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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Castelos da Raia: Castelo Bom (c. de Almeida, Beira Alta)

Se há um lugar de concentração de castelos em Portugal temos de falar, sem esquecer o Alentejo, da Beira Alta, designadamente do distrito da Guarda. Isto por vários motivos: o primeiro, o facto de ser, obviamente, uma região raiana; o segundo, por ter sido sede de vários concelhos, hoje extintos, que tinham as suas próprias fortificações; e o terceiro, é a sua especificidade histórica: houve uma Raia dupla.

Historicamente esta região raiana formou as chamadas terras de Ribacôa, que compreendiam as terras entre o rio Côa e a Raia formada pelo limite Águeda-Tourões e a Raia Seca de Vilar Formoso até aos Fóios, no Sabugal. Essas terras pertenceram até 1297, data do Tratado de Alcanices, ao reino de Leão, se bem que o rei D. Dinis já as tinha ocupado em 1295, aproveitando a situação de guerra civil em Castela. Um desses castelos foi o castelo de Castelo Bom, que é o tópico desta entrada.

Castelo Bom só começa a ter importância na Idade Média. Para além de uma espada da Idade do Bronze, nada se sabe relativamente à ocupação humana da localidade até ao século XI. A expansão do reino asturiano no século IX que estabilizou as fronteiras com os muçulmanos no Baixo Mondego a Sul e numa linha de castelos na Beira Alta (Trancoso, Mêda, Marialva, Longroiva) de grande importância no século X, foi travada pelas razias muçulmanas que recuperaram o território ao Sul do Douro, com excepção da Terra da Feira. Na Beira Alta teremos de esperar às campanhas de Fernando I de Leão e Castela para falar na recuperação do território, que terá incluído Castelo Bom. No entanto, o concelho só foi criado logo no início do século XII após uma tentativa fracassada de D. Raimundo de Borgonha, sendo que a sua esposa Dª. Urraca deu impulso à localidade, que já fazia fronteira com o Condado Portucalense. Os primitivos povoadores terão vindo da Galiza, Leão e Salamanca. Com o seu filho, Afonso VII de Leão e Castela, o chamado Imperador, recebeu o seu primeiro foral.

Com a independência portuguesa, a localidade torna-se alvo de disputas. Não devemos esquecer a sua proximidade ao rio Côa, mesmo a frente da outra grande fortaleza nesta região: Castelo Mendo. De facto, D. Afonso Henriques, tê-la-á ocupado brevemente em 1170 quando se dirigiu a Ciudad Rodrigo, cidade que conquistou, mas não reteve por muito tempo. A sua importância estratégica levou o rei Afonso IX de Leão a outorgar-lhe foral em 1209. Apesar das tentativas de ocupação portuguesa, só D. Sancho II conseguirá este objectivo, ficando em suas mãos entre 1240 e 1245. A passagem a mãos portuguesas só será possível com D. Dinis, quem após a sua ocupação em 1295 dá-lhe foral em 1296 e assegura a sua posse no Tratado de Alcanices em 1297.

A dominação portuguesa não significou mais calma, apesar da fronteira ter-se apagado nas margens do rio Côa. Registe-se o facto de Castelo Bom ficar a apenas 6 km. de Vilar Formoso, localidade em que ficou a nova demarcação fronteiriça. Contudo, é nesta época quando atinge o seu máximo auge, sendo que com D. Fernando I o castelo é reforçado com uma cintura principal, a Praça de Armas e uma barbacã. Essa situação parece que não durou muito, visto que no Livro das Fortalezas de Duarte de Armas mostra-se o castelo mas já num avançado estado de degradação, o que leva o rei D. Manuel I a dar-lhe foral novo em 1510 e a ordenar a reparação do castelo. Na Guerra da Restauração desempenhou um importante papel na defesa contra as tropas castelhanas, assegurando a independência definitiva do território nacional. No entanto, na Guerra dos Sete Anos e na Guerra Peninsular não teve tanta sorte. De facto, na Terceira Invasão Francesa, as tropas napoleónicas destruíram as fortificações e a localidade ficou devotada à ruína e os seus habitantes à fome, sem poder recuperar o esplendor passado.

Daí o seu declínio que levou o concelho a ser extinto em 1834, quando passou a formar parte do concelho de Almeida. A aldeia, quase em ruínas, era muito pobre, facto que motivou os seus habitantes a destruírem o castelo para aproveitarem as pedras para a construção. A nova linha ferroviária da Beira Alta, que poderia ter sido um novo foco de desenvolvimento, não teve nenhum efeito já que passou ao lado na direcção de Vilar Formoso, que ia aos poucos ampliando as suas funções comerciais e de serviços ligados à estação ferroviária e à Guarda Fiscal, com o trânsito alfandegário. Daí a forte emigração, de início às aldeias vizinhas ou para Vilar Formoso, mas na década de sessenta e setenta para a França. Nem o património se salva quando na década de quarenta a Torre de Menagem é derrubada por um aldeão que pretendia construir uma casa de abrigo para o seu burro!

No entanto, na década de oitenta e noventa foram feitos trabalhos de recuperação. Hoje é considerada uma das Aldeias Históricas de Portugal, se bem que na realidade não o é porque a sua candidatura foi retirada, não se sabe porquê, em 1991. Este facto, porém, permitiu uma restauração integral do centro histórico, fazendo com que passear pela aldeia seja hoje uma actividade de lazer muito prazenteira. É por isso que esta entrada tem mais fotos do que o costume e mesmo assim é impossível captar o ambiente se não se estiver lá. Contudo, espero que desfrutem!

Foto 1. Antigos Paços do Concelho.
Foto 2. Solar do Largo da Igreja. 
Foto 3. Casa da Rua Direita.
Foto 4. Estátua de um peregrino a Santiago.
Foto 5. Poço da Escada.
Foto 6. Casa alpendrada.
Foto 7. Outra casa alpendrada.
Foto 8. Vale do Côa visto das muralhas com a aldeia de Senouras ao fundo.
Foto 9. Outra casa alpendrada.
Foto 10. Casas alpendradas típicas da Beira.
Foto 11. Largo do Revelim.
Foto 12. Lateral da Igreja Matriz (Nossa Senhora da Assunção).
Foto 13. Largo do Revelim (outra perspectiva).
Foto 14. Muralhas medievais.
Foto 15. Cisterna.
Foto 16. Muralhas medievais com vistas à N16 e a A25.
Foto 17. Muralhas e Porta da Vila.
Foto 18. Mais casas alpendradas e Casa do Fidalgo.
Foto 19. Casa do Fidalgo à direita com os antigos Paços do Concelho ao fundo.
Foto 20. Igreja matriz. Fachada.
Foto 21. Pelourinho no Largo da Igreja.
Foto 22. Vale do Côa visto das muralhas medievais na direcção de Castelo Mendo (antiga fronteira).
Foto 23. Planalto granítico visto das muralhas medievais na direcção de Vilar Formoso.
Foto 24. Parte da localidade extra muros.



Ver Castelos da Raia: Castelo Bom num mapa maior
Mapa 1. Mapa da região.


Ver Castelos da Raia: Castelo Bom num mapa maior
Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Fronteiras: Sobral da Adiça/Rosal de la Frontera-III

A uns 2 km. da aldeia de Sobral da Adiça, quase no limite com o concelho de Serpa, separado pela Serra da Adiça da localidade do Ficalho, na que está situada a fronteira mais importante da região, contamos com outro ponto de passagem da fronteira pelo Vale de Grou para chegarmos até Rosal de la Frontera, na Andaluzia espanhola. Trata-se de uma fronteira local, com estradas em muito mau estado. De facto, na estrada N385 nem sequer existe um indicador que mostre que estamos perante um desvio que nos leva até ao limite fronteiriço. Até porque a estrada portuguesa é mesmo péssima, com um pavimento em muito mau estado e esburacada por momentos (atenção aos amortecedores!!!). Mas a estrada espanhola é ainda pior pois não estando esburacada, é uma estrada de cascalho sem pavimentar. De facto, o sinal de limitação da velocidade a 50 km/h parece uma piada de mau gosto a não ser que queiramos arriscar a ter amolgadelas no carro ou até mesmo partir os vidros indo a essa velocidade. Isso por não falar da poeira que iria cobrir o carro, pedindo-nos de imediato uma ida até uma estação de lavagem.

O mais notável neste aspecto é a paisagem. Uma paisagem de montado, designadamente de sobreiros, o que está a indicar uma maior humidade do clima, já que o sobreiro precisa de pelo menos 500 mm. de precipitação anual para ter umas condições óptimas de crescimento. Mas também uma paisagem de olival que cobre totalmente a Serra da Adiça para os lados que dão para a vila do Ficalho, fornecendo umas paisagens idílicas de paz e sossego. De facto, para além de uma ou outra herdade espalhada pelo campo, a vida selvagem tem todo o sentido neste lugar. Tivemos a oportunidade de ver perdizes a correr, assustadas as coitadinhas com o barulho do carro. O privilégio de ver os animais em liberdade não tem preço e nisso o Alentejo é um lugar de oportunidades nesse sentido, bem como a possibilidade de ver o céu estrelado enquanto o luar ilumina o montado. São, sem dúvida, momentos inesquecíveis para partilhar de forma romântica com a nossa cara-metade, abraçados os dois sentindo esse aconchego tão especial que só experimentamos com quem estamos apaixonados.

A fronteira é bastante curiosa porque está em parte delimitada por vedações de arame farpado salpicadas por vários marcos fronteiriços que mostram ao viajante avisado que estamos perante o limite fronteiriço entre dois estados. Como não podia ser de outra forma, essas vedações separam propriedades dedicadas à exploração da oliveira ou à pecuária, com especial importância do porco preto que, alimentado exclusivamente de bolotas, dá-nos a oportunidade de degustar essa iguaria sem igual que é o presunto de porco preto, também chamado de pata negra, que na vila de Barrancos atinge a sua máxima expressão e do lado da província andaluza de Huelva, no presunto de Jabugo, do qual é de salientar que uma parte importante dos porcos provêm do Baixo Alentejo, nos montados dos concelhos de Serpa e Moura, para dar saída à procura deste produto.

A região resulta indicada para visitar talvez algumas das aldeias mais autênticas do Baixo Alentejo, as que se situam na margem esquerda do Guadiana como Safara, Sobral da Adiça ou Santo Aleixo da Restauração, para além dos espaços naturais como a Contenda de Moura, cujo nome advém do facto de as fronteiras estarem mal definidas, o que deu lugar a conflitos entre um e outro lado pelos direitos de exploração e propriedade e que neste caso só finalizariam com o Tratado de Limites de 1927, quando se estabeleceram os marcos fronteiriços entre a Ribeira de Cuncos e a foz do Guadiana. Do lado da Andaluzia é possível visitar Rosal de la Frontera, vila fronteiriça e comercial onde poderemos atestar o carro e tomar umas cañas (cerveja a pressão) com tapas oferecidas de graça nas tascas do lugar. É interessante ainda a vila de Aroche e a sua contenda, que limita com a contenda de Moura na Serra de Aroche, na qual poderemos ver os restos do castelo. 

Importa salientar o facto de que esta região foi conquistada por Portugal aos mouros na última etapa da «Reconquista» num intento de atingir o controlo da região de Sevilha de forma que Aracena e Aroche, as localidades mais importantes da região, estiveram na posse de Portugal até pelo menos 1253. De facto, este território esteve em disputa com Castela a causa da questão do Algarve, já que o «rei sábio», Afonso X de Castela, detinha o título de rei do Algarve. D. Afonso III, que casou em 1253 com D. Brites, filha deste rei e mãe do futuro rei D. Dinis, recebeu do seu pai um dote que incluiu, após a morte do rei castelhano, as vilas de Mourão, Serpa, Moura, Noudar e Niebla (Huelva). O Tratado de Badajoz de 1267, que fixou as fronteiras na margem do Guadiana, serviu para assegurar para Portugal o chamado «reino do Algarve», facto que explica por que os réis portugueses intitulavam-se réis de Portugal e do Algarve. Em troca, Portugal abandonava os territórios além Guadiana. No entanto, a sagacidade política de D. Dinis permitiu-lhe, em substituição de uns alegados direitos sobre Aracena e Aroche, recuperar as vilas de Mourão, Serpa, Moura e Noudar no Tratado de Alcanices de 1297, para além das localidades de Campo Maior, Ouguela e Olivença. Séculos mais tarde, a guerra da Restauração foi terrível na região a causa dos contínuos assaltos das tropas castelhanas e portuguesas nas aldeias fronteiriças. O contrabando substituiu os conflitos bélicos e hoje, após a aberturas das fronteiras fruto da adesão à UE, o território tenta encontrar o seu lugar na economia moderna entre o declínio das estruturas agrárias tradicionais e a necessidade de apostar pela qualidade e a inovação tecnológica no sector agro-alimentar.

Foto 1. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 2. Marco fronteiriço situado à Norte da estrada visto do lado de Portugal.
 Foto 3. O mesmo marco fronteiriço visto do lado de Espanha.
Foto 4. Segundo marco fronteiriço próximo ao anterior.
Foto 5. Linha de fronteira entre os marcos fronteiriços pela vedação de arame.
Foto 6. Marco fronteiriço situado a Sul da estrada, visto do lado de Portugal.
Foto 7. Linha de fronteira que vai pela vedação de arame.
Foto 8. Segundo marco fronteiriço a seguir ao anterior.
Foto 9. Linha de fronteira que segue a vedação de arame.
Foto 10. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
Foto 11. Linha de fronteira entre vedações.
Foto 12. Vale de Grou ao pôr-do-sol, com a Serra da Adiça à esquerda.


Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

P.S. O número de amigos que seguem este blogue pela rede social Google continua a aumentar com a recente incorporação de fernandopereirapinto, a quem damos as boas-vindas e esperamos que os motivos que o levaram a aderir perdurem no tempo, ganhando assim mais leitores assíduos deste blogue.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Castelos da Raia: Castelo de Miraflores (Alconchel)

Um dos castelos da Raia mais desconhecidos é o Castelo de Miraflores, na localidade de Alconchel, na Extremadura espanhola. Até porque poucos o reconhecem como castelo raiano. Mas, para além da sua beleza intrínseca, vale a pena visitá-lo e situá-lo no seu contexto histórico.

Para quem vem de Portugal, tem dois acessos ao seu dispor: um por Olivença, depois de passar a ponte da Ajuda, e outro pela fronteira de São Leonardo (Mourão) e Villanueva del Fresno. Para quem vem de Badajoz, é muito fácil: segue pela estrada de Olivença e depois continua pela estrada de Olivença até Villanueva del Fresno. Alconchel fica a uns 20 km. a Sul da vila oliventina. O acesso faz-se por uma estrada local que fica mesmo antes da chegada à localidade, vindo de Olivença. Rapidamente encontramos o castelo e as magníficas vistas que explicam a sua importância estratégica.

Agora um pouco de História. Parece que o morro ou outeiro em que fica o castelo já foi povoado em tempos pré-romanos, na época romana e na época visigoda. Mas será com a queda do Califado de Córdoba e a formação do reino aftasi de Badajoz que este lugar começou a adquirir mais importância do ponto de vista estratégico. Já o emir 'Abd-al-Rahman (Abderramão) II (822-852) tinha construído uma fortaleza para defender o território das razias dos exércitos do reino das Astúrias, depois reino de Leão. Os reinos de taifas que surgiram após a desaparição do Califado estavam muitas vezes em guerra entre eles pelo controlo do território e é nesse sentido que devemos ver a reparação e ampliação da fortaleza de Alconchel. 

No século XII, após a conquista de Évora para Portugal em 1165, Geraldo Sempavor ocupa a fortaleza o ano seguinte junto de outras como as de Mourão, Serpa e Juromenha na tentativa de ocupar Badajoz que acaba com o famoso «desastre de Badajoz» em 1170 quando o rei D. Afonso Henriques, a ponto de ocupar a alcáçova, é ferido a causa da aliança do seu genro Fernando II de Leão com os almóadas. O castelo esteve na posse dos leoneses até 1174, em que os almóadas o recuperaram e iniciaram trabalhos de ampliação. Não seria até à década 1230 com a tomada de Badajoz pelo rei Afonso IX de Leão que o castelo e a localidade entrem a formar parte do reino de Leão e com o rei Fernando III, rei de Castela e Leão, faça doação do castelo à Ordem do Templo, que gerirá esta propriedade doada como «juro de herdade e para sempre» até à sua dissolução em 1311.

Entretanto, o Tratado de Alcanices de 1297 fez com que os territórios de Olivença e Táliga passassem para a dominação portuguesa, facto que converterá este castelo em fortaleza fronteiriça. Não devemos esquecer o facto de a fronteira ter-se situado 5 km. a Norte da localidade e 4 a Leste, na direcção de Táliga. Isso fará com que a relevância do castelo aumente de forma considerável. Tomado pelo rei D. Dinis em 1311, a partir de 1313 vai passar a mãos de diferentes casas da nobreza castelhana. As guerras de Portugal com Castela terão grande importância, designadamente nos séculos XVII, XVIII e XIX. O castelo e a vila de Alconchel serão alvo de duas ocupações portuguesas no contexto da Restauração em 1642 e 1643. Será ainda ocupada pelo exército francês aquando da Guerra Peninsular até 1812. Acabada a contenda, a fortaleza perde a sua importância pela anexação de Olivença a Espanha pelo Tratado de Badajoz de 1801 e pelo facto de a vida municipal focalizar-se na Câmara (Ayuntamiento) situada na vila, ao sopé do castelo.

De factura essencialmente gótica, o castelo consta da torre de menagem muralhas e ameias e segue uma tipologia construtiva que podemos observar no castelo de Juromenha ou o castelo de Alburquerque. Consta ainda de algibe ou cisterna de tipo mudéjar para assegurar o subministro de água em épocas de seca ou em cercos ao castelo. Foi alvo de restaurações recentes por parte do Governo da Junta da Extremadura.
A visita do castelo vale a pena pelo não só pela sua beleza, mas também pelas vistas que se apreciam para a vila de Alconchel, a planície que se estende até Olivença e a planície que de Alconchel chega até perto de Táliga e outras aldeias vizinhas. É possível ainda apreciar pequenas serras como a Serra de Montelongo e da Faragosa a Leste, a Serra de Santo Amaro, perto de S. Bento da Contenda (oficial San Benito de la Contienda), e o vizinho Cerro de la Esperanza.

 Foto 1. Vista geral do castelo de Miraflores.
 Foto 2. Vista da muralha e as ameias do lateral Oeste.
 Foto 3. Porta de entrada ao castelo.
 Foto 4. Torre de Menagem.
Foto 5. Vista parcial do castelo (parte Norte).
Foto 6. Vista da planície até Olivença com a Serra de Santo Amaro ao fundo e a Serra de Montelongo à direita.
Foto 7. Pôr-do-sol e Cerro de la Esperanza vistos do castelo.
Foto 8. Muralhas do castelo com vistas para a planície de Alconchel.
Foto 9. Vila de Alconchel vista do castelo de Miraflores.
Foto 10. A planície (Sul) vista do castelo em direcção às aldeias de Táliga e Higuera de Vargas.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fronteiras: Ouguela (c. Campo Maior) /Alburquerque

Uma fronteira pouco conhecida mas que vale a pena visitar pelas belas paisagens em que discorre é a existente entre a aldeia de Ouguela, no concelho de Campo Maior, no Alto Alentejo, e a vila de Alburquerque, na Extremadura espanhola. Não vamos falar hoje do belo castelo de Ouguela, a sua história e o seu património, visto ter sido alvo de um 'post' publicado há tempos referido em exclusivo para esta questão e que pode ser (re-)lido aqui, mas sim da fronteira existente neste ponto de ligação da citada aldeia e a vila de Campo Maior com a vila de Alburquerque e La Codosera.

Para quem vem de Campo Maior, antes de chegar à povoação de Ouguela, deve apanhar o desvio para a capela de Nossa Senhora da Enxara, uma capelinha que fica a 1 km. da localidade, à beira do rio Xévora, um afluente do rio Guadiana que nasce na Serra de São Mamede, no concelho de Portalegre e depois entra em Espanha pela aldeia de Rabaça/La Rabaza e continua pela vila de La Codosera, voltando a entrar de novo em Portugal muito perto do ponto fronteiriço do qual estamos a falar, passa ao lado da citada capela e volta a entrar definitivamente em Espanha águas abaixo até desaguar no Guadiana entre a localidade de Gévora (nome espanhol do rio) e a cidade de Badajoz. Esta capela, da qual falaremos noutro 'post', é famosa pela romaria que tem lugar na Páscoa, quando a população de Campo Maior costuma deslocar-se na Sexta-Feira Santa, ficando lá dois ou três dias até à Segunda-Feira acampados no arraial em pleno campo. Lá têm lugar uma missa, uma procissão campal, touradas e há diversos divertimentos como carrosséis, baile e as clássicas barracas para os comes e bebes. 

Passados alguns metros, segue-se por essa estradinha, ficando a capela num desvio à direita, enquanto se contorna o outeiro em que está assentada a aldeia de Ouguela. Depois de passar a ponte sobre a Ribeira de Abrilongo perto da sua confluência com o rio Xévora, continuamos viagem por uma via serpenteante mas muito agradável que dá para apreciar a paisagem de montado alentejano no meio de uma paz bucólica e quase lendária por parecer uma espécie de Arcádia feliz (desculpem, mas por vezes gosto de fantasiar) que nos meses frios, mas especialmente no Inverno e no início da Primavera resulta muito aprazível pela paisagem verdejante, enquanto no final da Primavera, no Verão e início do Outono podemos desfrutar do contraste entre o verde dos sobreiros e azinheiras e o amarelo intenso pela seara fora ou dos montados já secos pelo célebre calor intenso e abrasador do Alentejo. Daí, um desvio com um sinal indicador para Alburquerque, leva-nos ate à fronteira, caso não queiramos seguir caminho por estas paisagens isoladas até a aldeia de Degolados, a outra freguesia do concelho de Campo Maior.

O limite fronteiriço situa-se numa zona de lombas após passar alguma herdade, lembrando a proximidade da Serra de São Mamede, já que na realidade essas lombas fazem parte do extremo desse alinhamento montanhoso antes de sumir numa planície extensa, já no vale do Guadiana. Já na Extremadura espanhola, as lombas aumentam a sua altitude obrigando a contínuas subidas e descidas numa paisagem que em nada mudou a não ser na forma das herdades, próprias desta região, até chegarmos até ao entroncamento em que devemos decidir se queremos chegar até Alburquerque ou La Codosera e de novo a Portugal pela fronteira do Marco. Antes deste ponto, a estrada brinda-nos uma bela vista de montado (chamado dehesa na Extremadura espanhola) e do castelo de Alburquerque, situado em alto.

A História da região foi conturbada, como é óbvio. Em 1218 a vila e castelo de Alburquerque foi reconquistada pelo reino de Leão aos almóadas, após a batalha decisiva das Navas de Tolosa, em 1212, que significará a quebra do poder deste império que ainda ocupava a metade Sul da Península Ibérica. Mas será na década de 1220 quando virá o impulso maior. Do lado de Portugal, o rei D. Sancho II ocupa Elvas em 1226, dando-lhe foral em 1229. Do lado do reino de Leão, após a batalha de Alange em 1230, são ocupadas as cidades de Mérida e Badajoz e ainda Campo Maior e Ouguela. Após a estabilização do conflito com os muçulmanos, começam os conflitos entre a coroa castelhana e Portugal pela definição da fronteira, que foram muito duros na região de Arronches e Alegrete, antiga sede de concelho e hoje uma das freguesias de mais população (excluída a cidade) do concelho de Portalegre. Alegrete passará a formar parte da coroa portuguesa formalmente após o Tratado de Badajoz de 1267, mas Campo Maior e Ouguela deverão esperar até ao Tratado de Alcanices de 1297 quando o rei D. Dinis, que na realidade almejava a posse da cidade de Badajoz, consegue para Portugal as duas localidades mais o território de Olivença, de modo a cercar a citada cidade. No entanto, estas localidades continuarão a depender no eclesiástico da diocese de Badajoz até a reforma diocesana de inícios do século XV. As guerras com Castela serão contínuas, daí a importância da fortaleza e castelo de Ouguela num território de fácil acessibilidade de forma a proteger a vila de Campo Maior, que também possuía o seu castelo e as suas muralhas.

A visita deste ponto avançado do nosso país resulta especialmente indicada para um lindo passeio à tarde se estivermos à procura de sossego e paz no meio do campo. Se acompanharmos isto com uma bifana quentinha no pão (alentejano, obviamente!) e uma bejeca..., é já o summum do prazer!

 Foto 1. Fronteira portuguesa vista do lado de Espanha.
 Foto 2. Caminho rural e marco fronteiriço situado para Leste da linha de fronteira.
 Foto 3. Marco fronteiriço e vista da paisagem de montado.
 Foto 4. Vista do mesmo marco fronteiriço com orientação para Portugal.
 Foto 5. Fronteira espanhola vista do lado de Portugal.
Foto 6. Estrada de Alburquerque, já na Extremadura espanhola.
Foto 7. Vista da planície no extremo do Alentejo. Ao fundo à direita ficaria situada a cidade de Badajoz (fora do alcance da vista).
Foto 8. Planície alentejana e castelo e aldeia de Ouguela vistos do limite fronteiriço.

Foto 9. Vista da dehesa extremenha com o castelo de Alburquerque ao fundo (a 7 km. do limite fronteiriço.
Foto 10. Vista geral do castelo de Alburquerque, na Extremadura espanhola.


Mapa 1. Mapa de situação.

P.S.: Fico contente por ver que a pouco e pouco vai aumentando o número de leitores, bem como o número de amigos no perfil de «Fronteiras» no Facebook. Já no Twitter o sucesso é limitado, mas é compreensível porque talvez seja uma rede social mais especializada e nem todos vejam a utilidade de manter um perfil lá. De qualquer forma, gosto que as pessoas, de livre e espontânea vontade, decidam nos seus perfis a quem adicionar ou seguir ou mesmo até não fazê-lo porque não achem necessidade. No Google Rede Social tenho o prazer de ver que os seguidores aumentam de forma lenta mas contínua contando hoje com 44 seguidores, o que para um blogue claramente minoritário é muito bom. Como costumo fazer, dou as boas-vindas ao nosso último seguidor, Danny Antunes. Espero que continue a apreciar o blogue e os motivos que o levaram a segui-lo se mantenham por muito tempo!