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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Espaços fronteiriços: Grande Lago-Alqueva-I

Uma das grandes obras de engenharia da Europa foi a construção da barragem de Alqueva, que recebe esse nome da freguesia homónima do concelho de Portel, no Alentejo Central. A própria barragem encontra-se entre esta região e a do Baixo Alentejo, designadamente das terras de Moura. Foi uma obra muito polémica, cujo projecto iniciou-se em 1975, após o 25 de Abril, num intento de relançar a agricultura do Alentejo, mas sofreu várias interrupções até que os trabalhos foram reiniciados definitivamente em 1998, sendo que as comportas foram fechadas em 2002.

O enchimento da albufeira de Alqueva deu lugar à formação do chamado Grande Lago, que abrange os concelhos de Moura, Portel, Reguengos de Monsaraz, Mourão, Alandroal, Olivença, Cheles e Villanueva del Fresno. É, portanto, uma albufeira internacional, com uma parte espanhola e um comprimento de cerca de 100 km. Uma das actuações mais polémicas teve lugar com a construção da nova Aldeia da Luz, já que a velha Luz ficou submersa sobre as águas da barragem uma vez que ultrapassou a cota 143, sendo a cota máxima do coroamento da barragem de 154 m. Obviamente a albufeira está exposta a oscilações, mas normalmente fica entre a cota 148 e 150.

Isto faz de Alqueva o lago artificial mais extenso da Europa e uma óptima escolha para quem desejar praticar desportos náuticos. Há muitos lugares de interesse na região e vários empreendimentos turísticos que experimentarão um impulso notável com a inauguração ainda neste ano, do novo aeroporto de Beja que, pelos vistos, irá especializar-se em voos low cost, visando atrair clientes europeus que queiram ter uma segunda residência na região ou fazer uma simples viagem de fim-de-semana, para além de descongestionar os aeroportos de Lisboa e de Faro.

Seguem-se já uma selecção de fotografias da região. Como a lista é extensa, optei por reparti-las em três posts para facilitar a sua contemplação a pensar, bem naqueles que são da região e já conhecem, bem naqueles que não conhecem mas que gostariam de conhecer ou que podem tirar mais uma ideia para umas férias diferentes.

Passem e vejam!


Foto 1. Início do Grande Lago. O Guadiana entre Juromenha e Vila Real (Villarreal) de Olivença.
Foto 2. O Guadiana em Juromenha com as Terras de Olivença, além-Guadiana.
Foto 3. Noitinha no Guadiana. Juromenha vista do embarcadouro de Vila Real (Villarreal) de Olivença.
Foto 4. Cauda do Grande Lago em Juromenha (vista Sul).
Foto 5. Albufeira de Alqueva perto do Rosário (c. Alandroal) com a Serra da Lor (Olivença) ao fundo.
Foto 6. Albufeira de Alqueva vista perto do Rosário com as Terras de Olivença e do município de Cheles (Espanha) do outro lado do Guadiana.
Foto 7. Barragem de Alqueva no Rosário (Ribeira de Lucefecit).
Foto 8. Albufeira de Alqueva no Rosário (c. Alandroal). Vista geral.
Foto 9. Ribeira de Lucefecit no Rosário e terras espanholas de Cheles ao fundo.
Foto 10. Azenhas d'El Rei perto de Montejuntos e terras de Cheles (Espanha) do outro lado).
Foto 11. Azenhas d'El Rei. Outra vista.
Foto 12. Azenhas d'El Rei com as terras espanholas de Cheles ao fundo.
Mapa 1. Mapa geral de situação. Clique para ver num tamanho maior.



Ver Alqueva-I num mapa maior

Mapa 2. Mapa de situação das fotografias 1 a 4 (A orientação é sempre Norte-Sul).


Ver Alqueva-II num mapa maior

Mapa 3. Mapa de situação das fotografias 5 a 12.

domingo, 16 de novembro de 2008

Sem fronteiras... ou não?: O caso de Juromenha/Vila Real

Num lindo passeio pelas Terras de Olivença cheguei até a aldeia de Vila Real (Villarreal, em espanhol), uma pacata e aprazível aldeiazinha alentejana. Depois de passar um outeiro onde a aldeia fica ao lado esquerdo, a estrada continua até finalizar num pequeno embarcadouro no Guadiana, lugar do qual tomei algumas das fotografias que cá aparecem.

Não é a minha intenção falar em política. Este blogue é totalmente neutral, pelo que não tocarei no assunto da chamada "Questão de Olivença". Mas referirei alguns factos históricos e farei uma chamada de atenção para o facto de haver ou não haver fronteiras.

Vila Real é uma aldeia com menos de 100 habitantes que fica a uns 10 km. de Olivença e frente ao castelo de Juromenha. Como já referimos em outro post, o castelo de Juromenha chegou a ser muito importante, sendo que a própria povoação era a sede de um concelho. Hoje, com pouco mais de 100 habitantes também, é apenas uma freguesia do concelho de Alandroal. O território do concelho de Juromenha abrangia a aldeia de Juromenha, mas também a aldeia de Vila Real, que não pertencia a Olivença, mas à referida aldeia de Juromenha.

Com a Guerra das Laranjas de 1801 e anexação do território a Espanha, a aldeia ficou integrada no concelho ou município (ayuntamiento, em espanhol) de Olivença. E desde então assim foi. A aldeia fica situada num outeiro do qual vê-se a planície toda, incluíndo a aldeia de Juromenha e Olivença, uma planície muito fértil, viçosa, onde não faltam videiras e oliveiras, para além do clássico montado alentejano. Tem, além do mais, uma linda igrejinha, do tipo ermida, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, facto que mostra a pegada histórica portuguesa na povoação.

O casario é também típicamente alentejano e é, talvez, uma das aldeias oliventinas onde se conserva melhor, sem alterações, essa herança portuguesa. De facto, uma comparação de duas fotografias de duas aldeias, sendo que uma delas é Vila Real e a outra outra aldeia alentejana qualquer como Juromenha, Vila Boim ou Barbacena (estas últimas, ambas as duas, freguesias e aldeias pertencentes ao concelho de Elvas) faria com que não achássemos qualquer diferença, pelo que seria difícil saber que aldeia fica hoje sob a administração espanhola. Até porque o português continua a ser a língua mais falada na aldeia, para além, é claro, do espanhol.

As fronteiras físicas desapareceram felizmente com a entrada de Portugal e Espanha na União Europeia e a adesão dos dois estados ao Tratado de Schengen, que supus a desaparição dos controlos fronteiriços. Mas neste caso, a fronteira não desapareceu de todo. Continua a haver uma fronteira física entre as duas aldeias, Juromenha e Vila Real: o Rio Guadiana. Se antigamente o gado até podia passar nos tempos da seca pelo rio, hoje, com a construção da barragem de Alqueva é impossível. A única ligação possível é através de barco, numa travessia entre ambos os dois embarcadouros. A não ser, claro, que se queira ir de carro. Mas para isso é precisso dar uma grande volta: de Juromenha até Elvas, de Elvas até Olivença por meio da nova ponte da Ajuda e de Olivença até Vila Real. De embarcadouro a embarcadouro, que ficam a menos de 200 m em linha recta, 43 km., sem mais nem menos. É isso porque desde 2001 existe a nova ponte da Ajuda, porque de não ter sido assim, o percurso seria ainda mais longo, tendo que acrescentar mais uma voltinha até Badajoz.

A solução ideal era construir uma ponte, mas somos muito pessimistas à respeito. Se a nova ponte da Ajuda demorou tanto a ser construída (até 2001) e isso que ligava duas localidades como Elvas e Olivença, para servir a mais de 30.000 habitantes, é difícil pensar em uma ponte para tão poucas pessoas, uma vez que a necessária ponte entre Alcoutim e Sanlúcar de Guadiana (ver post relacionado) ainda não se construiu, ficando a fronteira de Vila Real de Santo António como a única ligação do Algarve para a Andaluzia. A ponte apresentaria mais dificuldade técnica do que a ponte da Ajuda, já que a barragem de Alqueva alagou parte daqueles terrenos, sendo que esta zona constitui a cauda do Grande Lago, o que faria que o seu comprimento fosse maior (200-300 m. ou talvez mais; não sou muito bom a calcular distâncias. He. He. He.). Para além de comunicar as duas aldeias, também abriria o trânsito para uma ligação directa de Évora com Olivença através do Redondo e do Alandroal, para além das localidades da Extremadura espanhola que ficam para além de Olivença. Mas como não há, é por isso que começei pela pergunta:

Sem fronteiras... ou não?

O que é que acham?

Foto 1. Pôr do sol no embarcadouro de Vila Real sobre o Guadiana com a silhueta de Juromenha.
Foto 2. Castelo de Juromenha visto do embarcadouro de Vila Real.
Foto 3. Vista da planície alentejana e do Guadiana do embarcadouro de Vila Real.
Foto 4. Anoitecer no Guadiana.
Foto 5. Embarcadouro de Vila Real.
Foto 6. Vista geral de Vila Real.
Foto 7. Casario alentejano em Vila Real.
Foto 8. Igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, Vila Real.

Mapa 1. Percurso rodoviário preciso para se deslocar de Juromenha até Vila Real.

Ver mapa maior

sábado, 11 de outubro de 2008

Fortalezas da Raia: Juromenha.

Com este primeiro post pretendo iniciar uma série histórica sobre fortalezas da Raia, já que a fronteira foi muito mais do que simplesmente uma linha ou um traço em uma terra qualquer.

No cimo de um outeiro com vistas ao rio Guadiana, ergue-se sobranceira, a fortaleza de Juromenha, situada na freguesia de Nossa Senhora do Loreto, no concelho de Alandroal. Juromenha é hoje uma pacata aldeia alentejana longe da "civilização", que conta com apenas cerca de 150 habitantes que se espalham pelo espaço extra muros circundante.

A História desta localidade perde-se na noite dos tempos. Há uma lenda que diz que um conde, nos tempos dos Godos, tinha uma irmã muito bela. O conde, cheio de desejos libidinosos, propus à irmã ter relações, coisa à que a tal se negou em rotundo aceder a tais proposições incestuosas. Muito irado, prendeu-a e meteu-a na cadeia para quebrar a vontade dela no que hoje é a actual localidade. A tal irmã tinha o nome de Menha. Quando o conde mandava seus criados ter com ela para ver se tinha mudado de parecer, ela dizia firmemente: "Jura Menha que não". E assim ficou o nome de Juromenha.

É claro que isto é apenas uma lenda, mas o fundo da História pode ser real. É muito provável que a região estivesse dominada por algum aristocrata hispano-romano como propietário dos latifúndios que, como todo o mundo sabe, são uma marca de identidade do Alentejo. Temos notícias de que Juromenha era chamada de Julumaniya sob a dominação muçulmana e que foi alvo de atenção das tropas de D. Afonso Henriques, nosso primeiro rei. Após a conquista de Évora em 1165 com a ajuda de Giraldo Sempavor, as tropas portuguesas ocuparam a vizinha Elvas e Juromenha em 1167. Foi então quando D. Afonso Henriques tentou o cerco de Badajoz em 1170. Prestes a tomar a alcáçova, apareceu nesse momento o rei de Leão, Fernando II, genro do nosso rei, que considerava a cidade, segundo o Tratado de Sahagún de 1158 assinado com o seu irmão Sancho III de Castela como parte do território à que tinha direito uma vez fossem expulsos os muçulmanos almóadas que eram, na altura, os verdadeiros donos da cidade. Isso obrigou nosso rei a fugir, retirando-se da cidade. Foi então quando ao passar pelas portas da cidade a cavalo, feriu-se numa coxa depois de se ter dado contra elas. Foi o seu genro quem chamou os melhores médicos para que curassem o seu sogro. Tal desfecho foi conhecido como Desastre de Badajoz.

Juromenha perdeu-se de novo em 1191 e não foi recuperada até 1241, quando Paio Peres Correia a reconquistou. O rei D. Dinis deu-lhe foral em 1312 e fortificou-a com um castelo assente nos actuais terrenos da fortaleza, rodeado de dezasseis torres rectangulares. Foram celebrados aqui os casamentos de D. Afonso IV com Beatriz de Castela e de Afonso XI de Castela com Dª Maria de Portugal.

A aldeia voltaria a ter muita importância histórica na época da Restauração, quando foi construida a fortaleza para evitar ataques dos espanhóis por Nicolau de Langres apartir de 1646. Depois de uma explosão no paiol da pólvora em 1659, Langres traiu Portugal e passou ao serviço de Espanha, ajudando às tropas espanholas à tomada da fortaleza que tinha construído em 1662, permanecendo na posse dos espanhóis até 1668 com a assinatura do Tratado de Lisboa que reconhecia a nossa independência. Uma nova ocupação espanhola decorreu entre 1801 e 1808 aquando da Guerra das Laranjas. O Tratado de Badajoz de 1801 vai supor a perda de Vila Real de Olivença para o concelho, já que esta aldeia, mesmo ficando no outro lado do Guadiana, fazia parte do concelho de Juromenha e não do de Olivença.

Juromenha entra então num declínio acentuado, sobre tudo depois do concelho ter sido extinto em 1836 e ser anexada como freguesia do concelho de Alandroal. A população abandona a fortaleza e começa a se instalar extra muros ao redor da ermida de Santo António, hoje centro vital da aldeia.

A fortaleza fica abandonada e, aos poucos, entra num processo de degradação que, infelizmente, chega até os nossos dias. Apesar de algumas chamadas de atenção e de alguns projectos que visariam transformar a fortaleza num estabelecimento turístico, nada se concretizou ainda. As fotografias são uma amostra do estado de abandono em que se encontra. No entanto, é indiscutível a beleza do lugar, nas margens do Guadiana, hoje mais crescido por chegar as aguas do Grande Lago formado pela barragem de Alqueva, cuja cauda chega até este lugar.

O conjunto é ideal para um passeio de meia tarde após um almoço, especialmente na primavera ou no outono, para não sofrer nas nossas carnes as rigorosidade do clima alentejano, especialmente nos quentes verões que assolam a região.

Foto 1. Portal de entrada à fortaleza.
Foto 2. Interior da fortaleza.
Foto 3. Vista de uma das 'ruas' da fortaleza. Repare-se no estado de abandono.
Foto 4. Baluartes da fortaleza.
Foto 5. Zona abaluartada e vista parcial da aldeia.
Foto 6. Vista do Guadiana (à norte) com as Terras de Olivença à direita.
Foto 7. Vista do rio Guadiana (cauda da barragem de Alqueva) e Terras de Olivença (à esquerda).