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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Castelos da Raia: Castelo Bom (c. de Almeida, Beira Alta)

Se há um lugar de concentração de castelos em Portugal temos de falar, sem esquecer o Alentejo, da Beira Alta, designadamente do distrito da Guarda. Isto por vários motivos: o primeiro, o facto de ser, obviamente, uma região raiana; o segundo, por ter sido sede de vários concelhos, hoje extintos, que tinham as suas próprias fortificações; e o terceiro, é a sua especificidade histórica: houve uma Raia dupla.

Historicamente esta região raiana formou as chamadas terras de Ribacôa, que compreendiam as terras entre o rio Côa e a Raia formada pelo limite Águeda-Tourões e a Raia Seca de Vilar Formoso até aos Fóios, no Sabugal. Essas terras pertenceram até 1297, data do Tratado de Alcanices, ao reino de Leão, se bem que o rei D. Dinis já as tinha ocupado em 1295, aproveitando a situação de guerra civil em Castela. Um desses castelos foi o castelo de Castelo Bom, que é o tópico desta entrada.

Castelo Bom só começa a ter importância na Idade Média. Para além de uma espada da Idade do Bronze, nada se sabe relativamente à ocupação humana da localidade até ao século XI. A expansão do reino asturiano no século IX que estabilizou as fronteiras com os muçulmanos no Baixo Mondego a Sul e numa linha de castelos na Beira Alta (Trancoso, Mêda, Marialva, Longroiva) de grande importância no século X, foi travada pelas razias muçulmanas que recuperaram o território ao Sul do Douro, com excepção da Terra da Feira. Na Beira Alta teremos de esperar às campanhas de Fernando I de Leão e Castela para falar na recuperação do território, que terá incluído Castelo Bom. No entanto, o concelho só foi criado logo no início do século XII após uma tentativa fracassada de D. Raimundo de Borgonha, sendo que a sua esposa Dª. Urraca deu impulso à localidade, que já fazia fronteira com o Condado Portucalense. Os primitivos povoadores terão vindo da Galiza, Leão e Salamanca. Com o seu filho, Afonso VII de Leão e Castela, o chamado Imperador, recebeu o seu primeiro foral.

Com a independência portuguesa, a localidade torna-se alvo de disputas. Não devemos esquecer a sua proximidade ao rio Côa, mesmo a frente da outra grande fortaleza nesta região: Castelo Mendo. De facto, D. Afonso Henriques, tê-la-á ocupado brevemente em 1170 quando se dirigiu a Ciudad Rodrigo, cidade que conquistou, mas não reteve por muito tempo. A sua importância estratégica levou o rei Afonso IX de Leão a outorgar-lhe foral em 1209. Apesar das tentativas de ocupação portuguesa, só D. Sancho II conseguirá este objectivo, ficando em suas mãos entre 1240 e 1245. A passagem a mãos portuguesas só será possível com D. Dinis, quem após a sua ocupação em 1295 dá-lhe foral em 1296 e assegura a sua posse no Tratado de Alcanices em 1297.

A dominação portuguesa não significou mais calma, apesar da fronteira ter-se apagado nas margens do rio Côa. Registe-se o facto de Castelo Bom ficar a apenas 6 km. de Vilar Formoso, localidade em que ficou a nova demarcação fronteiriça. Contudo, é nesta época quando atinge o seu máximo auge, sendo que com D. Fernando I o castelo é reforçado com uma cintura principal, a Praça de Armas e uma barbacã. Essa situação parece que não durou muito, visto que no Livro das Fortalezas de Duarte de Armas mostra-se o castelo mas já num avançado estado de degradação, o que leva o rei D. Manuel I a dar-lhe foral novo em 1510 e a ordenar a reparação do castelo. Na Guerra da Restauração desempenhou um importante papel na defesa contra as tropas castelhanas, assegurando a independência definitiva do território nacional. No entanto, na Guerra dos Sete Anos e na Guerra Peninsular não teve tanta sorte. De facto, na Terceira Invasão Francesa, as tropas napoleónicas destruíram as fortificações e a localidade ficou devotada à ruína e os seus habitantes à fome, sem poder recuperar o esplendor passado.

Daí o seu declínio que levou o concelho a ser extinto em 1834, quando passou a formar parte do concelho de Almeida. A aldeia, quase em ruínas, era muito pobre, facto que motivou os seus habitantes a destruírem o castelo para aproveitarem as pedras para a construção. A nova linha ferroviária da Beira Alta, que poderia ter sido um novo foco de desenvolvimento, não teve nenhum efeito já que passou ao lado na direcção de Vilar Formoso, que ia aos poucos ampliando as suas funções comerciais e de serviços ligados à estação ferroviária e à Guarda Fiscal, com o trânsito alfandegário. Daí a forte emigração, de início às aldeias vizinhas ou para Vilar Formoso, mas na década de sessenta e setenta para a França. Nem o património se salva quando na década de quarenta a Torre de Menagem é derrubada por um aldeão que pretendia construir uma casa de abrigo para o seu burro!

No entanto, na década de oitenta e noventa foram feitos trabalhos de recuperação. Hoje é considerada uma das Aldeias Históricas de Portugal, se bem que na realidade não o é porque a sua candidatura foi retirada, não se sabe porquê, em 1991. Este facto, porém, permitiu uma restauração integral do centro histórico, fazendo com que passear pela aldeia seja hoje uma actividade de lazer muito prazenteira. É por isso que esta entrada tem mais fotos do que o costume e mesmo assim é impossível captar o ambiente se não se estiver lá. Contudo, espero que desfrutem!

Foto 1. Antigos Paços do Concelho.
Foto 2. Solar do Largo da Igreja. 
Foto 3. Casa da Rua Direita.
Foto 4. Estátua de um peregrino a Santiago.
Foto 5. Poço da Escada.
Foto 6. Casa alpendrada.
Foto 7. Outra casa alpendrada.
Foto 8. Vale do Côa visto das muralhas com a aldeia de Senouras ao fundo.
Foto 9. Outra casa alpendrada.
Foto 10. Casas alpendradas típicas da Beira.
Foto 11. Largo do Revelim.
Foto 12. Lateral da Igreja Matriz (Nossa Senhora da Assunção).
Foto 13. Largo do Revelim (outra perspectiva).
Foto 14. Muralhas medievais.
Foto 15. Cisterna.
Foto 16. Muralhas medievais com vistas à N16 e a A25.
Foto 17. Muralhas e Porta da Vila.
Foto 18. Mais casas alpendradas e Casa do Fidalgo.
Foto 19. Casa do Fidalgo à direita com os antigos Paços do Concelho ao fundo.
Foto 20. Igreja matriz. Fachada.
Foto 21. Pelourinho no Largo da Igreja.
Foto 22. Vale do Côa visto das muralhas medievais na direcção de Castelo Mendo (antiga fronteira).
Foto 23. Planalto granítico visto das muralhas medievais na direcção de Vilar Formoso.
Foto 24. Parte da localidade extra muros.



Ver Castelos da Raia: Castelo Bom num mapa maior
Mapa 1. Mapa da região.


Ver Castelos da Raia: Castelo Bom num mapa maior
Mapa 2. Mapa específico.

domingo, 21 de outubro de 2012

Fronteiras: Serra das Mesas - Nascente do rio Côa (f. dos Fóios, c. do Sabugal)

Depois de uma etapa de inactividade, volto com energias renovadas ao blogue para continuar com o percurso por estas nossas terras raianas. Realmente as férias foram mesmo muito boas, mas o retorno não foi assim tanto, talvez por oposição ao lazer descontraído que costumamos ter quando estamos fora de casa. A questão é que não me apetecia fazer nada; daí a minha demora em publicar mais entradas ou atender as minhas contas do Facebook e do Twitter. Celebro que, entretanto, o número de visitantes e o número de «fãs» que aderiram ao blogue tenha aumentado até aos 54 amigos actuais na rede social Google e aos 191 no Facebook. Umas calorosas boas-vindas para todos eles!

Aproveitando a minha viagem recente que me levou, entre outras partes, ao interessantíssimo concelho do Sabugal, no distrito da Guarda, na Beira Interior, vou falar hoje da Serra das Mesas e da nascente do rio Côa. Da vila do Sabugal, da qual teremos oportunidade de falar noutra entrada, uma estrada serpenteia seguindo o curso do rio Côa pelas aldeias de Quadrazais, Vale do Espinho e, finalmente, os Fóios. As paisagens são absolutamente maravilhosas, pois contornam a Serra da Malcata, indicada convenientemente nos trilhos que existem ao longo da estrada e que nos permitem fazer caminhadas em plena natureza. Para quem desejar um refrescante banho num dia quente de Verão, existe um pequeno parque de merendas à saída de Quadrazais, um caminho de terra batida que em 200 metros leva-nos ao rio Côa e à reserva natural da Serra da Malcata, sendo que o rio oferece uma bela vista do lugar, contornado por árvores que fornecem sombra e dão esse ar fresco pretendido em dias quentes. A água costuma estar fresca e é altamente relaxante e o banho é absolutamente seguro porque permite-nos mergulhar no rio sem que exista perigo por afogamento, devido à escassa profundidade, já que não chega a cobrir uma pessoa de tamanho médio.

Uma vez passada a aldeia dos Fóios, freguesia e sede da mesma, na qual encontraremos belos exemplos de casas tradicionais e até restaurantes que por um bom preço permitem-nos deliciarmo-nos com uma boa refeição, a estrada começa uma subida, de início suave, como aliás, tem-se verificado a partir do ponto em que a apanhamos no Sabugal, para iniciar uma subida com mais pendente onde não raro, encontraremos, dependendo da hora, rebanhos de ovelhas com o pastor e o cão a guiá-las, cena absolutamente linda e que nos faz entrar em comunhão com a natureza. Ao chegarmos a um pequeno planalto em que encontrámos um entroncamento de estradas: de um lado podemos seguir pelo caminho de terra batida (em mau estado, diga-se tudo) que nos leva à Serra Alta, na qual está situado um parque eólico e da qual temos belas vistas da peneplanície de Ribacôa e das vizinhas terras da província de Salamanca. A frente continua a estrada para a localidade raiana da Aldeia do Bispo; à direita, com sinalização «Espanha», é possível chegar ao limite fronteiriço entre os Fóios e Navasfrías, aldeia de Salamanca da qual temos falado e que, neste caso, apresenta a particularidade de que a estrada portuguesa, asfaltada, dá lugar a um caminho de terra batida no outro lado da fronteira.

No entanto, mesmo à entrada, no início da estrada a Navasfrías, temos uma estrada que vai para a nascente do rio Côa e a Serra das Mesas. Uma estrada que, como teremos ocasião de ver noutra entrada, tem como particularidade que numa parte dela, a fronteira decorre mesmo ao lado. Por uma paisagem de floresta de abetos, carvalhos negros e castanheiros, sempre a mais de 1 000 metros de altitude, serpenteamos uma espécie de planalto que abandonamos logo quando, numa curva, iniciamos o ascenso à Serra das Mesas, contornando-a. Perto do seu final, uma pedra avisa-nos que estamos perante o trilho pelo qual podemos aceder à nascente do rio Côa e à parte mais alta da Serra. 

Iniciado o caminho, a nascente não fica muito longe, se bem o rio Côa é mais um produto da união de vários regueiros que podem ser, qualquer um, a sua nascente. Tradicionalmente, no entanto, é a que vamos ver nas fotos, a que foi considerada como sendo a própria. Uma vez visto este pequeno recanto, podemos iniciar uma ascensão à serra é bem cedo encontramo-nos com uma vedação de arame, que lembra os tempos da outra senhora, e os marcos fronteiriços que delimitam a linha de fronteira, que em alguns pontos, não segue exactamente a linha de cumes, mas sim a encosta superior da serra vista do lado português. Como as visitas que fiz foram na Primavera e o Outono, as fotografias são de diferentes estações, já que tive azar. Na primeira vez, enquanto a minha mulherzinha, com o almoço no bandulho e pouca vontade de sair do carro (estava frio e havia até restos de neve), ficou lá, a ler, sossegadinha, um livro, eu não pude completar a visita, não pelo frio, se bem que em alguns momentos a caminhada era um bocado perigosa a causa da humidade, que favorecia o escorregamento nas rochas graníticas da serra, mas sim porque começou a cair uma forte tormenta de granizo e apanhei uma saraivada do caraças. Tanto foi assim que tive de ir na farmácia mais próxima, já em Vilar Formoso, comprar um xarope e comprimidos para a constipação! Na segunda ocasião também choveu e até escorreguei, mas consegui acabar de visitar o lugar e completar as fotografias que tinha em falta. É por isto que esta entrada é fruto de experiências um bocado atribuladas. Espero que apreciem, se não, ainda vos bato!

Como estava a dizer, essa vedação que segue a linha de fronteira, continua até um ponto em que a serra eleva-se ate ao ponto mais alto, de 1 265 metros, em que está situado ainda outro marco fronteiriço. Daí em  pronunciado declive inicialmente e depois de forma suave, a linha de fronteira curva-se para dar a sua continuidade pela Serra da Malcata. 

A paisagem envolvente resulta do mais interessante. A própria Serra das Mesas forma parte da Serra da Malcata, sendo o seu ponto de ligação com a Serra de Gata, que separa Salamanca da Extremadura espanhola. Ambas as duas serras fazem parte da chamada Cordilheira Central, no seu sector ocidental, que terá continuidade na Serra da Estrela. Mas esta serra apresenta uma particularidade muito interessante. Não é apenas o facto de ser uma serra fundamentalmente granítica, mas sim o modelado, que evidencia uma evolução geológica ímpar. Cá não encontramos a típica paisagem beirã de barrocais, com penedos graníticos arredondados e formas caprichosas fruto da erosão como podemos ver, por exemplo, na aldeia de Monsanto, caso típico de caos granítico ou Inselberger. Neste caso, a meteorização, isto é, os processos erosivos, foi de tipo esferoidal, dando lugar à chamada meteorização em «casca de cebola». É precisamente isto o que dá nome à Serra das Mesas, já que as camadas graníticas, como se fosse uma cebola, apresentam formas absolutamente planas e em horizontal, de forma que dá lugar a «mesas», ou blocos cúbicos graníticos camadas, que o imaginário popular fez com que a serra recebesse esse nome.

De um lado, no declive da serra encontramos um lameiro ao sopé da serra, bastante amplo, em que há vários regueiros e encontramos até pequenos poços de água. Esse conjunto recebe, significativamente, o nome de Planalto do Lameirão e como curiosidade, caminhar entre a vegetação não resulta de todo fácil porque, para além dos regueiros, não é de todo chã. Aliás, como é típico das pradarias de tipo alpino, a terra apresenta-se mais arejada a causa da erosão ou meteorização que a neve e as geadas provocam. Daí que ao pisar o capim, pareça que estejamos a pisar uma superfície almofadada. Do outro lado, para norte, um pequeno conjunto de formações rochosas, separa esta zona do declive em que se encontra a nascente do Côa e o planalto que se segue ao lado da linha de fronteira.

Só resta agora passar um bom bocado a apreciar as fotografias. Espero que gostem!

Foto 1. Indicador em pedra da nascente do Côa.
Foto 2. Acesso à nascente e à Serra das Mesas. 
Foto 3. Nascente do Côa. Não resulta fácil encontrar o lugar porque não há sinalética nenhuma.
 Foto 4. Paisagem vista numa encosta da Serra das Mesas, com o Planalto do Lameirão em primeiro lugar.
 Foto 5. Planalto visto em direcção aos Fóios com o Planalto do Lameirão em primeiro plano.
 Foto 6. Vistas para a Serra da Estrela que as nuvens não permitem apreciar.
Foto 7. Vedação de arame e marco fronteiriço pouco antes de chegar ao ponto mais alto da serra.
Foto 8. Marco fronteiriço, visto do lado português.

Foto 9. Marco fronteiriço nas Mesas, a 1 265 metros de altitude.
Foto 10. Vista do marco fronteiriço e das formações graníticas em «mesas».
Foto 11. Vista, a partir do barrocal, para a Serra da Estrela e a planície da Beira Baixa.
Foto 12. Outra vista das Mesas, com leve nevoeiro.
Foto 13. Mesa dos Quatro Bispos, exemplo perfeito deste tipo de formações geológicas em «casca de cebola». O nome deve-se ao facto de coincidir, neste ponto, os limites das dioceses da Guarda, que substituiu a antiga diocese de Egitânia (actual Idanha-a-Velha), a diocese de Ciudad Rodrigo, que em tempos abrangia ainda os territórios de Ribacôa, na posse do reino de Leão, a diocese de Coria (hoje Coria-Cáceres) e a antiga diocese de Castelo Branco, hoje extinta, de forma que na realidade devia ser hoje  a Mesa dos «Três Bispos». Mas História é História...
Foto 14. A descer da Mesa dos Quatro Bispos, pela linha fronteiriça. Infelizmente a vedação que faz perigoso tentar um pulo, não nos permitiu aceder, para ver as paisagens, ao vale, já na Extremadura espanhola, em que estão situados os chamados «Três Lugares» (Valverde, As Elhas, S. Martino do Trevelho), em que se fala um dialecto galego-português. 
Foto 15. Outro marco fronteiriço.
Foto 16. Vista geral da vedação, do marco fronteiriço e da serra.



Ver Serra das Mesas num mapa maior
Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Património raiano: Convento (mosteiro) de Santa Maria de Aguiar

 No concelho de Figueira de Castelo Rodrigo encontramos um rico património histórico e arquitectónico ao qual não foi alheia a constituição da fronteira. Um exemplo disso é o mal chamado Convento de Santa Maria de Aguiar, que na realidade era um mosteiro e que fica situado na freguesia de Castelo Rodrigo, a apenas 11 km. da fronteira com a província de Salamanca, em plena Beira Interior, entre a capital do concelho e a aldeia de Almofala, de clara ressonância árabe.

O mosteiro, do qual restam a igreja e algumas das antigas dependências, tem, no entanto, muita história envolvida. Já no Parochiale Suevum de 569 é mencionada a diocese de Caliábria, que tradicionalmente tem-se associado a este mosteiro ou algum ponto dos arredores e que sofreria um colapso aquando da invasão muçulmana da Península Ibérica, presença que foi bem sentida na região a julgar pelo arco de tipo árabe situado na Cisterna da aldeia de Castelo Rodrigo, freguesia à que pertence o mosteiro. Após a «reconquista» asturiana do Condado Portucalense e todas as terras até ao Baixo Mondego, a condessa Dª. Châmoa Rodrigues (ou Flâmula), sobrinha de Mumadona Dias, condessa do Condado Portucalense e bisneta de Vímara Peres, teve no seu poder uma série de castelos na linha da Beira Alta como Longroiva, Mêda, Marialva ou Trancoso, lá para o século X, como pontos avançados de uma fronteira que visava controlar o território e evitar uma invasão vinda do planalto que se estende pelas actuais terras de Salamanca e Riba Côa, roto apenas por serras como a Serra da Marofa e pelo curso dos rios, cada vez mais encaixados nas rochas graníticas, formando arribas mais profundas segundo avançamos até ao Douro. Obviamente, Santa Maria de Aguiar não fazia parte do reino asturiano primeiro e do reino de Leão depois.

A data da fundação do mosteiro não resulta fácil de desvendar. Para Alexandre Herculano, Pai da historiografia medieval portuguesa, ter-se-ia instalado uma comunidade de monges beneditinos em meados do século XII, quando o território de Riba Côa já estaria na posse do reino de Leão. Para o historiador Rui Pinto de Azevedo, influenciado talvez pela retórica nacionalista da época, o mosteiro teria sido de fundação portuguesa e não leonesa, mais concretamente pelo rei D. Afonso Henriques, segundo o seu artigo de 1962. Seria na década de 1170 quando o convento abraçaria a ordem cisterciense dando lugar à construção do mosteiro que vemos hoje e que tanta atenção prestava à água como elemento básico da vida em comunidade aproveitando a proximidade da ribeira de Aguiar e as canalizações construídas para o efeito. Os edifícios que restam hoje em dia restam a igreja que pretendia ser ainda maior mas que afinal foi mais modesta, talvez por falta de verbas, e a Sala do Capítulo, construídas durante os séculos XIII e XIV. Em tempos posteriores houve aditamentos, nomeadamente nos séculos XVI a XVIII para adaptar o convento às necessidades do momento. As invasões francesas aquando da Guerra Peninsular e a extinção dos conventos em 1834 deram como resultado um estado de abandono que só viria concluir na quarta década do século passado quando começaram os primeiros restauros efectuados com cargo ao Estado e que tiveram continuidade até hoje, com as campanhas do IPPAR.

O mosteiro não recuperou, no entanto, o seu antigo status de sede de diocese que passou à nova fundação, em 1161, de Ciudad Rodrigo, data em que foi restaurada. A nova mitra mirobrigense, no entanto, teria como território natural as terras do Oeste da actual província de Salamanca e as terras de Riba Côa. Importa referir ainda que a existência do mosteiro parece estar relacionada com a formação da Ordem de S. Julião do Pereiro, que alguns referem como instituída pelo conde D. Henrique, sendo mais provável a sua fundação em meados do século XII. Esta ordem militar de origem leonesa teria a sua expressão a partir de 1218 na Ordem de Alcântara, pelo facto desta localidade conquistada aos almóadas ter sido encomendada a esta ordem, sendo que desde essa data a ordem passa a ter a sua sede central lá, o que fará com que o nome original caia no esquecimento e S. Julião do Pereiro passe a constituir apenas uma comenda desta ordem militar.

O mosteiro teve na sua posse importantes propriedades em toda a região, principalmente nos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida e até na vizinha província de Salamanca, designadamente a aldeia da Bouça (La Bouza), que lhe pertenceu até à sua dissolução em 1834. Pode dizer-se que foi o poder feudal de tipo religioso mais importante nas terras de Riba Côa. O reino de Leão dominou estas terras até 1295, quando o rei D. Dinis, aproveitando as lutas internas na coroa castelhana (Leão e Castela uniram-se em 1230, mas cada reino manteve no início as suas particularidades), ocupou esta região e conseguiu que fosse reconhecida para Portugal no Tratado de Alcanices de 1297. Isso não significou a sua decadência; antes pelo contrário: quando muitos mosteiros começam a entrar em declínio a causa do fim das doações piedosas da monarquia e da nobreza, Santa Maria de Aguiar consegue manter o seu domínio, se bem a sua posição raiana vai fazer que uma certa decadência comece a materializar-se já em meados do século XV, devido às contínuas guerras entre Portugal e Castela, que o convertiam em ponto sensível na fronteira. Do ponto de vista eclesiástico, o convento manteve-se na diocese de Ciudad Rodrigo até à reforma de 1403, que redefiniu os limites diocesanos evitando a presença de dioceses estrangeiras em território português. Daí que transitasse para a diocese de Lamego.

A visita do mosteiro é altamente recomendada pelo seu valor artístico e arquitectónico, para além da beleza da paisagem envolvente. Até porque lá mesmo temos um lugar óptimo para ficar, se quisermos optar por um lugar sossegado e longe da civilização, de retiro quase espiritual (expressão que vem mesmo a calhar) na Hospedaria. O mosteiro pode ser um ponto de partida para visitar a região com o seu património arquitectónico e cultural como o castelo de Almofala, a própria aldeia de Castelo Rodrigo, que faz parte das chamadas «Aldeias Históricas de Portugal», antiga sede do concelho até ao século XIX, Figueira de Castelo Rodrigo, a Serra de Marofa, da qual podemos contemplar umas vistas até aonde alcança a vista para as terras de Riba Côa e a peneplanície de Salamanca e a Cordilheira Central (Penha da França e Serras de Gata e Malcata) ou o Castelo de Castelo Melhor, aldeia onde também podemos visitar o Museu e as Gravuras Rupestres do Vale do Côa, Património Mundial. Um bocadinho mais longe poderemos visitar Barca d'Alva, com belas vistas do Alto da Sapinha, lugar em que é possível ver as amendoeiras em flor, precisamente no início do mês de Fevereiro e o ponto em que o rio Águeda desagua no Douro e este passa a ser inteiramente um rio português. Se ainda tivermos vontade, é possível dar um pulinho até Freixo-de-Espada-à-Cinta e ver o Penedo Durão, de belas vistas, neste troço do Parque Nacional do Douro Internacional; ou para sul, ver a vila abaluartada de Almeida ou Ciudad Rodrigo, que com Almeida e S. Felix dos Galegos faz parte das Rotas dos Castelos da Raia. Definitivamente, um roteiro altamente apetitoso que dá para um bom fim-de-semana aliciante em que perder-se nestes belos recantos no nosso país ou do vizinho.

 Foto 1. Mosteiro de Santa Maria de Aguiar visto de Castelo Rodrigo.
 Foto 2. Vista geral da igreja do mosteiro.
 Fotos 3. Interior do claustro do mosteiro.
 Foto 4. Entrada lateral Sul.
 Foto 5. Lateral nascente da igreja (cabeceira da igreja).
 Foto 6. Mísulas românicas da igreja com motivos diversos.
Foto 7. Outra vista da igreja.
Foto 8. Dependências do mosteiro (nascente).
Foto 9. Dependências do mosteiro (poente), actual hospedaria.
Foto 10. Castelo Rodrigo visto do mosteiro.

Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Aproveito a ocasião para dizer que mudei a fotografia do fundo. Neste caso, trata-se de uma vista a partir do miradouro do Alto da Sapinha, mencionado no texto, na confluência do rio Águeda com o Douro em Barca d'Alva, aldeia que actualmente tem cais ou embarcadouro de cruzeiros pelo rio Douro e onde podemos apreciar a famosa ponte internacional da antiga ferrovia (já ferrugenta) e a decadência de uma gare que foi muito movimentada até ao encerramento da linha em 1988, após a linha espanhola até Salamanca ter feito o mesmo em 1985.