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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Aldeias da Raia: Granja (c. de Mourão, Alentejo Central)

Sim, já sei que se passou algum tempo sem escrever nenhuma entrada. Um pouco de preguiça minha, reconheço. Mas hoje recompenso os meus leitores com umas belas vistas da Raia do Alentejo mais profundo, aquele que fica na margem esquerda do Guadiana. 

No concelho de Mourão fica a aldeia e freguesia da Granja, situada entre a capital concelhia e a freguesia da Amareleja, no concelho de Moura e tem aproximadamente uns 600 habitantes. O Grande Lago de Alqueva contorna desde 2003 a localidade, já que o encerramento das comportas supôs o alagamento dos vales dos ribeiros vizinhos. O relevo próprio da planície rompe-se aqui dando lugar a formas onduladas e vales mais profundos lá onde os cursos fluviais ainda não foram alterados pela barragem, em áreas mais isoladas, na própria Raia, designadamente a Ribeira de Alcarrache e o seu afluente, a Ribeira de Godelim ou as suas formas alternativas Guadalim ou Guadelim, que nasce em Espanha com o nome de Godolid e que remete para as suas origens árabes do termo uádi, que significa rio e que na língua portuguesa deu lugar, para além do prefixo guad-, o mais genérico ode-, odi- (daí topónimos como Odemira, Odeceixe, Odiana (forma medieval de Guadiana: o Alentejo era a região de Entre-Tejo-e-Odiana), Odiáxere, etc.). O limite fronteiriço fica mesmo nesses meandros formados pelas ribeiras indicadas, sendo possível avistar ao fundo a vila de Villanueva del Fresno, já na Extremadura espanhola. Infelizmente o acesso está barrado pelos proprietários das herdades, que vedam a entrada a toda pessoa estranha ao serviço. Daí que as fotografias só mostrem a fronteira ao longe. 

Mas para não desviar-nos da questão, a paisagem predominante é a de searas, vinhas e montados, com herdades espalhadas um pouco por todo o lado. Daí que a actividade agro-pecuária seja a dominante na localidade. As melhores terras costumam ficar restritas ao cereal e à videira, com especial destaque para o vinho da região designado como «Granja-Amareleja», com etiqueta de cortiça, que recomendo vivamente, se bem que não é um vinho barato ficando-se pelos 10-14 EUR dependendo do ano de colheita e se for reserva ou não. 

A localidade resulta muito amena, até porque o casario está especialmente bem conservado, espalhado harmonicamente em suave declive com a Igreja Matriz de S. Brás, de factura gótica, mas bastante reformado no século XVI e XVII, com algumas influências filipinas, com contrafortes nos laterais e uma porta de estilo classicizante com um escudo da Casa de Bragança situado abaixo de uma cruz da Ordem de Avis. Outro lugar muito agradável é a Igreja da Misericórdia, situada na Praça 25 de Abril, que outrora foi a sede do arquivo da localidade em que estavam sediados os tombos relacionados com a sua história e que terão desaparecido, infelizmente, na sequência das frequentes escaramuças fronteiriças na Guerra da Restauração. Do século XVI, destaca pela torre sineira ou Torre do Relógio, hoje centro de convívio. Para além destes monumentos, a aldeia presta-se ao passeio, à descoberta das típicas casas alentejanas, caiadas e absolutamente imaculadas de um branco alvíssimo, com especial destaque para um pormenor que a diferencia de outras no sentido de serem uma relíquia do passado: as chaminés alentejanas de tipo mourisco, redondas, por vezes com indicação da data em que foram construídas, que são especialmente frequentes e que representavam o estatuto social do proprietário. 

A sua história não nos é muito conhecida precisamente pela falta de documentos, tendo-se perdido estes. Pensa-se, no entanto, que aquando da Reconquista, os réis de Leão e Castela terão doado à Ordem do Hospital a chamada Granja do Hospital, fazendo parte do território do antigo reino de Leão, confirmado pelo Tratado de Badajoz de 1267 antes de passar à dominação portuguesa pelo Tratado de Alcanices de 1297 até hoje. A Guerra da Restauração causou muitos estragos na localidade, como já foi assinalado, mas isso não tirou nem um bocado a sua forte identidade cativante que ainda hoje possui. É como não podia ser de outra forma, nada melhor do que se misturar com a população local, nos cafés, ou simplesmente a passear. E para mais informações, nada melhor do que o excelente site relativo à localidade em que podemos encontrar até receitas de cozinha das especialidades locais e da região, para além de ampliar os nossos conhecimentos.


Foto 1. Uma herdade da Granja.
Foto 2. Paisagem de montado, com a fronteira da Ribeira de Alcarrache no fundo do vale e do outro lado o município de Villanueva del Fresno.
Foto 3. Vista de Villanueva del Fresno.
Foto 4. Paisagem de montado com destaque para o Grande Lago de Alqueva ao fundo (direcção de Mourão).
Foto 5. Vale fronteiriço na Ribeira de Alcarrache.
Foto 6. Ribeira de Godelim com a aldeia da Granja ao fundo.
Foto 7. O esplendor da primavera na Herdade da Ameada.
Foto 8. Entrada à aldeia da Granja.
Foto 9. Porta de entrada da Igreja Matriz.
Foto 10. Igreja Matriz de S. Brás.
Foto 11. Fonte situada na cabeceira da igreja.
Foto 12. Ruas da Granja.
Foto 13. Chaminé mourisca.
Foto 14. Chaminé alentejana de 1823.
Foto 15. Torre do Relógio.
Foto 16. Outras vistas da Torre do Relógio e de chaminés mouriscas.
Foto 17. Mais chaminés mouriscas e até com cata-ventos.
Foto 18. Uma verdadeira relíquia histórica: a insígnia antiga dos CTT em perfeito estado de conservação.
Foto 19. Igreja da Misericórdia.
Foto 20. Praça 25 de Abril.
Foto 21. Belos exemplos de casas bem conservadas. 
Foto 22. Ribeira de Godelim (cá Godolid), perto de Valencia del Mombuey, pouco antes de entrar em Portugal.


Mapa 1. Mapa de localização.

Mapa 2. Mapa específico.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fronteiras: A fronteira no Guadiana (Monsaraz/Ribeira de Cuncos)

Um dos lugares mais aprazíveis para passar o final da tarde nos arredores da vila de Monsaraz e poder contemplar as terras raianas é o ancoradouro ou embarcadouro de Monsaraz. Isto porque permite observar, mesmo que seja de modo panorâmico, espaços que de outra forma seriam impossíveis de serem apreciados pela sua dificuldade no acesso. O embarcadouro é acessível a partir da estrada N514 vindo, quer da aldeia do Telheiro, quer de Monsaraz. Na pequena aldeia do Ferragudo há uma indicação para o Convento da Orada numa rotunda. É essa a direcção que deve tomar-se para chegar até este ponto. Após passar algumas herdades, a beleza indescritível do Guadiana e do Grande Lago de Alqueva é uma realidade ao chegarmos a uma pequena área de lazer onde não falta o típico café, um parque infantil e o embarcadouro com as docas flutuantes para a chegada e amarre dos barcos que passeiam pelo rio.

O espaço fica exactamente no ponto de confluência da Ribeira de Azevel, na margem direita do Guadiana, e da Ribeira de Cuncos, na margem esquerda. A Ribeira de Cuncos, apesar de não passar de um riacho, tem especial relevância na delimitação da fronteira. O próprio rio serve de fronteira nos últimos quilómetros entre Portugal e Espanha antes de desaguar no Guadiana pela margem esquerda. A partir do ponto em que o riacho é totalmente espanhol, uma linha de fronteira quase recta parte a planície que separa o Alentejo da Extremadura espanhola até à fronteira de São Leonardo, que comunica a vila de Mourão com a vizinha extremenha de Villanueva del Fresno pela N256-1. 

Mas não só. A Ribeira de Cuncos foi designada como limite a partir do qual continuariam os trabalhos de delimitação da fronteira com o Tratado de Limites de 1927. Lembre-se o facto de que o Tratado de Limites de Lisboa de 1864 tinha dado lugar a uma série de trabalhos de delimitação da fronteira que ficaram interrompidos na foz do Caia, na confluência deste rio com o Guadiana a causa da disputa pelo território de Olivença. O não reconhecimento da soberania espanhola sobre este território fez com que do Caia até à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António não houvesse nenhuma delimitação aceite pelos dois estados. Para ultrapassar isto, ficou decidido que a Ribeira de Cuncos seria o ponto em que os trabalhos recomeçariam, facto que permitiu finalizar a delimitação da fronteira Sul. Restam ainda cem marcos fronteiriços correspondentes ao espaço entre a foz do Caia e este ponto, mas não é de esperar que essa situação se resolva em breve. Para complicar mais a situação, o acordo internacional referido às águas dos principais rios ibéricos, segundo foi assinado no Tratado de Águas de 1967, dá a Portugal a posse das águas de ambas as margens do Guadiana entre o Caia e a Ribeira de Cuncos, em vez de estar delimitado pelo ponto médio existente em cada rio como aconteceu com os outros rios como o Minho, o Douro ou o Tejo na sua parte internacional. Esta solução permitiu a Espanha chegar a um acordo sem reconhecer a reclamação portuguesa de Olivença e Portugal mostrou assim que também não renunciava a este território, o que não deixou, no entanto, de ocasionar alguns atritos, designadamente na Ponte da Ajuda ou os relacionados com a navegabilidade do Guadiana que serão oportunamente tratados em 'posts' posteriores.

De qualquer forma, fora de disputas políticas, o passeio vale mesmo a pena, pela paisagem envolvente e pela beleza intrínseca do lugar. Para além de Monsaraz, visita óbvia, vale a pena ver o Convento da Orada, um convento do século XVIII construído no lugar em que D. Nuno Álvares Pereira terá rezado antes de várias batalhas contra Castela, ou o Cromeleque de Xarez, único monumento transferido para outro local aquando da construção da barragem de Alqueva.  E para quem quiser, é possível dar passeios pelo Grande Lago em barco, quer em roteiros estabelecidos por empresas do lugar com duração de 1 ou 2 horas com possibilidade de almoço incluído, quer por intermédio do aluguer de embarcações para as quais não é preciso experiência nenhuma com uma duração de até 7 dias, no «resort» da Amieira Marina. Pena é, neste Inverno de 2012, a situação de seca extrema que temos vindo a padecer pela falta de chuvas nestes últimos dois meses e que está a afectar já à agricultura da região.


Foto 1. Foz da Ribeira de Cuncos vista do embarcadouro de Monsaraz. As linhas vermelhas indicam a fronteira delimitada.
Foto 2. Mesma foto que a foto 1, mas sem marcas.
Foto 3. Monte de Domingo Lopes (c. de Mourão), mesmo no limite fronteiriço.
Foto 4. Vista da planície e do Grande Lago de Alqueva entre os concelhos de Reguengos e Mourão. Advirtam-se os efeitos da seca.
 Foto 5. Vista do embarcadouro de Monsaraz ao pôr-do-sol.
Foto 6. Viaduto do Guadiana (N256) e Grande Lago vistos do embarcadouro de Monsaraz.
Foto 7. Área de lazer do embarcadouro.
Foto 8. Convento da Orada (vista da fachada).
Foto 9. Convento da Orada visto do cromeleque de Xarez.
Foto 10. Cromeleque de Xarez (vista geral). Mais informações aqui.



Mapa 1. Mapa de situação.

Mapa 2. Mapa específico.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Espaços fronteiriços: Grande Lago-Alqueva-II

Segunda parte...

Foto 1. Grande Lago visto de Monsaraz com as terras de Cheles e Villanueva del Fresno ao fundo.
Foto 2. Barragem de Alqueva vista de Monsaraz.
Foto 3. Barragem vista entre baluartes.
Foto 4. Terras de xisto no Grande Lago.
Foto 5. Estrada alagada pela barragem.
Foto 6. Ancoradouro de Monsaraz.
Foto 7. Pôr do sol no Grande Lago (Monsaraz).
Foto 8. Vista do Grande Lago na ponte da N 256 (Reguengos-Mourão), vista Norte.
Foto 9. Monsaraz visto da ponte.
Foto 10. Grande Lago. Vista Sul da ponte da N 256.
Foto 11. Nova Aldeia da Luz.
Foto 12. Albufeira vista do Museu da Luz.
Foto 13. Zona onde ficou submersa a velha aldeia da Luz.
Foto 14. Pôr do sol no Grande Lago com essas intensas cores do Alentejo.
Foto 15. Embarcadouro da Aldeia da Luz.


Ver Alqueva-III num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação das fotografias 1 a 10.


Ver Alqueva-IV num mapa maior

Mapa 2. Mapa de situação das fotografias 11 a 15.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mourão (São Leonardo)/Villanueva del Fresno

Para quem vem de Reguengos de Monsaraz, Monsaraz ou Mourão e pretende entrar em Espanha é possível que a sua melhor opção seja a fronteira de São Leonardo. De lá poderá se deslocar até localidades da Extremadura espanhola como Zafra, Mérida ou Badajoz.

Trata-se de uma fronteira secundária, mas muito utilizada para o trânsito local, dado que em Villanueva del Fresno, a 7 km. do limite fronteiriço, achamos as bombas de gasolina para meter lá o carburante no depósito do carro. A paisagem, como mostram as fotografias, seguem uma sequência natural de continuidade entre ambas duas regiões: o Alentejo e a Extremadura espanhola. O montado alentejano tem continuidade na dehesa extremenha, se bem que culturalmente são diferentes.

Outra curiosidade desta fronteira é o facto de constituir um dos primeiros lugares onde o limite fronteiriço é reconhecido. Vejamos. A fronteira luso-espanhola está delimitada pelo Tratado de Lisboa de 1864. Os trabalhos começaram pela foz do Minho mas quando chegaram até ao Caia foram interrompidos a causa do não reconhecimento de Portugal da soberania espanhola sobre Olivença. Um novo tratado, também assinado em Lisboa, em 1927, permitiu a continuidade dos trabalhos a sul das terras em disputa até à foz do Guadiana. Portanto, existem ainda cem marcos fronteiriços sem colocar abrangendo toda a zona em que o rio Guadiana faz fronteira entre Portugal e Espanha de facto, isto é, entre a foz do Caia, quando desagua no Guadiana até à Ribeira de Cuncos, pequeno riacho que fica no fundo do vale que pode ser observado na primeira das fotografias. O território reclamado por Portugal, no entanto, não abrange todo esse troço do Guadiana, mas sim uma pequena parte, correspondente às terras de Olivença, das quais vamos falar mais adiante em outro post.

Outra curiosidade histórica é o facto de ter sido assassinado em Villanueva del Fresno o general Humberto Delgado, desiludido com Salazar. O militar, que procurava reconciliar-se com ele após o fracasso da operação de assalto ao quartel de Beja em 1962, foi alvejado nesta fronteira por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco, quem o matou a tiro a ele e à sua secretária lá mesmo na fronteira, não pudendo assim regressar a Portugal.

A fronteira não oferece qualquer ponto de interesse, para além do facto fronteiriço. A salientar, como curiosidade, que o alcatroado da estrada regional EX-107 chega ate ao ponto onde a sinaléctica indica a entrada em Portugal, mas que fica aquém do marco fronteiriço, 'invadindo' assim uns metros de território português. Como se pode apreciar na segunda fotografia, o marco fronteiriço fica a uns escassos dois metros do indicador de entrada em Espanha, enquanto o alcatroado continua mesmo além desse limite. Mas tanto a antiga alfândega espanhola como portuguesa estão desertas, em estado de abandono, dando uma sensação de desleixo.

Realmente é pena o que acontece aos antiguos edifícios alfandegários. Como são património do Estado, não podem ser utilizados por privados. No entanto, seria bom dar-lhes algum tipo de utilidade. Acho que nas entradas principais poderiam situar-se postos de informação e turismo do país, facto que poderia gerar alguns postos de trabalho, já que é un facto que muitas pessoas quando chegam a um país estrangeiro não têm uma ideia fixa ou nem sequer sabem o que vão visitar nesse país por nao terem comprado um guia. Outros, mesmo com guia, não dispensariam algum tipo de conselho. É claro que isto não poderia ser implementado em todas as fronteiras porque isso ia depender do trânsito de viaturas existente, mas poderia ser, sim, uma solução para alguns edifícios. Outras alfândegas poderiam se constituir nas sedes de centros de cooperação transfronteiriça entre municípios de ambos os lados da fronteira. Essa poderia ser a solução para algumas fronteiras secundárias, já que normalmente as menos transitadas são, em geral, mais modernas e não têm alfândegas. Enfim, trata-se de dar algumas ideias para dar uma melhor imagem para o viajante que quer visitar qualquer país do espaço Schengen, incluíndo o nosso.

Foto 1. Planície nas redondezas na fronteira (parte espanhola).
Foto 2. Fronteira espanhola de Villanueva del Fresno (Extremadura).
Foto 3. Marco fronteiriço.
Foto 4. Fronteira e alfândega portuguesa de Mourão (São Leonardo).