quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fronteiras: Alcobaça/Azoreira

Em primeiro lugar, fico empolgado por ver como a pouco e pouco este blogue consegue atrair a atenção das pessoas ao ponto de termos já oito amigos que o seguem regularmente. Nesse sentido é a hora de dar as boas-vindas para o «velho conselheiro» Zé de Mello, que me permite seguir as notícias da cidade onde moro e ao Ricardo Fernandes. Desejo-lhes tudo de bom para eles e que continuem a gostar do blogue, um blogue que começou como um divertimento e que continuo a fazer pelo mero prazer estético de plasmar em palavras as minhas vivências, sensações e conhecimentos. Sem pressas, sem obrigações...

Hoje vou-vos falar de uma fronteira muito pouco conhecida, na Serra do Leboreiro. Trata-se da fronteira entre uma aldeia portuguesa, Alcobaça, e uma galega, Azoraira, separadas pelo ribeiro do Trancoso, um riacho que se transforma num rio pequeno afluente do Minho e que desagua no ponto mais setentrional de Portugal. O território faz parte da região do Alto Minho, pertencente ao concelho de Melgaço, e da parte da Galiza às Terras de Celanova, ao concello de Padrenda, na província de Ourense.

O acesso, da parte portuguesa, faz-se pela estrada que vai de São Gregório, na freguesia de Cristóval até Castro Laboreiro, já no Parque Nacional da Peneda-Gerês. A subida faz-se entre pequenas aldeias e uma densa vegetação com uma floresta típica da região atlântica, baseada no carvalho e o castanheiro, misturado tudo com lameiros para pastagens de gado, designadamente vacum.

Ambas as aldeias apresentam o mesmo feitio: casas de pedra granítica bem preparadas para resistir a chuva, o vento e os longos e frios Invernos e um regresso ao mundo rural profundo: a boiada a pastar, carros de bois cheios de palha, velhas vestidas todas de preto com lenço na cabeça, flashes de uma vida que não se sabe bem o quanto conseguirá resistir neste mundo da globalização e da modernidade. Será compatível a Internet com este modo de vida? Até pode parecer contraditório, mas acreditem que eu acho... Modernidade e tradição não têm por quê estar renhidas. De resto, para além do tradicional marco fronteiriço, nada indica que mudamos de um país para outro. Talvez, apenas a igreja matriz de Alcobaça nos indique que estamos ainda em Portugal, visto que as igrejas galegas rumaram para um estilo diferente no século XVIII, copiando o modelo da fachada do Obradoiro de Santiago.

Sem dúvida, um passeio que resulta ideal para quem procura curiosidades enquanto se desloca até a bela localidade de Castro Laboreiro, da qual teremos o prazer de falar mais adiante, enquanto contemplamos as belas vistas sobre o vale do Trancoso, o vale do Minho, a Serra do Laboreiro e, em geral, da parte sul da Galiza.


Foto 1. Limite fronteiriço visto da parte galega.
Foto 2. Marco fronteiriço situado na parte galega.
Foto 3. Ponte fronteiriça vista da parte galega e marco fronteiriço na parte portuguesa.
Foto 4. Ribeiro do Trancoso, limite entre ambos os estados.
Foto 5. Igreja Matriz de Alcobaça e coreto vistos do limite fronteiriço.
Foto 6. Alcobaça vista da Azoreira.
Foto 7. Vista geral da Azoreira.
Foto 8. Vista geral do vale do Trancoso com indicação do limite fronteiriço.


Ver Fronteira Alcobaça/Azoreira num mapa maior

Mapa 1. Mapa de situação.

3 comentários:

  1. Bonitas fotos da iluminação das muralhas da cidade de Elvas no blogue Elvas Cidade Viva.
    Tenho cada surpresa boa...
    Eu vi em www.elvascidadeviva.blogspot.com

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  2. Muitos parabéns pelo formoso trabalho que é Fronteiras. Foi uma surpresa encontrar estas páginas, logo mesmo de voltar doutra visita a Alcobaça e Açoreira (Azureira na nomenclatura oficial), esta vez para mostrar à minha namorada a pontinha que as separa.

    Sou raiano também, mas da 'raia molhada', de Salvaterra do Minho (Condado do Tea, das outrora Terras de Turónio, antiga província de Tui -hoje província de Ponte Vedra), mas moro na Chã de Vide, nas Neves, a meio caminho entre Arvo e Salvaterra. Da outra beira está a Ponte do Mouro e desde a janela vejo (ou "miro" como dizemos nestas terras) a Cumeeira que quer ocultar a Peneda.

    Gostei muito do comentário do cabeçalho da página: «um pequeno contributo aos raianos em geral, como sociedades em movimento, abertas e longe de absurdas disputas políticas». Da minha família um pouco longe era o último barqueiro, também sempre em movimento, cujas únicas disputas eram com o barqueiro de Monção, com quem combinava uma vez no ano para se ajudarem a arranjar as barcas. Não estou certo se também tinham vínculos familiares distantes; a minha mãe disse uma vez que os apelidos se pronunciavam igual, mas escreviam-se diferente: Suárez/Soares. Ainda é um ponto que tenho de averiguar.

    A pesquisar informação da raia para escrever um artigo para uma revista modesta do Centro Galego de Maiorca (onde morei muitos anos; sou retornado, portanto), foi quando topei com Fronteiras e tenho de admitir que encontrei muito mais do que esperava. Neste ponto, queria pedir licença para reproduzir alguma imagem para ilustrar, se não for incomodo. Prometo citar as fontes.

    Agradeço muito ter chegado até aqui.

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  3. Olá Inácio!

    É com prazer que o recebo como amigo, ainda por cima da Galiza, terra que é tão querida desde Portugal e onde morei em miúdo durante um tempo, pelo que tenho gratas lembranças daqueles tempos em que fui muito feliz.

    De facto, faço questão de visitar alguma parte da Galiza pelo menos uma vez por ano e desfrutar das suas paisagens e gastronomia (o destaque vai para o polvo!), sendo que para mim, um dos lugares mais mágicos é precisamente o vale do Minho onde vejo essas ligações entre ambos os dois lados que podem ser perfeitamente um só, já que as diferenças não são assim tantas como muitas vezes querem-nos fazer crer. De facto, se lê a parte referida à fronteira de Peso/Arbo, uma das fotografias, no concelho de Arbo podia ser de qualquer aldeia portuguesa do outro lado.

    Gostei de ler acerca da sua história (ou estória). Cá em Elvas há muita gente que tem antepassados vindos das terras de Badajoz, mas agora perfeitamente integrados na sociedade local, histórias do contrabando, da guerra,...

    Quanto à permissão para usar fotografias minhas, sinta-se à vontade. Não vou ganhar dinheiro nenhum, por isso, desde que as pessoas sejam tão educadas como o senhor, não tenho nenhum problema em que se utilize material meu. Considero-o, de facto, uma honra pelo meu trabalho, ao ver que é apreciado.

    É não tenha dúvidas. Vou continuar a falar das minhas experiências raianas desde um ponto de vista absolutamente pessoal em que se admitem comentários à respeito.

    Já agora, admiro o seu belo e cultivado português que, afinal de contas, não é mais do que uma das ramas da nossa língua galaico-portuguesa que tanto nos aproxima à Galiza, mesmo deste longínquo e mediterrânico Alentejo.

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