra os tempos da outra senhora, e os marcos fronteiriços que delimitam a linha de fronteira, que em alguns pontos, não segue exactamente a linha de cumes, mas sim a encosta superior da serra vista do lado português. Como as visitas que fiz foram na Primavera e o Outono, as fotografias são de diferentes estações, já que tive azar. Na primeira vez, enquanto a minha mulherzinha, com o almoço no bandulho e pouca vontade de sair do carro (estava frio e havia até restos de neve), ficou lá, a ler, sossegadinha, um livro, eu não pude completar a visita, não pelo frio, se bem que em alguns momentos a caminhada era um bocado perigosa a causa da humidade, que favorecia o escorregamento nas rochas graníticas da serra, mas sim porque começou a cair uma forte tormenta de granizo e apanhei uma saraivada do caraças. Tanto foi assim que tive de ir na farmácia mais próxima, já em Vilar Formoso, comprar um xarope e comprimidos para a constipação! Na segunda ocasião também choveu e até escorreguei, mas consegui acabar de visitar o lugar e completar as fotografias que tinha em falta. É por isto que esta entrada é fruto de experiências um bocado atribuladas. Espero que apreciem, se não, ainda vos bato!

Como estava a dizer, essa vedação que segue a linha de fronteira, continua até um ponto em que a serra eleva-se ate ao ponto mais alto, de 1 265 metros, em que está situado ainda outro marco fronteiriço. Daí em  pronunciado declive inicialmente e depois de forma suave, a linha de fronteira curva-se para dar a sua continuidade pela Serra da Malcata. 

A paisagem envolvente resulta do mais interessante. A própria Serra das Mesas forma parte da Serra da Malcata, sendo o seu ponto de ligação com a Serra de Gata, que separa Salamanca da Extremadura espanhola. Ambas as duas serras fazem parte da chamada Cordilheira Central, no seu sector ocidental, que terá continuidade na Serra da Estrela. Mas esta serra apresenta uma particularidade muito interessante. Não é apenas o facto de ser uma serra fundamentalmente granítica, mas sim o modelado, que evidencia uma evolução geológica ímpar. Cá não encontramos a típica paisagem beirã de barrocais, com penedos graníticos arredondados e formas caprichosas fruto da erosão como podemos ver, por exemplo, na aldeia de Monsanto, caso típico de caos granítico ou Inselberger. Neste caso, a meteorização, isto é, os processos erosivos, foi de tipo esferoidal, dando lugar à chamada meteorização em «casca de cebola». É precisamente isto o que dá nome à Serra das Mesas, já que as camadas graníticas, como se fosse uma cebola, apresentam formas absolutamente planas e em horizontal, de forma que dá lugar a «mesas», ou blocos cúbicos graníticos camadas, que o imaginário popular fez com que a serra recebesse esse nome.

De um lado, no declive da serra encontramos um lameiro ao sopé da serra, bastante amplo, em que há vários regueiros e encontramos até pequenos poços de água. Esse conjunto recebe, significativamente, o nome de Planalto do Lameirão e como curiosidade, caminhar entre a vegetação não resulta de todo fácil porque, para além dos regueiros, não é de todo chã. Aliás, como é típico das pradarias de tipo alpino, a terra apresenta-se mais arejada a causa da erosão ou meteorização que a neve e as geadas provocam. Daí que ao pisar o capim, pareça que estejamos a pisar uma superfície almofadada. Do outro lado, para norte, um pequeno conjunto de formações rochosas, separa esta zona do declive em que se encontra a nascente do Côa e o planalto que se segue ao lado da linha de fronteira.

Só resta agora passar um bom bocado a apreciar as fotografias. Espero que gostem!

Foto 1. Indicador em pedra da nascente do Côa.
Foto 2. Acesso à nascente e à Serra das Mesas. 
Foto 3. Nascente do Côa. Não resulta fácil encontrar o lugar porque não há sinalética nenhuma.
 Foto 4. Paisagem vista numa encosta da Serra das Mesas, com o Planalto do Lameirão em primeiro lugar.
 Foto 5. Planalto visto em direcção aos Fóios com o Planalto do Lameirão em primeiro plano.
 Foto 6. Vistas para a Serra da Estrela que as nuvens não permitem apreciar.
Foto 7. Vedação de arame e marco fronteiriço pouco antes de chegar ao ponto mais alto da serra.
Foto 8. Marco fronteiriço, visto do lado português.

Foto 9. Marco fronteiriço nas Mesas, a 1 265 metros de altitude.
Foto 10. Vista do marco fronteiriço e das formações graníticas em «mesas».
Foto 11. Vista, a partir do barrocal, para a Serra da Estrela e a planície da Beira Baixa.
Foto 12. Outra vista das Mesas, com leve nevoeiro.
Foto 13. Mesa dos Quatro Bispos, exemplo perfeito deste tipo de formações geológicas em «casca de cebola». O nome deve-se ao facto de coincidir, neste ponto, os limites das dioceses da Guarda, que substituiu a antiga diocese de Egitânia (actual Idanha-a-Velha), a diocese de Ciudad Rodrigo, que em tempos abrangia ainda os territórios de Ribacôa, na posse do reino de Leão, a diocese de Coria (hoje Coria-Cáceres) e a antiga diocese de Castelo Branco, hoje extinta, de forma que na realidade devia ser hoje  a Mesa dos «Três Bispos». Mas História é História...
Foto 14. A descer da Mesa dos Quatro Bispos, pela linha fronteiriça. Infelizmente a vedação que faz perigoso tentar um pulo, não nos permitiu aceder, para ver as paisagens, ao vale, já na Extremadura espanhola, em que estão situados os chamados «Três Lugares» (Valverde, As Elhas, S. Martino do Trevelho), em que se fala um dialecto galego-português. 
Foto 15. Outro marco fronteiriço.
Foto 16. Vista geral da vedação, do marco fronteiriço e da serra.



Ver Serra das Mesas num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Documento histórico: Cambedo da Raia (c. de Chaves) e a Guerra de Espanha

Com a inestimável ajuda de Luís Filipe Braz, um dos meus amigos do Facebook, pude obter um artigo jornalístico de 1987 relativamente aos acontecimentos que houve no Cambedo da Raia, na região do Alto Tâmega, no concelho de Chaves, em 1946 como consequência da Guerra de Espanha, relacionados com factos que tiveram lugar no outro lado da fronteira, no Alto Tâmega pertencente à Galiza.

Reproduzo aqui o artigo. As imagens poderão ser visualizadas num tamanho maior já que vou disponibilizá-las no meu mural de Facebook simplesmente clicando sobre elas. Apesar de alguma falta de definição, são perfeitamente legíveis. 

Espero que gostem e início com esta entrada a minha (demorada) rentrée neste último trimestre do ano.






terça-feira, 17 de julho de 2012

Elvas: Património Mundial

Como alguns dos meus leitores sabem, estou a frequentar um curso na Universidade de Coimbra, pelo que não tenho dado muita atenção ao blogue. No entanto, apesar de ser Verão, confio em poder continuar a escrever alguma que outra entrada desde que o tempo e a preguiça me deixem.

Mas antes do que tudo, tenho de falar, mesmo que seja com uma certa demora, de um facto importantíssimo para a cidade onde moro, Elvas. Finalmente o conjunto de muralhas e fortificações abaluartadas desta cidade da Raia foi reconhecido como Património Mundial pela Unesco. Parabéns! Já não era sem tempos!

Elvas merece isto e mais pela sua singularidade histórica enquanto guardiã da fronteira. Muitas batalhas, muitas guerras foram livradas neste cantinho do solo pátrio e hoje, por fim, todas essas infra-estruturas vêem  o seu valor ser reconhecido mundialmente. Espero que isto sirva para uma renovação da cidade, quer no aspecto do turismo que vem visitá~la, quer na oferta turística, quer nas mentalidades das pessoas no sentido de serem mais abertas a inovações e ao dinamismo que costuma trazer uma declaração assim.



 Foto 1. Aqueduto da Amoreira, ex-líbris da cidade.
Foto 2. Elvas vista da planície do Caia.

domingo, 24 de junho de 2012

Maravilhas da natureza da Raia: A Cidadella (Soutochao, c. de Vilardevós, Galiza)

Como alguns dos meus leitores sabem, a semana passada tive a oportunidade e o privilégio de assistir ao XVII Encontro da Associação de Fotógrafos e Bloggers «Lumbudus», sediada em Chaves. Como tenciono participar no concurso de fotografias, ainda não tenho previsto uma entrada para relatar os pormenores mais interessantes, já que não pretendo utilizar essas fotografias no blogue antes de saber se foram premiadas ou não para serem totalmente inéditas. Mas como a escapadela não se limitou ao encontro, aproveitei a oportunidade de visitar outros lugares da Raia entre a Galiza e a região do Alto Tâmega. Um desses lugares maravilhosos, mesmo na fronteira, é o lugar da Cidadella, situada na paróquia de Soutochao, localidade do concelho galego de Vilardevós, na parte do Alto Tâmega que pertence à Galiza.

O próprio nome já indica o seu carácter histórico, já que na montanha que separa o regueiro do Pontón da aldeia de Tomonte, uma aldeiazinha da mesma paróquia, existiu um povoado castrejo na Idade de Ferro com continuidade na época romana. Ao invés de outras partes do concelho, este canto não pertence à bacia do Tâmega, mas sim à do Tua. O regueiro do Pontón e o río que segue água abaixo na direcção da fronteira, entrando em Portugal pela localidade de Segirei (Xixirei em galego), que pertence à freguesia de S. Vicente da Raia, do concelho de Chaves.

A estrada que liga Segirei com Soutochao pertence ainda a um dos percursos do caminho de Santiago da Via da Prata que, de Zamora, entra em Portugal por Quintanilha (f. do c. de Bragança) e segue por Vinhais praticamente de forma idêntica a uma das vias romanas que ligavam Braga com Astorga (as antigas Bracara Augusta e Asturica Augusta). Atravessando o rio Mente, rio em que desagua o regueiro do Pontón, sendo este um afluente do Rabaçal que com o Tuela formam o rio Tua poucos quilómetros antes de chegar a Mirandela, a rota segue por Segirei e entra em terras galegas pela Cidadella, num marco incomparável de azenhas, açudes e cascatas.

O espaço, condicionado pelo concelho de Vilardevós dentro das Rotas do Contrabando, é hoje um parque de lazer com zona de parque de merendas, grelhadores, e sendeiros que transmitem ao visitante uma sensação de paz e harmonia com a Natureza. Frente às montanhas íngremes nas quais se mistura o mato, culturas em socalcos e floresta não autóctone, nas ribeiras do regueiro do Pontón temos um maravilhoso exemplo de vegetação atlântica e de ribeira, com espécies verdejantes que invitam à descontracção num dia quente de Verão. Como em todo bosque atlântico, é característica a presença de espécies vegetais de menor porte como os fetos, amoreiras e relvados em geral. A área recreativa tem um comprimento de dois quilómetros e esta sinalizada em todo o seu percurso, a começar por um moinho ou azenha restaurada da qual ainda é possível ver a mó no lugar que é conhecido como Lombeiro do Muiño (Muiño=moinho em galego). O ribeiro segue por uma série de quedas d'água pequenas serpenteante e represado por um açude que dá lugar a um pequeno estanque e uma pequena mas bela cascata. De súbito, deixamos essa vegetação densa e passamos a uma zona rochosa com apenas giestas e a rocha desnuda. Lá o regueiro dá passo a uma pequena cascata que forma uma poça de água que invita ao banho. A paisagem abre-se de repente e vemos já a oeste o Alto do Lombo da Trave, na região da Lomba, no Parque Natural de Montesinho, já no concelho de Vinhais.

Mas o percurso reserva-nos uma surpresa. Numa espécie de miradouro, encontramos uma cabana de pastores de forma circular, quase como que nos lembrando o habitat típico dos povoados castrejos, e última parte do espaço de lazer. É lá que observamos uma vista belíssima: em primeiro plano, uma grande cascata a arroiar pela rocha do regueiro do Pontón, a cair quase a prumo, à direita, as chamadas Casas do Castelo, da aldeia do Tomonte, ao sopé da Cidadella, e a sul o vale que forma o rio Mente e seus afluentes e uma bela panorâmica de Segirei, uma ímpar aldeia transmontana berço de alguns dos companheiros de fadigas da Lumbudus, e com uns enchidos sem par. E, obviamente, não podemos esquecer o aguardente de ervas, que é mesmo eficaz. Se tiver algum tipo de bactéria no gargalo, posso assegurar que mata qualquer bicho que lá estiver. Dou fé! E praticamente ao lado, um marco fronteiriço: já estamos em Portugal, se bem a estrada será partilhada entre Portugal e a Galiza durante umas centenas de metros, até encontrarmos outro marco fronteiriço que nos indica que a entrada em Portugal é plena. Como obviamente o asfaltado da estrada não pode ser em vertical, o piso muda no meio dos dois marcos fronteiriços.

Os desníveis neste espaço são notáveis. O cume da Cidadella quase atinge os 750 m. de altitude, enquanto o Lombeiro do Muiño, início deste percurso, fica já a um pouco menos de 700 m. O regueiro continua a perder altitude de forma que a primeira cascata está situada já a pouco mais de 640 m. e a cabana de pastores,já na mesma linha de fronteira, está situada a meia encosta de um pequeno outeiro a 643 m. de altitude. A queda da segunda cascata é espectacular já que em poucos metros passamos dos 640 m. a pouco mais de 590, isto é, uma queda de cerca de 50 m.! Daí o rio serpenteia até desaguar em Segirei a menos de 500 m. de altitude. Uma bela praia fluvial, situada entre os 470 e os 480 m. podemos encontrar e bem acondicionada entre Segirei e a aldeia de Sandim, já na Lomba, no concelho de Vinhais.

No entanto, estas terras, como terras de fronteira, foram objecto de avanços e recuos da mesma.  Importa salientar que Soutochao já aparece num documento de 1029 como Soutu Planu e deveu formar parte da Terra de Baroncelli, que segundo a Portugaliae Monumenta Historica. Diplomata et Chartae, formou parte do Condado Portucalense no século XI, sendo que depois foi disputada entre as dioceses de Ourense e Braga, para depois ser dividida nos tempos do rei D. Afonso Henriques, quando Verín forma parte já do reino de Leão e Castela em 1155. No entanto, Soutochao e outras aldeias do concelho de Vilardevós são mencionadas num foral português de 1325 dado à povoação Santa Cruz do Extremo, hoje extinta, e que fracassou enquanto localidade, mas que já mostra, segundo o seu epíteto, a sua situação fronteiriça. Estas terras continuariam na posse do reino de Portugal até 1487, ano em que provavelmente a fronteira nesta região foi definida aproximadamente com os limites actuais.

Sem dúvida é um lugar a não perder e que resulta ideal para visitar as aldeias de fronteira e o vizinho concelho de Vilardevós, onde existe ainda o interessante Museu do Contrabando. Uma paz bucólica é possível encontrar nesta região entre Chaves e Verín, no espaço raiano entre estas e o Parque Natural de Montesinho, decerto muito pouco conhecida, mas igualmente surpreendente. Não perca!

Foto 1. Regueiro do Pontón no Lombeiro do Muiño.
Foto 2. Moinho ou azenha restaurada.
Foto 3. Mó do moinho.
Foto 4. Parque de merendas na envolvente do moinho.
Foto 5. Açude no regueiro do Pontón.
Foto 6. De caminho às cascatas.
Foto 7. Início das cascatas do regueiro.
Foto 8. Vista geral da primeira cascata.
 Foto 9. Vista parcial da cascata e da poça.
Foto 10. O regueiro antes da segunda cascata.
Foto 11. Vale do rio Mente visto da primeira cascata com o Alto do Lombo da Trave à esquerda, já no Parque Natural de Montesinho e no concelho de Vinhais (região da Lomba). 
Foto 12. Vista da cabana de pastores com o planalto da Lomba ao fundo.
Foto 13. Regueiro do Pontón já em terras portuguesas. Repare-se na ampla queda. 
Foto 14. Casas do Castelo com culturas em socalcos, da aldeia do Tomonte, paróquia de Soutochao, concelho de Vilardevós. 
Foto 15. Cabana de pastores e paisagem envolvente, com desníveis importantes.
Foto 16. Vista geral de Segirei (f. de S. Vicente da Raia, c. de Chaves), visto do miradouro.
Foto 17. Segunda cascata do regueiro do Pontón, com uma queda espectacular.
Foto 18. Marco fronteiriço visto do lado da Galiza, perto do miradouro.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

P.S. Existe um interessante site relativamente à aldeia de Soutochao em galego, espanhol e inglês, em que é possível encontrar mais informações acerca da região. De Segirei, embora tenha a intenção de lhe dedicar uma entrada exclusiva, há o magnífico site da grande conhecedora da aldeia Tânia Oliveira. Vale a pena dar uma olhadela!