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terça-feira, 23 de abril de 2013

Miradouros da Raia: Penedo Durão (f. de Poiares, c. de Freixo de Espada à Cinta, Douro Internacional)

No concelho de Freixo de Espada à Cinta, na freguesia de Ligares, no Douro Internacional, encontrámos um belíssimo miradouro conhecido como Penedo Durão, situado a 727 metros de altitude. O miradouro configura-se como uma escarpa que cai quase a prumo para os lados da margem direita do Douro, na sua secção internacional, contrastando com o suave declive do planalto em que está situada a aldeia de Poiares, freguesia em que se insere o Penedo.

A freguesia inteira merece uma visita, tanto pela possibilidade de dar um passeio pela aldeia de Poiares, bem como pela existência de paisagens invulgares, de domínio de quartzitos, nos quais é possível observar a disposição dos materiais sedimentários do Paleozóico em dobramentos que a acção erosiva deixou ao descoberto, nomeadamente o chamado «sinclinal de Poiares». Aliás, e um bom lugar para quem goste da observação de aves, designadamente rapazes.

O penedo permite a observação de ambas as margens do Douro, no Douro Internacional. Do lado transmontano, o Planalto Mirandês foi substituído progressivamente por pequenos planaltos encerrados entre montanhas que, à beira do Douro, dão lugar a paisagens de arribas muito íngremes, como é o caso do Penedo Durão, que realmente não se eleva muito em relação ao planalto situado nas suas costas dado que este fica entre os 550 e os 650 metros. A beira-Douro encontramos já as clássicas paisagens em socalcos do Alto Douro Vinhateiro, com pequenas quintas que aproveitam um micro-clima especial, muito mais quente e resguardado dos rigores invernais em que a amendoeira e a oliveira florescem mais cedo lá onde o terreno não é apropriado para a cultura da videira. 

Do lado de Salamanca contrasta a escassa utilização do solo a nível do rio, existindo apenas uma pequena aldeia, hoje centro de férias chamada Aldeaduero, na foz do Huebra, que foi construída aquando da construção do «Saltinho», isto é a Barragem de Saucelle, a última das barragens do Douro Internacional, antes de entrar inteiramente em Portugal, para além de uma pedreira numa escalvada montanha situada perto da Fregeneda, a última estação espanhola da linha que ligava o Porto com Salamanca e que fora desactivada na década de oitenta do século passado. Para lá da zona das arribas, podemos observar uma extensa paisagem planáltica que se estende de Lagoaça até Barca d'Alva, pertencente à chamada peneplanície zamorano-salmantina, na parte ocidental da Meseta central, incluindo as terras de Ribacôa. De facto, é possível observar o outeiro em que está situada a aldeia de Castelo Rodrigo e a Serra da Marofa, a mais de 50 km. de distância pela estrada fora. A paisagem, no entanto, muda radicalmente, já que ao lado de espécies como o carvalho negral, o pinho e o castanheiro, encontramos outras mais meridionais como a azinheira que anunciam já uma particular paisagem de montado com certas similaridades com o Alentejo, se bem que adaptada aos rigores particulares dos frios do Inverno e dos calores do Verão.

Sem dúvida, um miradouro para dar um passeio de meia tarde ou numa rota em combinação com outros como o das Alminhas, Colado, Carrascalinho e Cruzinha, todos eles sem sair do concelho de Freixo de Espada à Cinta. E é claro, visitar a vila e as aldeias, sem deixar de comprar alguns dos produtos locais, entre os quais recomendo o azeite e o vinho de uma cooperativa do concelho.

Foto 1. Paisagem do Douro Internacional , antes do «Saltinho», com as terras de Salamanca do outro lado Douro. 
Foto 2. Barragem de Saucelle vista do Penedo Durão.
Foto 3. Aldeia de Saucelle vista do Penedo.
Foto 4. O «Saltinho» visto mais de perto, quase como que a ser sobrevoado.
 Foto 5. Vista do Douro, do rio Huebra e de Aldeaduero, com o planalto salmantino ao fundo.
 Foto 6. Vista da peneplanície salmantina, com o Miradouro do Penedo Durão em primeiro plano.
Foto 7.  Vista do Douro Internacional com a aldeia de Castelo Rodrigo ao fundo (pequeno outeiro da esquerda) e a Serra da Marofa, já na Beira Alta e nas terras de Ribacôa.
Foto 8. Foz do rio Huebra, a desaguar no Douro.
Foto 9. Vista geral de Poiares, em que o planalto de Salamanca quase não se distingue e não permite intuir as impressionantes paisagens que nos esperam.
Foto 10. Pôr-do-sol em Poiares com vistas para as terras planálticas da Beira Alta e Beira Transmontana (c. Vila Nova de Foz Côa e Mêda).


Mapa 1. Mapa de localização.

Mapa 2. Mapa específico.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Castelos da Raia: Santo Estêvão (c. de Chaves, Alto Tâmega)

Na região do Alto Tâmega existem várias fortificações que deixaram o seu testemunho vivente após séculos de guerras contínuas, testemunhos mudos do que num tempo passado foram as linhas defensivas de uma fronteira maleável que era atravessada facilmente logo que havia uma guerra, semeando confusão, destruição e morte. Mas não, hoje não nos ficamos pelo lado negro da guerra, que os há, sem dúvida, mas sim pela beleza dos castelos que serviram para defender uma região aberta e sem pontos visíveis de separação como é a região do Alto Tâmega.

Falamos nesta ocasião do castelo de Santo Estêvão, na vila e freguesia do mesmo nome, no concelho de Chaves e a apenas 7,5 km. do limite com a Galiza, pela fronteira de Vila Verde da Raia, localidade e freguesia com a que limita. Embora existam restos de ocupação humana já na época romana, parece que foi nos tempos do conde D. Henrique de Borgonha, aquando do seu casamento com D. Teresa, filha de Afonso VI de Leão e Castela, que o castelo terá sido parte do dote, pelo que a região do Alto Tâmega terá passado a formar parte do Condado Portucalense, sendo que esta seria a primeira menção escrita de Santo Estêvão, lá pelo ano de 1093.

Com D. Afonso Henriques, nosso primeiro rei, terá começado a construção do castelo, não sendo concluído até ao reinado de D. Sancho I. A sua filha, Teresa, casou com o rei Afonso IX de Leão, apesar de ser seu primo (motivo que levou à Santa Sé a anular o matrimónio, facto que o rei leonês só acatou depois de vários anos) e viveram no castelo outros filhos do rei como Dª. Mafalda, Dª. Sancha e o infante D. Afonso, que sucedeu o seu pai. No entanto, na sequência de uma invasão leonesa em 1211, o castelo e a localidade ficaram em mãos do rei de Leão até à Convenção de Sabugal de 1231 quando foi devolvida pelo  rei Fernando III de Castela após a união das duas coroas, Leão e Castela numa só, ao rei de Portugal D. Sancho II. 

Foi neste castelo que D. Afonso III casou com Dª. Beatriz, em segundas núpcias, filha do rei sábio Afonso X de Castela em 1253 residindo lá um tempo. Talvez por isso em 1258 a povoação recebeu foral e criou-se o concelho de Santo Estêvão de Chaves, iniciando-se de novo uma reconstrução do castelo. Foi aqui ainda que o rei D. Dinis recebeu a Rainha Santa Isabel. Na crise de 1384-1385, as tropas do rei D. João utilizaram o castelo para o assalto à cidade de Chaves, que era partidária de Castela. O castelo voltará a ter protagonismo uma última vez em 1666 no marco da Guerra da Restauração, em que foi seriamente danificado, sendo a localidade incendiada e arrasada. Os restos foram acrescentados à Igreja Matriz e utilizados como residência paroquial, facto que explica a sua estranha configuração.

Do castelo resta uma torre de menagem, com ameias na parte superior, janelas de estilo gótico e portas ogivais e construção em silharia flanqueada hoje por um belo jardim na fachada principal. Separada apenas por uma vivenda, a igreja matriz apresenta uma torre-sineira ou campanário que na realidade não é mais do que uma torre, talvez uma das torres que marcavam a presença da muralha, que serve para esse propósito. Assim sendo, resulta muito interessante a sua visita e, mesmo apesar dos poucos restos existentes, ainda dá para perceber como deveu ser de importante a sua posição como sentinela da fronteira e como ponto de defesa.

Obviamente, esta visita resulta óptima quando combinada com a gastronomia, a natureza da região e um património ímpar, descobrindo os pequenos recantos que escondem segredos tão agradáveis quanto este. Espero que gostem!

Foto 1. Torre de Menagem do castelo de Santo Estêvão.
Foto 2. Torre de Menagem e jardim.
Foto 3. Torre-sineira da igreja matriz e canhões vistos da torre de menagem.
Foto 4. Torre-sineira e lateral da igreja matriz.
Foto 5. Fachada da Igreja Matriz.
Foto 6. Vale do Tâmega visto de Santo Estêvão.
Foto 7. Largo do Reduto (Santo Estêvão).
Foto 8. Capela de Santo Estêvão.


Mapa 1. Mapa geral.

Mapa 2. Mapa específico.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Documento histórico: Cambedo da Raia (c. de Chaves) e a Guerra de Espanha

Com a inestimável ajuda de Luís Filipe Braz, um dos meus amigos do Facebook, pude obter um artigo jornalístico de 1987 relativamente aos acontecimentos que houve no Cambedo da Raia, na região do Alto Tâmega, no concelho de Chaves, em 1946 como consequência da Guerra de Espanha, relacionados com factos que tiveram lugar no outro lado da fronteira, no Alto Tâmega pertencente à Galiza.

Reproduzo aqui o artigo. As imagens poderão ser visualizadas num tamanho maior já que vou disponibilizá-las no meu mural de Facebook simplesmente clicando sobre elas. Apesar de alguma falta de definição, são perfeitamente legíveis. 

Espero que gostem e início com esta entrada a minha (demorada) rentrée neste último trimestre do ano.






domingo, 24 de junho de 2012

Maravilhas da natureza da Raia: A Cidadella (Soutochao, c. de Vilardevós, Galiza)

Como alguns dos meus leitores sabem, a semana passada tive a oportunidade e o privilégio de assistir ao XVII Encontro da Associação de Fotógrafos e Bloggers «Lumbudus», sediada em Chaves. Como tenciono participar no concurso de fotografias, ainda não tenho previsto uma entrada para relatar os pormenores mais interessantes, já que não pretendo utilizar essas fotografias no blogue antes de saber se foram premiadas ou não para serem totalmente inéditas. Mas como a escapadela não se limitou ao encontro, aproveitei a oportunidade de visitar outros lugares da Raia entre a Galiza e a região do Alto Tâmega. Um desses lugares maravilhosos, mesmo na fronteira, é o lugar da Cidadella, situada na paróquia de Soutochao, localidade do concelho galego de Vilardevós, na parte do Alto Tâmega que pertence à Galiza.

O próprio nome já indica o seu carácter histórico, já que na montanha que separa o regueiro do Pontón da aldeia de Tomonte, uma aldeiazinha da mesma paróquia, existiu um povoado castrejo na Idade de Ferro com continuidade na época romana. Ao invés de outras partes do concelho, este canto não pertence à bacia do Tâmega, mas sim à do Tua. O regueiro do Pontón e o río que segue água abaixo na direcção da fronteira, entrando em Portugal pela localidade de Segirei (Xixirei em galego), que pertence à freguesia de S. Vicente da Raia, do concelho de Chaves.

A estrada que liga Segirei com Soutochao pertence ainda a um dos percursos do caminho de Santiago da Via da Prata que, de Zamora, entra em Portugal por Quintanilha (f. do c. de Bragança) e segue por Vinhais praticamente de forma idêntica a uma das vias romanas que ligavam Braga com Astorga (as antigas Bracara Augusta e Asturica Augusta). Atravessando o rio Mente, rio em que desagua o regueiro do Pontón, sendo este um afluente do Rabaçal que com o Tuela formam o rio Tua poucos quilómetros antes de chegar a Mirandela, a rota segue por Segirei e entra em terras galegas pela Cidadella, num marco incomparável de azenhas, açudes e cascatas.

O espaço, condicionado pelo concelho de Vilardevós dentro das Rotas do Contrabando, é hoje um parque de lazer com zona de parque de merendas, grelhadores, e sendeiros que transmitem ao visitante uma sensação de paz e harmonia com a Natureza. Frente às montanhas íngremes nas quais se mistura o mato, culturas em socalcos e floresta não autóctone, nas ribeiras do regueiro do Pontón temos um maravilhoso exemplo de vegetação atlântica e de ribeira, com espécies verdejantes que invitam à descontracção num dia quente de Verão. Como em todo bosque atlântico, é característica a presença de espécies vegetais de menor porte como os fetos, amoreiras e relvados em geral. A área recreativa tem um comprimento de dois quilómetros e esta sinalizada em todo o seu percurso, a começar por um moinho ou azenha restaurada da qual ainda é possível ver a mó no lugar que é conhecido como Lombeiro do Muiño (Muiño=moinho em galego). O ribeiro segue por uma série de quedas d'água pequenas serpenteante e represado por um açude que dá lugar a um pequeno estanque e uma pequena mas bela cascata. De súbito, deixamos essa vegetação densa e passamos a uma zona rochosa com apenas giestas e a rocha desnuda. Lá o regueiro dá passo a uma pequena cascata que forma uma poça de água que invita ao banho. A paisagem abre-se de repente e vemos já a oeste o Alto do Lombo da Trave, na região da Lomba, no Parque Natural de Montesinho, já no concelho de Vinhais.

Mas o percurso reserva-nos uma surpresa. Numa espécie de miradouro, encontramos uma cabana de pastores de forma circular, quase como que nos lembrando o habitat típico dos povoados castrejos, e última parte do espaço de lazer. É lá que observamos uma vista belíssima: em primeiro plano, uma grande cascata a arroiar pela rocha do regueiro do Pontón, a cair quase a prumo, à direita, as chamadas Casas do Castelo, da aldeia do Tomonte, ao sopé da Cidadella, e a sul o vale que forma o rio Mente e seus afluentes e uma bela panorâmica de Segirei, uma ímpar aldeia transmontana berço de alguns dos companheiros de fadigas da Lumbudus, e com uns enchidos sem par. E, obviamente, não podemos esquecer o aguardente de ervas, que é mesmo eficaz. Se tiver algum tipo de bactéria no gargalo, posso assegurar que mata qualquer bicho que lá estiver. Dou fé! E praticamente ao lado, um marco fronteiriço: já estamos em Portugal, se bem a estrada será partilhada entre Portugal e a Galiza durante umas centenas de metros, até encontrarmos outro marco fronteiriço que nos indica que a entrada em Portugal é plena. Como obviamente o asfaltado da estrada não pode ser em vertical, o piso muda no meio dos dois marcos fronteiriços.

Os desníveis neste espaço são notáveis. O cume da Cidadella quase atinge os 750 m. de altitude, enquanto o Lombeiro do Muiño, início deste percurso, fica já a um pouco menos de 700 m. O regueiro continua a perder altitude de forma que a primeira cascata está situada já a pouco mais de 640 m. e a cabana de pastores,já na mesma linha de fronteira, está situada a meia encosta de um pequeno outeiro a 643 m. de altitude. A queda da segunda cascata é espectacular já que em poucos metros passamos dos 640 m. a pouco mais de 590, isto é, uma queda de cerca de 50 m.! Daí o rio serpenteia até desaguar em Segirei a menos de 500 m. de altitude. Uma bela praia fluvial, situada entre os 470 e os 480 m. podemos encontrar e bem acondicionada entre Segirei e a aldeia de Sandim, já na Lomba, no concelho de Vinhais.

No entanto, estas terras, como terras de fronteira, foram objecto de avanços e recuos da mesma.  Importa salientar que Soutochao já aparece num documento de 1029 como Soutu Planu e deveu formar parte da Terra de Baroncelli, que segundo a Portugaliae Monumenta Historica. Diplomata et Chartae, formou parte do Condado Portucalense no século XI, sendo que depois foi disputada entre as dioceses de Ourense e Braga, para depois ser dividida nos tempos do rei D. Afonso Henriques, quando Verín forma parte já do reino de Leão e Castela em 1155. No entanto, Soutochao e outras aldeias do concelho de Vilardevós são mencionadas num foral português de 1325 dado à povoação Santa Cruz do Extremo, hoje extinta, e que fracassou enquanto localidade, mas que já mostra, segundo o seu epíteto, a sua situação fronteiriça. Estas terras continuariam na posse do reino de Portugal até 1487, ano em que provavelmente a fronteira nesta região foi definida aproximadamente com os limites actuais.

Sem dúvida é um lugar a não perder e que resulta ideal para visitar as aldeias de fronteira e o vizinho concelho de Vilardevós, onde existe ainda o interessante Museu do Contrabando. Uma paz bucólica é possível encontrar nesta região entre Chaves e Verín, no espaço raiano entre estas e o Parque Natural de Montesinho, decerto muito pouco conhecida, mas igualmente surpreendente. Não perca!

Foto 1. Regueiro do Pontón no Lombeiro do Muiño.
Foto 2. Moinho ou azenha restaurada.
Foto 3. Mó do moinho.
Foto 4. Parque de merendas na envolvente do moinho.
Foto 5. Açude no regueiro do Pontón.
Foto 6. De caminho às cascatas.
Foto 7. Início das cascatas do regueiro.
Foto 8. Vista geral da primeira cascata.
 Foto 9. Vista parcial da cascata e da poça.
Foto 10. O regueiro antes da segunda cascata.
Foto 11. Vale do rio Mente visto da primeira cascata com o Alto do Lombo da Trave à esquerda, já no Parque Natural de Montesinho e no concelho de Vinhais (região da Lomba). 
Foto 12. Vista da cabana de pastores com o planalto da Lomba ao fundo.
Foto 13. Regueiro do Pontón já em terras portuguesas. Repare-se na ampla queda. 
Foto 14. Casas do Castelo com culturas em socalcos, da aldeia do Tomonte, paróquia de Soutochao, concelho de Vilardevós. 
Foto 15. Cabana de pastores e paisagem envolvente, com desníveis importantes.
Foto 16. Vista geral de Segirei (f. de S. Vicente da Raia, c. de Chaves), visto do miradouro.
Foto 17. Segunda cascata do regueiro do Pontón, com uma queda espectacular.
Foto 18. Marco fronteiriço visto do lado da Galiza, perto do miradouro.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

P.S. Existe um interessante site relativamente à aldeia de Soutochao em galego, espanhol e inglês, em que é possível encontrar mais informações acerca da região. De Segirei, embora tenha a intenção de lhe dedicar uma entrada exclusiva, há o magnífico site da grande conhecedora da aldeia Tânia Oliveira. Vale a pena dar uma olhadela!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Património raiano: Mosteiro do Castro de Avelãs (c. de Bragança)

Uma das jóias arquitectónicas que há em Portugal e que é muito pouco conhecida é o mosteiro do Castro de Avelãs, aldeia que fica a 5 km. a oeste de Bragança e que tem muita história às costas. Do mosteiro resta hoje a igreja, que mesmo assim, apresenta umas características muito invulgares na arquitectura medieval portuguesa. Mas antes de entrar em pormenores, resulta interessante compreender os factos históricos mais relevantes relacionados com esta localidade.

Pelo que sabemos, parece que o Castro de Avelãs teria sido a cabeceira de uma civitas romana. Ao contrário das grandes cidades romanas do Sul e Leste peninsular, a região transmontana continuava a ser uma área profundamente ruralizada, pelo que apesar do nome, não existiam verdadeiras cidades no território. O Nordeste Transmontano fazia parte do Conventus Asturum, cuja sede estava situada em Asturica Augusta, actual cidade leonesa de Astorga. Isto porque toda a região de Trás-os-Montes oriental fazia parte do território povoado pelos astures, facto que sem dúvida, explica a supervivência da língua mirandesa, de origem asturo-leonesa, e diferentes falares raianos (Rio de Onor, Guadramil, Petisqueira, Deilão,...) em várias aldeias do concelho de Bragança que terão sobrevivido ao recuo da fronteira linguística entre o domínio galaico-português e o asturo-leonês. Castro de Avelãs seria assim um dos centros administrativos da civitas Zoelarum, da qual sabemos da sua existência pelos a achados arqueológicos, designadamente lápides funerárias dos séculos I e II e que se estenderia pelo território transmontano a Leste do rio Sabor, a região zamorana de Aliste e Sanábria e os territórios situados até a Serra da Nogueira. No Parochiale Suevum, de 569, que recolhe a organização eclesiástica das dioceses do reino suevo, há uma referência ao pagus (uma paróquia rural) de Vergantia. Daí até 1145 a escuridão é quase absoluta. Sabemos que após a ocupação do território pelo reino asturiano nos tempos do rei Afonso III na sequência das presúrias do conde Vímara Peres no Porto em 868 e do conde Odoário em Chaves em 872, a diocese de Astorga, que já tinha sido restaurada, aproveitou o vazio de poder para usurpar as terras de Aliste, Vergantia e Ledra (território relacionado com Mirandela) em 969 à diocese de Braga que não tinha sido restaurada porque a diocese de Lugo, na Galiza, tinha ficado com os direitos desta enquanto diocese metropolitana, o que significava que as restantes seriam sufragâneas. Daí que a sua restauração não viria a ter lugar até 1071 com o seu primeiro bispo D. Pedro pelo rei da Galiza Garcia I ou Sancho II de Castela (existem dúvidas entre os historiadores), que contestará a dita «usurpação» com a bula de Pascoal II em 1103 que obrigou à diocese de Astorga, sufragânea de Braga, a devolver-lhe esses territórios.

Será em 1145 quando tenhamos a primeira referência ao mosteiro do Castro de Avelãs enquanto instituição monástica. Infelizmente a documentação medieval é escassa e só sabemos da sua história por meios indirectos. Em 1187 o mosteiro doou a sua herdade de Benquerença, em troca de outras propriedades, ao rei D. Sancho I, que fundaria a cidade de Bragança e deu-lhe foral num momento em que Portugal encontrava-se numa situação de «definição de fronteiras». Daí a importância de ter uma praça forte e sentinela do reino neste cantinho longínquo dos poderes centrais da monarquia. As guerras com Leão foram frequentes, pelo que não admira que em 1199 o mosteiro aceitasse um contrato de filiação com o mosteiro de S. Martinho da Castanheira, situado na parte norte e ribanceira do lago de Sanábria, já no reino de Leão. A relação com Castanheira parece que foi muito fluída porque alguns abades desse mosteiro foram portugueses e deram muita atenção às propriedades portuguesas deste mosteiro leonês, mantendo-as até tão tarde como o início do século XVIII. A oposição da arquidiocese de Braga fez com que em 1218 o mosteiro do Castro de Avelãs fosse obrigado a rescindir a filiação junto do mosteiro de S. Martinho da Castanheira. Do domínio monástico sabemos que teve a posse de amplas propriedades em todo o Nordeste Transmontano como assim mostram as Inquirições de D. Afonso III em 1258. Apesar disso, este mosteiro conta apenas com um estudo, uma dissertação de mestrado da antiga directora do Arquivo Distrital de Bragança e actual directora do Museu Abade de Baçal, Ana Maria Afonso, que analisa a história do mosteiro já na primeira metade do século XVI.

A igreja do mosteiro, assim que chegarmos à entrada, mais uma típica igrejinha portuguesa de factura tipicamente barroca. Mas o edifício reserva-nos várias surpresas. A maior é o exterior da cabeceira, com uma abside central e duas absidíolas laterais de menor tamanho de tipo românico, com arcos-cegos de meio ponto. A originalidade deste tipo de estrutura, por outra parte muito distintiva da arte românica, é o facto de estar totalmente construída em tijolo vermelho, o que faz desta igreja a única em Portugal destas características e que a relaciona com outras construções similares que encontramos no reino de Leão (p. ex. o importante mosteiro leonês de Sahagún) e em Castela. Este tipo de arte é conhecida como arte mudéjar e foi uma expressão de artesãos muçulmanos que não abandonaram as suas moradas após a Reconquista Cristã.

Outro rasgo característico podemos encontrá-lo na absidíola lateral direita, hoje ao ar livre, na qual está situada uma campa que alegadamente terá sido do conde Ariães. A lenda diz que este conde, que era muito mau, zangou-se muitíssimo com a sua mãe por não lhe ter preparado o jantar quando voltava de uma jornada de caça. Perante esta situação, açulou-lhe os cães que a morderam e acabou por morrer. Em penitência foi-lhe imposto que tirasse um cabelo da sua própria cabeça e o metesse numa pia de cantaria com água, debaixo de uma pedra, até que se convertesse em cobra e depois a fosse criando até ser bastante grande e então se meteria numa tumba com ela até esta o devorar para que assim, ele filho mau, que matou quem o gerou, de si mesmo criasse quem lhe fizesse outro tanto. Daí o túmulo mencionado.

Lendas são lendas, mas o Abade de Baçal refere a existência de um conde D. Pelaio, alegadamente, conde de Ariães que terá assinado como Pelagius Bregantiae Comes na sagração da igreja compostelana em 879, segundo refere Sampiro, bispo de Astorga. Existem ainda referências no Livro de Linhagens, que fala em termos similares sobre o braganção D. Fernão Mendes, o Bravo, desta importante família que fez inclinar a balança em favor de Portugal num momento em que o território transmontano oriental, segundo a documentação existente, no século XI ainda não fazia parte do território português, encontrando-se numa indefinição entre Portugal e Leão.

Se Bragança, já per se, vaut le voyage, em expressão do guia Michelin, uma visita à região não pode estar completa sem antes ver esta maravilha arquitectónica num marco rural incomparável, com uma bela ponte, também chamada de Ariães, no rio próximo, entre casas, hortas e milheirais, e tão perto da cidade brigantina. Talvez encontrem algum simpático aldeão, como foi no meu caso, que explique a lenda e mostre a igreja e os seus pormenores.

Foto 1. Fachada principal da igreja do mosteiro de Castro de Avelãs.
Foto 2. Vista da abside principal e da absidíola esquerda.
Foto 3. Outra vista da cabeceira.

Foto 4. Absidíola direita e túmulo do conde Ariães.
Foto 5. Capelinha situada na entrada, à direita, com uma porta gótica.
Foto 6. Outro pormenor da capelinha com outra porta gótica e diferentes ritmos de construção.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

domingo, 6 de maio de 2012

Fronteiras: Santo André (c. de Montalegre) / A Xironda

Depois de algum tempo afastado do blogue por motivos de saúde e, porquê não, pelo cansaço, vamos hoje retomar o nosso périplo pela Raia, desta vez, entre a aldeia de Santo André, no concelho de Montalegre, e A Xironda, no concelho galego de Cualedro. A fronteira está situada numa estrada local que liga as duas localidades, no fundo de um pequeno vale ao sopé da Serra do Larouco.

A região pertence a uma zona de transição entre o Barroso e a região do Alto Tâmega. Sendo o concelho de Montalegre muito extenso, Santo André faz parte junto com Vilar de Perdizes e outras poucas freguesias, daquela parte do município que pertence à bacia do Tâmega através dos seus afluentes. É por isso que estamos numa região de planalto que desce em suave declive para o vale do Tâmega. Se a aldeia de Santo André está situada entre os 820 e os 850 m. de altitude, já a aldeia da Xironda está situada entre os 750 e os 760 m. Entre ambas as duas, situa-se um pequeno relevo que ultrapassa os 790 m. do lado da Galiza para logo descer suavemente até ao limite fronteiriço, num pequeno vale situado entre os 730 e os 740 m. por onde discorre a Ribeira do Inferno, e onde encontramos extensos milheirais entre outras terras de lavoura e pequenas explorações avícolas e pecuárias. Após uma mudança de piso para uma estrada mais estreita já em terras portuguesas, uma pequena subida, mais íngreme do que a anterior, leva-nos ao planalto onde está situada a aldeia de Santo André, interessante do ponto de vista etnográfico.

No meio, um desvio por caminho de terra batida, indica a existência da vila romana de Grou. Infelizmente, não existe qualquer indicador da tal vila já após termos apanhado tal estradinha e ficamos, mesmo ao pé da Serra do Larouco, com a sensação de estarmos em terra de ninguém, porque sabemos que a fronteira está mesmo aí, desconhecendo se a ultrapassámos ou não. Mais um caso de sinalética que devia ser melhorada porque de nada vale por-nos o mel nos lábios de uma alegada vila romana e depois não encontrar outra coisa do que estradas esburacadas não asfaltadas pouco aptas para ligeiros e nada que indique a presença, mesmo que mínima, de restos arqueológicos da época romana.

De resto, a fronteira não oferece nada de interessante, a não ser o facto de estarmos perante uma bela paisagem e mais uma via de ligação entre Santo André e Vilar de Perdizes, esta vez, por terras galegas. Se pretendermos brincar com o jogo do gato e do rato com as fronteiras, este é o lugar ideal para ir mudando continuamente de país, pois teremos estradas locais daí até Vilarinho da Raia, já à beira do Tâmega.

Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado da Galiza. 
Foto 2. Limite com a Galiza visto do lado de Portugal.
Foto 3. Limite e marco fronteiriço.
Foto 4. Milheiral raiano, mesmo no limite fronteiriço visto para o lado de Portugal.
Foto 5. Vista da Serra do Larouco perto de Santo André.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.